Keblinger

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Meu primeiro (mal de) amor

| domingo, 17 de abril de 2011

Era um daqueles dias de sol. É, um dia claro, gostoso. Daqueles que temos vontade de ficar fora de casa só para sentir o ar passar pelo nosso corpo e o vento bagunçar o nosso cabelo. Um dia sem nuvens traiçoeiras e sem pressa, como se o próprio tempo tivesse decidido que precisava de uma folga e então apenas caminharia descalço pelas horas, em passos lentos e despreocupados.
Nós estávamos debaixo da velha árvore do campo, os galhos dela se estendiam sobre nossas cabeças como vários braços retorcidos se espreguiçando e nos presenteavam com uma sombra fresca e refúgio do sol. É claro que duas crianças, como éramos, não deveriam estar ali desacompanhadas dos pais, mas sempre fomos violadores das regras paternas e vez ou outra nos embrenhávamos no meio da mata apenas por diversão e para passar o tempo.
Nós costumávamos levar frutas nas cestas das bicicletas para fazer piquenique ou livros para colorir e ler. Eu ainda não aprendera a entender aquele monte de palavras de mãos dadas que se esparramavam no papel, mas ele, sabido como era, já compreendia esse mundo que parecia pertencer somente à gente grande. Então ele lia para mim.
Tenho que admitir que sua leitura, embora bastante esforçada, me encantava. Era mágico vê-lo decifrar aquele emaranhado de letras com os olhos e traduzi-lo para mim através de sua voz aguda e pueril. E eu sempre me deixava levar pelo som das palavras, cada sílaba pronunciada de forma cadenciada me fisgava pelos ouvidos e me guiava por trilhas desconhecidas e inusitadas.
Eu não sei em que momento eu me apaixonei por ele. Não me lembro do dia em que aquele garoto que sempre fizera parte da minha vida, passara a ter um valor diferente. Não me recordo da noite que fui me deitar e sonhei com seu sorriso de lado e com o som da sua voz melodiosa a me ler histórias de emoção. Eu não sei de nada disso, pois eu era apenas uma garotinha na época. Como é que podemos descobrir o que é amor antes de aprender a ler? Isso não parece natural, tudo tem que acontecer no seu devido tempo, não é mesmo?
Ah, eu custei a acreditar que meu pequeno coração havia se entregado aos braços da paixão, aquele bobo e estúpido ser vermelho e latente, eu deveria conhecer as palavras primeiro. Eu me recusava a sentir aquela pontada de ciúmes quando o via com outra garotinha e se ele dividisse o lanche ou sorrisse de um jeito diferente, como aquilo me incomodava.
Com muito medo daquela coisa estranha e nova que eu sentia eu contei à mamãe que estava doente, claro, só poderia ser isso. Lembro-me que ela sorriu ao ouvir o que eu dizia e disse:
- Isso não é doença coisa nenhuma, isso aí é mal de amor.
Aquelas palavras me deixaram ainda mais confusa, pois eu sempre ouvira dizer que o amor era uma coisa boa, mas o tempo foi passando e eu realmente me dei conta de que era mesmo mal de amor. Eu sempre queria tê-lo por perto, arrumava desculpas desajeitadas para tocar seu cabelo ou seu braço, quando toquei em sua mão por acaso quase senti que fosse flutuar e um rubor desinibido me entregou. Ele apenas sorria, meninos são tão imaturos, não é? Eles acham graça em tudo, o amor não é engraçado, ele é apenas amor.
Meu eterno leitor de dias ensolarados se tornou meu primeiro amor, ele me ensinou a arte de traduzir as palavras dos livros enquanto meu mundinho parecia vazio quando ele não estava comigo. Aos olhos de uma criança tudo é tão inocente que até mesmo a palavra amor tem um sentido mais sutil e puro.
Sim, eu o amei naquela época, sem mesmo saber o que era amar. Aprendi com isso a verdade dos sentimentos, eles são todos intrínsecos, ninguém pode te ensinar a senti-los, ou você sente por si só ou jamais vai saber.
Eu queria poder dizer que nossa história foi tão feliz quanto em meus pensamentos, mas nada aconteceu. Eu continuei amando sozinha, até o amor desvanecer. Ele continuou achando graça nas coisas, até que um dia cresceu.
Passamos por tanta coisa nessa vida que as menores parecem patéticas e sem sentido, mas são essas que realmente têm algo a nos ensinar.
Nem toda história de amor acontece, mas isso não faz com que ela não mereça ser contada.

Pauta para o Bloínquês e Suas Palavras
Galera, ainda sem net, usando emprestado por esses dias, não aguento mais tanta vida social, haha. Enfim, por isso ando sumido dos blogs de vocês, mas torçam para que eu volte logo para o mundo cibernético. Grande abraço.

17 sorrisos compartilhados:

{ Carlos F. Dourado } at: 17 de abril de 2011 01:50 disse...

Muito bom texto Rodolpho. mais uma vez você se superou. Cada dia mais melhorando e melhorando. Agora só falta o livro.

{ Thiara Ribeiro } at: 17 de abril de 2011 01:52 disse...

Dom de encantar né?
Saudade de sorrir por aqui!

;*

{ Tati } at: 17 de abril de 2011 09:31 disse...

Eita Menino, encantador este seu conto. Como gosto de ler você.
Incrível, sensível como sempre.


Beijos

{ Maiara } at: 17 de abril de 2011 10:50 disse...

Que conto doce. E as sensações pueris foram descritas com tanta naturalidade, que só mesmo alguém que ainda cultiva a infância dentro de si seria capaz de fazê-lo assim. ^^
E toda essa pureza me encantou. É mesmo impossível não sorrir por aqui.

Um beijo.

{ Barbara Nonato } at: 17 de abril de 2011 11:29 disse...

São as coisas aparentemente menores que deixam as maiores lembranças e tem maior significado. Pequenos encontros podem revelar muito e se estender por espaço de tempo maior que esperamos.
Belo texto!

{ Pires Silva } at: 17 de abril de 2011 12:54 disse...

Por isso que você ganha SEMPRE os concursos. Você tem um dom incrível, sabe escrever e comover sobre tuuudo cara *--* eu realmente me vi na infancia sentindo essas coisinhas meigas e pequenininhas. Ah, sem sombra de duvidas, os amores mais puros são os da infância. amei mesmo
muuuuito lindo

beijãão

{ Flávia } at: 17 de abril de 2011 13:32 disse...

ouun, que fofitcho! =D
hahaha

Fazia muito tempo que eu não vinha aqui, né? Mas, eu juro que não é proposital. U know! ^^
Adoreiii esse!
Agora, vou ler o debaixo! hihi

Beeijão S2

{ Alexandre Fernandes } at: 17 de abril de 2011 18:11 disse...

Você tornou os pequenos detalhes em intrínsecas experiências. E delineou bem essa acúmulo de sentimentos, que o amor causa a princípio. No princípio. É uma angústia boa, alegra, mas aflige. Não há como evitar falar de amor, das pequenas vivência que um dia descobrimos ao descobri-lo. Uma infinidade de coisas que passam despercebidas, mas encantam por serem profundamente ternas e repletas com confetes de emoção.

Nem toda história de amor acontece. Mas nem por isso não precisa ser esquecida, muito menos deixada de ser contada.

Belíssimo conto Rodolpho!!

Eu fiquei profundamente comovido com este. Lindo! Lindo!

Um grande abraço!

ps: é uma pena que esteja sem internet. É tão ruim. Espero que resolva logo.

{ A Escafandrista } at: 17 de abril de 2011 18:53 disse...

olá, querido. voltando a este blog tao agradável para compartilhar sorrisos contigo. bjs

{ Líllian } at: 17 de abril de 2011 19:45 disse...

Sabe, você conseguiu fazer com que meu conceito sobre amor mudasse. Na verdade, agora não conheço mais conceito algum. Como você disse, sentimentos não podem ser conceituados, apenas sentidos.
Ganhou mais uma leitora ;)

{ Rafaella } at: 17 de abril de 2011 20:12 disse...

Falar que o amor é engraçado é redundância, porque na verdade o amor é tudo de uma vez. Adorei o texto, me fez voltar no tempo, trouxe uma paz... =)

{ Pamela Dal'Alva? } at: 17 de abril de 2011 22:32 disse...

Ta explicado pq sempre quando vou ver o resultado, esta seus textos.. parabens .

{ Del } at: 18 de abril de 2011 12:50 disse...

Amei o último paragrafo, quero ele só pra mim =/ cada vez mais gostando do seu jeito de escrever ;)

{ Julie Duarte } at: 18 de abril de 2011 14:07 disse...

Adorei seu texto. Todo amor traz as primeiras decepções, mas também traz muitas alegrias. Infezlimente nem tudo é perfeito: nem eterno.

{ Gessy } at: 18 de abril de 2011 22:11 disse...

O primeiro (mal de) amor 'a gente' nunca esquece...
Lindo, lindo seu texto. Uma delicadeza tocante.

Beijos.

{ Luria Corrêa . } at: 19 de abril de 2011 14:37 disse...

(Luria Corrêa favoritou este texto) lindo. Lindo. Lindo. E um pouco + .

{ Inercya } at: 20 de abril de 2011 18:53 disse...

Que conto lindo, menino! Meus olhos brilhavam a cada nova frase. Nossa, como é gostoso ler suas palavras *-*
um beeeijo :*

 

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