Keblinger

Keblinger

A regência dos sentimentos

| quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012


(…) It may sound absurd, but don't be naïve,
even heroes have the right to bleed
I may be disturbed, but won't you concede,
even heroes have the right to dream…

O rapaz murmurava constantemente entre sonhos e estado de vigília, as palavras fugiam de seus lábios sem trancas, mas jamais encontravam um destino. Elas corriam em busca de liberdade, porém eram sopradas pela vasta escuridão do silêncio noturno. As palavras que ele sempre procurou dizer e nunca encontrou.
Ele não era mais um rapaz inocente, ingênuo e dotado de uma fé inabalável de que tudo sempre seria bom. Ele aprendera a ser pragmático e isso era atribuído somente a ele e a mais ninguém. Ele não permitiu dissuasões nem argumentos, sua posição era irredutível e sua fortaleza de areia era impenetrável, ou assim ele acreditava que fosse.
Contudo, bastava a maré subir para que todo seu castelo fosse consumido pelas ondas. Ele compreendeu que sentimentos são como ondas que devastam praias desertas e engolem tudo o que veem pela frente. Ele sabia também que toda onda vem e vai – e quando vai, sua devastação é dobrada e os resquícios de tijolos que haviam aguentado bravamente ao primeiro ataque, se desfragmentam e são levados para o mar do abandono. Afogados no oceano profundo dos sentimentos náufragos que ficaram à deriva.

Apesar de suas convicções enraizadas em um âmago sem nexo algum, ele queria ser um herói. Ele sonhava em alterar o curso de alguma história e até em ter superpoderes que o distinguissem da multidão, ainda que se tornasse um rosto mascarado.
Ele erguia-se no parapeito da grande janela de seu quarto e imaginava como seria poder voar e provar o sabor do céu e a sensação de rasgar nuvens. Mas a realidade lhe lança um olhar desdenhoso, sacode a cabeça impaciente e pergunta quando ele vai deixar de ser imaturo e perceber que há uma distinção gigantesca entre sonho e loucura.
Ele então a encara e olha ao redor – a mesinha com seus remédios para dormir, a cama bagunçada e roupas espalhadas por todos os cantos do cômodo –, mas o vento lambe seu rosto e ele fecha os olhos por um segundo e voa.
Quem disse que a imaginação não pode ser real? Ele não cavalgou nas costas do vento no sentido literal, seria loucura pensar nisso, mas ele provou do gosto do céu e desvendou o segredo das nuvens de algodão, que não são de algodão, na verdade.

Outra onda o atingiu. A onda da solidão que passou despercebida por seu forte como se ele não fosse importante. Ele cultivava alguns sentimentos em seu peito, ele esperava categorizá-los e definir seu espaço no mundo. E durante sua espera o tempo vestido de hora lhe roubava miligramas de vida. Dia após dia. O tempo é um ladrão furtivo, tão dissimulado que se finge de amigo em certas ocasiões enquanto arquiteta seu grande plano que é esgotar-nos de sua companhia.
Então quando outra onda surge, traz a saudade em suas bolhas e a despeja na praia. A saudade é aquilo que a onda apenas traz e nunca leva. Ela se torna tão pesada que nem a força das águas consegue levar embora. Então ele sentia o peito arder e o ar faltar. A falta se torna presente e essa presença machuca.

Ele livrou-se da maré negativa, arrancou uma folha de caderno e escreveu “ainda espero resposta”, mesmo sem saber se existia uma pergunta, mesmo sem pensar qual era sua verdadeira esperança – mesmo sem esperar resposta alguma.
Dizem que quando a alma transborda, gotas de poesia se desprendem dos poros e regam as flores de versos. A grande beleza da poesia é saber rimar a realidade com algo irreal. É fazer a junção de mundos diferentes soar doce ao paladar. É unir contradições que se repelem sem medo de conflitos. É ousar sonhar ainda que o sonho se fantasie de loucura.

Ele fechou os olhos outra vez e concluiu que os sentimentos são trampolins que lhe dão impulso, mas cabe a cada um voar sem asas e desafiar a gravidade. 

Pauta para Bloínquês

Das 11 coisas

| segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012
A Camila do Brincando de Verdade, me indicou para um meme (que vai tirar a teia de aranha do blog por enquanto). Logo abaixo estão as regras, em inglês (não sei o motivo, por isso não alterei), enfim, saibam um pouco mais desse cara estranho que gosta de rabiscar linhas por aqui.

Rules:

Write 11 (random) things about yourself on your blog;
Answer the questions the tagger set for you and create 11 new questions for the people you tag;
Choose the next 11 people to tag and link them on the post;
Go to their page and tell them you have linked him or her;
No tag backs;
You must post these rules.

11 THINGS ABOUT ME

1 – A vida de professor aconteceu por acaso e eu acabei me apaixonando por isso, o fato de você ver que, de certo modo, está mudando a vida de alguém, é gratificante.
2 – Ser perfeccionista me frustra, pois quase nunca gosto de algo que faço logo de início, mas depois de um tempo e analisando com menos criticismo eu vejo que fiz um bom trabalho.
3 – Além de ouvir músicas que ninguém conhece, eu tento influenciar os outros a ouvir o mesmo que eu, mas me aborreço quando o que ouço de repente vira algo muito conhecido.
4 – Livros longos me atraem e me motivam a mudar suas páginas com grande rapidez, não gosto da sensação de ter um livro gigante em mãos e ter o marcador dividindo poucas páginas.
5 – Sou daqueles que tentam fazer várias coisas ao mesmo tempo, como fazer comida, usar o computador, ouvir música e estudar.
6 – Fico enjoado com perguntas comuns que geralmente estranhos fazem a mim como “quando você vai parar de crescer?”, “você joga basquete?” ou como a clássica “você sabe falar inglês?” quando digo que sou professor.
7 – Se eu pudesse eu teria um zoológico cheio de coalas, preguiças, girafas, pandas, corujas e vários outros animais que eu gosto.
8 – Consigo digitar sem olhar para o teclado, mas quando percebo que estou fazendo isso eu me embaralho todo e tenho que olhar.
9 – Tenho vários tipos de risadas que variam de um riso psico-sarcástico a uma gargalhada bem sonora.
10 – Vou ao cinema para ver filmes de animação e me divirto mais que as crianças.
11 – Faço listas mentais de coisas que tenho que me lembrar, mas quando preciso delas eu esqueço.

AS 11 PERGUNTAS DE CAMILA

1. O que você mais lembra da sua infância?
Lembro das típicas brincadeiras de rua, de joelhos ralados e pais gritando para entrar e tomar banho. Lembro da escola e de quão boa era aquela vida inocente e despreocupada que eu tinha. E lembro de tardes de fins de semana no clube, nadando, comendo salgado e bebendo muito refrigerante.

2. O que você gostaria de fazer para as próximas gerações?
Se eu pudesse eu gostaria de levar para eles os costumes que existiam na minha infância e fazê-los enxergar que ser criança é uma coisa que só acontece uma vez na vida e que esta etapa é a mais gostosa de todas. E queria levar também, além de um mundo um pouco melhor, consciência e bom senso para que ao invés de decair, cada geração possa superar a outra.

3. Qual é a sua música favorita dos últimos tempos?
Tenho músicas favoritas que vêm de antes dos últimos tempos e estas serão sempre favoritas, mas ultimamente tenho ouvido bastante Fine by me do Andy Grammer e Chasing Cars do Snow Patrol.

4. Se pudesse escolher um lugar no mundo para viver, qual seria?
Um lugar frio, tenha certeza disso, mas apesar de ter minhas raízes ainda bem fortes onde vivo, eu pretendo viajar muito e conhecer vários locais desse mundão e aí então quando eu ter conhecido muito eu saberei qual lugar escolherei para viver.

 5. Qual é a sua postagem favorita do seu blog?
Essa é daquelas que a gente diz, hora de escolher um filho preferido, rs. Quando eu leio as postagens mais antigas eu sinto que eu escrevia muito bem e acho que perdia a mão, mas então eu leio as novas e vejo que ainda sei escrever. Entre minhas favoritas estão O homem do farol e a mais recente Take a sip of me, acho que tenho poucas que eu realmente não goste muito, mesmo que eu não as apague. Aquele lance de ver a evolução, sabe?

6. Qual foi o último filme que assistiu?
A Dama de Ferro, que conta a história de Margaret Thatcher e que rendeu a Maryl Streep o Oscar de melhor atriz. O filme é basicamente centrado na política e em como a MT conseguiu salvar a economia da Grã-Bretanha ao governar com mãos de ferro e analisando por um contexto menos político, o filme mostra que apesar de sermos rígidos, ainda somos humanos e, portanto estamos vulneráveis às imposições inesperadas do destino.

7. O que você faz quando não consegue encontrar nada para escrever?
Eu fico bravo, daí então eu vou ver um filme, seriado ou ler um livro ou simplesmente dormir e esperar uma ideia surgir. Algumas vezes eu até me forço a escrever, afinal não tenho nada a perder, se o resultado for ruim, eu apago, se for bom, que ótimo.

 8. Se pudesse adquirir alguma característica ou atitude de alguém famoso, o que seria e de quem?
Essa é difícil, não sou muito atualizado no mundo dos famosos, acho que vou pular por questões de incompatibilidade, rs (ou seja, não sei responder).

9. Qual é o seu maior objetivo na vida?
Mudar o mundo, RÁ! Na verdade esse já foi meu objetivo uma vez, mas acho pretensão de mais eu querer mudar o mundo. Meu grande objetivo é conseguir ter uma boa carreira, é viajar pelo mundo, é publicar um livro, é mudar ainda que um pouquinho o modo como as pessoas veem as coisas e quem sabe assim, a corrente se estende e algo grande possa acontecer.

10. Qual é a melhor parte de se ter um blog?
A melhor parte é saber que você pode atingir as pessoas de maneiras diferentes com aquilo que você simplesmente escreve. É poder ler um comentário elogiando sua escrita e entender que o que parece tão natural para você é um encanto para outra pessoa. Além do fato de que através do blog você pode conhecer várias pessoas talentosas, de espírito aventureiro para se jogar nesse universo virtual e criar laços de amizades.

11. De onde surgiu a ideia do nome do seu blog?
O nome veio até mesmo antes de eu criar o blog. Eu queria criar algo que tivesse esse nome e quando criei o blog, ainda sem saber por que e como eu o usaria o nome se encaixou e apesar de em alguns momentos ele parecer desconexo, em outros ele é exatamente perfeito e talvez a minha arte nessa vida seja essa, a de proporcionar um sorriso inesperado em quem pára um tempinho e resolve me ler.

MINHAS 11 PERGUNTAS

1 – Qual foi sua melhor idade até agora? 2 – Se pudesse viver de uma arte, qual seria? 3 – Qual sua lembrança mais embaraçosa? 4 – Se pudesse voltar no tempo para conversar com alguém que já se foi (famoso ou não), quem seria e por quê? 5 – Qual sua mania mais estranha? 6 – Do que você mais tem medo? 7 – Se você soubesse que hoje é seu último dia de vida, como você o passaria e com quem? 8 – Se pudesse acabar com um grande problema mundial, qual seria? 9 – Por que você escreve? 10 – Você é feliz? Qual sua definição de felicidade? 11 – Qual o livro e o personagem que são inesquecíveis para você?

PESSOAS PARA FAZER O MESMO (SE QUISEREM)


Galera que indiquei e for fazer ou alguém mais que se interessar, me avise que eu envio as regras e as perguntas por e-mail. Até a próxima, abraços.

Melancolia do Palhaço

| segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

(…) You see the look that's on my face
You might think I’m out of place
I’m not lost, no, no, just undiscovered…


Era uma vez um palhaço que desaprendeu a sorrir.
Palhaços são pessoas de personalidades tão intrincadas, com peças soltas e nem sempre formadas para se conectar entre si. Eles são a imagem do riso, do bizarro e da alegria de fazer o outro gargalhar, mas será que eles são felizes o tempo todo? Será que há alguém que os faça rir e acreditar na magia dessa alegria efêmera e tão contagiante?
O palhaço da história tem o rosto pintado. Tem pregado na cara um sorriso enorme que esconde com tanta propriedade seu semblante abatido, suas rugas de preocupação e seus olhos tristes. Ele não mente para os outros, apenas para si mesmo. Para os outros ele reserva a omissão de sua existência e suas quedas fajutas em troca do som borbulhante do riso.
Ele se alimenta do riso alheio. Ele regozija-se no som crescente que vem de dentro do peito e que explode pela boca da plateia.
Talvez algumas pessoas consigam enxergar sua verdadeira face através de suas pupilas solitárias e veja que lá dentro há um ser não descoberto que quer ser compreendido. Contudo, a maioria se contenta em achar graça de suas artimanhas fingidas e se esquece de que um palhaço também é gente. Ele também possui lágrimas e esconde tristezas.
Não interprete mal as minhas palavras, ele não é um palhaço infeliz, muito pelo contrário, ele esbanja felicidade quando não está mergulhado em devaneios irreais de ser aquilo que não é. Ele tem o gosto do sorriso na ponta da língua, mas opta por engoli-lo.
O palhaço se confronta no espelho e analisa seu sorriso de mentira e pensa que é fácil dar um segundo de alegria às pessoas, pois muitas delas são vazias e se preenchem com pouco, mas algumas não são rasas e buscam algo além. Ele não se sente raso. Ele apenas entende que o poço profundo do seu cerne não traz sorrisos a nenhum rosto e sim testas franzidas e curiosidade.
Palhaços são pessoas simples. Eles não debatem sobre grandes mistérios. Eles não entendem dos grandes fenômenos do mundo e muito menos almejam utopias. Eles querem risos, pois eles são de graça. Eles se contentam com o pouco que recebem, exatamente por saberem que aquele pouco é algo intrínseco e maravilhoso. O preço das coisas está em seu valor emocional.
Aquele palhaço busca se descobrir interiormente, mas enquanto faz isso se perde no labirinto de seu próprio ser. Pode ser que ele não tenha nascido para ser palhaço, afinal. Talvez ele tenha sido criado para algo maior que um picadeiro. Quem sabe aquele palhaço que não sorri tenha perdido tempo de mais tentando descobrir onde errou ao invés de tentar encontrar seu sorriso andarilho?

Um palhaço que não sorri é como uma flor sem perfume. É belo ainda que lhe falte uma parte.

Algumas observações: 1. Sim, sou eu na foto. 2. O nome do texto, que é dedicado a Charlie Bravo, vizinho do blog e amigo de seriados, é o nome que ele mesmo deu a esta foto e com isso me deu inspiração. Algumas pessoas nos inspiram sem se dar conta e essa é a grande magia das palavras. 3. A história é fictícia? Fica a seu critério fazer essa avaliação, os subjetivismos sempre permeiam meus textos, mas apontá-los tira a graça toda. 4. Ouça a música. 

Take a sip of me

| domingo, 12 de fevereiro de 2012


Quando olho no relógio, enxergo mais que meras horas. Meu olhar alcança além dos ponteiros e se lança no desconhecido em busca da trilha da esperança que já desvaneceu em mim. Eu busco a verdade por trás do amor.

O tempo passa, a vida passa e o coração apenas bate dentro do peito, inerente ao amor. E o que é este sentimento inconstante e volátil que todos falam? É possível que todos realmente o sintam percorrer suas veias e ser bombeado pelo corpo? Ele é real ou fruto da imaginação de um gênio que o criou com a maquiavélica intenção de tornar o mundo um lugar insano?
Eu queria que o amor fosse palpável. Eu queria tocá-lo. Queria bebê-lo e sentir seu gosto, ora docemente fatal, ora amargamente suave. Mas amar é conjugar um verbo errante, que se perde nas entrelinhas e se enfeita de poesia para tornar-se atraente e belo. Amar é correr riscos, é caminhar numa corda bamba feita de barbante.
Minhas divagações saltam em minha mente como disparos de armas, elas voam e passam zunindo em minha frente. Às vezes eu desvio delas, outras eu me atiro em sua frente e peço para ser atingido. Quero que minha camisa branca se manche com o rubro líquido quente que vaga dentro de mim. Quero que o amor vaze.
Como expelir um sentimento que pode ser irreal? Não sei se o tenho dentro de mim. Preciso de uma confirmação. Fecho os olhos e a imagem daquela pessoa se materializa em meu pensamento, um truque barato de mágica para enganar meu coração. O coração não pensa, ele não foi feito para tal. Ele foi feito para pulsar e sentir. Pulsar e sentir.
Uma xícara quente de café se acomoda entre meus dedos e aquece as palmas de minhas mãos. Sinto o calor atravessar a porcelana e tocar minha pele. O calor é real.
Talvez se eu me transformasse em bebida você poderia me sentir. Meu ser deslizaria pelos seus lábios e dançaria pela sua língua, assim você provaria meu sabor e me possuiria dentro de ti. Só assim. Meu calor seria o seu. Meu gosto apeteceria seu desejo de amar.
Os livros na minha frente transbordam palavras e muitas palavras são jogos de adivinhações. Elas supõem conhecer o amor. Elas tentam desvendar seu segredo obscuro de ser o que é. Elas imploram insistentemente pela sua definição. E o amor simplesmente se emudece. Ele é um tirano silencioso que jamais se dobra às vontades alheias. O amor é um ditador. Ele rege e você obedece. Não gaste suas forças tentando provar que o contrário disso é minimamente possível, no final você só vai envergonhar-se por ter que admitir que estava errado.
O amor é maior que o tempo, ele é atemporal, alguns podem dizer. Afirmar coisas a seu respeito é bem do feitio do homem que usa as palavras de forma incoerente e se perde em seus diversos sentidos. Não aprisione o amor em palavras. Não o tranque entre aspas. Amor e gramática não se fundem, ele sempre foge à regra.
Minhas teorias roubam o tempo que o tempo rouba de mim. Eu não sou atemporal. Eu existo, coexisto até. Ponderar sobre o amor é o mesmo que desejar viver eternamente. Nenhum mortal vai compreendê-lo inteiramente e essa é a beleza por trás do amor. Mistérios enchem os olhos e a boca. Segredos são instigantes. Verdades são convenientes, mas nem sempre são verdadeiras e esse é um paradoxo complicado de mais para as divagações deste mesmo dia.

Eu realmente queria caber em uma xícara. Você a pegaria delicadamente pela asa e o vapor do meu existir sussurraria “beba-me”.

O nome do texto em português é "Tome um gole de mim". Não é o nome de uma música nem de um filme, eu optei por deixar em inglês só para causar curiosidade mesmo. E sim, o blog está de cara nova, tomei vergonha e mudei o layout. Abraços.

Segredo circense

| segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Quer descobrir esse segredo?
Não

Clique em sim para ler meu novo texto na Franquia

Gestos e sorrisos

| quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012
Eu sempre acreditei que romances fossem feitos para pessoas perfeitas, para aquelas que não têm nada em falta e que até possuem atributos sobrando, mas quando meu coração começou a dar sinais diferentes eu percebi o quão equivocado eu sempre estivera.


Ela era aquele tipo de garota que está sempre apressada ou distraída demais, portanto eu jamais seria alvo de sua atenção. Jamais.
Todas as manhãs pegamos o mesmo ônibus para ir à escola. O sono que paira sobre mim rapidamente se dispersa quando ela sobe os degraus e procura um assento vazio. Meus olhos se abrem avidamente e eu me ponho a observar de longe... Os cabelos castanhos esvoaçantes, o tecido do vestido liso sacudindo pelo rufar do vento, os braços alvos carregando os materiais e os lábios curvados em um sorriso que parece eterno e até mágico.
Eu não aceno, claro. Sou um estranho para ela. Apenas me resumo a assistir seu desfilar pelo corredor até a porta de saída quando chega sua vez de descer e um dia desses, eu posso jurar que um fiapo de seu sorriso escorregou e sacudiu-se no ar em minha direção feito folha seca no outono, tão singelo. Não me contive de emoção.
Numa manhã tocada pela cálida luz do sol, ela entrou no ônibus e caminhou... meu coração deu um salto triplo e agarrou-se nas cordas vocais silenciosas enquanto ela se aproximava. E ela sentou-se exatamente no assento livre ao lado do meu. Com tantos outros lugares ela resolveu sentar-se ali. Respirei profundamente e olhei desinteressado para a janela. De esguelha pude ver que ela sorria. Sim, ela sempre sorria, não é?
Desgrudei os olhos do vidro pouco antes de ela descer e congelei-me quando ela acenou um tímido adeus. Ela acenou? Eu não estava sonhando.
Na manhã seguinte ela disse um “oi” tão sonoro que parecia música. Vi as notas pairarem no ar por uma fração de segundos. Levantei a mão num rápido aceno e ela sorriu, como eu esperava que fizesse. Desta vez aquele sorriso foi todo para mim, quase despenquei do banco, nocauteado pela sua beleza.
Eu tive medo de contar a ela que eu era uma pessoa defeituosa, tive medo de espantá-la e de nunca mais poder ter porções de sorrisos matinais. Então eu escrevi um bilhete e deixei-o cair convenientemente no meio de seus livros quando ela saía e me deixava seu sorriso comigo. Eu sempre o guardava, na minha mais recente memória, para contemplá-lo por horas até mesmo de olhos abertos.
Para minha surpresa ela voltou a sentar-se comigo no outro dia e fez um gesto de que me compreendia. Aquele foi o golpe que tirou todo meu fôlego e meu coração atirou-se em pulsares desenfreados. Ela me entendia. Melhor do que isso, ela aceitava minha condição.
Eu tinha tanto para falar para ela, tinha tantos sorrisos para compartilhar e gestos para mostrar. Ela era paciente. Perguntava quando não entendia e aprendia rápido. E seu interior era lindo, carinhoso e puro. Ela era uma em um milhão. Que sorte a minha.
Em casa escrevi linhas e mais linhas do que eu queria que ela soubesse. Eu não vejo a hora de lhe dizer aquilo tudo que eu decorei.

Quando ela entrou no ônibus, cabelos caídos e sedosos, vestido de tom claro, caminhando até mim, tudo que eu gastara horas decorando no dia anterior, simplesmente desapareceu. Eu me vi perdido numa sala escura, sozinho e sem saber o que fazer.
Então meu coração tomou-se de uma coragem que eu nunca vira e controlou meus movimentos. Ela sentou-se perto de mim com seu sorriso a tiracolo.
Eu ergui minha mão. Estendi o polegar, o indicador e o mindinho.
O sorriso dela se alargou e eu afundei nele, inebriado. Ela sabia que aquele gesto significava “eu te amo” em libras. Ela fez um gesto semelhante e então meu sorriso abriu-se tão bobo que eu achei que mais parecia uma careta.
Ela nunca se importou de conversar com um mudo e eu adorava o som da voz dela e de sua risada quando ela se perdia nos sinais. Ela tinha voz e eu não, de certo modo, completávamos um ao outro.

Romances não foram feitos somente para quem é perfeito, pois ninguém é perfeito até que aprenda a amar e perfeição é ponto de vista. De onde eu olho, aquela garota que agora é parte constante de minha vida, é perfeita para mim e de onde ela olha, eu, tão incompleto, também sou perfeito para ela.
Ela sorri. Um sorriso assim, perfeito demais para descrever, não existem palavras nem sinais que possam explicar como ele é. E ela o entregou a mim. Só a mim.

Pauta para Bloínquês
 

Copyright © 2010 A arte de um sorriso