Keblinger

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O Senhor das Sombras - Parte 7

| segunda-feira, 2 de maio de 2011

Lá no alto, cercada por nuvens traiçoeiras, a lua atirava sua luz sobre a cidade, costurando a neblina que se espalhava, precocemente pela cidade, feito baforadas de um gigante.
- Você não precisa ficar aqui comigo, Ali, eu vou ficar bem – disse Sebastian se desalojando do abraço do vampiro.
- Você tem certeza? – ele indagou, desejando em seu âmago egoísta que ele tivesse. Sebastian assentiu com a cabeça e deitou-se na cama, virado para a parede e nem percebeu quando o outro deixou o quarto.
Ainda era cedo, por volta das oito horas, apesar da densidade da escuridão.
A velha gritante sobressaltou-se ao ver o vampiro descendo as escadas, afastou-se dele rapidamente e comentou algo sobre uma doença contagiosa.
Alistar libertou-se das paredes e sentiu o vento acariciar sua pele gelada, como um amigo saudando outro que não via há muito tempo. O cheiro fétido do local subia em aspirais pelo ar e ele caminhou apressado para longe dali.
Ele deixou-se levar pelos sons de corações agitados, cruzou a porta de bares, ouviu a cantoria de bêbados fazendo serenatas a ninguém e esgueirou-se em um beco escuro e esperou. Em seu pensamento, ele relembrava da conversa com Sebastian sobre matar bandidos, mas aquela noite isso não seria possível, qualquer sangue que lhe fosse entregue de bandeja, seria bem-vindo.
A espera durou pouco se medida em minutos e uma eternidade se medida em sede. Foi um transeunte que a mão do destino lhe serviu, o homem passava distraído pelo beco e antes que percebesse o que estava havendo, foi sugado pelo breu e se perdeu em seu interior. Alistair sugou até a última gota de sangue, como se aquele fosse o último humano na face da Terra, limpou as manchas vermelhas no rosto e deixou o local e o corpo drenado de sua vítima.
Seus passos lhe guiaram pelas ruas dos bairros boêmios, seus olhos lhe mostraram casas noturnas com luzes néon que brilhavam convidativas e ao caminhar mais um pouco ele se viu diante de um bordel de luxo. “Damas do Prazer” lia-se no letreiro luminoso. Alistair sentiu um formigamento peculiar e uma excitação insistia para que ele desbravasse o local. Ele cruzou as portas e adentrou em um mundo onde o pecado era a lei, a luxúria era obrigatória e os bons modos dispensados.
Mulheres semi-nuas dançavam em um palco, deslizando em postes de ferro, vulgares e sensuais ao mesmo tempo, aliciando os desejos mais primitivos de quem as assistia. No bar mais ao fundo eram servidas doses viciantes de todo tipo de bebida. O ambiente emanava uma luminosidade avermelhada, como se estivesse dentro de uma bolha de sangue e o vampiro se divertiu com essa sensação.
Uma música nova e agitada invadiu o lugar e uma mulher estonteante subiu ao palco. Alistair rapidamente se viu atraído na dança lasciva que a mulher fazia. Ela tinha cabelos ondulados, presos no alto da cabeça e escorriam como uma cascata cor de chocolate até as suas costas. Ela vestia um espartilho preto, cinta-liga preta e uma minissaia branca que cobria menos do que deveria. Seu corpo se movia de uma maneira que hipnotiza os homens, atraindo-os como presas indefesas de seu encanto malicioso.
- Vejo que você gostou da Srta. Legrand – falou um homem que se aproximara sorrateiramente.
- Eu estou só assistindo – disse Alistair evasivo.
- Ninguém entra aqui somente para assistir, meu querido. E ninguém sai sem satisfação total – o homem disse. Era um homem magro, usava um chapéu-coco preto e exibia um bigode que parecia ser muito bem cuidado, seus dedos longos agarraram os braços frios de Alistair e ele o carregou para o fundo do ambiente.
- Eu não tenho dinheiro – falou ele e o homem parou bruscamente, livrando-o de seus dedos e encarou o vampiro nos olhos, como se o analisasse intimamente.
- Você tem vontade?
Alistair pensou por um segundo, olhou para o palco novamente, onde duas moças exuberantes se contorciam numa dança erótica e sacudiu a cabeça positivamente.
- Francesca é muito cara para o seu orçamento miserável, mas vou lhe oferecer uma outra garota se você me der sua palavra de que voltará – o homem propôs.
- Você tem minha palavra...
- Ótimo – respondeu o homem antes que Alistair pudesse estender a mão para um aperto e guiou o vampiro por um corredor mal iluminado, abriu uma, das várias portas e empurrou-o para dentro, sussurrando um “divirta-se”.
Alistair viu, através da luz azul, uma moça de cabelos pretos, deitada na cama usando somente uma calcinha minúscula. Ela levantou-se, caminhou lentamente até ele e o tocou nas mãos, quando sentiu o toque gelado, afastou os dedos como se tivesse tomado um choque, mas sorriu e o guiou até a cama.
- Diga-me seu desejo mais secreto e eu vou realizá-lo – ela falou.
Mais uma vez, dentro de quatro paredes, Alistair matou sua sede, mas uma sede humana de luxúria.

EM BREVE – PARTE 8

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