Keblinger

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Passos ao acaso

| quinta-feira, 10 de novembro de 2011
Por muito tempo caminhei sem rumo, seguindo passos de alguém que eu não via, deixando rastros que poderiam ser ou não seguidos. Eu viajava por uma estrada secundária, sem muitos viajantes a me fazer companhia. Levava na bagagem apenas o que eu necessitava no momento e pouco dinheiro para se manter. Eu era um nômade vivendo a vida à sua maneira, ditando minhas próprias regras e compondo minha própria canção. As dúvidas me esperavam nas encruzilhadas e as respostas palpitavam em meu instinto. Direita ou esquerda? Qual caminho seguir? Já não me recordo quantas vezes me fiz essa pergunta, mas isso não importa, acertando ou errando a direção, eu segui adiante. Meu caminho nem sempre foi plano, encontrei pedras, ladeiras íngremes e barreiras que quase me fizeram desistir, mas eu continuei. Confesso que até colecionei algumas pedras e as levo na mochila.
Carrego sempre comigo meu velho e surrado caderninho de anotações, mas a maioria delas eu faço na cabeça, guardo na memória aquilo que me é importante e no coração aquilo que me é valioso. Certa vez, numa dessas minhas andanças solitárias e sem rumo, encontrei um velho caminhante que vagava livre e incerto como eu, trocamos poucas palavras, lembro-me de ter lhe perguntado o motivo pelo qual ele caminhava daquela maneira, afinal ele já era um velho fraco, as palavras dele ainda ecoam em minha mente e preenchem uma linha de meu caderninho. Ele me disse "Nós fazemos nossa própria sorte, e então chamamos de destino", depois disso tomou o caminho oposto ao meu de uma encruzilhada. Sorri ao vento enquanto anotava as palavras, tentando encontrar o sentido nelas e entender realmente o que ele quis dizer com isso.
Naquela mesma noite, observando as estrelas brilharem no manto azul-marinho do céu, ponderei mais uma vez sobre aquela frase e percebi que muitas vezes esperamos que o destino decida as coisas por nós, esperamos que ele nos livre das situações difíceis e nos ensine a lidar com as adversidades e conflitos, mas o destino é apenas um pedaço de madeira na mão de uma marceneiro e nós somos os marceneiros. Moldamos nosso destino conforme queremos. Nos machucamos com algumas lascas da madeira, talhamos em busca da figura perfeita, mas se a escultura final vai ser bela ou não, isso não depende de mais ninguém, apenas de nós mesmos.
Acordei junto ao nascer do sol, que me lambia com seus raios cálidos de bom dia. Acordei com um pensamento certo. De agora em diante eu sabia meu destino, eu não esperava por ele. Aquele velho, que posso nunca mais ver, me ensinou uma lição valiosa que levarei para toda a vida, nem tive tempo de agradecê-lo por isso.
Sei que em meu caminho pela frente ainda encontrarei milhares de encruzilhadas duvidosas, mas decidi aonde quero ir. Decidi onde quero que minhas pernas cansadas me levem. Meu corpo pede paz, minha espírito errante pede descanço. Meu caminho agora é em direção ao meu lar. Escolhi meu caminho, moldei minha escultura na madeira.
Apesar de muitos passos que dei, por caminhos sinuosos, nunca deixei de me perguntar por onde anda aquele velho sábio. E quem o vai saber? Ele está perdido nas estradas da vida, buscando ou alterando seu destino, como outrora eu havia feito.
Me perdi em meus passos para encontrar meu caminho de volta ao meu lar, a vida é engraçada. Às vezes basta nos perdermos para nos encontrarmos.

2 sorrisos compartilhados:

{ Alexandre Fernandes } at: 10 de novembro de 2011 23:50 disse...

Pois é, basta que nos percamos para que nos encontremos. A vida é muito curiosa mesmo. No mais, as encruzilhadas são essenciais. São as opções pelas quais a vida nos entrega. O destino está nas nossas mãos. E nós é que escolhemos. Não há caminho errado. Desde que você sgia adiante, você irá sempre coletar uma lição bonita no percurso que seguir. Mesmo que por meio de um sofrimento ou por um lindo encantamento...

Lindo texto meu amigo!!

Abração!

{ A Escafandrista } at: 21 de novembro de 2011 18:05 disse...

Tantas partes valiosas neste texto.. acho que a que mais me tocou foi: muitas vezes esperamos que o destino decida as coisas por nós. Ainda estou avaliando o impacto destas palavras... Bjo de saudades.

 

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