Keblinger

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Melancolia do Palhaço

| segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

(…) You see the look that's on my face
You might think I’m out of place
I’m not lost, no, no, just undiscovered…


Era uma vez um palhaço que desaprendeu a sorrir.
Palhaços são pessoas de personalidades tão intrincadas, com peças soltas e nem sempre formadas para se conectar entre si. Eles são a imagem do riso, do bizarro e da alegria de fazer o outro gargalhar, mas será que eles são felizes o tempo todo? Será que há alguém que os faça rir e acreditar na magia dessa alegria efêmera e tão contagiante?
O palhaço da história tem o rosto pintado. Tem pregado na cara um sorriso enorme que esconde com tanta propriedade seu semblante abatido, suas rugas de preocupação e seus olhos tristes. Ele não mente para os outros, apenas para si mesmo. Para os outros ele reserva a omissão de sua existência e suas quedas fajutas em troca do som borbulhante do riso.
Ele se alimenta do riso alheio. Ele regozija-se no som crescente que vem de dentro do peito e que explode pela boca da plateia.
Talvez algumas pessoas consigam enxergar sua verdadeira face através de suas pupilas solitárias e veja que lá dentro há um ser não descoberto que quer ser compreendido. Contudo, a maioria se contenta em achar graça de suas artimanhas fingidas e se esquece de que um palhaço também é gente. Ele também possui lágrimas e esconde tristezas.
Não interprete mal as minhas palavras, ele não é um palhaço infeliz, muito pelo contrário, ele esbanja felicidade quando não está mergulhado em devaneios irreais de ser aquilo que não é. Ele tem o gosto do sorriso na ponta da língua, mas opta por engoli-lo.
O palhaço se confronta no espelho e analisa seu sorriso de mentira e pensa que é fácil dar um segundo de alegria às pessoas, pois muitas delas são vazias e se preenchem com pouco, mas algumas não são rasas e buscam algo além. Ele não se sente raso. Ele apenas entende que o poço profundo do seu cerne não traz sorrisos a nenhum rosto e sim testas franzidas e curiosidade.
Palhaços são pessoas simples. Eles não debatem sobre grandes mistérios. Eles não entendem dos grandes fenômenos do mundo e muito menos almejam utopias. Eles querem risos, pois eles são de graça. Eles se contentam com o pouco que recebem, exatamente por saberem que aquele pouco é algo intrínseco e maravilhoso. O preço das coisas está em seu valor emocional.
Aquele palhaço busca se descobrir interiormente, mas enquanto faz isso se perde no labirinto de seu próprio ser. Pode ser que ele não tenha nascido para ser palhaço, afinal. Talvez ele tenha sido criado para algo maior que um picadeiro. Quem sabe aquele palhaço que não sorri tenha perdido tempo de mais tentando descobrir onde errou ao invés de tentar encontrar seu sorriso andarilho?

Um palhaço que não sorri é como uma flor sem perfume. É belo ainda que lhe falte uma parte.

Algumas observações: 1. Sim, sou eu na foto. 2. O nome do texto, que é dedicado a Charlie Bravo, vizinho do blog e amigo de seriados, é o nome que ele mesmo deu a esta foto e com isso me deu inspiração. Algumas pessoas nos inspiram sem se dar conta e essa é a grande magia das palavras. 3. A história é fictícia? Fica a seu critério fazer essa avaliação, os subjetivismos sempre permeiam meus textos, mas apontá-los tira a graça toda. 4. Ouça a música. 

7 sorrisos compartilhados:

{ Charlie Bravo' } at: 20 de fevereiro de 2012 18:20 disse...

Melancolia do Palhaço é uma daquelas fotos que eu devo roubar para a pasta de download do meu notebook, é linda. Gostei do texto, tem leveza, beleza, é puro em sua busca de si. Fico grato por te inspirar a compor, rs. Fiquei querendo escrever sobre a fotos, também, posso?

Abraço meu caro Rodolpho,

Charlie.

{ Michelle Louzeiro Nazar } at: 20 de fevereiro de 2012 21:04 disse...

Adorei poder conhecer o seu blog através do blog da Emi. Inspirador demais vir aqui. Acho que isso é o mínimo de sua proposta por aqui, pois com seu post me fez refletir, esconder uma lágrima de quem entrava pela minha porta e me deixar parada no tempo. Obrigada por isso. Abraços! ;)

{ Babi Farias } at: 21 de fevereiro de 2012 00:06 disse...

Já que o Charlie acabou inspirando o nome da foto e por consequência, com sua brilhante mente, conseguiu escrever esse texto belíssimo sobre circo, palhaço e sorrisos... Acho, (só acho, ok?) que deveriam fazer uma parceria, ia sair um texto "felômenal". Conhecendo bem ambos e essas mentes capciosas, vão tirar de letra!

Segundo texto seu (que eu tenha conhecimento) que trata de algum aspecto sobre circo e adorei. Inspira-nos! :)

Beijo, Rod.

{ Alexandre Lucio Fernandes } at: 21 de fevereiro de 2012 15:19 disse...

É um daqueles textos em que cada um de nós se põe nele. Às vezes pintamos no rosto o que nem sempre corresponde ao que se exulta nele. Talvez isso seja uma busca, uma forma de encontrar um elemento que dê vida nova, cores novas à pele, ou forme um sorriso real, ou que alguém ao vê-lo nos produza este poder de querer, ou o poder de fazermos rir, sorrir.

A história é fictícia? Bem, acho que não. Porque todos temos um pouco deste palhaço em nós...

Abração!!

{ Brunno Lopez } at: 22 de fevereiro de 2012 09:34 disse...

Brilhante, eu poderia dizer.

Essa associação ficou divina e leve ao mesmo tempo.

Começou concatenado, seguiu com plena coerência e terminou numa apoteose.

Texto fantástico.

Demorei, mas voltei aqui. Um abraço.

{ Ana Carolina } at: 25 de fevereiro de 2012 13:59 disse...

Encontrei seu blog no blog de outra pessoa. Favoritei-o em meu blog, pois adorei seus textos.

Você tem um vocabulário bem rico. Parabéns!

Ana Carolina,
http://realezacontemporanea.blogspot.com/

{ Tati Tosta } at: 29 de fevereiro de 2012 21:10 disse...

Saudades de quando eu morava mais aqui do que noutras partes - Preciso de tempo, perdoe-me pelas ausência. Muuuito obrigada pelo prazer da leitura.

Belíssimo - Inspirador - de fato!

É sempre bom vir aqui e ser tocada por você Rodolpho.


"O preço das coisas está em seu valor emocional"

Grande Beijo.

 

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