Keblinger

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A voz da encruzilhada

| terça-feira, 12 de julho de 2011
A moça caminhava confiante pela estrada no final da tarde. As árvores que flanqueavam as duas margens ofereciam-lhe sombra e o vento sacudia os galhos mais altos, como se brincasse com as folhas. Os passos certeiros dela pararam bruscamente diante de uma encruzilhada que jamais estivera ali.
Ela encarou o caminho da esquerda e o da direita e pouco pôde ver do que estava logo à frente. Seus olhos se fecharam por um momento e uma voz afiada cortou o ar e pousou em seus ouvidos.
- Diga-me o que você mais deseja? – a voz havia perguntado.

A moça rapidamente abriu os olhos e ao olhar para trás se deparou com um homem. Ele usava um turbante roxo e seus longos cabelos pretos escorriam pelos ombros. Seus olhos estavam pintados de negro. Uma corrente de ouro com um símbolo estranho pendia de seu pescoço e em cada dedo havia um anel diferente. A boca, de lábios finos, estava curvada num sorriso misterioso.
- Quem é você? – ela perguntou.
- Digamos que eu seja um gênio – ele respondeu. – Você teria algum pedido a fazer?
- Eu estou com pressa, não tenho tempo para brincadeiras.
- Eu não faço brincadeiras, minha jovem. Sou um grande apreciador do tempo bem aproveitado.
Ele deu a volta e colocou-se na frente dela, de costas para a bifurcação da estrada.
- Eu possuo um talento nato para predizer as coisas – ele declarou. – Você gostaria de saber o que vai acontecer se você tomar cada uma das estradas em sua frente?
- Eu não acredito nessas coisas.
- Mas essas coisas acreditam em você – ele sibilou friamente.
Ela percebeu que não teria alternativa senão deixá-lo falar.
- O que está me esperando?
O sorriso dele se alargou e mostrou dentes perfeitamente brancos.
- Se você tomar este caminho – ele apontou para esquerda. – você encontrará uma forma dolorosa de morrer, contudo, se você optar pelo outro, terá uma vida razoavelmente longa, porém cheia de tristeza e dores.
- Isto não tem graça – ela falou irritada.
- Não, claro que não. O engraçado é enganar a morte e driblar o destino. Eu posso fazer com que viva para sempre e tenha tudo aquilo que sempre quis...
Várias imagens surgiram na cabeça dela, desejos secretos que subitamente vieram à tona.
- E o que eu tenho que fazer?
- Dar a volta e desistir desse caminho – ele respondeu.
Ela olhou para trás, para a extensa estrada que havia caminhado e pensou por um momento. O homem sorria incessantemente e contemplava os anéis.
- Como eu vou saber que você fala a verdade? – ela quis saber.
- Você vai saber – ele falou – Eu estarei com você o tempo todo, para sempre – a boca dele não se moveu, mas sua voz ecoou dentro da cabeça dela e lentamente ela virou-se e fez o caminho inverso.
Ela teve tudo o que sempre quis, mas tudo durou apenas um dia. Conforme o tempo se derramava, ela era obrigada a dar adeus às pessoas que amava, uma a uma, até não sobrar mais ninguém.
A voz gelada do homem a perturbava toda noite, murmurando repetidas vezes que ela pertencia a ele.
Quando se quer mais do que se pode ter e se deseja tudo, o preço que se paga às vezes é alto demais. Às vezes é mais do que se pode pagar.

Ela sobressaltou-se e abriu os olhos, livrando-se do devaneio e observou a estrada que se dividia, perguntando qual sua escolha. Ela olhou para trás, satisfeita do caminho que tinha feito e então caminhou para a direita.
Aquela voz na sua cabeça nunca mais voltou a incomodar, pois ela sabia o que queria, assim como sabia que teria apenas aquilo que merecesse. Ninguém pode ter tudo, não importa o quanto possa pagar e é assim que as coisas são. É assim que sempre serão.
O caminho que ela seguiu foi cheio de surpresas, boas e ruins, cheio de encontros e desencontros, como deveria ser.
Ela continua caminhando e desbravando outras trilhas, até que alcance seu destino final, aquele que homem nenhum pode predizer.

Pauta para Bloínquês

9 sorrisos compartilhados:

{ Roberto Flavian } at: 12 de julho de 2011 02:20 disse...

Meu Deus, adorei esse texto. Você tem uma forma de narrar peculiar e agradável. Parabéns. Encontrei o link do seu blog na comunidade do Bloínquês. Boa sorte.

{ Jorge Lima } at: 12 de julho de 2011 08:44 disse...

Cara que texto 10.
Parabéns por ele, #confesso perdi já nesta edição, pois seu texto é muito criativo e bom.
E é isto mesmo,muitas vezes queremos fugir das dores que a vida tem e optamos pelo "instantaneo", mas ele dura só alguns instantes e tudo piora mais ainda.


http://ashygior.blogspot.com

{ Shuzy } at: 12 de julho de 2011 14:58 disse...

"Nenhum homem pode predizer"
Ainda bem!
O que mais atrai são as surpresas do caminho...

(*=

{ Lívia Inácio } at: 13 de julho de 2011 11:30 disse...

e a gente sabe que até o destino final ela pode até mudar de ideia e resolver mudar de rumo =)

beijão

{ Pegadas do Coração } at: 13 de julho de 2011 20:22 disse...

Palavra perigosa, fácil de defini-lá, difícil de ser trilhada.
Nem sempre poderemos acertar, até porque, na vida há ganhos e perdas.
Seja um vitorioso e conquiste os caminhos da felicidade.
Abraço!
Boa competição!

{ Fuve } at: 14 de julho de 2011 12:13 disse...

Ah Rodolpho, sempre admirei o modo e as coisas que você escreve. Quando vi o link do seu blog no Bloínques pensei: nossa, vou estar concorrendo contra a arte de um sorriso, melhor já desistir. haha
E putz, você sempre surpreende cada vez mais. Amei esse texto e parabéns :D

{ Cris . } at: 14 de julho de 2011 21:08 disse...

tão rico esse post, as vezes optamos por um caminho que não nos traz tanta felicidade, mas nada nos impede de voltar e fazer uma nova historia. perfeito.

abraço meu.

{ Camila } at: 15 de julho de 2011 15:33 disse...

Muito bom o seu blog.

{ Tati } at: 26 de agosto de 2011 09:33 disse...

Gosto muito dessas suas pegadas Rodolpho. Acho bonito a maneira que você consegue montar todo um cenário e transportar o leitor até ele sem nenhuma dificuldade.

Muito reflexivo e intenso.

Beijos

 

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