Keblinger

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O homem do farol

| terça-feira, 14 de junho de 2011

Todo dia encaro a insípida rotina que minha vida tem sido desde quando posso me lembrar. Meus pés afoitos e não mais interessados nos caminhos, seguem pela trilha de pedra até o meu local de trabalho. O contínuo vai e vem das ondas do mar lambem o chão de areia e os respingos de água salgada temperam o ar.
A torre do farol se ergue majestosa em minha frente, engrandecendo à medida que me direciono até ela. A escada de ferro da entrada, maltratada pelo tempo e desgastada pela corrosão, me saúda indiferente. As paredes de tijolo batido se tornaram meu refúgio.
No topo do farol, acompanhado do potente refletor giratório, eu brindo minha solidão comigo mesmo e converso com o vento.
Aprendi com o tempo que vivemos a vida que fazemos, que cada pedra recolhida nos caminhos e cada escolha diante de uma encruzilhada constroem os alicerces do futuro, feito peças de um quebra-cabeça que nunca se completa. Hoje visto a solidão como um sobretudo velho e inestimável, sua companhia me conforta. Gosto do sabor agridoce do nada e dos sussurros mudos de ninguém. Admiro o indomável mar na minha frente, ignoro sua calmaria e me deleito em seus momentos de revolta, pois esses me mostram sua verdadeira face.
Sou feito de cacos de trevas e de retalhos de luz, assim como todo mundo é.
Meu trabalho desprezível e desvalorizado é o que traz a alegria de muitos homens cansados da solidão, que esperam ardentemente sentir a terra firme sob seus pés mais uma vez. A luz do meu farol que os guia para fora da garganta da escuridão é a mesma luz fria irrelevante em minha vida.
Os pesares do meu passado ficaram para trás, não sou do tipo de homem que remói lembranças nem que regurgita remorsos, mantenho o olhar voltado para frente. O dia que me importa é o hoje, nada de grandes planos atirados no horizonte, detesto a frustração de não completá-los. Idealizo apenas os sonhos, pois uma pessoa que se esquece de sonhar perde a razão de viver.
Por vezes o som da minha própria voz se desentende com meus ouvidos, pois não há diálogos entre mim e eu mesmo. Deixo minhas palavras soltas e elas correm pela escada em espiral, brincam com a luz forte que gira sem parar ou se escondem nas sombras da noite. Há resquícios de caligrafia gravados nas paredes e em folhas abandonadas.
Não vou deixar a minha história para trás quando eu me for, minha vida contraditoriamente insossa não agradaria o paladar apurado de ninguém. Eu me acostumei com o que não tenho, aprendi a valorizar meus pertences e me desarmei de utopias há muito tempo.
A pequena trilha da minha casa até o farol é a estrada que percorrerei até meus últimos dias e você se engana ao pensar que sou um pobre resignado. Eu não fui sufocado pelo conformismo, eu o aceitei. Há algumas lutas que valem a pena ser lutadas, outras, independentemente de quanto você treina, o resultado jamais vai se alterar. Eu escolhi minhas lutas e por isso venci todas elas. Não estou falando de desistir diante de obstáculos, estou falando de ter coerência para distinguir qual deles realmente te priva de ir a algum lugar.
A vida é como apanhar pedras no breu da noite, só saberemos se apanhamos algum diamante quando a luz do sol chegar, portanto há de ter coragem para deixar algumas pedras para trás e fé enquanto segura as que restaram.
A luz do farol gira constantemente em seu propósito de resgatar esperanças perdidas e minha essência se resume na arquitetura de um farol. Ora iluminado, ora banhado de escuridão.

Pauta para o 1º Concurso ABL

10 sorrisos compartilhados:

{ Gabriela F } at: 14 de junho de 2011 18:16 disse...

Boa sorte, o texto ficou ótimo.

{ Mariana } at: 16 de junho de 2011 11:53 disse...

Oiii

adorei seu blog...

lindoOo

tô seguindo

segue???

http://meuryss.blogspot.com/

Bjim

{ Rebeca Postigo } at: 16 de junho de 2011 21:17 disse...

Lindíssimo texto!!!
Amei!!!

Bjs

{ Letícia } at: 17 de junho de 2011 21:54 disse...

Rodolpho! Sempre bom passar por aqui..
ótimo texto!
Beijo, e bom final de semana! (:

{ Alexandre Fernandes } at: 19 de junho de 2011 14:45 disse...

A solidão é um universo imenso a ser trabalhado. Como nesta história belíssima, que desvencilha bem esta essência que preenche a vida de um ser. A circunstância da vida sempre ensina algo particular e peculiar. As advindas da solitude sempre tem uma magia.

Abração!

{ Carlos F. Dourado } at: 19 de junho de 2011 22:50 disse...

Nossa quanto tempo eu não passava no seu blog e quando entro novamente me deparo com essa obra prima. Muito bom mesmo Rodolpho, me identifiquei muito com ele.

{ Cris . } at: 19 de junho de 2011 23:01 disse...

A vida é como apanhar pedras no breu da noite, so saberemos se apanhamos algum diamante quando a luz do sol chegar....

nossa vou dormiir com isso na cabeça.

te sigo !

abraço meu. *--*

{ Pamela Dal'Alva.? } at: 20 de junho de 2011 08:30 disse...

Oiee xara do meu primo hahahaha..
muito bom seu texto e bela escrita ^^..

boa sorte no projeto.. ^^

{ ϟ Cynthia Brito } at: 21 de junho de 2011 16:44 disse...

Rodolpho, cara! esse texto é o melhor... Viajei lendo aqui (:

Beijo pra tu!

{ Luzia Medeiros } at: 24 de junho de 2011 10:02 disse...

Parabéns, realmente você mereceu o primeiro lugar, muito lindo o texto.

 

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