Keblinger

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Respirando arco-íris

| terça-feira, 22 de março de 2011

♪ (...) Somewhere over the rainbow blue birds fly
And the dream that you dare to, why, oh why can't I? ♫

Era ela que eu via através do vidro de minha janela. A comedora de nuvens.
Eu sempre a admirei por seu entusiasmo e disposição de se atirar ao vento sem medo de cair, quanta imprudência para uma garota de pensamentos flutuantes, mas é claro que ela deveria ser leve feito pluma e planaria no ar graciosamente antes de atingir o chão.
Toda manhã ela corria até o balanço e corajosamente dosava a impulsão perfeita para uma decolagem digna de um pássaro pomposo e então a gravidade, insistentemente, a puxava de volta e ambas brincavam. Nesse vai-e-vem os sorrisos dela refletiam a luz do sol, como se cada raio do grande rei se curvasse diante a magnífica curvatura dos lábios finos da garota no balanço.
O vento dançava ao redor dela, tentando agarrá-la vez ou outra, mas ela sempre escapava de seus dedos instáveis e invisíveis, desistindo de sua missão nada secreta, o soprador de brisa se tornava mais ameno e acariciava os cabelos dela que saltavam de emoção de um lado para o outro.
Eu nunca cheguei a ouvir a sua voz, mas podia imaginá-la nos mínimos timbres. Ela deveria soar como notas musicais fugitivas das teclas de um grande piano de cauda, assim como uma melodia suave que escutamos em dias nublados. E também seria delicada como a pétala de uma rosa, que lhe pesa as pálpebras ao deslizar pela pele.
Os olhos da garota no balanço são carregados de potes de esperança que jamais se esvaziam ou ficam meio cheios. Eles pulsam vida, talvez até demais, uma sede que ao invés de saciada se derrama pela grama verde. Não sei quais suas cores, mas imagino que contenha um emaranhado de matizes vivas.
A doce garota que sobe alto entre o céu e a terra e depois se prende ao mundo terreno emana um tipo de sensação que contagia a todos ao seu redor.
Entretanto eu não deixava de ficar triste a cada noite quando minha mente vagava nas lembranças grudadas no vidro, pois assim como eu, ela corria desenfreadamente rumo a um beco sem saída. Se ela estava ali, naquele mesmo prédio branco, impessoal e ladrão de almas juvenis, era porque não havia mais o que fazer. Aquela era nossa última parada, a estação final de nossa viagem que durou menos do que deveria.
Eu sempre a vi pela janela, pois nunca pude sair de meu leito, nunca pude caminhar com minhas próprias pernas, pois meus movimentos foram tomados de mim antes mesmo que eu soubesse que os possuía e minha consistência frágil não me permitia contato com as pessoas de fora.
Apesar dos encantos das manhãs ensolaradas, o que eu mais gostava ali era dos dias de chuva. Enquanto as gotas finais eram espremidas das nuvens, um grande pincel desenhava no céu as linhas de um arco-íris opaco que se intensificava lentamente. Nesses dias, eu via a garota sair pelo campo, olhar para o alto, empinar o nariz e respirar os tons que vertiam do imenso quadro.
Se ela podia respirar arco-íris, eu poderia então respirar sonhos. Embora metade de mim seja preto e branco, a outra metade transborda cores.
Toda noite pergunto à lua se aquela será a noite de meu último suspiro e ela lá de cima, silenciosamente bela, finge-se de desentendida e nunca me responde. Um dia essa noite chegará. Um dia a garota do balanço também recolherá os grãos de vida que lhe foram tirados e os colocará numa mala para uma nova viagem. Não posso dizer quem de nós partirá primeiro, enquanto isso eu verei a cortina noturna se abrir para o dia subir ao palco e assistirei a estrela maior da peça brilhar no teatro da vida.
Subindo e descendo. A inventora de risos.

11 sorrisos compartilhados:

{ Inercya } at: 22 de março de 2011 14:18 disse...

Meus olhos brilham, assim como aquele emoticon *-*, quando eu leio tuas palavras. São encantadoras! (:
:*

{ Christine Wengrzynek } at: 22 de março de 2011 16:06 disse...

Nossa! Que lindo o teu jeito de escrever, você tem uma maneira muito, como disse a colega acima, encantadora de escrever.

{ Jéssica Trabuco } at: 22 de março de 2011 19:18 disse...

Que texto mais doce e cheio de sentimentos nobres.
Eu adorei moço, MUITO bom!

{ Tati } at: 22 de março de 2011 22:31 disse...

Menino, como você é bom!
Sempre que te leio sinto algo muito forte por dentro, você consegue transpor o leitor para dentro das suas linhas e como esse estar dentro é bom...

Vou ver se consigo recuperar os perdidos..


Beijos

{ L. Sampaio } at: 23 de março de 2011 01:24 disse...

Um texto ao mesmo tempo triste e ao mesmo tempo alegre, fez-me pôr no lugar do obserbador descrito, encantando-se pelo embalar da menina e eu pelo embalar de suas palavras. Fez-me lembrar da minha infância, quando o balanço era onde eu mais me divertia.
beijos.

{ Aline Carla } at: 23 de março de 2011 02:32 disse...

Me preende aqui nesta página, já li três vezes o texto e ainda me instiga a ver mais um sentido, mais um sentimento presente! Adorei, escreves muito bem...

e obrigada pela visita em meu blog, fica convidado em voltar!

Um beijo

{ A Escafandrista } at: 23 de março de 2011 11:08 disse...

Lindoooo!! To arrepiada, Rodolpho!! rsrsr seu texto é de uma delicadeza, uma doçura, uma elegância ímpares!! adorei. bjs

{ Juliane Bastos } at: 23 de março de 2011 14:03 disse...

Fico cada vez mais apaixonada pelo que você escreve quando venho aqui. A simplicidade e a magia das suas palavras encantam demais. Parabéns viu e muuuuuuuuuita sorte. :D

{ C. } at: 24 de março de 2011 08:26 disse...

Procurei um atalho para enviar essa mensagem de outra maneira aqui no seu blog, mas nao achei.

Gostaria muito de ter lido esse texto, pq sempre o vejo comentando aqui e ali e gosto. Mas vc bloqueou para aumentar o texto e assim nao pude, porque sua colega blogueira aqui é cegueta hehe

#Se quiser poderá deletar esse coment, e nao gostaria que achasse foi uma crítica, apenas o problema é meu num é.

Um abraco,

Cris

{ Shuzy } at: 24 de março de 2011 15:18 disse...

Deu um frio na barriga, bom...!

{ C. } at: 25 de março de 2011 18:39 disse...

Esse lugar me lembra em tudo meu teclado e o barulho do som ao digitá-lo... e espero, através da minha janela bem na minha frente, ver um arco íris colorido, me convidando a viver coisas menos em preto e branco, e como a garota, voltar a pulsar meu coração de vida.

Quem sabe me chamarei Dorothy... e finalmente acharei o lugar "onde os problemas derretam..."

Olha, esse seu texto é rico mesmo, como eu suspeitava, fui de mágico de oz e tudo, deu pra perceber né, e desculpe o "desabafo" um tanto lírico, um tanto quanto real. Adoro essa música, eu tenho no CaFoFo uma postagem com a versao dela com a Judy Garland menininha cantando... é lindo de ouvir, é lindo de sonhar...

Muito delicado da tua parte ter atendido minha necessidade... o que nao é nada assim um fundo de garrafa, é culpa dos blogues! hehe

 

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