Keblinger

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Enquanto o epílogo não vem

| quinta-feira, 5 de maio de 2011

♪ (...) Oh, mirror in the sky, what is love?
Can the child within my heart rise above?
Can I sail through the changing ocean tides?
Can I handle the seasons of my life? ♫

Ainda carregando as incertezas no bolso e sentindo o chacoalhar das dúvidas a cada passo dado, eu decidi que era hora de partir. Todas as respostas que eu precisava não estavam ali ou talvez eu não tenha feito as perguntas certas, de qualquer forma era hora de tentar algo novo, de sentir novos aromas e desbravar paisagens inéditas.
Com uma mochila nas costas, tênis de caminhada nos pés e sede de aventura no peito, eu parti. A estrada me saudou amigavelmente, como se tivesse me esperado por anos. Eu não tinha rumo, não havia planejado roteiros, apenas deixaria o acaso apontar a direção.

Quatro anos atrás eu descobri o que é o amor, eu havia pedido tanto por ele, implorado com todas as minhas crenças e me apegado em minha fé de que eu o encontraria e numa noite quente de verão, o vento a soprou até mim com seu hálito morno e nos esbarramos em um bar. De forma casual, apenas dois estranhos que acabaram de se conhecer e dividiram uma bebida. E depois daquela noite, nos encontramos ali com frequência, até eu perceber que eu nunca a abandonava, mesmo ela tomando outra direção quando deixávamos o estabelecimento, meus pensamentos se agarravam a ela e com isso meu coração sorria feito uma criança que ganha um presente.
Para minha sorte e surpresa, o mesmo sentimento que desabrochava em mim, também florescia no peito dela e permitimos que a paixão fizesse morada em nós. Por três anos eu fui o homem mais feliz do mundo e por um ano eu fiquei recluso em luto pela despedida. A vida dela foi roubada de nós dois e aquele espaço enorme cavado no meu peito jamais se fecharia.
Eu culpei tudo e a todos por isso, desejei trocar de lugar com ela, enquanto a dor e a tristeza me devoravam por dentro e eu não fazia nada para impedir.
“Se um dia eu me for antes de você, siga em frente. Viva sua vida." Eu encontrei essa frase escondida timidamente nas várias linhas de um diário dela e isso me deu forças para continuar.

Caminhei até a beira do lago que costumávamos visitar e lá encontrei três moças que conversavam animadamente e riam ao redor de uma fogueira. O inverno se aproximava silenciosamente, mas sua áurea gelada já atingira a região. As montanhas distantes no horizonte estavam salpicadas de neve, um frio interminável.
Uma das moças me convidou à fogueira e eu me aproximei, sem jeito. Trocamos apertos de mão e nos apresentamos.
- O que te traz aqui? – uma delas perguntou com um brilho no olhar. O mesmo brilho que eu contemplava em minha amada.
- Preciso encontrar uma razão para minha vida – respondi.
- E você acha que ela está aqui no lago? – outra perguntou sorrindo, um sorriso terno, de lado. O mesmo sorriso dela, que me encantara no bar pela primeira vez.
- Acho que ela pode estar em qualquer lugar.
- Qual a sua história? – a terceira perguntou, esticando as mãos no fogo e quando o vento jogou seu perfume em minha direção, senti o cheiro nostálgico do meu amor.
- Estou começando a escrevê-la, estou pronto para embarcar em um prefácio inesperado e criar capítulos emocionantes, sempre incerto sobre o seu desfecho.
Cada uma das moças, com suas características que me trouxeram lembranças de tempos felizes, permaneceu em silêncio e eu não soube se tinha dito algo errado.
- Eu preciso ir – falei por fim e me afastei do fogo.
- Boa sorte com seu livro – uma delas disse.
- Digo o mesmo para vocês – eu disse sorrindo e parti.

Uma outra parte de minha vida estava apenas começando, não vou me desgarrar do meu passado, pois nele está o alicerce que me transformou em quem eu sou hoje, mas me permitirei mais alegrias e expulsarei a melancolia pegajosa. A vida se faz de recomeços, temos que saber quando é hora de encerrar um capítulo e começar um novo.
Repentinamente sinto meus bolsos mais leves, algumas perguntas começavam a ganhar respostas e farei das dúvidas que eu achar pelo caminho, novas tramas para o meu romance principal. A história de minha própria vida que um dia será contada por mim aos quatro ventos.

* A gravação original da música é de Stevie Nicks, mas a versão de Glee ficou muito bonita, recomendo que ouçam.

Pauta para Bloínquês

6 sorrisos compartilhados:

{ Cafundó } at: 5 de maio de 2011 15:49 disse...

Que gostosura de leitura!

{ Jaci Macedo } at: 5 de maio de 2011 17:25 disse...

Como já dizia Cazuza, o tempo não pára. E nossa vida não pode parar também. Texto belíssimo, parabéns.

beijos.

{ Cristiano Guerra } at: 5 de maio de 2011 23:01 disse...

Você já me ganhou no primeiro período, e seguiu discorrendo magicamente. E pra variar, sorri com o final tão, tão, otimista. Eu acredito em Contadores de Histórias. E você é meu preferido.

Abraço&umSorriso.

{ Iasmin Cruz } at: 7 de maio de 2011 23:51 disse...

Oi
seguindo aqui
http://iasmincruz.blogspot.com/

lindo blog

{ Lara Vic. } at: 8 de maio de 2011 17:58 disse...

lindo seu blog e o texto é perfeito. Eu nunca imaginaria uma coisa assim em uma foto dessas. É lindo *-*
gostei mto desse blog, vou seguir. Beijos!

{ Tati } at: 10 de maio de 2011 16:24 disse...

Belissimo conto Rodolpho, muito bem escrito, roteiro, cenário, amei demais, até senti ele por dentro e me doeu bastante.

Pude me ler em vários momentos.

Beijos

 

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