Keblinger

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A melodia de um ladrão

| quarta-feira, 11 de maio de 2011

A lua tomou seu lugar sobre o palco do céu e abraçou o mundo com sua áurea hipnotizante, seu reinado passageiro estava começando. As horas escuras marchavam pelo relógio rumo à luz do dia. A cidade dormia, os grilos cricrilavam e alguns copos se esvaziavam em bares imundos.
O homem vagava pela estrada, carregava uma mala com aquilo que julgava essencial e sentia a névoa fina sacudir-se à medida que seus passos prosseguiam. Ele era um andarilho solitário, vivia uma vida nômade e já não podia mais contar nos dedos todos os lugares onde esteve.
Ele estava sempre fugindo e buscando algo, como todas as pessoas. O caminho escolhido era meramente pelo acaso e sua direção, tão volátil quanto as ondas do mar. Naquela madrugada, porém, ele caminhou para o início de seu destino. Para onde tudo havia começado e onde tudo deveria terminar. As estradas da vida estão sempre certas, sempre nos guiando para o lugar exato onde deveríamos estar, sempre ambivalentes.

Há trinta anos ele havia nascido. Um filho renegado e entregue à sua própria sorte. O fruto de um adultério, inocente e culpado ao mesmo tempo.
Seus primeiros anos dentro de um orfanato miserável lhe ensinaram que o mundo é um lugar cruel para se viver e que as pessoas são todas egoístas. Obviamente, ele nunca soube o que é ter um lar, uma família e alguém a quem pudesse chamar de pai e mãe. Ele apenas soluçava baixinho nos cantos, escondendo-se de seu próprio julgamento, tentando não parecer fraco perante os outros.
A adolescência trouxe a ele a falsa ideia de poder, assim ele achava que era capaz de fazer qualquer coisa e que teriam que aceitá-lo daquela maneira. Então a realidade bateu-lhe a porta e estapeou suas duas faces e aquilo doeu, ele percebeu que era tão vulnerável como todo mundo. E percebendo isso, decidiu fugir.
As ruas frias e indiferentes não foram melhores do que as paredes geladas do orfanato, mas ele tinha liberdade e quando se prova de seu sabor, qualquer tipo de cárcere torna-se amargo.
Sua vida adulta lhe entregou o maior presente de sua vida, a música.
Na verdade, o instrumento o havia chamado. Ele estava no meio de várias caixas de mudança numa charrete, um raríssimo violino Stradivarius, que se perdeu das mãos do dono e caiu nas do ladrão rejeitado.
Ele aprendeu a tocar sozinho e seu dom foi descoberto. Ele era um violinista nato, as notas jamais o confundiram e o arco em sua mão destilava a melodia aguda do instrumento.
Quando adquiriu confiança total, ele compôs uma canção. A obra-prima de sua vida.

A praça da cidade estava deserta. Ele tirou o chapéu e o colocou ao chão, com a aba voltada para cima. Abriu a mala e tirou seu violino e pôs-se a tocar.
A melodia triste se enroscava nos ouvidos das pessoas que despertavam inebriadas pelo som e o seguiam. As notas flutuavam e tocavam profundamente a todos que as escutavam, buscando sentimentos no âmago de cada um. Alguns sorriam, outros choravam sem saber o porquê e alguns poucos mergulhavam em devaneios e reflexões, enquanto moedas e notas enchiam o chapéu.
Uma mulher o observou de longe, sentindo o coração se romper em lágrimas pela canção. Ela o reconheceu. A marca de nascença sobre a sobrancelha esquerda dele confirmou que seu filho estava vivo.

Ele continuou tocando, inconsciente de sua mãe na platéia.
Sua obra musical chamava-se “O prelúdio de minha vida” e cada nota melancólica contava sua história sofrida, que havia começado naquela mesma cidade e que terminaria ali também, em algum momento do futuro, de uma maneira imprevisível.

Pauta para Bloínquês

1 sorrisos compartilhados:

{ Raquel... } at: 11 de maio de 2011 15:18 disse...

Me emocionei com a forma que você escreve, por isso precisei fazer este comentário :)

 

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