Keblinger

Keblinger

Silêncio

| sábado, 10 de março de 2012


Enquanto seu silêncio falar mais alto, comporei canções mudas aos seus ouvidos.

Às vezes as palavras faltam. Faltam a mim. Faltam a você. Às vezes aquilo que precisa ser dito se perde nas reviravoltas de nosso ser e é engolido pelo silêncio.
Ser ausente de som não significa ser desprovido de significado. Algumas palavras jamais poderão definir lascas finíssimas ou toras pesadas de silêncio, há coisas demasiada intrínsecas para serem ditas ou até mesmo escritas.
Ausência de voz não é falta de cuidado, talvez seja excesso de uma mudez reinante que gira como um cata-vento em busca de seu começo e fim. Um sopro não define o norte de ninguém e um tufão pode despedaçar o senso de direção.
Onde o começo termina e onde o fim começa? Quando as pedras que tanto alisavam nossas solas se tornaram desconhecidas? Em que momento específico deixamos de ser quem éramos e passamos a ser um estranho dentro da própria casca?
Mas a fé basta. A esperança renasce das cinzas negras e prevalece. E as perguntas continuam, pois elas nos seguem como sombras.
Toda palavra que escorre dos dedos de um escritor é subjetiva, ainda que ele não a reconheça de imediato, mas ela tem origem, tem essência e tem forma. Contudo, nem todo subjetivismo é riscado em pedra, nem todo ele é furtado da realidade particular. Há subjetivismos alheios que se perdem de seu dono e caem na rede de um escritor. Para quem escreve toda palavra tem sua beleza, pois beleza é apenas uma questão de como e de onde se olha.
No instante em que comecei a escrever, esse texto deixou de ser meu e tornou-se objeto. Ele rasgou seu espaço no mundo e decretou império dentro de suas fronteiras – entre os limites da primeira até a última linha.
Um olhar ao redor busca inspiração e o silêncio se sacode nas ondas do vento, manso, porém fugaz. O paladar engole o gosto do nada. O nada é ausência de sabor. Insipidez é o sabor do nada, portanto o nada possui seu gosto. Nem toda ausência é falta de sentido, talvez seja falta de compreensão. 
As palavras caladas reinam, perambulam de um lado ao outro, surgem de explosões criativas de um universo paralelo e se materializam em nosso mundo. Ou as palavras têm seu mundo particular? Quantos mundos há dentro de cada um? Quanta ausência é falta de saber e quanta presença é demasia de importância? O silêncio não responde, não é?
E essa falta de som incompativelmente sonora se alastra por narrativas, dissertações, ensaios e por todo o repertório do mundo das letras.
As vistas cansam da leitura, da luz e enquanto isso o sono se dependura pesadamente nas pálpebras. Os dedos cansam e dizem basta e um som que esteve presente o tempo todo se faz ouvir, as teclas cantam uma melodia intermitente de alegria, pois elas gostam de ser úteis e só o são quando pressionadas. A pressão da criação as dá vida. A magia da vida que surge do nada. Daquele silêncio que parecia tão incômodo a princípio.
As reticências são o silêncio das palavras e nada mais justo do que os complexos e ambíguos três pontos para exprimir a soberania deste texto (...)

6 sorrisos compartilhados:

{ Luzia Medeiros } at: 11 de março de 2012 08:42 disse...

Nem sempre encontramos as palavras certas no momento certo, porém, podemos substitui-las por um sorriso e um olhar sincero.

As vezes é preciso um pouco de silêncio para que possamos ouvir a voz que sai do coração.

Beijos.

{ Gislãne Gonçalves } at: 11 de março de 2012 17:20 disse...

A fé é fundamental, bem como a ação!

Belo texto
beijos
:)

{ Alexandre Lucio Fernandes } at: 11 de março de 2012 22:07 disse...

Lindo, lindo!

É de uma maestria o teu texto que definir se torna algo impossível, ao menos em letras. Fizeste um paralelo com as palavras e o silêncio, delineando bem esta limite imposto em cada um, a essência que se dispersa no silêncio tão difícil de ser sentida nas palavras, a eloquencia das palavras tão pouco notadas no silêncio. E no fim tudo se faz mensagem. Mesmo no calar, mesmo na mudez... mesmo no falar.

Nada mais justo que deixar os ambíguos três pontos para exprimir a soberania da minha emoção ao ler este texto(...)

Como sempre arrebentando.
Quando crescer quero ser igual a você. (risos)

Abração meu amigo!

{ Rebeca Postigo } at: 13 de março de 2012 12:25 disse...

Sorriso...
Anda me faltando desejo de sorrir...
Mas consegui sorrir ao te ler...
Obrigada por escrever...

Bjs!!!

{ Tati } at: 22 de março de 2012 22:03 disse...

Queria dizer mais, esse texto merece mais.

Mas, fico assim, sem palavras quando você me toca desse jeito Rodolpho.

Beijos

{ Edione Rodrigues } at: 28 de março de 2012 14:20 disse...

Parabéns pelo blog,
adorando lê-lo, e muitas vezes sinto que ele quem está 'lendo-me'...

 

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