Keblinger

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O homem de pedra - Parte 9 (Final)

| quarta-feira, 30 de março de 2011
Hora do conto - Para entender, leia a Parte 1, Parte 2, Parte 3, Parte 4, Parte 5, Parte 6, Parte 7 e Parte 8

Trevor arregalou os olhos assustados e olhou ao redor em busca de ajuda.
- O que você disse? - balbuciou Ártemus.
- Você ouviu perfeitamente, agora mate o garoto – ordenou a bruxa.
- Ninguém vai tocar no meu irmão – falou Raquel que saíra de trás das árvores.
- Ora, ora, isto está ficando interessante – sibilou a velha.
- Eu não acredito que você fez isso, Ártemus. Você passou todos os limites...
- Eu... eu não sabia, ela me enganou – defendeu-se ele.
- Por que você fez um pacto com ela?
- Ele não te contou? – perguntou a velha com uma expressão falsa de espanto – Ora, é claro que ele não contaria. O jovem guerreiro quer seu coração só para si, ele concordou em matar o seu irmão para que seu desejo pudesse se realizar.
- Não, por que você está fazendo isso comigo? – ele indagou.
- Esqueça o garoto, eu quero o sangue dela agora, quero a beleza dela toda para mim... – a velha se aproximou da moça como um lobo acuando a presa.
- Afaste-se dela, sua velha maldita – Athos finalmente destrancou a voz que desta vez não bateu nos dentes e retornou. Sua voz ressoou como um trovão abafado pelas nuvens. Seus músculos se contraíram, seus braço e pernas se moveram. Ele já não era mais feito de pedra. Todos o encararam, surpresos.
- Não, isso não pode estar acontecendo – berrou a bruxa – Eu vou te matar, vou acabar com seu amor e assim ele voltará a ser pedra – a velha deu um passo na direção de Raquel.
Athos agarrou o arco das mãos de Trevor e uma flecha de sua aldrava e com sua precisão atirou-a. A flecha voou livre no ar, cortou as chamas da fogueira e flamejante atingiu o coração da bruxa, que entrou em combustão e explodiu em seu peito. A velha deu um grito sufocado e tombou para trás, sem vida.
Athos caiu sobre os joelhos e sentiu o peso dos anos, da dor, da saudade e de todos os sentimentos que duelavam em seu peito e deixou as lágrimas se atirarem nas folhas do chão.
- O que foi? – Raquel perguntou e correu de encontro a ele, lançando seus braços envolta do homem.
- Eu já tinha perdido a esperança de voltar a ser normal, eu perdi tanta coisa em minha vida, eu...
- Você vai ficar bem – ela disse.
Ártemus encarou o corpo caído da velha e o homem que outrora fora uma estátua e um temor se apossou de seu corpo, ele correu por entre as árvores de volta para o vilarejo.
- Como tudo isso aconteceu? – perguntou Trevor – E a propósito, obrigado por salvar as nossas vidas.
- Eu não sei porque fui amaldiçoado nem o que reverteu isso, eu... Meu Deus, eu só quero voltar para casa – Raquel ajudou-o a se levantar e pela primeira vez, o olhar dos dois se encontrou e lá no fundo da pupila dela, ele encontrou a resposta para tudo e ela, ao contemplar os olhos dele que lembravam um poço obscuro, enxergou muito mais do que os outros viam. – Foi você, você quebrou a maldição – ele disse.
Trevor olhou para a irmã que deu de ombros e os três voltaram para a vila.
Assim que atingiram a orla da floresta, avistaram uma multidão que os esperava. Ártemus chegara berrando “o homem de pedra voltou” e todos acharam que ele havia enlouquecido, mas agora entendiam.
A mãe de Raquel sentiu o coração martelar com força, como se quisesse abrir a pele e se jogar ao ar livre.
Athos saiu das árvores e ao encará-la estancou o passo e ficou boquiaberto. Ele jamais esquecera aquele rosto e agora percebia porque a moça conversadeira era tão familiar.
- Ramona – ele conseguiu sussurrar.
- Você conhece a minha mãe? – perguntou Raquel confusa.

Athos não sentiu o coração bater mais forte ao estar na presença de Ramona, ela era como qualquer outra pessoa. Em seu peito havia espaço somente para Raquel, seu coração pertencia a ela agora.
- Precisamos conversar – Ramona disse à filha e todos se dirigiram à sua casa sob os olhares indagadores dos habitantes da vila.
Ramona contou a Raquel que Athos morava na vila quando ela era jovem, contou que o visitara na floresta quando ele havia sido transformado em pedra e que nunca mais o vira depois que se casou. Ela não sabia o que sentia por ele, na época, e por isso não falou nada sobre esse assunto. Athos ouviu a conversa calado.
Todos queriam saber o motivo da maldição e o único que poderia dar essas respostas era Ártemus.
Raquel foi em busca do caçador enquanto Athos se dirigiu para sua casa, que estava intacta desde quando ele partira, há vinte e seis anos.
- Ártemus, você precisa me dizer o que aconteceu lá – Raquel disse assim que o avistou.
Então Ártemus revelou tudo o que a bruxa lhe dissera, que havia amaldiçoado Athos por vingança pela morte de seu pássaro e que somente um amor verdadeiro reverteria a maldição, por isso ele queria afastá-la do homem de pedra.
- O que você fez foi imperdoável, Ártemus, eu não posso ficar com você – ela disse por fim e deu as costas ao caçador e foi ao encontro de Athos.

Os dois realmente havia se apaixonado e aquele amor que surgiu do nada, foi crescendo a cada dia mais. Raquel e Athos se casaram no ano seguinte e tiveram dois filhos.
Ramona estava orgulhosa da filha e feliz pela volta do caçador. Ela percebeu que se ele não tivesse sido amaldiçoado, ela não se casaria e não teria a família que tinha e tudo seria diferente. Algumas coisas ruins acontecem para que algo grandioso e bom venha pela frente.
Trevor se tornou um arqueiro habilidoso depois de tomar aulas com Athos.
Ártemus se casou com uma jovem que sempre fora apaixonada por ele e finalmente descobriu o que é o amor e soube que aquilo que sentira, certa vez, por Raquel não o era.
Athos se tornou um homem melhor, passou a conviver com todos e a respeitar as pessoas. Tornou-se um homem amável, um marido excelente e um pai amoroso. No fim ele não conseguia culpar a bruxa, afinal, por causa do que ela fizera, ele agora sabia o que era felicidade.

O vilarejo vive em paz desde então e nunca mais nenhum faisão foi avistado pelas redondezas.

Mais um final de conto, quando escrevi esse conto pela primeira vez, eu nunca imaginei que pudesse chegar até aqui. Gosto quando a história cria vida por si só e me surpreende. Espero que quem acompanhou tenha gostado. Eu gostaria de pedir a quem acompanha meus contos em partes, que votem na enquete. Obrigado e um grande abraço.

4 sorrisos compartilhados:

{ Tati } at: 30 de março de 2011 00:48 disse...

Bom, eu adorei!
Só achei que vc demorou demais pra postar hsuahsuhas
Brinquês
Amei!

{ ONG virtual } at: 30 de março de 2011 15:06 disse...

Desculpa não comentar em todas as partes viu rod? Ando meia sem tempo, mas isso não me impediu de ler. E eu não vou falar aqui nada que você já não saiba. Adorei o conto como todos os outros, e particularmente deste, que foi um pelo qual eu me animei pra ler e esperei ansiosa cada parte. Parabéns rod !

Grande abraço sumido.

{ ONG virtual } at: 30 de março de 2011 15:07 disse...

Esqueci de dizer que tô no perfil da ONG, é a Luria ok ?

beijo.

{ Jéssica } at: 30 de março de 2011 18:42 disse...

Lindo! Amei o final. Foi surpreendente!

 

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