Keblinger

Keblinger

Le magicien

| domingo, 17 de março de 2013
(...) Se a vida parece esquecer
O que rimou ‘eu com você’...

- Se os truques fajutos da vida fossem magia de verdade eu poderia tê-la feito ficar – ele constatou enquanto observava as estrelas espalhadas pelo imenso céu noturno.



Há muito mais sob a lona do circo do que os olhos distraídos da plateia podem ver. Há planos concretizados e sonhos despedaçados. Há murmúrios desconsolados e suspiros cansados. E há romances fantasiados de encenação.
O mágico encantava a multidão com seus segredos enfiados na cartola e segredos escondidos no lado de dentro do paletó, assim como o secreto bater de seu coração que palpitava fortemente quando seus olhos se esbarravam na destemida contorcionista.

Ela fora uma das últimas integrantes a ingressar na trupe, com seu histórico de viajante que não permanece muito tempo no mesmo lugar. O mágico nunca havia sentido aquela sensação antes, a moça se enroscara em seus pensamentos tal qual se enroscava em si mesma e ele não conseguia impedir-se de pensar nela.
Ele não obtivera muito sucesso ao tentar conversar com ela e arrancar detalhes de sua vida, no entanto aquela aura de mistério que a envolvia o deixava cada vez mais instigado a desvendá-la. Com o tempo ele percebia que não conseguia ficar muito tempo longe da moça, era preciso estar com ela, falar com ela, escutar o som da voz e do riso dela que escapava raramente.
Tão cego pelos próprios truques, o mágico não compreendia muito bem que aquele palpitar diferente dentro do peito era causado por uma magia tão real que se podia até pegar. Ele estava amando.
O amor que lhe era novidade espreguiçava em seu coração como um bebê acordando após várias horas de sono, seus braços desdobrando-se e alongando-se, buscando por braços esticados que não estavam em sua direção. Tanto sentimento que borbulhava dentro dele não era capaz de causar na moça uma mínima onda de calor. A apatia dela feria seu sentir, embora ainda machucado ele não queria deixar de tê-la por perto. Estar com ela doía, mas doeria muito mais perder o pouco que tinha.

A plateia aplaudia extasiada conforme ela se dobrava em formas aparentemente impossíveis, os rostos se iluminavam ao redor do picadeiro, para se tornarem sombras de espanto quando o mágico aparecia. A passagem efêmera do circo pela vida das pessoas não era capaz de revelar os aspectos invisíveis nas apresentações. Os rostos pintados não eram conhecidos de verdade, as máscaras da realidade eram menos bonitas do que pareciam ser.
Tão sorrateira quanto viera, ela se foi. Sem despedidas, apenas carregando sua mala, a moça esgueirou-se para fora de cena e desapareceu na goela da noite. De sua tenda improvisada, sentindo o beijo morno do vento, o mágico a viu partir. Ele ouviu o som do próprio coração explodir em pedaços e não conseguiu levantar-se para impedi-la. Para pedir que ela ficasse, pois sem ela o picadeiro perdia a luz, o palhaço perdia a graça... a magia deixava de existir.

Pelo resto de sua vida ele a procurou em cada canto de cada cidade em que paravam, culpando-se furiosamente por não ter feito nada naquela noite, mas ele jamais voltou a colocar os olhos na moça outra vez. Jamais voltou a ouvir o som da voz dela. Jamais voltou a acreditar que pudesse haver magia no mundo e se não há magia na vida de um mágico, sua vida não tem sentido.

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