Keblinger

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Elas

| quinta-feira, 8 de março de 2012


Ela digitava com concentração um relatório muito importante para uma reunião. Sua rotina diária começava logo cedo, despertador, banho e longos minutos de maquiagem e na escolha da roupa. Social por conta do trabalho.
Come alguma coisa leve pela manhã e se dirige ao escritório.
Os homens a observam chegar e lançam olhares enquanto ela passa por eles. Ela não quer um homem que a trate como objeto, ela quer ser amada, pois sabe que merece.
O chefe a analisa através de seus óculos redondos e se aproxima de sua mesa, com um pretexto forjado para apanhar papéis, que ele derrubara propositadamente, ele desliza a mão suavemente pela perna sua perna. Ela sabia que aquilo já acontecera com outras e acreditou piamente que aquilo nunca lhe ocorreria.
A raiva sugou-lhe a razão, ela levantou-se rapidamente da cadeira giratória e pregou a mão no rosto rechonchudo do homem.
- Eu me demito – suas palavras saíram enfurecidas enquanto o chefe a encarava atônito e com uma marca vermelha na cara.

***

A cada dia seu filho piorava e nenhum médico da saúde pública parecia ter competência o suficiente para descobrir o que havia de errado. Ela sabia que os médicos dos ricos eram eficientes, talvez o dinheiro lhes desse esse privilégio, ela pensava. Contudo, dinheiro não era algo que lhe pertencia. Ela tinha esperança, tanta que vazava pela alma.
Ela carregou o filho nos braços até um hospital de elite e mal teve a chance de cruzar as portas de entrada, os seguranças eram eficientes também.
O dia continuou seu percurso lentamente e um homem bem vestido de branco saiu em direção ao estacionamento e aproximou-se de um carro de luxo. Ela correu até ele.
- Moço, o senhô é doutô? – ele confirmou com a cabeça. – Meu filho ruizinho, tem como o doutô dá uma olhadinha?
- Eu sinto muito, senhora, eu apenas atendo no...
Ela já havia escutado vários “sinto muito” e estava cansada de todos eles, então ela sentou-se no capô do carro e falou com toda autoridade que conseguiu:
- Se o doutô pode escolher não ajudar meu filho, eu posso escolher não sair de cima do carro.
O médico abrandou o olhar e entendeu que aquela era uma mulher desesperada e ao invés de chamar os seguranças ele decidiu que deveria ajudá-la.

***

O trator se aproximava lenta e ruidosamente da praça da cidade, onde uma multidão estava reunida. O motorista ordenou que o enorme veículo se dirigisse até o carvalho centenário, mas antes que pudesse chegar muito próximo, ele avistou uma mulher aninhada nos galhos da árvore.
A ativista estava lá desde a noite anterior e sua presença era apoiada por uns, criticada por outros e alguns ainda debochavam de sua causa, mas ela não se importava.
- Desde quando eu nasci vejo esta árvore no meio da praça e ela simboliza a minha e as raízes de muita gente nessa cidade, não vou permitir que a derrubem – ela gritou lá de cima, algumas pessoas gritaram e aplaudiram.
- Moça, eu só estou fazendo meu trabalho – o motorista argumentou.
- Então vá fazer seu trabalho em outro lugar – ela retrucou e houve mais reação da multidão.
- Fiz vários piqueniques sob a sombra desta árvore – uma mulher na multidão disse e aproximou-se da árvore.
- Dei meu primeiro beijo debaixo dela – outra disse timidamente e também se aproximou do tronco da árvore.
Várias outros começaram a compartilhar suas lembranças que também pertenciam à árvore e logo havia um círculo de pessoas de mãos dadas ao redor do tronco robusto.
O motorista deixou o trator e deu as costas à multidão e aquele carvalho não foi derrubado. Nem aquele dia e nem nos outros que se seguiram.

Alguns dizem que as mulheres são o sexo frágil e apenas isso. Mulheres são o sexo frágil, sim, mas só quando não querem mais ser fortes.

Texto em homenagem ao dia das mulheres, são três histórias distintas que mostram a garra feminina e a força que elas têm. Parabéns pelo dia de vocês, mulheres, porque além de tudo vocês são inspiração. 

1 sorrisos compartilhados:

{ Gessy } at: 8 de março de 2012 14:17 disse...

Gostei!
Sexo frágil é só questão de opinião... e ação.

(:

 

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