Keblinger

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As horas roubadas

| segunda-feira, 18 de novembro de 2013


Eros herdara de seu avô um relógio de ouro preso numa correntinha banhada no mesmo material.
Este é um relógio mágico”, vovô tinha dito na ocasião, quando o menino tinha apenas doze anos, mas ele já não acreditava mais magia, embora devesse ter acreditado.

A primeira vez que o relógio manifestou seu poder foi quando Eros tinha dezoito anos, um jovem adulto impaciente e imediatista como qualquer outro de sua geração. Ele estava numa plataforma, esperando seu ônibus chegar. Olhou para os ponteiros preguiçosos do relógio, que sempre carregava no bolso, e suspirou irritado, ainda faltavam 25 minutos. Encarou o tempo nublado e percebeu que gotas esparsas se derramavam do céu, o clima refletindo seu humor naquele momento.
Apertou levemente o relógio dourado, fechando os olhos e desejando que os minutos se arrastassem até o instante em que seu ônibus chegasse e então pusesse fim em sua espera tediosa. E para sua surpresa absoluta foi exatamente isso que aconteceu.
O ônibus parou diante de si com um chiado alto, ele sobressaltou-se e olhou as horas, aqueles 25 minutos foram sugados para o lugar onde os minutos passados se vão e nunca voltam. Ainda com a testa franzida e um olhar mais do que confuso, ele entrou no veículo. Passou a viagem toda com os fones de ouvido, ouvindo suas músicas preferidas sem realmente escutá-las.
As palavras cansadas de seu avô, transportadas de um passado distante se arrastaram para o presente em sua memória e ele, como não podia deixar de ser, acreditou. Encarou o relógio que continuava engolindo silenciosamente os minutos, tão apático quanto o sorriso de Monalisa.
No dia seguinte, enquanto lutava com o tédio em uma aula chata da faculdade, ponderou se seria possível realizar novamente o feito do salto de tempo e não tão surpreso quanto da primeira vez, viu as horas saltarem, dois passos à frente dessa vez.
Assim, Eros nunca mais se sentiu entediado, sempre que precisava esperar por algo, segurava o relógio na palma da mão, pronunciava em pensamentos que o tempo deveria correr, e ele como um cãozinho extremamente bem adestrado o obedecia solícito.
Eros nunca soube, porém, que brincar de senhor do tempo teria sua consequências, assim como quase todas as outras coisas da vida, assim como quase todas as escolhas que fazemos. Ele nunca imaginou que o preço que pagaria seria alto demais.
Ele foi perdendo sua vida, pouco a pouco, ironicamente sua escolha de não viver lhe roubou todos os momentos que estavam guardados em suas esquinas da vida.

Aos vinte anos aos adiantar o tempo numa estação de metrô, perdeu a chance de conhecer o amor de sua vida, que pararia ao seu lado para perguntar as horas e então jogariam conversa fora enquanto esperavam pelo metrô. Ela então nunca teve a chance de encontrá-lo e seguiu adiante em busca de alguém que pudesse lhe informar as horas – e ele sempre com um relógio em mãos.
Quando completou vinte e cinco, morando sozinho em um apartamento pequeno, numa cidade grande, sem muitos amigos e em um emprego medíocre, ele continuou ordenando que o tempo corresse e ele sempre o fazia. Naquele fim de ano, perdeu a oportunidade de esbarrar em um empresário na praça de alimentação do shopping, quem o daria um ótimo cargo em sua empresa, cargo no qual ele obteria grande sucesso.
Aos trinta anos não viu sua filha nascer, porque há dez anos perdera o encontro com aquela que seria a mãe da garotinha. Jamais se tornou o pai de um belo menino aos trinta e três. Não escreveu sua teoria matemática aos trinta e cinco. Não foi ao casamento de seu melhor amigo aos trinta e seis, no qual teria sua segunda chance no amor.
Aos quarenta não foi diagnosticado com câncer.

Hoje Eros tem quarenta e quatro anos, vive praticamente dentro de um hospital lutando com uma doença que o acometeu quando ele estava ocupado demais correndo pelas horas para notar. Não possuía quem segurasse sua mão enquanto fazia o tratamento. Não tinha uma coleção de memórias em seu baú para remexer em seus dias nublados, dias nos quais se lembrava daquela tarde na plataforma, sentindo uma dor aguda em seu peito e os olhos ardendo em lágrimas.


O relógio fora atirado no fundo de um rio e todo o tempo que ele roubou de si mesmo agora se refletiam nas horas intermináveis em uma sala de espera branca e indiferente. Agora ele espera, mas pelo abraço escuro daquela que finalmente lhe furtará seu tempo restante.

Essa história me persegue há um certo tempo, venho deixando o próprio tempo me preparar para escrevê-la e por algum motivo foi hoje que isso aconteceu. Refleti bobamente sobre isso enquanto estava numa plataforma, assim como o personagem e desde então esperei o conto se derramar de mim. Espero que tenham gostado. Um abraço desse cara sumido e um obrigado por ainda tropeçar por essas bandas.
 

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