Keblinger

Keblinger

Apenas um diálogo

| quarta-feira, 31 de agosto de 2011

- Você percebeu que somos diferentes? - um perguntou ao outro, despretensiosamente, apenas interessado em puxar assunto.
- Somos da mesma espécie, não somos? - o outro respondeu sentindo certa confusão.
- Sim, mas você não notou nenhuma diferença? - o outro insistiu.
- Não entendi muito bem aonde você quer chegar.
- Então você deveria prestar mais atenção.
- Não vejo grande diferença.
- Nem mesmo na nossa cor?
- Ah, era disto que você estava falando?
- Sim, somos diferentes.
- Eu não acho que a cor importa, no final somos iguais, se nos jogarem água, ambos nos molharemos; se nos espetarmos com um espinho, ambos sentiremos dor e isso não é por causa da cor.
O outro pensou por um momento e respondeu:
- É, você tem razão, a cor realmente não importa. Vamos mudar de assunto então - ele propôs em seguida - Há coisas mais importantes para conversarmos.
- Qual sua comida favorita? - o outro perguntou e então a conversa continuou naturalmente, como devia ser, sem discussões irrelevantes sobre coisas que não deveriam ser discutidas em primeiro lugar.
Na maioria das vezes é melhor escutar o coração e não os olhos.

Porque sua vida é você quem faz

| domingo, 21 de agosto de 2011
- Sim, eu posso cantar - ela disse em pensamentos, despreocupada com o que pudessem dizer.



Em meio a tantos pássaros canoros no meio da mata, onde o som se propaga e ecoa por quilômetros, ricocheteando nas árvores, havia uma coruja. Como não há nada melhor do que nomes para criar um laço de afeição, a chamaremos de Tália.
Tália era uma ave irônica e determinada, e saiba que isso não pode ser dito da maioria das aves, portanto ela era especial. É evidente que pios de coruja estão longe de serem considerados belos e inspiradores como canto dos rouxinóis, pássaros presunçosos (diga-se de passagem), mas nossa protagonista notívaga nunca se importou com a opinião alheia.
Todas as manhãs, antes de se embrenhar em sua toca e adormecer, ela escolhia um galho alto, numa clareira espaçosa e bastante acústica e soltava a voz. Seu canto esganiçado, ora desafinado, ora próximo ao considerado razoável, expandia-se pela floresta, arrepiando a copa das árvores e viajando nas costas do vento.
A maioria dos animais que acordavam com aquele despertador inconveniente se irritava e logo botavam uma carranca de mau humor na cara, não que isso incomodasse Tália. Ela fazia seu ritual musical fielmente todas as manhãs, até o dia em que abriu o bico e não ouviu sua voz estridente fluir para fora.
Apavorada, ela logo pensou que tivesse sido amaldiçoada pelas aves das belas vozes e que ficaria muda pelo resto da vida. Os dias se passaram e tudo o que ela conseguia produzir era o silêncio. O mais puro e assustador silêncio.
Tália, obviamente, recompôs-se e procurou ajuda. Em vão.
Quando suas esperanças estavam se esgotando, numa manhã fria de inverno, ela engasgou-se e ao tossir produziu um ínfimo ruído com a garganta. A chama da esperança flamejou.
Dias depois, ela estufou o peito, pomposamente, em seu palco improvisado e cantou. Cantou como se aquela fosse a última vez, errou e engoliu notas, atropelou a afinação e sentiu-se realizada, pois estava fazendo aquilo que a deixava feliz, independentemente da aprovação dos outros.
Tália não deixou de cantar quando lhe diziam que sua voz era horrorosa, ela não deixou de cantar quando a rouquidão a envolveu, porque cantar era sua essência e aquilo ninguém poderia lhe tirar.

Sim, eu sei que estou meio desaparecido e com poucas postagens, odeio isso, devo admitir, mas farei o possível para me manter mais presente (também sei que sempre digo isso, hehe).Vagando pelo we♥it, encontrei várias fotos (inspiradoras) de animais, e como tenho uma mente mirabolante e notando que a história de Abel e Ariel foi bem recebida, decidi escrever alguns contos protagonizados por bichos, espero que gostem da ideia e se divirtam como eu. Grande abraço.

Carta #4

| terça-feira, 16 de agosto de 2011

S.


Por tudo o que passamos eu simplesmente não posso me prender ao desapego e deixar todas as lembranças desvanecerem no ar, porém, manter essa chama de vontade de você me consumirá completamente e destruirá a tentativa de permanecer puro diante de minhas novas concepções. 
Às vezes não há um limite que separa aquilo que é bom daquilo que é nocivo, eu me recuso a encontrar defeitos onde só existe perfeição, assim como impeço minha mente e meu coração de arrancarem você de mim. Eu não estou pronto para livrar-me dessa perdição insana que suas lembranças invocam, o pecado ainda está nitidamente pregado em minha pele e enquanto pensar em ti me der forças para continuar, eu serei impuro e impróprio para este lugar sagrado. 
Meus suplícios contraditórios a minha verdadeira vontade imploram que você se retire de meus pensamentos e me proporcione a liberdade tão desejada, mas meus desejos mais secretos são mais fortes e sabotam qualquer tentativa de abrir mão de sua presença constante em minhas memórias imorais e me afundam cada vez mais no mar de culpa que rapidamente me afoga. 


N.

Quem acompanhou o conto "As cartas do monge sem nome" que eu postei no meio do ano passado se lembra (ou não) das cartas misteriosas, porém nas sete partes do conto foram apresentadas apenas seis cartas, decidi então escrever as outras, que serão postadas aleatoriamente. Para ler o conto clique aqui (e leia cada parte) e para ver somente as cartas clique aqui.

Das conjugações equivocadas

| sexta-feira, 5 de agosto de 2011
♪ (...) And one day I'll see you again, again
And someday when this war ends
I hope you remember this... ♫

Eu não me lembro quando foi que passei a precisar de você em minha vida como uma forma de sustento, era como se sem você eu literalmente perdesse o ar e então meus pulmões assustados gritavam seu nome e você vinha correndo me resgatar. Quando percebi que não havia razão para ser apenas eu sem você minhas antigas convicções sobre o amor desvaneceram e eu enxerguei através do véu que me cegava. O amor é real. Ele existe e é muito mais do que aquilo que se acredita. Descobri que quem ama, não ama só com o coração, pois o amor é de corpo inteiro.
Entendi que o verbo amar foi feito para ser conjugado no plural. Você me ensinou tudo isso. Você me deu a base para edificar esse sentimento grandioso em meu peito... mas assim que você partiu, meu mundo desmoronou, pois você era o pilar principal.
Meus dedos estão machucados e não conseguem juntar todos os pedaços espalhados pelo chão, então eu apenas sopro as fagulhas do pó que me tornei e as assisto flutuar para longe.
Depois de um certo tempo eu parei de me perguntar o motivo de sua partida e foi nesse momento que você voltou. Não vou negar que meu coração saltou diversas vezes de emoção ao te ver, porque eu estive esperando por você, contando cada segundo sufocante sem a sua presença.
Ah, se meu coração pudesse prever sua fala, ele não despencaria do ar num de seus saltos.
– Eu voltei para te dar um adeus apropriado – você me disse.
Lembro que balbuciei alguma coisa ininteligível e as lágrimas afogaram meus olhos.
– Por mais que tentemos, nós não fomos feitos para durar. O que aconteceu durou o tempo exato, o amor exato... – nessa hora eu parei de ouvir e mergulhei em devaneios.
Então havia uma medida para amor? Havia uma dose certa que se tomada em excesso se tornava nociva. Talvez eu não estivesse amando de verdade, aquela dependência era apenas isso. Eu me vi conjugando erroneamente o verbo no singular o tempo todo. Meu mundo não estava desfeito, afinal, ele apenas perdera uma peça importante, mas não de todo crucial para sua existência.
Suspirei com força e percebi que o ar não me faltava mais. Os cacos quebrados que me machucaram eram apenas as lembranças daquilo que poderia ter sido e não foi. Apenas patéticas ilusões que já não doíam mais.
– Não preciso mais de suas explicações – encontrei minha voz para dizer. – Se você veio dizer adeus, considere isso feito.
Seu olhar petrificado foi o bastante para mim.
O grande mal das pessoas é que a maioria delas se ilude com aquilo que parece ser real, há uma linha tênue entre o amor-singular e o amor-plural e esse tipo de conjugação ninguém te ensina, esse é um conhecimento que se adquire. E se for para viver, que seja daquilo que é verdadeiro, pois o resto eu dispenso.

Pauta para Bloínquês

E quem disse que não é possível?

| segunda-feira, 1 de agosto de 2011


Abel é um gato e isso é basicamente tudo o que você precisa saber sobre ele, pois ele é apenas um gato comum que dorme praticamente o dia todo, mia quando quer afagos e arranha sua perna quando tem fome. Como eu disse, apenas um gato comum. Mas se ele não tem nada de especial por que eu estaria contando uma história sobre ele? Bem, continue lendo e descobrirá.
Todos os dias eu acordo com os pulos de Abel sobre minhas costas, ele simplesmente detesta quando eu acordo tarde, pois não gosta de ficar sozinho encarando a televisão desligada. Muito contrariado, levanto-me e faço nosso café da manhã. Pão caseiro com manteiga e chá para mim e uma tigela cheia de leite para Abel. Acho engraçado quando ele, feliz da vida, toma seu leite e depois me olha com a boca toda molhada, como se sorrisse em agradecimento.
Eu não sou fã dos programas matinais, mas sempre ligo a TV para que Abel se entretenha com as dicas de culinária que ele nunca usará, enquanto espera pelos desenhos animados. É, ele adora os desenhos e não pisca quando os assiste. Pensando bem, ele não é um gato tão comum assim.
Quando saio para o trabalho e interrompo seu programa preferido, ele me lança um olhar rabugento e eu já fico ciente de que ele ficará todo esnobe quando eu retornar. Bichano mimado.
Certo dia, voltando do trabalho, passo em frente ao pet shop onde compro a ração de Abel e me deparo com um aquário com um peixe-dourado. Nunca entendi porque eles são chamados de peixe-dourado se possuem outras cores. O peixe que nadava distraidamente era vermelho e branco e sua cauda em forma de véu balançava-se na água com uma leveza tranquilizante só de olhar.
Abel poderia gostar de uma companhia, eu logo pensei, e apesar de não estar escolhendo o animal certo para isso, comprei o peixe.
Cheguei a casa, ele me olhou irritado, ainda pelo fato de eu ter desligado a TV, mas assim que viu o aquário em minhas mãos e uma criatura nadadora dentro dele, ele se aproximou de mansinho.
- Esta é Ariel - eu disse a ele, que certamente deve ter se lembrado do filme “A pequena sereia” que assistira há algum tempo.
Coloquei o aquário em uma mesinha perto do sofá e fui preparar a janta, não sem antes zapear pelos canais em busca de algum desenho para Abel. Minha surpresa foi que ele ignorou completamente a programação e apoiado no encosto do sofá, assistiu ao nado despreocupado de Ariel. Fiz uma nota mental para checá-los a cada cinco minutos, você já deve imaginar qual foi a minha preocupação.
Enquanto preparava uma macarronada, checando-os de tempo em tempo, percebi que Abel não se movera um centímetro, ele estava fascinado pelo peixe, como era pela TV.
Durante a janta, coloquei o filme preferido dele no DVD, mas não surtiu efeito algum. Ariel ganhará toda a atenção que ele podia dar.
Na manhã seguinte acordei tarde, sem meu despertador felino e quando vasculhei pela casa à sua procura, lá estava ele, empoleirado no sofá, de namorico com Ariel. Eu já devia ter imaginado.
E a relação silenciosa dos dois se fortalecia a cada dia, algumas vezes eu podia jurar que eles mantinham contato visual e realmente podiam entender um ao outro.
Abel revoltou-se quando eu apareci em casa com outro peixe e coloquei-o ao lado de sua amada Ariel, é que o vendedor do pet shop me dissera que esse tipo de peixe não gosta de ficar sozinho, mas eu devia ter me lembrado que ela não estava sozinha, Abel estava sempre lá. Não propositalmente, eu criei um triângulo amoroso. Coisa de novela.
Com o passar do tempo não me surpreendi quando Ariel ignorou o novo companheiro, ela só tinha olhos para Abel, que todo o dia escalava o sofá e passava horas contemplando as nadadeiras flutuantes dela. Sem outra opção, livrei-me do outro peixe, dei-o para o vizinho que possuía um aquário enorme onde ele seria mais bem aceito.
Abel ficou muito feliz com minha decisão e ronronou de alegria, Ariel nadou em círculos toda contente e assim os dois voltaram a ter privacidade.
É, o amor pode nascer em qualquer lugar, se você não acredita dê uma passada lá em casa e veja o romance daqueles dois, de mundos tão diferentes, mas de sentimentos parecidos. A história de Abel e Ariel continua até hoje e quando se trata de amor, tudo pode acontecer.

Pauta para Bloínquês
 

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