Keblinger

Keblinger

Uma última conversa

| quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

(…) For auld lang syne, my dear
For auld lang syne,
We'll take a cup of kindness yet,
For auld lang syne…
Auld lang syne – Lea Michele

Aproximei-me discretamente daquele velho que estava prestes a partir e o interceptei. Por um fragmento de segundo, ele me olhou profundamente e sua boca cheia de rugas se abriu e formou uma pergunta:
- O que você tem a me dizer? – ao som daquelas palavras pus-me a refletir nas coisas.
- Tenho que confessar que não botei muita fé quando você apareceu e como não gosto de mudanças repentinas passei a te odiar por um tempo ao ponto de fechar os olhos para as coisas boas que surgiam. As lembranças frescas do que havia passado e ficado para trás me atormentavam e empurravam qualquer chance de esperança por um precipício de frustrações.
Ele não mudou suas feições enquanto eu falava, apenas meneou a cabeça, não sei se por concordância ou simplesmente por fazê-la. Continuei.
- Com o tempo, eu finalmente percebi que nem tudo estava tão mal quanto eu via, que havia sim motivos para sorrir e agradecer e até colher uma lembrança ou duas para levar adiante. Você me tirou bens preciosos, levou-os para um lugar tão distante que talvez eu nunca os veja outra vez, mas por outro lado, me presenteou com inúmeras outras coisas de valores particulares e especiais. Seus planos nem sempre são claros para mim, mas quando os reavalio sempre enxergo o melhor, apesar dos vários contratempos que ocorreram para se chegar até lá.
Ele suspirou, não pude dizer se foi de alívio ou de impaciência e então fez outra pergunta:
- Você sente que você tenha mudado? – mais uma vez parei para pensar por um instante.
- Acredito que grande parte do que agreguei e mantive foi devido a uma mudança interior, que já vinha acontecendo aos poucos, mas que se intensificou ultimamente – sorri naturalmente ao dizer isso – Tudo ao redor muda quando nós mudamos, certo? – ele fez que sim com a cabeça.
- Todos os dias em que te acompanhei não foi apenas para tirar-lhe ou dar-lhe coisas, foi para causar uma mudança dentro de ti. Foi para abrir lentamente teus olhos e mostrar que você pode fazer a diferença contanto que acredite nisso. Agora é uma época de reflexão, renovação, de repensar os valores e seus conceitos. Um período de nostalgia e esperança em que o passado se une aos desejos futuros que estão em seu coração no presente. Não descarte velhos pedidos e nem acenda novas chamas que em breve se apagarão, aprenda a discernir o que é possível e real, renove sua fé em você mesmo e busque aquilo que está em seu alcance e tão logo perceberá que até o que não estava você atingiu.
Aquelas palavras recaíram sobre meus ombros e eu pude sentir o peso delas.
- É, estou pronto para te dizer adeus, Ano Velho – ele sorriu e sacudiu a cabeça novamente, saí de seu caminho e antes que ele se afastasse muito acrescentei – peça que o Ano Novo desacelere os movimentos de translação, o tempo está correndo mais rápido do que posso acompanhar, quero aproveitar mais tudo o que tiver a oportunidade antes de ter que dizer adeus outra vez.
Ele virou-se com cuidado, acenou e então partiu, para o lugar aonde todos os anos velhos vão e jamais retornam, a não ser na memória da gente. 

É isso, pessoal, estamos chegando ao fim de mais um ano, que foi conturbado, perturbado, animado e recheado de surpresas e é exatamente tudo isso que desejo para todos no próximo ano e adicione também uma pitada de fé em si mesmos para que seus sonhos jamais se desvaneçam e sim se realizem conforme for a necessidade. Desejo também que as alegrias se multipliquem e que o amor chegue a ponto de transbordar, mas não transborde (ele é valioso demais para se desperdiçar) e que os ressentimentos, mágoas e tristeza possam encontrar seu modo de transformarem-se em algo positivo. Desejo que cada dia seja abençoado e que seja vivido com muito apreço, pois cada um deles é único, sem preço e insubstituível. Um feliz ano novo acompanhado de tudo que há de bom para você que está lendo isso e para um mundo cheio de problemas que precisa descobrir o que é a felicidade e solidariedade. 

O menino que acreditou

| sábado, 24 de dezembro de 2011


Londres – meados de 1800

O destino é cruel se você é pobre e a vida não dá a mínima para isso, aprendi essa lição da pior maneira possível, acredite. As pessoas têm fachadas e tantos lados quanto a soma de vários dados, algumas tendem a ser boas, generosas e, até certo ponto, altruístas, ao passo que outras desenvolvem sentimentos amargos e se tornam más, de qualquer forma, não devo julgar. Aliás, julgar é o que menos faço, pois aprendi também que quando se trata do ser humano, podemos nos surpreender. Sempre.
Nasci em um berço qualquer, fui abandonado em uma viela qualquer e levado para um orfanato qualquer. Hoje ajudo a comandar o lugar, mas não estou aqui para falar de mim.

Na primavera passada – época do desabrochar das flores e de temperaturas amenas com gosto de família e abraço de mãe – acolhemos Oscar. Franzino, pequeno para a idade e extremamente curioso e falador. Durante suas primeiras semanas aqui ele não teve problemas em se enturmar, mas nunca falava de sua origem.
O verão expulsou a primavera e iluminou a casa velha em que moramos, as janelas foram abertas para o vento entrar e percorrer os quartos e brincar com as crianças – assim a temporada de visitas começou. Sorrisos foram ensinados, cumprimentos e boas maneiras foram mais cobrados, tudo na mais pura intenção de deixar aquelas portas em rumo de um novo lar, ou talvez o primeiro lugar que pudesse verdadeiramente receber esse nome.
Lembro-me do empenho de Oscar para ajudar todos os outros meninos, enquanto se escondia quando uma família tentava conversar com ele.
- Ainda não chegou a minha vez – ele me disse sem rodeios quando perguntei o motivo.
As visitas diminuíram até cessarem por completo. Três crianças encontraram quem chamar de mãe e pai.
Assim que o outono começou a varrer as folhas das árvores e abaixar a temperatura, começamos a nos preparar para o inverno. A mais devastadora das estações. O inverno é impiedoso e seu frio espalha-se pelas veias, tentando nos congelar de dentro para fora.
Vivemos da ajuda das pessoas boas e infelizmente elas parecem estar deixando de existir.
Quando dezembro deu as caras, avistei o sorriso mais exuberante no rosto de Oscar, que passou a correr pelos corredores berrando que o Natal estava próximo e quando não lhe davam atenção, ele atirava um bola de neve para se fazer notar.
- O Natal é minha época preferida – ele comentou muito sugestivamente – Pedi uma família para o Papai Noel – e seu sorriso tímido surgiu outra vez. Eu não soube o que dizer, apenas afaguei seus cabelos bagunçados e voltei para meus afazeres.
Na semana do Natal, numa manhã criteriosamente gelada, acordei pelos murmúrios alvoroçados das crianças no pátio. Caminhei até lá, esfregando os olhos para afastar o sono e me deparei com Oscar, na calçada, segurando o que parecia ser um pequeno pinheiro em frangalhos.
- Não é assim que as coisas funcionam aqui – eu lhe disse severamente, tomado pelo mau humor de ter sido acordado –, o Natal não existe dessa porta para dentro.
- Só porque você perdeu a fé no Natal, não significa que o Natal perdeu a fé em você – ele rebateu muito sabiamente e entrou com o pinheiro. As outras crianças o abraçaram e trataram de ajudá-lo a enfeitar a árvore.

O Natal chegou e passou, os pedidos feitos rapidamente foram esquecidos na manhã seguinte. Esgueirei-me para o quarto de Oscar, para ver como ele estava.
- Não foi dessa vez – ele me disse e seu sorriso não apareceu –, mas eu sei que um dia meu pedido vai se realizar, como sei que depois desse inverno virá a primavera.

Vários invernos se passaram e ainda muitos tornarão a passar e todo Natal, aquele garotinho de olhar sorridente, que agora se tornou um homem quase feito busca uma árvore e a enfeita para aquecer a magia da esperança dentro de cada criança que tenha um pedido semelhante ao seu. 

Pauta para Bloínquês
Bom, galera, Natal é época de doação, assim como deixei exposto no conto. É uma época para olhar mais intimamente e assim olhar para o outro e deixar aquela fagulha de fé e esperança crescer, para que ela não se perca em outros períodos. Desejo a todos um Natal maravilhoso, independente de como você tenha decidido passá-lo. Grande abraço.

Nuances de uma amizade - Ele

| terça-feira, 20 de dezembro de 2011


♫ (...) When I can’t find the words
You teach my heart to speak... 
You make it real - James Morrison

Nós homens somos mais práticos, desapegados e calados. Não que isso seja uma regra geral, mas normalmente é assim que é, portanto as coisas nem sempre funcionam de acordo com o que temos em mente.
A ideia de se prender a uma garota é, no mínimo, assustadora – poucos homens sonham com uma esposa, filhos e um churrasco no quintal com os vizinhos estranhos –, e eu, definitivamente, não faço parte desse pouco. É óbvio que deve ser incrível encontrar aquela garota perfeita que seja compreensiva, até quando você não diz nada, que ria das suas idiotices mais estúpidas e que tenha orgulho de te ter por perto só para dizer que te pertence. A garota que não se incomode em lhe dizer verdades que você nem sempre quer ouvir e que lhe dê conselhos quando precisar. Eu conheço uma garota assim.
A garota ideal, nesse caso, é minha melhor amiga. É estranho ver nela todas as qualidades que deveriam estar em outras garotas, pois somos amigos... bem, somos algo mais que isso.
Ela é aquela que me abraça sem arranjar uma desculpa, que me beija sem receio e segura minha mão só para sentir o calor do meu toque. Ela sorri ao olhar para mim e com isso me arranca um sorriso singelo e natural, sem motivo. Ela me olha por minutos sem dizer uma palavra e me encara na tentativa de permanecer séria, mas sempre perde e cai na risada. Ela é aquilo que preenche a falta de não ter alguém e se encaixa de forma tão perfeita que não há necessidade de mais ninguém.
Nós fizemos um acordo de não deixar que os sentimentos se infiltrassem no que temos, pois perderia todo o sentido, afinal, quando perguntam, respondemos que somos só amigos. E somos, não é?
Eu nunca me preocupei em dar um nome diferente ao que temos. Se é amizade colorida, aquarela ou tinta guache, não importa... ou não importava. Às vezes eu tenho a curiosidade em saber o que temos de verdade, em saber o que é isso que nos mantém unidos e enlaçados nessa forma que é tão simples e pura.
Ela é meu porto-seguro quando sinto uma tempestade pela frente, é quem me vem na mente quando tenho uma novidade pra contar, é quem compartilha meu sucesso e fracasso e quem sorri e chora ao meu lado, mas serão estas apenas cores de nossa amizade? Acho que preciso mesmo de uma resposta, mas não tão depressa.
Talvez devamos viver o que temos de forma despreocupada, como temos feito, até o dia em que... Não, não gosto de pensar que pode surgir outro alguém. A mera hipótese de perdê-la me assusta terrivelmente – sentimentos que deveriam ficar ofuscados parecem estar encontrando cores vibrantes para se fazerem notar.
Qual a ideia dela de tudo isso? Aonde ela pensa que vamos chegar? Se é que caminhamos na direção de algo. Não tenho mais certeza das coisas e as dúvidas traiçoeiras me encaram no escuro, indagando respostas, que eu não tenho.
Já disse que os homens são adeptos do silêncio e quando se veem nesse tipo de situação, preferem que lhe digam o que fazer, mas se ela disser que devemos parar? Ou cabe a mim esta decisão? Não. Não quero tê-la por perto sem suas cores.

Cadê aquela maluca com seu olhar pensativo para alegrar meu dia? Preciso dela agora, para dar o acalento que meu coração pede. Só ela consegue decifrar o silêncio em mim e este é um silêncio incrivelmente barulhento, mas ela entende. Entende até o que eu não digo. 

Nuances de uma amizade - Ela

| sexta-feira, 16 de dezembro de 2011


♪ (...) What if we were made for each other
Born to become best friends and lovers... 

Dizem que um “você é um idiota” de uma garota é um “eu te amo” disfarçado. Eu não posso dizer se concordo inteiramente com isso, afinal ele é um idiota, como tantas vezes eu já lhe disse.
A maioria das garotas sonha em encontrar o amor de sua vida – um cara charmoso e inteligente que apanhe flores e lhe dê caixas de bombons –, mas eu sou mais prática. Não que eu não sonhe com aquele grande amor, por mais patético que seja admitir, eu sonho. E no meu sonho é ele um cara normal, que me faça rir e que ria da minha cara quando houver oportunidade, um cara que me cubra de cócegas quando quiser tomar algo de mim e que beije a ponta do meu nariz no meio da noite.
É assustador o quanto a minha descrição de cara ideal seja as características de meu melhor amigo. Ele que me arranca as mais altas gargalhadas e me faz sorrir com pequenos gestos bobos. Ele que me suporta nos meus piores dias e ainda consegue achar paciência para fazer uma piada qualquer com o meu humor azedo – por dentro eu rio, ainda que ele nunca vá saber disso. Ele que está sempre ao meu lado quando preciso de alguém e quando meus lábios pedem um beijo. Aprendi a buscar pequenas doses de paixão na boca dele, na pessoa dele.
Muitas pessoas diriam que isto é errado e que devemos descobrir o que realmente queremos e o que temos, mas acredito que não precisamos de um rótulo que nos defina e já fizemos um acordo de que não haverá sentimentos envolvidos. Às vezes alguns sentimentos são grandes inconvenientes.
Somos dois amigos, grandes amigos, que ficam juntos quando há a necessidade ou quando o momento é propício... ah, eu devo ser honesta e confessar que algo mais nele me atrai e que não suporto o fato de que ele possa ficar com outras garotas, talvez isto seja apenas um ciúme tolo de amigo. É, é isso.
Meu coração me diz que se há algo, mesmo que pequeno e, a nosso ver, superficial, é porque estamos destinados. Fomos destinados a viver algum tipo de história, só não posso dizer se estamos escrevendo um romance ou um drama.
Ele tem tudo o que preciso. Ele é exatamente o que eu nunca procurei, mas o que eu encontrei, porque era assim que devia ser.
Meu amigo colorido que ofusca o preto e branco dos meus dias e faz minha vida mais feliz. Eu não sei o que vai acontecer entre nós, mas por enquanto ele é meu melhor presente e não consigo enxergar um futuro sem que ele esteja por perto.
E quanto mais perto, melhor – malditos sentimentos, talvez eles devessem permanecer em silêncio e permitir que eu viva livremente o máximo que eu puder.
Eu só queria saber o que ele pensa sobre tudo isso e por mais que um lado me diga que devo parar com essa mistura de emoções, o outro pede mais. Ainda não decidi qual lado devo ouvir e com certeza não estou preparada para nenhuma decisão agora, porque o que temos é bom e é o bastante para me fazer feliz.

Onde está ele com aquele sorriso retardado para animar meu dia? Preciso dele aqui, sua presença acalma meus pensamentos e dá vozes ao que já se calou dentro de mim. 

Logo em breve - Ele

Palavrear

| segunda-feira, 12 de dezembro de 2011
Primeiramente vou lhes descrever meu ambiente de trabalho, acredito que desta forma você possa me conhecer melhor, afinal minhas palavras vão lhes dar as mãos e guiá-los pelos caminhos sinuosos que eu conduzir – escrevo de um quarto com baixa iluminação, apenas claridade o suficiente para enxergar a nuvem de ideias sobre a minha cabeça e o pequeno palco onde meus dedos valsam na composição de palavras e parágrafos.
Tenho a impressão de que cada pessoa é destinada a algo nesta vida, não que necessariamente todas elas irão cumprir seu papel ou seguir o roteiro exatamente como manda o figurino, não... na verdade, estou falando que todos estão destinados a serem artistas. Cada um a seu modo singular. Cada um com sua arte individual.
Eu poderia estar encarando plateias e emocionando as pessoas na pele de personagens numa peça de teatro, mas não tive o privilégio de me tornar um ator. Eu poderia então guiar os sentimentos alheios através de notas musicais ou do som da minha voz, mas não fui agraciado pelo dom de cantar e me perco nas partituras, além da minha péssima coordenação motora que não me permite tocar instrumento algum. Quem sabe eu poderia ser um daqueles dançarinos excepcionais, que parecem flutuar sobre os próprios pés, mas também não fui sortudo nesse quesito. Contudo, eu disse que cada um tem a sua arte viva dentro de si. A minha arte é a escrita, é o dom de dar forma aos pensamentos, talvez até antes mesmo de eles existirem. É a arte de mostrar às pessoas mundos que não estão ali, pessoas que poderiam ser conhecidas e até são, por certo tempo e delinear situações sutis e trágicas que muito bem poderiam ser reais.
A minha forma de ser artista é simples. Eu apenas construo conjugações de verbos, ligo palavras, costuro travessões e pontos finais. Eu palavreio.
Toda arte tem sua beleza, assim como toda palavra tem sua verdade. Nesse momento não sei dizer o que vai surgir na próxima linha, não consigo prever quando o meus dedos se cansarão, nem quando o fim vai chegar, sabe por quê? Porque a arte da escrita é imprevisível, você nunca sabe aonde vai chegar, a menos que comece a escrever.
Atores, músicos, cantores e dançarinos precisam de palmas, elas são o reconhecimento. O carinho demonstrado pelo público. Puras e lindamente capazes de transformar. Um escritor precisa de um par de olhos que leia sua obra, ele precisa de palavras de outrem que lhe digam o valor de seu talento e até mesmo do silêncio de uma expressão que mostre o quanto ele foi capaz de tocar o leitor.
Artistas em geral não pedem muito, porque a arte é uma dádiva e dádivas devem ser compartilhadas. Por isso eu palavreio, para que você leia e para que eu tenha a mínima pontinha de esperança de que mudei algo em você, nem que seja só por aquele momento. 

Mais eu texto em homenagem aos blogs, o Palavrear é o blog da Sara R. Carneiro. Espero que ela não se incomode que eu tenha usado o nome de seu blog aqui e espero que tenha gostado e você também. É isso, grande abraço, seus sorridentes.

Do tempo que escorre pelos dedos

| terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Quer descobrir o que ele faz sozinho naquele banco?
Não

Clique em sim para ler meu novo conto na Franquia.

Ao caro futuro Eu

| quinta-feira, 1 de dezembro de 2011
De um eu que é e que um dia terá sido

Dizem que é necessário certo tipo de sapiência para entender os ases que o destino guarda na manga, mas hoje tenho que discordar de tal afirmação, pois sei que um bom observador vê além do que os olhos oportunamente mostram e, portanto sabe discernir quando o acaso está apenas blefando descaradamente.
 Espero que nessas estradas longínquas dos vários amanhãs que percorreste, você tenha encontrado as respostas para diversas das perguntas que um dia eu me fiz. Espero que já tenha aprendido que a autoconfiança nem sempre é sinal de sucesso e de que demonstrar o medo também não é sinônimo de covardia.
Um olhar vago como o meu, ofuscado pelo tempo em andamento não me concede privilégios maiores para dizer como vai a nossa vida. Você ainda tem aquele sonho bobo de mudar o mundo e provar para as pessoas que ainda existe algo pelo qual lutar? E será que você se desarmou daquelas utopias ridículas que sempre lhe causaram frustrações? Ah, e sobre seu grande sentimento de conformismo? Como ele está?
Eu sei que algumas coisas não mudam, mesmo que o tempo dê dezenas de voltas em torno de si mesmo e pensando bem, se não mudam é porque são fragmentos da essência e se tirar a essência o que sobra?
Estamos esperando por tantas coisas, desejando mudanças, buscando soluções e ignorando várias responsabilidades que realmente não deveriam ser deixadas de lado – mas quem eu quero enganar? Você se conhece muito bem.
Queria te ver quando estivesse lendo esta carta, analisar seu semblante tão apático e tentar desvendar as palavras por detrás de suas sobrancelhas franzidas ou daquele sorriso irônico silencioso. Certamente você estaria avaliando seus arrependimentos, que mais certamente ainda, seriam mais por causa das coisas não feitas do que pelos erros patéticos que cometemos. Talvez um dia você aprenda que esperar pelas coisas o tempo todo é uma perda de vida, pois o tempo nunca nos pertenceu para que o percamos.
Não há muito mais o que dizer, na verdade já não me recordo o motivo pelo qual comecei a escrever tudo isso. Provavelmente eu não queria que você se sentisse sozinho – por falar nisso, você ainda é hermeticamente fechado para os sentimentos ou você encontrou uma chave para destrancar-te no meio de seu trajeto? Obviamente saberei de todas as respostas quando eu me tornar você e ser apenas um eu perdido na poeira do passado.
Para finalizar, quero reacender em ti aquele otimismo enjoativo que você sempre teve, lembrando-o de que quando o sol não brilhar, podemos aprender a desenhar com as nuvens.

Para um eu que não é e um dia será
 

Copyright © 2010 A arte de um sorriso