Keblinger

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Daquilo que alimenta o viver

| quinta-feira, 9 de agosto de 2012


Sabe quando você abre aquela porta secreta que esteve trancada o tempo todo dentro de você mesmo e percebe que já não pode mais deixá-la trancada? Eu estou assim. Escancarei a porta dos meus sonhos e eles fluíram um a um e sacudiram-se exuberantes diante de mim, tantos dos mais variados tamanhos, cores e formas. Tantos que eu nem imaginava que pudessem caber naquele quarto tão pequeno. Vê-los soltos e travessos daquela forma fez brotar uma lágrima de tristeza em meus olhos, que se seguiu por outras lágrimas sem nome algum. Lágrimas de não sei. Lágrimas de não pergunte.
Então de repente você passa a entender que não sabe qual o seu lugar nesse mundo e a se perguntar por que afinal você está passando por essa vida. A vida é essa coisa de débitos intermináveis que começam a somar-se em sua conta desde quando você nasce. Não quero dever, quero ser livre. Livre para decidir mais que meus próprios caminhos, livre para decidir o quando. Viver acorrentado a qualquer tipo de coisa que te segura para trás não é viver, é coexistir dentro de si mesmo e ver as cores de seu tempo desvanecer. Não há nada mais triste que assistir seus sonhos se tornarem preto e branco até desaparecem num borrão de cor indefinível, por que então libertá-los? Não seria melhor que eles ficassem atrás daquela porta com a placa “utopia” pregada em letras garrafais?
Porque sonhar às vezes machuca. Sonhar dói quando seu sonho é incompreendido ou quando te dizem que ele talvez seja errado, mas não. Eu não estou errado por querer que minha vida seja mais que um roteiro mal escrito, que ela seja mais. Apenas mais.
E você percebe também que há dentro de si aquela chama que esteve sempre esperando por um sopro para inflar-se e abraçar tudo com seu calor flamejante, dando-lhe forças para não apenas seguir em frente, mas para querer seguir. Um desejo ardente irrompe em seu peito e você sabe que desistir nunca foi uma opção e os lábios se curvam como que por si só para formar um sorriso de canto por saber que ainda que tudo pareça injusto ao redor, ainda há pelo o que lutar. Ainda existem aqueles sonhos de aquarela que esperam por ti.
A esperança nada mais é do que a fé vestindo letras diferentes e ela prega que não é tolice acreditar em seu significado, que é preciso possui-la dentro dos bolsos e, vez ou outra, apertá-la entre os dedos para que sua essência escorra e possa ser notada. Há que ter essa fé cega em si próprio, em algo com sentido ou até mesmo naquilo irreal. Há que ter aquele refúgio particular onde você pode se encolher e se tornar tão pequeno somente para libertar-se do mundo.
Que você possa aprender assim como eu que os sonhos não permitem o talvez. Diga “eu vou fazer” e então faça. E não se esqueça daquela esperança aparentemente boba, ela pode ser tudo o que você tem quando você achar que não tem nada.

E sonhe. Sonhe que você é capaz de saltar daquele penhasco mortal e se atire. 

A história de Alistair Chevalier

| terça-feira, 7 de agosto de 2012
Galera, recentemente terminei de escrever meu livro, "O Senhor das Sombras - A história de Alistair Chevalier", o livro não conta apenas a história de um vampiro, mas sim de um homem que duela consigo mesmo para descobrir qual seu lugar e papel nesse mundo e sua trajetória de vida e morte cheia de reviravoltas. Estou disponibilizando o primeiro capítulo para apreciação de vocês, espero que gostem. Abraços.

CAPÍTULO 1 – A PRIMEIRA VIDA DO FILHO BASTARDO

PARIS – 1835-55

Pierre Gustave Chevalier de Riviere ou Marquês de Riviere como era conhecido, herdara esse título do pai que por sua vez herdara do seu avô e essa herança já vinha sendo passada de geração para geração há muito tempo. O marquês Pierre em sua juventude imprudente e despudorada se deitara com muitas mulheres, até mesmo depois de seu primeiro casamento.
Sua primeira esposa, cujo nome já fora há muito esquecido, era estéril e por não lhe ter concebido filho algum, alimentou sua frustração e desculpas para suas fornicações não conjugais.
Uma de suas amantes lhe agraciou com um filho homem no primeiro mês do outono, o bebê nascera numa casa horrenda e imunda nos subúrbios da cidade, a mulher morreu logo após o parto, mas a avidez do marquês por um filho o fez levar a criança para dentro de sua mansão. A vinda da criança trouxe apenas discórdia, sua mulher entendeu aquilo como uma afronta e humilhação e dizem que o motivo de sua morte se deve à decepção por ter de conviver com a cria de uma amante do marido.
O filho bastardo recebeu o nome de Alistair e o sobrenome Chevalier e cresceu aos cuidados de babás inescrupulosas, o pai raramente tinha tempo para ele, que se tornou uma criança fechada e solitária.
A mansão do Marquês de Riviere era localizada no 7º arrondissement de Paris, diferente da maioria das mansões, que se encontravam no Ilê Saint-Louis. A casa erguida no mais conservador estilo neoclássico possuía influências renascentistas em sua arquitetura ostentosa e deslumbrante. A fachada exibia pórticos colunados e um frontão triangular que remetiam ao estilo greco-romano. O tom pastel das paredes destacava a mansão no meio dos imensos jardins, que se tornaram o refúgio do menino calado que se escondia atrás dos abetos e brincava com alguém que ninguém mais podia ver.

Quando Alistair completou 4 anos, seu pai lhe apresentou uma mulher dizendo que aquela seria sua nova mãe, mas a mulher passou a odiá-lo fervorosamente e o maltratava pelas costas do marquês.
Pierre se casou com Alicia Garret, que logo lhe deu uma filha. A menina Justine rapidamente se tornou o centro das atenções da casa, todas as visitas recebidas eram para vê-la, todos os presentes que cruzaram as enormes portas de entrada eram para ela. A garotinha de olhos cor do mar. E com isso Alistair recebia apenas olhares desdenhosos de sua madrasta e se arrastava pelos cantos da casa, à sombra da nova atração. Certa vez ele entrou no quarto da irmã quando todos os adultos não estavam por perto e observou a pequena criatura, que tomara seu lugar, dormindo no berço, um sono profundo e silencioso. Seus olhos de criança, inocentes para o mal, se vestiram de ódio e ele tentou sufocá-la.
Com um grito agudo seguido de um choro incontrolável, a garota atraiu as babás e seus pais para o quarto. Alicia entrou no cômodo, empurrou Alistair que caiu no chão e agarrou a filha nos braços, a menina encarava o irmão por cima do ombro da mãe e exibia um olhar ardiloso de quem nunca se esqueceria daquele momento. Sem dúvida alguma, o garoto foi punido pelo incidente e acatou calado ao seu castigo de ficar trancado no quarto por uma semana.
À medida que crescia, Justine se desenvolvia como uma menina feia e com dentes tortos, enquanto Alistair possuía uma beleza natural que era logo percebida, mas isso fez crescer ainda mais o ódio de sua madrasta e o desprezo que ela tinha por ele.
O marquês era um pai ocupado e todo seu tempo disponível para os filhos era passado com a garota mimada que era a grande felicidade da mãe.
Quando Justine aprendeu a falar e mentir, começou a inventar histórias que causavam punição ao irmão, ela quebrava objetos da casa e atirava a culpa nele e todas essas coisas que causavam orgulho em sua mãe dissimulada, mantinham o pai afastado dele.

Alistair se tornou um adolescente rebelde e sem amigos, ele costumava vagar pela cidade à noite. Sozinho, ele atravessava a Pont de la Concorde, deixando o 1º arrondissement e ia na direção do 10º, onde se sentava no Quai d’Orsay, um dos vários cais do Sena, e assistia o fluxo tranquilo do rio que contrastava com seu humor inconstante. Ele se sentia ferido e abandonado. A rejeição do pai era dolorosa, mas essa dor alimentava raiva e não tristeza. Depois do passeio noturno ele retornava a mansão, cruzando a extensa alameda escura e flanqueada pelos abetos imponentes.
Toda manhã Alistair e a irmã tomavam aulas particulares com professores diferentes. Eles aprendiam história, matemática, literatura, filosofia, religião e inglês. O garoto, além da beleza, fora dotado de uma facilidade de aprendizado impressionante, por isso nunca teve dificuldade para aprender as lições que lhe eram passadas, a irmã, por outro lado, detestava números, se entediava com a história, abominava as doutrinas filosóficas e religiosas e se perdia nas conjugações e vocabulários da língua inglesa.
Justine adorava moda, ela se vestia como suas bonecas de porcelana e quando atingiu a adolescência e passou a cuidar mais de si mesma, começou a se tornar uma garota mais bonita. Alistair, contudo, nunca teve ciúmes da irmã ou se importou com o que os rapazes de sua idade diziam a respeito dela. Ela era, e sempre seria, estúpida e fútil, sempre tentando de tudo para infernizar sua vida, que nunca fora boa, nem mesmo antes de seu nascimento.
Quando deixou a adolescência, Alistair recusou-se a seguir os passos do pai, ele não queria se tornar um marquês, ele queria ser poeta. Seus poemas sombrios e realistas estavam escondidos entre as páginas de um caderno debaixo de sua cama, nenhum outro par de olhos além dos seus jamais os leu e nem nunca os leria. Alistair ainda não sabia, mas aquele sonho poético e feito de rimas e métricas seria arrancado dele junto com sua vida.

Ele descobriu o que era estar apaixonado quando tinha 20 anos de idade, ele era o jovem encantador no baile de máscaras dado pelo pai no aniversário da irmã e ela, por acaso, era uma jovem futura condessa, filha de um amigo influente do marquês. Os dois haviam se topado pela primeira vez há cerca de dois anos, em outra festa promovida pela alta sociedade, mas naquela ocasião houve apenas trocas de olhares e poucas palavras secas.
No baile, Alistair notou assim que a moça chegou, ela usava um vestido creme de musseline, volumoso e elegante, com mangas compridas, ombros caídos, decote rebaixado e usava uma corrente de prata polida com um pingente. Certamente causaria inveja em Justine. Ela segurava uma máscara branca no rosto, com cristais e plumas brancas que se sacudiam para cima e para baixo conforme ela se movia.
– Amelie – ele chamou o nome dela assim que se encontraram diante da mesa de charcuteries. Ele segurava uma taça com vinho de Bordeaux e usava uma máscara preta.
Amelie tinha a mesma idade de Alistair. Era uma jovem esguia de pele alva e cabelos acobreados em cachos que estavam presos na parte de trás da cabeça. Ela tinha os lábios cheios e delineados pela maquiagem e seus olhos castanho-esverdeados sustentavam um olhar inteligente.
– Olá, Alistair – ela atirou um sorriso perfeito, a máscara apenas cobria seu nariz e os seus olhos.
Ele nunca soubera, de fato, como tratar uma donzela. Suas palavras eram suaves de mais ou rudes em excesso, mas com Amelie era diferente, depois do primeiro contato não tão agradável, eles conversavam em todas as oportunidades que tinham.
– Como vai a família? – ele perguntou cordialmente.
– Eu queria que você estivesse mais interessado em saber como eu estou – ela virou o rosto, fingindo estar ofendida.
– É claro que estou interessado, minha doce Amelie, eu...
– Adoro quando você me chama assim.
– De doce? – ele perguntou contendo um riso.
– Não, de minha – ela corrigiu, ruborizada.
Alistair deixou a taça na mesa e, lenta e sorrateiramente, os dois deixaram o salão e se dirigiram ao jardim iluminado por várias luminárias. Em um canto mais remoto, sentaram-se em um banco de madeira e passaram vários minutos apenas se encarando, como se tentassem adivinhar o pensamento um do outro.
– Papai vai dar uma festa em meu aniversário dentro de um mês, você vai? – ela finalmente quebrou o silêncio.
– Isto é um convite?
– Seria mais como uma ordem, mas vou deixá-lo livre para se decidir...
– Eu irei – ele a interrompeu. – Eu gosto de sua companhia, Amelie.
– Então por que esta é a primeira vez que me toma só para si? Lembro-me de que sempre conversamos com todos ao redor.
– Talvez porque esta seja a primeira vez que eu tenha vontade de fazer isso – ele arrancou a máscara do rosto, atirou-a no gramado e se debruçou sobre o banco, segurou Amelie cuidadosamente pelos cabelos presos na nuca e a beijou. Seu coração pulava de tanta ansiedade e insegurança, ele temia que ela recuasse os lábios e lhe privasse daquela sensação maravilhosa, mas ela permaneceu. Ela se deixou mergulhar em sua boca e ambos se renderam ao calor do momento. A máscara dela tombou de sua mão.
Ela se soltou de seu beijo arfante e olhando-o nos olhos, perguntou:
– O que estamos fazendo? O que isso significa para você?
Alistair não era um grande entendedor de beijos, mas ele sentia algo por Amelie, ele se sentia até mais feliz e esquecia-se dos problemas quando ela estava por perto.
– Eu acho que eu gosto de você – ele respondeu depois de um minuto tenso de silêncio.
Ela desviou o olhar e encarou a grama escura. Alistair levantou o queixo dela e não entendeu aquele olhar preocupado que ela ostentava.
– O que você sente por mim? – ele quis saber.
– Eu estou confusa, Alistair, eu penso em você. Eu fiquei feliz quando papai me disse sobre o baile, pois eu o veria.
– Estou confuso também, Amelie. Não sei muito bem o que é isso que estou sentindo, pois nunca senti isso antes. É como se meu coração dobrasse de tamanho dentro do peito quando você se aproxima.
Ela sorriu e sentiu a pele enrubescer novamente, as sardas esparsas em seu rosto lhe davam um ar de graça.
– Você me deixa sem palavras, às vezes, sabia?
– Isto é bom ou ruim?
– É diferente, mas eu gosto. Eu também gosto de você, Alistair – e então os dois se beijaram outra vez, desmanchando o sorriso de alegria que começava a se formar no rosto dele.
Os dois permaneceram lá fora até quando o ar começou a se tornar mais gelado para uma noite de verão, o vento frio arrepiava a pele do casal no banco todas as vezes que alisava sua superfície, então recolheram suas máscaras do gramado e decidiram entrar. Depois disso a festa durou pouco, as famílias começaram a se despedir e a deixar a mansão e logo veio o adeus dos dois.
– Vejo você em breve – ele prometeu e soprou um beijo.

Em seu quarto, deitado em sua cama, com um sorriso bobo pregado no rosto, Alistair bailava com a pena sobre o papel do caderno, derramando versos apaixonados e floridos pelas linhas. Ao fechar os olhos, lhe vinham as memórias recentes dos dois sentados ali no jardim e com isso ele a sentia por perto.
Afundado em devaneios coloridos, ele adormeceu.
Na manhã seguinte, na mesa do café da manhã, o pai ergueu o olhar para o filho e disse:
– Não pude deixar de notar que você está interessado na filha de Monsieur Monier...
– Mas é evidente que a jovem Amelie tem diversos pretendentes, não se iluda, Alistair – Alicia disse interrompendo o marido. – Como está o pão, querido? Pedi que a criada comprasse em outro lugar hoje, os pães do velho Grimaud estavam horríveis ultimamente.
– Está muito bom, meu bem – ele respondeu e mais uma vez voltou-se ao filho. – Uma união entre nossa família e a do Conde de Leroux seria muito vantajosa, meu filho, especialmente agora que procuro uma sociedade para ingressar no setor industrial...
– Ora, Pierre, você acha mesmo que a moça se interessaria por Alistair? – a madrasta disse o nome dele como se fosse lixo.
– Ela me pareceu bastante interessada ontem, querida, você não notou? – o marquês rebateu. Alistair abafou um sorriso com um gole de leite.
– Onde vocês foram quando saíram, Alistair? – perguntou Justine desinteressada enquanto esmigalhava um pão.
– Nós fomos dar um passeio no jardim, mesmo que isso não seja do seu interesse. Você não tinha nada de mais importante para fazer ontem em vez de ficar me espionando?
– Eu não estava espionando, eu só...
– Ah, você estava admirando o lindo vestido de Amelie, não é mesmo? – ele indagou, satisfeito em começar uma discussão, mas antes que a irmã respondesse o pai tornou a falar:
– Já chega, vocês dois. Como eu ia dizendo meu filho, eu vejo esse relacionamento de vocês como um bom investimento...
– Eu não faço parte dos seus negócios, pai e não vai ser agora que vou começar. Eu me interesso sim, por Amelie e ela por mim – ele olhou de relance para a madrasta. – Estou pensando em pedir a mão dela para o conde.
– Bem, seja como for, você tem o meu apoio – disse o marquês friamente, como se aquilo se tratasse de uma coisa trivial.
Alistair apanhou um pedaço de brioche e deixou a mesa, ainda em tempo de ouvir a irmã fazendo algum comentário infeliz sobre o vestido de Amelie.
Lá fora, caminhando pelo jardim, ele se dirigiu ao pequeno lago dentro da propriedade e alimentou os poucos patos que nadavam na superfície lisa da água. Um dos cavalos do pai trotava livremente pelo gramado na direção do estábulo da propriedade.
Ele desejou ter algum amigo para poder compartilhar aquilo que acontecera na noite anterior, mas a maioria dos jovens de sua idade que ele conhecia eram filhos de aristocratas e se interessavam somente por negócios.
O dia discorreu de forma tranquila, Alistair só ocupava os pensamentos com Amelie e seu deu conta de que antes de vê-la, constantemente pensava nela.
Ao fim do dia, ele pediu que o levassem até a mansão do conde, que ficava há poucos quilômetros dali.
Jacques Louis Leroux Monier possuía uma propriedade gigantesca no 12º arrondissement, a mansão era ladeada por carvalhos de folhas vermelhas, motivo pelo qual ele era chamado de Conde de Leroux por muitos. A suntuosa casa construída no estilo renascentista emanava e respirava ostentação. Ele era casado com a condessa Hélène, uma beata fervorosa muito reservada e com fama de ser ríspida com aqueles a quem julga ser pecadores.
Alistair caminhou pelo jardim, passou por um caramanchão de madeira abraçado por trepadeiras e circundado por tulipas amarelas e dirigiu-se até a porta de entrada.
Quando foi recebido pelo pai de Amelie, com uma reação de surpresa, ele sentiu-se um pouco intimidado. O conde era conhecido por ser um empresário formidável e de índole muito boa, esse pensamento o acalmou.
Jeune Alistair, mas que surpresa agradável. Seu pai lhe mandou até aqui para checar alguma coisa sobre nossa conversa de ontem, eu imagino – Jacques falou e fez sinal para que Alistair entrasse.
Amelie e a mãe adentraram ao cômodo e também aparentaram surpresa ao vê-lo ali.
– Você já conhece minha esposa, Hélène e minha filha, Amelie, eu presumo.
– Sim, Monsieur Monier. Olá, Madame Monier, Amelie.
Amelie acenou com a cabeça, ainda confusa, sua mãe crispou os lábios e permaneceu imóvel.
– Podemos discutir esse assunto em particular na sala de reuniões, sim?
– Eu não vim a pedido de meu pai – Alistair logo falou e o conde parou abruptamente, o encarando, seus olhos pareciam perguntar o real motivo.
– Qual a intenção de sua visita, Alistair? – ele perguntou interessado.
Alistair encarou o chão acarpetado, tomou fôlego umas duas vezes e respondeu rapidamente.
– É a sua filha, conde, eu tenho a intenção de namorá-la.
A expressão do conde alterou-se completamente, ele ficou lívido por um segundo e depois seus olhos explodiram num vermelho intenso. O rosto da condessa se contorceu numa expressão horrorizada e ela deu passos firmes até o lado do marido.
– O senhor está bem?
– É claro que ele não está bem... Monsieur Chevalier – a condessa tentou em vão esconder seu descontentamento.
– Isso nunca vai acontecer – falou o conde severamente.
Amelie encarou o pai, como se implorasse que ele mudasse de ideia.
Excuse, seigneur, mas eu não sou qualquer um que vem até aqui, eu realmente gosto de Amelie – Alistair insistiu.
– Saia já da minha propriedade – ordenou o conde.
– Não vou sair até o senhor me dar uma resposta coerente – Alistair disse resoluto, surpreso com a própria atitude.
– Você quer uma resposta coerente? A minha filha jamais vai se envolver com alguém que é fruto de um pecado.
– Isso seria uma ofensa ao nosso Senhor – a condessa argumentou impaciente.
Alistair sabia que as pessoas comentavam sobre as traições do pai e a origem desconhecida de sua mãe e de seu nascimento. A reputação de sua família sempre fora manchada por isso e pelas costas, as pessoas falavam sobre o filho bastardo do marquês, que decidira se tornar um vagabundo a se juntar aos negócios do pai.
– Isso não é justo...
– Não fale de justiça na minha casa, garoto, sob o meu teto eu decido o que é justo e o que não é. Agora vá embora. Isso é um ultraje, a minha filha com...
– Papai, você não quer ouvir o que eu tenho a dizer? – Hélène saltou apressadamente até a filha e apertou seu braço para que ela se calasse.
– O que você poderia ter a dizer? – o conde questionou e fez um gesto de desprezo – Você não toma nenhuma decisão aqui, mocinha, agora suba para o seu quarto e não saia de lá até que eu mande – Amelie lançou um olhar suplicante à mãe que meneou a cabeça em concordância à decisão do marido e depois a Alistair, por fim encarou os olhos irados do pai e subiu correndo as escadas, com lágrimas nos olhos.
Alistair saiu da casa e desceu os degraus da escada da frente.
– E diga para o seu pai que a minha resposta é não – o conde falou lá de cima e bateu a porta atrás de si.
Alistair observou a madeira escura da porta lhe indicando que ele não era bem-vindo ali e deixou a mansão.
De volta à sua casa, ele trancou-se em seu quarto, apanhou o caderno debaixo da cama e pôs-se a escrever. A escrita o acalmava, desse modo ele exorcizava os demônios que o tomavam e atirava-os no papel, compondo versos obscuros e rimando sua realidade infeliz com seus pensamentos desprovidos de esperança. Ele passou o resto do dia lá, recusou-se a almoçar e comeu alguma coisa leve no fim da tarde, depois disso adormeceu.
Alistair raramente percorria terras oníricas e das poucas vezes em que isso aconteceu, ele apenas vagou por estradas escuras de pesadelos. Desta vez, ele se via no jardim de sua própria casa, correndo desesperado, fugindo de uma sombra sem corpo que esticava os dedos pontiagudos para alcançá-lo, os cavalos também fugiam da sombra e relinchavam assustados. Ele podia sentir o ar sendo retirado de seu corpo, as baforadas arfantes lhe enfraqueciam. A sombra se aproximava. Aquele vulto o assombrava como um vislumbre do futuro. E de repente tudo entrou em foco e ele se pegou sentado na cama, em meio ao emaranhado de lençóis e sem fôlego, como se realmente estivesse fugindo de algo.
Ele analisou o quarto que era banhado pela luz da lua que escorregava para dentro através da porta da sacada e penetrava as cortinas diáfanas. Todos os pesadelos lhe traziam as piores memórias à tona, como se abrissem um baú maldito de tristeza, dor e resignação. Ele retornava à triste infância solitária, às punições injustas impostas pela madrasta, ao desapego do pai, à rebeldia na adolescência e aos dias mais recentes de pouca alegria.
Ele se perguntava frequentemente como sua vida teria sido se sua mãe tivesse sobrevivido. Será que seu pai a escolheria? Será que ele a abandonaria junto com o bebê bastardo? Será que a felicidade seria parte de sua vida? Mas ele apenas indagava e sabia que jamais obteria as respostas para essas perguntas.
Será que algum dia eu serei feliz?, ele questionou em pensamentos e enquanto buscava ardentemente por uma resposta, o sono lhe acolheu nos braços e o embalou pelo resto da noite.

– Preciso conversar com você, pai – Alistair disse ao marquês pela manhã, antes de se dirigirem à mesa para o café.
– Estou muito atarefado, meu filho, tenho certeza de que esse assunto, seja qual for, pode esperar – resmungou o pai desinteressado.
– Eu acredito que seja do seu interesse...
– O que você sabe sobre o meu interesse, Alistair?
– Infelizmente, eu sei mais sobre o que não lhe interessa, mas eu só queria lhe dizer que o conde Monier disse não, imagino que você saiba a quê ele se refere.
O marquês agarrou o braço do filho com força e o fulminou com os olhos cheios de raiva.
– Eu estou apenas repassando a mensagem, pai – Alistair disse sarcasticamente e atirou os olhos para a mão do pai que permanecia firme.
– Você estragou tudo, não foi? Você só está contente quando me ridiculariza...
– Eu sou alvo de humilhação e desprezo por sua causa, pai. Não tente se tornar a vítima aqui, eu sou o filho bastardo, eu sou o resultado de sua traição e eu sempre serei ridicularizado por isso.
O marquês soltou o braço do filho e por um momento engoliu em seco a verdade que sempre tentara mascarar.
– Você está vivo por minha causa – falou ele por fim.
– Eu não pedi para nascer – atacou Alistair, deu as costas ao pai e acrescentou enquanto caminhava. – E muito menos para ter você como pai.
O marquês recebeu as palavras do filho como uma bofetada ardida no rosto e sentiu o coração se contrair de dor, sua esposa lhe chamando para o café o tirou do estado de transe e ele arrastou os passos até a mesa.

Alguns dias depois, Alistair se dirigiu até a casa de Amelie quando seu pai não estava e, com a moça a seu lado, caminhou pelos jardins da propriedade, longe da mansão e da vista de qualquer empregado.
– O que vamos fazer? – ela perguntou, seus olhos vestiam uma tristeza que parecia inconsolável.
– Eu não queria que a situação fosse essa, mas acho que teremos que nos ver escondidos – Alistair respondeu e parou de caminhar. Ele segurou as mãos dela.
– Até quando agiremos desse jeito, Alistair? Eu não quero viver com medo de que meu pai nos descubra. Eu quero caminhar com você de mãos dadas pela cidade, eu quero que saibam que estamos juntos...
– Eu quero tudo isso, minha querida, mas por enquanto não podemos ter. Uma vida com você, ainda que em segredo, é melhor do que viver sozinho.
Ela desabrochou um sorriso embaraçado e o encarou nos olhos, por um instante a tristeza se desvaneceu e a esperança tomou seu lugar.
– Você tem razão – ela disse. –, desde que estejamos juntos, tudo vai ficar bem.
Ele selou aquele desejo com um beijo e os dois continuaram a caminhar, de mãos entrelaçadas.
Os dois passaram a se encontrar a cada dois dias. Amelie criara um código que permitia Alistair de saber se poderiam ficar juntos naquele dia, ela deixava as cortinas de seu quarto abertas, indicando que seu pai não estava em casa e então se dirigia a um canto mais remoto de seu jardim às três horas da tarde.
À medida que o tempo se consumia entre dias de alegria quando estavam juntos e dias solitários, a paixão dos dois florescia como botões de rosa despertando no início da primavera.

– É amanhã – Amelie disse com os olhos brilhando de emoção, escondendo atrás desse brilho uma pontada de tristeza.
– Eu queria poder estar lá – Alistair declarou e segurou a mão dela com mais força, como se desejasse segurá-la só para si. – Mas vamos nos encontrar aqui, eu tenho um presente para você.
– O que é? – ela perguntou com curiosidade.
– Dá azar contar o presente antes da festa – ele advertiu sorrindo.
– Você acabou de inventar isso.
– Mesmo assim eu não contarei. Amanhã você verá.
– Meu maior presente é saber que vou te ver.
Ele a puxou para perto e a beijou apaixonadamente.
Os dois se despediram e Alistair voltou para casa e como sempre se trancou em seu quarto, o único lugar onde poderia se refugiar do resto da família.
Ele apanhou o caderno debaixo da cama, releu as linhas de seu mais novo poema, que fora batizado de Amelie e o qual estava recheado de paixão e corações flutuantes, fez alguns ajustes e destacando a folha, colocou-a em um envelope branco e dourado. Sua caligrafia fina e caprichada destinou a carta e denunciou o remetente.
Na manhã seguinte ele desceu para o café mais cedo que os outros e carregou alguns croissants e chá até o quarto, como estava fazendo desde que tivera a discussão com o pai. Todas as refeições eram feitas entre aquelas paredes fiéis.
Quando a noite começou a desdobrar seu manto sobre a cidade, Alistair tomou um banho, vestiu seu melhor traje de gala, perfumou-se com sua melhor colônia, apanhou o envelope com o poema e partiu para a festa de aniversário de Amelie, a qual não fora convidado, mas era o mais esperado.
De longe ele avistou a elegante mansão do Conde de Leroux dando boas-vindas a várias pessoas importantes que chegavam de todos os lugares. Alistair esgueirou-se até o velho salgueiro gigante que se erguia como uma sentinela nos limites de terra da propriedade e lá se pôs a esperar.
Todas as estrelas pareciam brilhar ainda mais naquela noite, como se homenageassem a moça aniversariante e a lua se banhava de glamour à vista de todos.
Os galhos do salgueiro sacudiam-se ao vento como cortinas vivas e dançavam levemente no ar para o único espectador presente. Cerca de duas horas depois, Alistair avistou um vulto se aproximando e mesmo com a escuridão atrapalhando sua visão ele soube quem era.
Amelie se aproximou dele usando seu sorriso mais lindo e jorrando seu encanto pela brisa. Ela usava um vestido malva de seda, ousado pela ausência de anáguas e crinolina, que escorria e se derramava pela grama extremamente bem cuidada, o pescoço ostentava um colar de pérolas e na cabeça uma tiara adornada com pequenos cristais refletia o brilho das estrelas.
– Espero que não tenha esperado muito – ela disse e se atirou nos braços dele, deixando-se pousar em um beijo caloroso.
– A espera valeu a pena – ele respondeu. – Você está linda.
– Obrigada, Monsieur Chevalier, e você está muito elegante – ela fez uma mesura de agradecimento. – Agora queira me dar meu presente.
Alistair riu do pedido e retirou o envelope de seu paletó.
– Eu não sei se devo lhe entregar isso antes ou depois – ele falou pensativo.
– Antes ou depois do quê? – ela exibiu um olhar indagador.
– Disso – ele aproximou-se dela, passou o braço em sua cintura, puxou-a para mais perto e beijou-a.
Naquela noite Alistair soube o que é possuir uma mulher. Os dois deitaram-se na grama negra sob as centenas de galhos do salgueiro e permitiram que o fogo da paixão queimasse como os raios do sol em pleno verão. As mãos inseguras dele percorriam o corpo dela, deleitando-se em toques suaves e deslizando por regiões intocadas, desbravando mistérios. Os laços do vestido foram desfeitos, o terno atirado no gramado. As peças de roupa foram retiradas aos poucos e a cada novo toque a pele se arrepiava de excitação.
Ele se curvou delicadamente sobre o corpo desnudo dela, os olhos se encontraram e pareciam carregar milhares de perguntas que logo eram escondidas pelas pálpebras quando os lábios se juntavam.
Por um momento os dois se tornaram um só, a respiração ofegante dela ecoava a dele, os gemidos contidos passeavam de uma boca à outra e o suor dos corpos se misturou. O próprio tempo pareceu se curvar ao momento que era apenas dos dois, nada mais importava. No ápice do prazer as mãos se entrelaçaram em um aperto firme e cuidadoso, um último suspiro espremeu-se para fora e perdeu-se no silêncio da noite fria.
Os corpos, ainda quentes, se estiraram sobre as roupas. Ela deitou-se sobre o braço dele e os dois assistiram calados, a coreografia do balançar dos galhos embalados pela valsa do vento manso.
– Eu preferiria estar morto a presenciar uma cena ultrajante como essa – uma voz carregada de puro ódio irrompeu o ambiente e os dois sobressaltaram-se e se viram diante do olhar furioso do pai de Amelie.

A história que ninguém quis contar

| quarta-feira, 1 de agosto de 2012



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