Keblinger

Keblinger

A(r)mado para desamar

| sábado, 17 de novembro de 2012


Às vezes um homem precisa cair para entender que nem sempre seus passos serão certeiros, ele precisa quebrar a cara para descobrir que é feito de carne e osso e que pode sangrar. Às vezes ele precisa ter o coração ferido para saber que amar dói.
Ele, em questão um rapaz apaixonado pela vida e seus confortos, descobriu que com o passar do tempo as coisas deixam de ser fáceis, práticas e então requer-se um pouco mais de deliberação e sensibilidade para que se possa compreender tudo ao redor.
Não sejamos todos hipócritas por julgá-lo como um tolo pretensioso por não ter entendido antes que as vontades do universo nem sempre serão compatíveis com as dele, quem de nós muitas vezes já não acendeu aquele desejo impetuoso dentro do peito e quis que tudo fosse exatamente à nossa maneira? Assim ele errou por acreditar que sempre estaria certo, assim erramos todos nós por agirmos como ele em certas ocasiões.
Bem, um rapaz tão cheio de si deveria saber decodificar a linguagem do coração e não parecer patético tentando ler as entrelinhas e falhando estupidamente. Mais uma vez, quem de nós nunca falhou nesse quesito? Talvez ele fosse um crônico sonhador que enxergava um mundo de possibilidades coloridas numa tela em branco; talvez ele fingisse entender a canção dos passarinhos pelo mero prazer de enganar a si mesmo dizendo que a simplicidade o tocava; talvez, até, ele sussurrasse aos quatro ventos em momentos de devaneio, seus sonhos mais profundos na esperança de que uma estrela pudesse ouvi-los.
Sim, concluímos que ele era um sonhador, mas que mal há em sonhar? O ruim mesmo é sentir aquele gosto amargo da decepção de não ter nada realizado, gosto esse que ele trazia agarrado em seu paladar.
Com seus sonhos despedaçados feito cacos de vidro espalhados pelo chão, ele tentou seguir em frente e tão impulsivamente se atirou nos braços do amor. É, pobre coitado, tão vulnerável e desprotegido saltando nas ondas da incerteza. Alguns de nós nos arriscamos, outros não. Alguns de nós saberemos o que é sentir, outros jamais chegarão perto de entender o mínimo significado do amor. Posso dizer que esse rapaz-dos-sonhos-diurnos se arriscou.
Arriscar, porém não é garantia de sucesso, que isso fique muito claro. Ele saltou naquele mar, mergulhou de cabeça e perdeu o fôlego ao ser tragado para o fundo, cada vez mais para o fundo, mas ondas vêm e vão e quando a maré baixou e ele viu-se sozinho estirado na beira da praia, ele veio a aprender uma nova lição. Amar não é só viver com os olhos brilhantes e enxergar corações nas nuvens, é também enfrentar as tempestades e descobrir que alguns estragos não se restauram sozinhos da noite para o dia. Amar leva tempo, deixar de amar tira tempo.
Assim, ele amadureceu, deixou sua roupagem verde para trás em alguma estrada esquecida do passado e atirou sobre a pele uma armadura reluzente, não esperando tornar-se o príncipe de ninguém, apenas para prevenir-se daquele sentimento que agita o peito e torna o imprudente confiável.
Sua armadura tão bem moldada ajustou-se perfeitamente em seu corpo conforme os dias se passavam, ele já não se via mais sem ela e qualquer brecha que pudesse haver o fazia sentir-se desnudado. Embora ele tenha tentado livrar-se de sua segunda-pele protetora não foi forte o bastante, então apenas recebeu o amor que lhe davam sem não poder dá-lo de volta.

E hoje ele sussurra tristemente no ouvido do vento: dos males que eu te causei, não te amar foi o maior de todos.

2 sorrisos compartilhados:

{ isabella barbosa } at: 18 de novembro de 2012 13:06 disse...

Amei o texto, adorei a metáfora que vocês fez com o mar. E o jogo de palavras que pode ser encontrado no texto. Parabéns, muito lindo mesmo!

{ Tati } at: 21 de novembro de 2012 20:25 disse...

"Dos males que eu te causei, não te amar foi o maior de todos" Fera Moço!


Já disse, digo e direi sempre: - Você é ótimo no que faz. Conto maravilhoso, digno de admiração e de nos deixar rendidos ante tanta beleza e sentimento.

Beijão Moço.

 

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