Keblinger

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A falta das borboletas

| terça-feira, 1 de novembro de 2011


Enquanto a noite se entrega em seu negror profundo e desemudece o silêncio acorrentado pela luz do dia, eu vago na sombra do tempo, perdido em meus próprios passos e preso em devaneios ébrios que sempre me levam até você.
As horas cravam suas unhas nas entranhas da madrugada – o vento sopra lá fora, cadenciado e melancólico, sussurrando uma canção de ninar na vã esperança de me fazer adormecer – e minha mente rebusca e revira as memórias daquilo que não aconteceu, só pelo prazer sádico de me ver chorar lágrimas de saudade e medo.

Há muito tempo você se foi para não mais voltar. Partiu de modo tão brusco e repentino que a ferida que se abriu em meu peito sangrou com tamanha fluidez, impossível de se estancar. Improvável de se curar.
Seu adeus veio mascarado de “até logo”, simples, prático e transbordado em desapego. Senti-me tão desamparado e confuso que não me lembro ao certo como reagi quando soube que não te teria por perto outra vez.
As lembranças que tenho são dos sorrisos e da felicidade compartilhados, dos momentos em que a alegria nos dava as mãos e nos guiava pelos seus campos floridos e cheios de borboletas amarelas – pois você me disse uma vez que as amarelas te deixavam feliz e depois disso sorriu, aquele sorriso que me fazia cócegas na alma –, mas as borboletas voam para longe quando a nuvem escura da tristeza encobre o céu das lembranças e te arrasta para longe, para um horizonte tão distante que não importa o quanto eu corra, ele sempre se afasta, te carregando consigo.
A distância te silenciou, mas apesar disso, toda noite de insônia eu penso em te escrever, só para te dizer que eu amo toda a imperfeição que te torna perfeito* e que – ao som melódico do vento – minha vida e minha felicidade não são e nem nunca serão as mesmas sem você por perto, pois você me ensinou a ser quem eu sou e me entendeu como ninguém jamais poderia.
Em seus olhos eu via a janela para os meus e dentro deles, ela estava sempre aberta.

Um dia, talvez, você volte. Você me procure e diga que também sentiu minha falta e que a saudade sufocou tanto que seu corpo doía por completo e que essa dor se tornou tão insuportável e te fez voltar.
Aí então, as borboletas – sim, aquelas amarelas – voltariam a nos visitar e flutuaríamos em suas asas como grãos ínfimos de pó e dançaríamos nas costas do vento, que ainda sopra lá fora, em sua serenata insistente.
Vou calar meus pensamentos e ouvir sua canção, minhas pálpebras precisam de descanso, assim como meu coração, que de um lado pulsa machucado e do outro pulsa em vão. 

*Frase de Renata Angra, uma grande amiga que, às vezes, brinca de ser poeta.
Pauta para Bloínquês

3 sorrisos compartilhados:

{ Luana S. Santos } at: 1 de novembro de 2011 17:18 disse...

( Eu sumi, eu sei, rsrs mas aqui estou eu).

Não sei o que pior na fase ' destou sentindo saudade' se é quando sentimos saudade do que um dia tivemos ou se passamos para a fase de ter saudade de tudo aqui imaginamos que poderiamos ter. A esperança é outro sentimento que por mais bonito que seja também trás consigo suas mágoas e suas facas.

Bjs!

Anônimo at: 1 de novembro de 2011 20:38 disse...

Pense que talvez esta saudade, seja frutos de sua incerteza. Talvez ela só exista pq vc a criou.
Não te conheço, mas lendo isso está mais que claro, que vc precisa se conhecer e se amar.

Débora Cristina at: 24 de fevereiro de 2012 13:33 disse...

Muito lindo! E também adequado ao meu momento.
E é pra tocar a alma.

 

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