Keblinger

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O sonho da bailarina

| domingo, 27 de novembro de 2011

As clássicas notas do piano, destilando Für Elise de Beethoven espantam o som do nada e preenchem as lacunas do ar dando vida a bailarina que se esquece de ser apenas um objeto para bailar em seu perímetro compacto.
Ela gira em torno de si mesma e ao redor do ritmo suave da melodia, como se o som se desprendesse dela e conduzisse o tempo e não o contrário. Sua dança solitária e sem plateia traz apenas o aplauso amargo da tristeza. Sua vida frágil nunca lhe proporcionara algo mágico e grandioso. Seu destino estava preso na caixinha de música, selado por imã que a sustentava sobre seu próprio peso insignificante.
A bailarina tinha um sonho, maior que o seu ser. Um sonho de libertar-se de sua condição inanimada e saltar nas pontas dos pés nos mais variados palcos do mundo. Ela tinha o sonho de ser reconhecida, de ter olhares ávidos sobre ela e expectativas sobre seus próximos passos... mas seu sonho se trancava no escuro quando a tampa da caixa era baixada.
Suas lágrimas irreais e invisíveis respingavam no piso e a escuridão engolia todas as suas esperanças de se tornar alguém que ela nunca poderia ser. Por vezes ela ouviu as pessoas dizendo que tudo é possível se você tiver fé o bastante e força de vontade, porém, essas mesmas vozes quebravam o silêncio de seus pensamentos para lhe dizer que há sonhos que jamais se realizarão, não importa o quanto você deseje e nem o quão forte seja sua fé. Então ela chorava.

A bailarina incansável e sonhadora nunca pisou em outro lugar a não ser aquele a qual sempre pertenceu. Ela nunca ouviu o som da ovação por uma apresentação sua e nunca mais foi capaz de dançar quando, por descuido, derrubaram sua caixa protetora e ela se desfez em vários pedaços espalhados pelo chão.
Seu grito mudo não foi ouvido por ninguém e sua queda não foi tão sentida, mas ela livrou-se, enfim, das correntes que a segurava. Sua pequena alma na forma de um floquinho de luz projetou-se pela janela e atirou-se na cauda do vento, onde ela valsou, rodopiou e inventou passos magníficos.
Hoje em dia ela ainda baila por todos os cantos, ao som de diversas canções e sinfonias. Livre. Despretensiosa. E mais sonhadora do que nunca.
Ela entendeu que alguns sonhos são realmente impossíveis, mas que também sempre há a possibilidade de trocá-los por um que não seja.

Clique no nome da música pra ouvi-la, caso não a conheça. 

Sobre a chuva e temores

| quarta-feira, 23 de novembro de 2011
Para uma questionadora nata

Ontem me peguei lembrando daquela tarde chuvosa em que você repentinamente me perguntou do que eu tinha medo. Enquanto meu silêncio falava por mim, você me confidenciou que tinha medo de trovões e me pediu que lhe desse um abraço protetor – como se eu, fraco como sou, pudesse garantir alguma proteção.
As palavras sempre escorrem por entre meus dedos quando você me encara com seus olhos indagadores e sedentos de respostas e por isso sinto-me mais confortável ao lhe escrever. Eis aqui minha resposta à sua pergunta daquele dia de chuva:
Eu não tenho medo da solidão, contanto que você esteja do meu lado provando que ela não existe; não temo a distância se te tenho sempre ao alcance dos meus olhos; não me assusto com o vazio da saudade, pois quando tateio em busca de um refúgio você sempre está presente; as noites em que o vento sussurra melancolia não são tão apavorantes, pois destranco as memórias mais iluminadas de nós dois e tudo fica bem; já não mais tenho medo da minha própria mudez, pois sei que você aprendeu a decifrar meu calar... por fim devo logo admitir que também tenho medo de trovões, daqueles que ribombam no horizonte e que fazem a terra tremer de susto, mas nem eles conseguem me amedrontar por completo quando você está do meu lado me pedindo por um abraço que, na verdade, é a proteção que eu preciso, ainda que você não saiba disso.
Meu maior medo é piscar de um modo mais demorado e ao abrir os olhos não encontrar sua presença; é buscar por seu sorriso e encontrar o nada debochando sadicamente; é estar em casa sozinho numa tarde de chuva e não ter seus braços para me aconchegar; é saber que a tempestade não se abrirá num arco-íris quando você estiver longe.
O medo que se desprende de meu âmago e atinge a superfície é o temor tremendo que tenho de te perder, pois se isto acontecesse, em minha vida já não haveria mais sol, o mundo seria eternamente nublado e cheio de trovões furiosos.
As gotas começam a cair das nuvens outra vez, só lhe peço que não se demore a chegar, estou encolhido no canto do quarto à espera de seu abraço – aquele capaz de acalmar até mesmo a fúria do céu – para me aliviar o medo e me fazer ter a certeza de que ele será meu conforto para sempre.

De um assustado omisso.

Pauta para Bloínquês

Dance comigo

| segunda-feira, 14 de novembro de 2011
Ela me encarou com aqueles olhos ocos e tão sedentos de vida e me pediu que eu lhe contasse tudo.
- Mas me diga apenas o que for bom – seus lábios se moveram e as palavras escorreram tão puras que trouxeram uma onda de tristeza. E eu a contei tudo. Tudo o que era bom.


A rua estava molhada, o céu estava molhado e até mesmo a noite não conseguira ser imune ao intenso banho que a chuva derramou. As gotas de água cristalinas e geladas se atiravam em queda livre e borrifavam o mundo numa cascata prateada. Não havia lua naquela noite, apenas o breu e o véu da escuridão na face da cidade.
Eu dirigia cautelosamente devido ao asfalto molhado e quando enveredei por uma rua de fácil acesso, me deparei com um carro parado no acostamento. As luzes piscavam animadamente, como se estivessem felizes pela chuva que caía. Eu estacionei ao lado do veículo e tentei enxergar através do vidro embaçado e através da cortina de chuva, mas não consegui.
Saí do carro e lá na rua estava uma moça. Ela não notou minha presença de imediato. Ela tinha o rosto voltado para o céu, os olhos fechados e os braços abertos e girava... Girava feito uma bailarina, dançando ao som das gotas que deslizavam por seu corpo e penetravam em suas roupas.
- Com licença – eu disse com certa insegurança e ela lançou-me um olhar maroto e saltitou para perto de mim.
- Não é mágico? – ela perguntou e abriu os braços outra vez, girando ao redor de si mesma.
- Você está bem? Quer que eu chame alguém?
- Estou ótima – ela me respondeu e um sorriso desabrochou em seu rosto – Dance comigo.
Eu recuei intrigado e ela me puxou. Não sei por quanto tempo relutei até deixar-me levar pelo leve balanço de seus movimentos e pelo ritmo cadenciado da chuva, que continuava a cair,  tocando a melodia para nossa dança.
- É mágico – eu respondi finalmente e ela sorriu outra vez. E era bom ver o seu sorriso.

Ela piscou assim que eu terminei de contar, como se estivesse presa nas imagens que visualizava em sua mente.
- Eles ficaram juntos? – ela perguntou e seus olhos me encararam. Tão vazios de lembranças e aquilo me apunhalava na alma e me fazia chorar por dentro.
- Sim, eles ficaram juntos por muito tempo e foram tão felizes que tal felicidade não se cabe em palavras – eu contei.
Ela sorriu ternamente e fechou os olhos para se entregar ao sono.
Enquanto eu a observava dormir, eu sentia a dor cavar mais fundo dentro de mim, forjando uma toca para se alojar e permanecer definitivamente.
Ela não se lembrava mais das coisas. Ela não se lembrava de ser a moça na chuva, com o sorriso, com a alegria e espontaneidade, mas ela se lembrava de mim, pelos menos isso a doença não lhe tirou e todas as noites, antes que ela adormeça, eu lhe conto a história de quando nós nos conhecemos e ainda tenho a esperança de que talvez um dia ela se lembre e de que seu sorriso doce daquela noite possa chover em mim outra vez. 

Pauta para Bloínquês

Passos ao acaso

| quinta-feira, 10 de novembro de 2011
Por muito tempo caminhei sem rumo, seguindo passos de alguém que eu não via, deixando rastros que poderiam ser ou não seguidos. Eu viajava por uma estrada secundária, sem muitos viajantes a me fazer companhia. Levava na bagagem apenas o que eu necessitava no momento e pouco dinheiro para se manter. Eu era um nômade vivendo a vida à sua maneira, ditando minhas próprias regras e compondo minha própria canção. As dúvidas me esperavam nas encruzilhadas e as respostas palpitavam em meu instinto. Direita ou esquerda? Qual caminho seguir? Já não me recordo quantas vezes me fiz essa pergunta, mas isso não importa, acertando ou errando a direção, eu segui adiante. Meu caminho nem sempre foi plano, encontrei pedras, ladeiras íngremes e barreiras que quase me fizeram desistir, mas eu continuei. Confesso que até colecionei algumas pedras e as levo na mochila.
Carrego sempre comigo meu velho e surrado caderninho de anotações, mas a maioria delas eu faço na cabeça, guardo na memória aquilo que me é importante e no coração aquilo que me é valioso. Certa vez, numa dessas minhas andanças solitárias e sem rumo, encontrei um velho caminhante que vagava livre e incerto como eu, trocamos poucas palavras, lembro-me de ter lhe perguntado o motivo pelo qual ele caminhava daquela maneira, afinal ele já era um velho fraco, as palavras dele ainda ecoam em minha mente e preenchem uma linha de meu caderninho. Ele me disse "Nós fazemos nossa própria sorte, e então chamamos de destino", depois disso tomou o caminho oposto ao meu de uma encruzilhada. Sorri ao vento enquanto anotava as palavras, tentando encontrar o sentido nelas e entender realmente o que ele quis dizer com isso.
Naquela mesma noite, observando as estrelas brilharem no manto azul-marinho do céu, ponderei mais uma vez sobre aquela frase e percebi que muitas vezes esperamos que o destino decida as coisas por nós, esperamos que ele nos livre das situações difíceis e nos ensine a lidar com as adversidades e conflitos, mas o destino é apenas um pedaço de madeira na mão de uma marceneiro e nós somos os marceneiros. Moldamos nosso destino conforme queremos. Nos machucamos com algumas lascas da madeira, talhamos em busca da figura perfeita, mas se a escultura final vai ser bela ou não, isso não depende de mais ninguém, apenas de nós mesmos.
Acordei junto ao nascer do sol, que me lambia com seus raios cálidos de bom dia. Acordei com um pensamento certo. De agora em diante eu sabia meu destino, eu não esperava por ele. Aquele velho, que posso nunca mais ver, me ensinou uma lição valiosa que levarei para toda a vida, nem tive tempo de agradecê-lo por isso.
Sei que em meu caminho pela frente ainda encontrarei milhares de encruzilhadas duvidosas, mas decidi aonde quero ir. Decidi onde quero que minhas pernas cansadas me levem. Meu corpo pede paz, minha espírito errante pede descanço. Meu caminho agora é em direção ao meu lar. Escolhi meu caminho, moldei minha escultura na madeira.
Apesar de muitos passos que dei, por caminhos sinuosos, nunca deixei de me perguntar por onde anda aquele velho sábio. E quem o vai saber? Ele está perdido nas estradas da vida, buscando ou alterando seu destino, como outrora eu havia feito.
Me perdi em meus passos para encontrar meu caminho de volta ao meu lar, a vida é engraçada. Às vezes basta nos perdermos para nos encontrarmos.

2 anos de sorrisos

| quinta-feira, 3 de novembro de 2011


Como já fica claro pela imagem e pelo título, hoje o blog completa 2 anos. YAAAY.
Dois anos de blog não são duas semanas nem dois meses, é preciso muita dedicação e vontade para mantê-lo “vivo” durante todo esse tempo. Apesar dos trancos e barrancos consegui deixá-lo ativo, pois não consigo me afastar daqui e pensei em comemorar essa data, relembrando os pontos altos do segundo ano de minha estadia nesse endereço eletrônico que se tornou uma casa cheia de amigos e visitantes.

Quando completei um ano de sorrisos eu estava vivendo como um eremita que conheceu um dragão um tanto quanto misterioso e interessante e isto fez com que surgisse uma amizade inesperada entre os dois. Nesse meio tempo fiz algumas singelas homenagens a blogs que eu acompanho. 
No mês de dezembro embarquei numa aventura ao lado de um Papai Noel afundado numa crise terrível enquanto me despedia dos amigos da faculdade e sentia a falta surgir sorrateiramente.
Também nessa época apresentei aqui um homem que de tão solitário havia se apaixonado pela lua, pobre coitado e como último post de 2010 mostrei um diálogo entre o Ano Velho e o Novo.
Janeiro chegou com um novo conto em partes, a história de dois primos curiosos seguindo pistas deixadas pelo avô em sua enorme mansão, em busca de algo secreto.
Fevereiro, o menor dos meses, foi marcado pelo meu maior conto, a sangrenta história de um serial killer impiedoso.
Em março postei meu discurso de formatura, entrei na pele de um homem com o coração de pedra que se tornou uma estátua pela maldição de uma bruxa e contei o drama de um escritor alcoólatra frustrado.
Abril e maio foram os meses vampirescos, comecei a publicar um conto sobre um vampiro, que cresceu demais para estas páginas e sua história hoje em dia está sendo contada na forma de um livro que eu ainda não terminei.
Em junho mostrei a insípida rotina de um homem que trabalha num farol, conto que me rendeu o primeiro lugar na ABL e me deu "A hora da estrela" de Clarice Lispector.
Em julho atingi o marco de 300 postagens e publiquei meu conto inédito “O escritor que nunca viu”, o qual dá o nome a um livro de contos publicado no ano passado.
Agosto foi a época dos contos protagonizados por animais, destacando a história de Abel e Ariel, um romance bonito, mas incomum.
Em setembro voltei a publicar um conto em partes, uma história de amor virtual.
Retornei oficialmente a estas páginas no final de outubro, que dá destaque ao conto “A vitrine de sorrisos”, para fazer jus ao nome do blog.
Novembro chegou com a ausência das borboletas amarelas e com o aniversário.

Foi um prazer dividir este espaço com todos vocês nesses dois anos e esta experiência tem sido maravilhosa. Aprendi tanto quanto tentei ensinar e conheci diversas pessoas excelentes que eu nunca teria conhecido se não fosse por aqui.
Essa comemoração é dedicada a todos que me ajudaram chegar até aqui e que a gente possa sorrir mais juntos, enquanto pudermos.
Um grande abraço desse cara que andou sumido, mas que reencontrou o caminho de casa.

A falta das borboletas

| terça-feira, 1 de novembro de 2011


Enquanto a noite se entrega em seu negror profundo e desemudece o silêncio acorrentado pela luz do dia, eu vago na sombra do tempo, perdido em meus próprios passos e preso em devaneios ébrios que sempre me levam até você.
As horas cravam suas unhas nas entranhas da madrugada – o vento sopra lá fora, cadenciado e melancólico, sussurrando uma canção de ninar na vã esperança de me fazer adormecer – e minha mente rebusca e revira as memórias daquilo que não aconteceu, só pelo prazer sádico de me ver chorar lágrimas de saudade e medo.

Há muito tempo você se foi para não mais voltar. Partiu de modo tão brusco e repentino que a ferida que se abriu em meu peito sangrou com tamanha fluidez, impossível de se estancar. Improvável de se curar.
Seu adeus veio mascarado de “até logo”, simples, prático e transbordado em desapego. Senti-me tão desamparado e confuso que não me lembro ao certo como reagi quando soube que não te teria por perto outra vez.
As lembranças que tenho são dos sorrisos e da felicidade compartilhados, dos momentos em que a alegria nos dava as mãos e nos guiava pelos seus campos floridos e cheios de borboletas amarelas – pois você me disse uma vez que as amarelas te deixavam feliz e depois disso sorriu, aquele sorriso que me fazia cócegas na alma –, mas as borboletas voam para longe quando a nuvem escura da tristeza encobre o céu das lembranças e te arrasta para longe, para um horizonte tão distante que não importa o quanto eu corra, ele sempre se afasta, te carregando consigo.
A distância te silenciou, mas apesar disso, toda noite de insônia eu penso em te escrever, só para te dizer que eu amo toda a imperfeição que te torna perfeito* e que – ao som melódico do vento – minha vida e minha felicidade não são e nem nunca serão as mesmas sem você por perto, pois você me ensinou a ser quem eu sou e me entendeu como ninguém jamais poderia.
Em seus olhos eu via a janela para os meus e dentro deles, ela estava sempre aberta.

Um dia, talvez, você volte. Você me procure e diga que também sentiu minha falta e que a saudade sufocou tanto que seu corpo doía por completo e que essa dor se tornou tão insuportável e te fez voltar.
Aí então, as borboletas – sim, aquelas amarelas – voltariam a nos visitar e flutuaríamos em suas asas como grãos ínfimos de pó e dançaríamos nas costas do vento, que ainda sopra lá fora, em sua serenata insistente.
Vou calar meus pensamentos e ouvir sua canção, minhas pálpebras precisam de descanso, assim como meu coração, que de um lado pulsa machucado e do outro pulsa em vão. 

*Frase de Renata Angra, uma grande amiga que, às vezes, brinca de ser poeta.
Pauta para Bloínquês
 

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