Keblinger

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Ponto de vista

| domingo, 19 de maio de 2013


Saí.
Botei nos pés aquelas botas que comprei no inverno passado, passei a mão rapidamente pela mesa e apanhei a chave do carro. Na outra mão carreguei a mala, leve feito minha alma. Lá fora o pôr-do-sol me banhou com feixes de luz que jorravam através das nuvens finas como fumaça de vapor de banho.
O horizonte me sorriu, exibindo sua faceta misteriosa por trás daquele sorriso de lado de quem sabe algo, mas não quer contar.

- Você é um peixe grande demais para este pequeno lago – alguém me disse certa vez – Há um rio de sonhos esperando por você.
Às vezes eu me sentia como aquele adolescente desajeitado que nunca consegue sentar-se à mesa popular do colégio, tão estranho e desajustado, incapaz de se encaixar, mas quando crescemos percebemos que esse clichê de filme de fim de tarde é apenas um capítulo patético que uns passam e outros não. Percebemos também que se encaixar nem sempre é a opção mais viável. Entendemos que tentar se afunilar numa vida cercada de futilidades é virar-se do avesso e negar a si mesmo diante do espelho.
Consegui nadar para longe daquela mesa e esta talvez tenha sido uma das melhores coisas que já fiz. Fui tolo a ponto de buscar exatamente aquilo que eu sabia que não me completava, pelo mero capricho de receber um olhar de aceitação. Bem, comecei a respirar águas mais límpidas quando percebi que o mar de possibilidades diante de mim é muito mais extenso do que meus olhos cansados podem ver. Foi nesse momento que entendi que minha vida não estava ali, que meu coração batia descompassado por desejo de mudanças, por anseio de novidade.

- Você não vai conseguir, a vida não é um livro de capa bonitinha que te encanta à primeira vista – outro alguém falou – Nada nunca vem fácil e você é igual a todo mundo.
Confesso que em meus instantes mórbidos e depressivos de solidão eu acreditei nessas palavras e senti meus sonhos escorrerem para fora de mim como o sangue flui por uma ferida aberta. Quem nunca teve um momento de introspecção negativo, no qual os defeitos são mais enaltecidos do que as qualidades? Momentos em que me senti frustrado por não ter me sentado àquela maldita mesa com aquelas pessoas de risos falsos.
Por outro lado essas mesmas palavras desencorajadoras surtiram o efeito contrário e despertaram uma vontade insana de provar que elas estavam erradas. Tudo é ponto de vista, tudo depende da maneira como se vê ou como se escolhe ver.

Aqui estou eu viajando por uma bela alameda com o vento outonal sacudindo as folhas das árvores e se esgueirando para dentro do carro para me fazer companhia. No rádio toca uma de minhas músicas preferidas e dentro do peito dança um coração satisfeito no mesmo ritmo. A grande beleza de uma viagem é esse não saber que nos cerca, é esse frio na barriga pelas surpresas que podem e vão surgir. Não tenho um destino definido, assim como ninguém tem. Não levo mapas, pois a sede de me perder me encontrará pelo caminho.
Quando perguntarem por mim, diga que estou nadando de encontro ao meu rio de sonhos e que sou sim igual a todo mundo, justamente por ser diferente.

Pauta para Bloínquês 

 

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