Keblinger

Keblinger

Ladrão de pensamentos

| segunda-feira, 26 de março de 2012


Assim, num átimo de segundo, num instante de distração, você me toma por completo e minhas divagações navegam até você. E nessa maresia mental, eu me entrego em sua presença distante e te tenho só para mim.

Você furta meu pensar e impõe com toda pompa sua majestosa forma em meus devaneios. Eu não reclamo, pois talvez você não saiba, mas os pensamentos furtados e recheados de ti são aqueles que mais me aprazem. Aqueles que embora eu espere, ainda me surpreendem por surgirem inesperados – a minha própria contradição de te querer em mim, ora te busca e ora te repele.
Seus modos de me invadir e monopolizar meu pensamento são sutis. Não é um roubo violento. É um furto delicado que chega a ser doce. Encantador. Talvez não seja furto, afinal, se eu me doo e abro as portas e janelas de minha mente para que você encontre uma maneira de se esgueirar para dentro... mesmo que assim que estiver lá, eu vá fechar todas essas passagens e te trancar. Às vezes eu te quero inteiramente, outras, tenho receio de admitir que desejo que você pertencesse a mim.
Possessivo? Há palavras mais bonitas para descrever. Meu querer é suave, é falado em poesia, é cantado em rima e verso. É um querer disfarçado de súplica. É uma vontade mascarada de pedidos secretos que os olhos encerram.

O tal do querer é um negócio complicado que nem sempre anda junto com o possuir. Ah, bem que esses dois guris podiam ser grudados feito siameses. Se eu fosse parear as coisas, com certeza os colocaria bem juntinhos. Querer e possuir. Uma combinação totalmente adequada e indigna de reclamações.

Não sei qual a lua que rege as marés de meus pensamentos – só sei que eles estão cheios de você, renovados a cada segundo e crescente de forma contínua. Se um dia hão de minguar, que esse dia seja aquele em que sua presença seja total e completa e preencha todos os outros espaços que existem em mim. 

Do que repousa na luz

| quarta-feira, 21 de março de 2012

Quer saber o que há na luz?
Não

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As sensações de Lucília (+18)

| sábado, 17 de março de 2012


“(...) existe uma estrada depois do arco-íris onde a pureza se esconde e todos os pecados saltam de um pote. Não de ouro, um pote profano carregado de luxúria.”

A moça releu as últimas linhas do capítulo que terminara no dia anterior.
Lucília era uma moça diferente, incomum e, de certa forma, bizarra. Ela descobrira há cerca de dois anos que era capaz de sentir tudo aquilo que os personagens dos livros sentiam. Se eles tinham fome, logo ela também passava a ter; se eles sentiam-se felizes ou irritados, esses mesmos sentimentos lhe eram transportados. Ela já experimentara o cansaço, temor, raiva e até mesmo dor física alheia, porém sua curiosidade por um tipo de sensação causava-lhe frio na barriga e enrubescimento. Ela deseja sentir excitação e prazer.
O livro com a capa erótica sorriu-lhe maliciosamente e seus dedos tatearam os contornos dos corpos desfocados no papel, então ela abriu as páginas e atirou-se nos mesmos momentos de prazer da personagem principal. Ela o lia escondido, mordendo o lábio lutando contra um gemido incontido que teimava em escorrer pela sua boca, mas naquele dia ela havia decidido ler ao ar livre. Encostou-se na parede do lado de fora da casa e começou a ler.

“... ela sentiu seu aperto firme e a pressão de seu membro rijo contra sua pele eriçada. O homem rasgou-lhe as roupas violentamente, faminto para adentrar em seu corpo e possuí-la aos poucos. As veias grossas dos antebraços dele saltavam conforme seus braços se enroscavam em torno do corpo dela, que apenas arfava ardentemente e implorava em silêncio para que ele a penetrasse. E ele o fez.
Gemidos, pulsação explosiva e suor se fundiram durante os minutos carnais entre os lençóis molhados. As mãos dele vasculhavam o corpo dela e pressionava seus seios. A língua dela passeou pelo corpo másculo do parceiro, provando seu gosto salgado. Ele a invadia permissivamente, estocando com força e com delicadeza ao mesmo tempo.
Ela o sentia dentro de si, sentia-o movendo em seu interior. Sentia seu poder entrando e saindo. Seus dedos apertaram com força o colchão enquanto uma sensação iniciava-se como o rompimento de uma represa. O prazer atingiu seu ápice e ela sentiu que ele também o alcançara, pois toda sua imensidão jorrou em seu corpo. O fôlego perdeu-se entre uma inspiração e os corpos jazeram lânguidos sobre a cama. Suor. Prazer.”

Lucília fechou a página do livro e percebeu que o havia amassado enquanto lia. Sua respiração estava ofegante e seu corpo provara a sensação que ela tanto desejava. Ela sentiu-se envergonhada quando notou que o prazer fora expelido de seu corpo e a deixara umedecida.
Com uma olhada rápida para os dois lados da rua ela viu que ninguém a observava, sorriu aliviada e tocou a virilha, meio insegura, como se aquele gesto confirmasse seu gozo final.
O livro em suas mãos pareceu um tesouro desvendado, mas ela queria mais. Seu corpo gritava por mais daquela porção de orgasmo que ela tivera. Ela não mais queria sentir o que a personagem sentia, ela queria se tornar a personagem. Ela queria realizar os desejos impuros de sua essência corrompida.
Ela almejava o prazer carnal, pessoal e o calor do toque. Ela roçou os dedos nos mamilos ainda rígidos da leitura e prendeu a respiração por um instante.

Um homem cruzou seu caminho e lançou-lhe um olhar tímido e interessado, como se pudesse sentir o aroma lascivo que ela exalava. Lucília sorriu, passando a língua nos lábios e então abaixou a cabeça.
Um jogo de sedução iniciou-se.

Um jogo que terminará com duas vitórias desnudadas nos lençóis. 

Sim, enveredei minha escrita para um rumo que não costumo seguir, em parte por curiosidade e em parte por ousadia, por isso o "+18", apesar de não ser um texto tão impróprio assim, mas é bom mencionar a classificação indicativa de coisas desse tipo, rs. Não sei como será a recepção de vocês, mas eu gostei de ter escrito. Um grande abraço, sorridentes. 

Silêncio

| sábado, 10 de março de 2012


Enquanto seu silêncio falar mais alto, comporei canções mudas aos seus ouvidos.

Às vezes as palavras faltam. Faltam a mim. Faltam a você. Às vezes aquilo que precisa ser dito se perde nas reviravoltas de nosso ser e é engolido pelo silêncio.
Ser ausente de som não significa ser desprovido de significado. Algumas palavras jamais poderão definir lascas finíssimas ou toras pesadas de silêncio, há coisas demasiada intrínsecas para serem ditas ou até mesmo escritas.
Ausência de voz não é falta de cuidado, talvez seja excesso de uma mudez reinante que gira como um cata-vento em busca de seu começo e fim. Um sopro não define o norte de ninguém e um tufão pode despedaçar o senso de direção.
Onde o começo termina e onde o fim começa? Quando as pedras que tanto alisavam nossas solas se tornaram desconhecidas? Em que momento específico deixamos de ser quem éramos e passamos a ser um estranho dentro da própria casca?
Mas a fé basta. A esperança renasce das cinzas negras e prevalece. E as perguntas continuam, pois elas nos seguem como sombras.
Toda palavra que escorre dos dedos de um escritor é subjetiva, ainda que ele não a reconheça de imediato, mas ela tem origem, tem essência e tem forma. Contudo, nem todo subjetivismo é riscado em pedra, nem todo ele é furtado da realidade particular. Há subjetivismos alheios que se perdem de seu dono e caem na rede de um escritor. Para quem escreve toda palavra tem sua beleza, pois beleza é apenas uma questão de como e de onde se olha.
No instante em que comecei a escrever, esse texto deixou de ser meu e tornou-se objeto. Ele rasgou seu espaço no mundo e decretou império dentro de suas fronteiras – entre os limites da primeira até a última linha.
Um olhar ao redor busca inspiração e o silêncio se sacode nas ondas do vento, manso, porém fugaz. O paladar engole o gosto do nada. O nada é ausência de sabor. Insipidez é o sabor do nada, portanto o nada possui seu gosto. Nem toda ausência é falta de sentido, talvez seja falta de compreensão. 
As palavras caladas reinam, perambulam de um lado ao outro, surgem de explosões criativas de um universo paralelo e se materializam em nosso mundo. Ou as palavras têm seu mundo particular? Quantos mundos há dentro de cada um? Quanta ausência é falta de saber e quanta presença é demasia de importância? O silêncio não responde, não é?
E essa falta de som incompativelmente sonora se alastra por narrativas, dissertações, ensaios e por todo o repertório do mundo das letras.
As vistas cansam da leitura, da luz e enquanto isso o sono se dependura pesadamente nas pálpebras. Os dedos cansam e dizem basta e um som que esteve presente o tempo todo se faz ouvir, as teclas cantam uma melodia intermitente de alegria, pois elas gostam de ser úteis e só o são quando pressionadas. A pressão da criação as dá vida. A magia da vida que surge do nada. Daquele silêncio que parecia tão incômodo a princípio.
As reticências são o silêncio das palavras e nada mais justo do que os complexos e ambíguos três pontos para exprimir a soberania deste texto (...)

Elas

| quinta-feira, 8 de março de 2012


Ela digitava com concentração um relatório muito importante para uma reunião. Sua rotina diária começava logo cedo, despertador, banho e longos minutos de maquiagem e na escolha da roupa. Social por conta do trabalho.
Come alguma coisa leve pela manhã e se dirige ao escritório.
Os homens a observam chegar e lançam olhares enquanto ela passa por eles. Ela não quer um homem que a trate como objeto, ela quer ser amada, pois sabe que merece.
O chefe a analisa através de seus óculos redondos e se aproxima de sua mesa, com um pretexto forjado para apanhar papéis, que ele derrubara propositadamente, ele desliza a mão suavemente pela perna sua perna. Ela sabia que aquilo já acontecera com outras e acreditou piamente que aquilo nunca lhe ocorreria.
A raiva sugou-lhe a razão, ela levantou-se rapidamente da cadeira giratória e pregou a mão no rosto rechonchudo do homem.
- Eu me demito – suas palavras saíram enfurecidas enquanto o chefe a encarava atônito e com uma marca vermelha na cara.

***

A cada dia seu filho piorava e nenhum médico da saúde pública parecia ter competência o suficiente para descobrir o que havia de errado. Ela sabia que os médicos dos ricos eram eficientes, talvez o dinheiro lhes desse esse privilégio, ela pensava. Contudo, dinheiro não era algo que lhe pertencia. Ela tinha esperança, tanta que vazava pela alma.
Ela carregou o filho nos braços até um hospital de elite e mal teve a chance de cruzar as portas de entrada, os seguranças eram eficientes também.
O dia continuou seu percurso lentamente e um homem bem vestido de branco saiu em direção ao estacionamento e aproximou-se de um carro de luxo. Ela correu até ele.
- Moço, o senhô é doutô? – ele confirmou com a cabeça. – Meu filho ruizinho, tem como o doutô dá uma olhadinha?
- Eu sinto muito, senhora, eu apenas atendo no...
Ela já havia escutado vários “sinto muito” e estava cansada de todos eles, então ela sentou-se no capô do carro e falou com toda autoridade que conseguiu:
- Se o doutô pode escolher não ajudar meu filho, eu posso escolher não sair de cima do carro.
O médico abrandou o olhar e entendeu que aquela era uma mulher desesperada e ao invés de chamar os seguranças ele decidiu que deveria ajudá-la.

***

O trator se aproximava lenta e ruidosamente da praça da cidade, onde uma multidão estava reunida. O motorista ordenou que o enorme veículo se dirigisse até o carvalho centenário, mas antes que pudesse chegar muito próximo, ele avistou uma mulher aninhada nos galhos da árvore.
A ativista estava lá desde a noite anterior e sua presença era apoiada por uns, criticada por outros e alguns ainda debochavam de sua causa, mas ela não se importava.
- Desde quando eu nasci vejo esta árvore no meio da praça e ela simboliza a minha e as raízes de muita gente nessa cidade, não vou permitir que a derrubem – ela gritou lá de cima, algumas pessoas gritaram e aplaudiram.
- Moça, eu só estou fazendo meu trabalho – o motorista argumentou.
- Então vá fazer seu trabalho em outro lugar – ela retrucou e houve mais reação da multidão.
- Fiz vários piqueniques sob a sombra desta árvore – uma mulher na multidão disse e aproximou-se da árvore.
- Dei meu primeiro beijo debaixo dela – outra disse timidamente e também se aproximou do tronco da árvore.
Várias outros começaram a compartilhar suas lembranças que também pertenciam à árvore e logo havia um círculo de pessoas de mãos dadas ao redor do tronco robusto.
O motorista deixou o trator e deu as costas à multidão e aquele carvalho não foi derrubado. Nem aquele dia e nem nos outros que se seguiram.

Alguns dizem que as mulheres são o sexo frágil e apenas isso. Mulheres são o sexo frágil, sim, mas só quando não querem mais ser fortes.

Texto em homenagem ao dia das mulheres, são três histórias distintas que mostram a garra feminina e a força que elas têm. Parabéns pelo dia de vocês, mulheres, porque além de tudo vocês são inspiração. 

Da crença em ilusões

| segunda-feira, 5 de março de 2012

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Não

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