Keblinger

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Cuidado com o tempo, Alice

| domingo, 25 de novembro de 2012


Quando você vai perceber que o tempo não para só por que você está cansada, Alice?

Antes que você se pergunte, a resposta é não. O coelho jamais fez essa pergunta a Alice e Lewis Carroll que me desculpe pela ousadia de tal feito. Contudo, eu acho que a pergunta deveria ter sido feita. Há tantas Alices perdidas em seus minutos de descanso que quando tentam acompanhar o tempo que passou percebem que pode ser tarde de mais.
Aqui o relógio marca 00:45, é relativamente tarde para aqueles que acordam cedo e insignificantemente cedo para aqueles que podem desfrutar do aconchego da cama pelas horas tardias da manhã e eis que essa hora nada quer dizer, tão ínfima que já avançou um minuto enquanto eu divagava e escrevia esse período.
E o que isso tudo tem a ver com Alice, o coelho ou o País das Maravilhas? Ora, nada. Uma leitura linear, totalmente conectada e em sintonia em todas as suas partes é simples de ler, em contrapartida algo desconexo embaralha os pensamentos e arranca cartas surpreendentes que nem mesmo a Rainha de Copas poderia prever.
O que você prefere, Alice, perder-se numa linha reta ou encontrar-se em entrelinhas sinuosas? Sua resposta me mostraria que tipo de pessoa você é. Uma conformada nata sem grandes ambições e receosa de tomar riscos ou uma ávida curiosa pelas coisas que a vida pode oferecer. Vê como algo sem sentido pode ter toda coerência?
Falávamos do tempo, não é mesmo? Bem, aqueles minutos já avançaram ainda mais, não que eu esteja tentando provar que o tempo não cessa, estou apenas comentando. Instigando seu olhar para essa obviedade que pode passar despercebida.
Tente se lembrar de quando você se olhou no espelho e viu refletida uma garotinha inocente, onde essa mesma garotinha está agora? Por quantas mudanças ela passou até que o novo reflexo assumisse seu lugar? Tudo está ligado ao tempo, certo? Será que aquela garotinha gostaria de ter se tornado o que ela é agora?
Olhar para trás ajuda a compreender o presente e até a fazer algumas projeções. Não queira, porém, repetir certas coisas, há um mundo de possibilidades bem diante de seus olhos, a questão é saber quando olhar com perspicácia para enxergá-las.
Minha menina, Alice, seja você grande ou pequena para atravessar portas ou alcançar maçanetas, fique atenta ao relógio. Um dia aquelas rosas tão vermelhas desbotarão e nem mesmo seu perfume permanecerá, pois não há eternidade nesse mundo real.
Você já notou que aquele par de sapatos que antes lhe era grande agora passou a se encaixar perfeitamente? Questão de tempo. Quantos sonhos que pareciam impossíveis já não se tornaram reais? Deixe a pequenez de lado, cara Alice, um chapéu menor que sua cabeça não vai segurar, busque o que melhor se encaixa, ainda que ele pareça grande à primeira vista.
Um chá seria ótimo para adoçar a noite, não acha? Por que esse olhar confuso, você não imaginou que tudo isso aqui teria nexo, imaginou? Pobrezinha, o País das Maravilhas é um lugar muito confuso, mas em nada se compara com a gloriosa confusão daquilo que é de verdade.

Que hora o seu ponteiro marca nesse momento, minha querida? Você não acha que já é tempo de fazer aquela garotinha do espelho ter orgulho de você?

A(r)mado para desamar

| sábado, 17 de novembro de 2012


Às vezes um homem precisa cair para entender que nem sempre seus passos serão certeiros, ele precisa quebrar a cara para descobrir que é feito de carne e osso e que pode sangrar. Às vezes ele precisa ter o coração ferido para saber que amar dói.
Ele, em questão um rapaz apaixonado pela vida e seus confortos, descobriu que com o passar do tempo as coisas deixam de ser fáceis, práticas e então requer-se um pouco mais de deliberação e sensibilidade para que se possa compreender tudo ao redor.
Não sejamos todos hipócritas por julgá-lo como um tolo pretensioso por não ter entendido antes que as vontades do universo nem sempre serão compatíveis com as dele, quem de nós muitas vezes já não acendeu aquele desejo impetuoso dentro do peito e quis que tudo fosse exatamente à nossa maneira? Assim ele errou por acreditar que sempre estaria certo, assim erramos todos nós por agirmos como ele em certas ocasiões.
Bem, um rapaz tão cheio de si deveria saber decodificar a linguagem do coração e não parecer patético tentando ler as entrelinhas e falhando estupidamente. Mais uma vez, quem de nós nunca falhou nesse quesito? Talvez ele fosse um crônico sonhador que enxergava um mundo de possibilidades coloridas numa tela em branco; talvez ele fingisse entender a canção dos passarinhos pelo mero prazer de enganar a si mesmo dizendo que a simplicidade o tocava; talvez, até, ele sussurrasse aos quatro ventos em momentos de devaneio, seus sonhos mais profundos na esperança de que uma estrela pudesse ouvi-los.
Sim, concluímos que ele era um sonhador, mas que mal há em sonhar? O ruim mesmo é sentir aquele gosto amargo da decepção de não ter nada realizado, gosto esse que ele trazia agarrado em seu paladar.
Com seus sonhos despedaçados feito cacos de vidro espalhados pelo chão, ele tentou seguir em frente e tão impulsivamente se atirou nos braços do amor. É, pobre coitado, tão vulnerável e desprotegido saltando nas ondas da incerteza. Alguns de nós nos arriscamos, outros não. Alguns de nós saberemos o que é sentir, outros jamais chegarão perto de entender o mínimo significado do amor. Posso dizer que esse rapaz-dos-sonhos-diurnos se arriscou.
Arriscar, porém não é garantia de sucesso, que isso fique muito claro. Ele saltou naquele mar, mergulhou de cabeça e perdeu o fôlego ao ser tragado para o fundo, cada vez mais para o fundo, mas ondas vêm e vão e quando a maré baixou e ele viu-se sozinho estirado na beira da praia, ele veio a aprender uma nova lição. Amar não é só viver com os olhos brilhantes e enxergar corações nas nuvens, é também enfrentar as tempestades e descobrir que alguns estragos não se restauram sozinhos da noite para o dia. Amar leva tempo, deixar de amar tira tempo.
Assim, ele amadureceu, deixou sua roupagem verde para trás em alguma estrada esquecida do passado e atirou sobre a pele uma armadura reluzente, não esperando tornar-se o príncipe de ninguém, apenas para prevenir-se daquele sentimento que agita o peito e torna o imprudente confiável.
Sua armadura tão bem moldada ajustou-se perfeitamente em seu corpo conforme os dias se passavam, ele já não se via mais sem ela e qualquer brecha que pudesse haver o fazia sentir-se desnudado. Embora ele tenha tentado livrar-se de sua segunda-pele protetora não foi forte o bastante, então apenas recebeu o amor que lhe davam sem não poder dá-lo de volta.

E hoje ele sussurra tristemente no ouvido do vento: dos males que eu te causei, não te amar foi o maior de todos.
 

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