Keblinger

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A menina que queria morar na casa verde

| quarta-feira, 16 de março de 2011
Acostumamos-nos com as coisas devido a repetições. Eu vejo várias pessoas passar pela minha calçada, vários rostos com fachadas sorridentes que escondem tristezas ou mascarados com uma carranca que ocultam um pedido de ajuda, dia a dia eles passam por aqui e alguns deles se tornaram familiares pela frequência que eu os via.
Para cada pessoa que se tornava conhecida de meus olhos eu criava uma história, imaginava motivos que levaram seus passos até ali, criava problemas, amores, desamores e brincava de ser autor da vida alheia como um escritor fajuto de novela.
Por vezes seguidas acompanhei o olhar de uma garota a uma casa de esquina, ela observava a casa com um ar sonhador, logo me pus a criar sua história. Ela era uma garota triste que queria recomeçar sua vida numa casa nova... Não, ela não aparentava ser triste, ela era uma garota que preferia o silêncio e a solidão a ficar ao redor de pessoas que não lhe fazem bem. Isso, criei minha personagem.
Contudo, eu não estava satisfeito com a composição de tal pessoa e fiz algo que nunca havia feito antes, fui conversar com minha personagem, quis saber pela boca dela qual era a história que ela escrevia.
Comecei com um simples “olá” inseguro e ela, muito educada, respondeu o cumprimento e perguntou como eu estava. Eu não quis saber seu nome, pois gostava de nomear os rostos desconhecidos, assim ela não se incomodou em dizê-lo, tampouco perguntou o meu, acho melhor assim, não me envolver completamente com um personagem.
Conversamos por cerca de meia hora aquele dia e ao perguntar, ela me disse que sempre tivera vontade de morar na casa verde, mas não tinha um motivo propriamente formado para isso, ela simplesmente gostava da casa e isso era o bastante.
A casa não era grande nem de luxo, o que me dizia que a garota não era materialista e fútil, ela só queria um lugar para chamar de seu, um canto na parede para seus livros e uma área com espaço para um cachorro. Os olhos dela brilhavam a se imaginar com essas coisas ao seu alcance.
Em toda oportunidade de diálogo, lá estávamos nós discutindo sobre a vida, ela me pareceu bastante centrada e segura do que queria para si, porém raramente deixava cair algum fato pessoal, percebi então que ela era alguém que só se abria para aqueles que realmente tinham sua confiança e não a julguei por isso. Ela tinha sonhos, claro, além da casa verde, eram sonhos de todas as cores e ao falar sobre eles, ela viajava num mundo que parecia só dela. Vez ou outra ela deixava escapar nomes que não faziam o menor sentido para mim, mas ela falava dos donos desses nomes com uma emoção que nem me cabe explicar.
A garota tinha um grande apreço pelas pessoas de quem falava, ela contava histórias sobre elas, ria consigo mesmo e me contagiava. Ela se mostrou também uma grande amante de músicas, de vários estilos, mas a maioria me soava estranhamente desconhecida e eu sentia que se ela nunca te tivesse me mostrado, certamente eu nunca viria a conhecê-las.
Muitas vezes eu a via de longe e não me aproximava, simplesmente a deixava com seus pensamentos sonoros e seus fones de ouvido sintonizados em suas canções suaves. E ela passava pela rua, diminuía o passo para observar a casa verde que talvez nunca viesse a ser sua, mas que era um apego que ela tinha, uma forma de sonhar com um amanhã melhor do que presente, uma maneira de escapar da realidade.
Pouco a pouco deixei de vê-la, suas caminhadas por aquela área se tornaram mais raras, até que não a vi mais e nem sequer me lembro da última vez nem das últimas palavras que trocamos.
Aquele minha personagem anônima sumiu de minha vida sem que eu pudesse planejar um fim para sua história, que com certeza ainda está sendo escrita por outros cantos, mas imagino que ela ainda sonhe com a casa na esquina e seu cachorro companheiro. Ela está por aí, vivendo a sua vida ao redor daqueles que lhe são importantes, ora quieta em seu canto particular, plantando sonhos futuros, ora entre risos divertidos com amigos, saboreando as coisas boas da vida.
Não vou criar um final para ela, pois nem mesmo sei como o faria. Uma vida real não pode ser terminada na ficção, foi pensando assim que parei de escrever finais para meus personagens, eu apenas lhes dava um nome, inventava um passado e montava um presente, mas os deixava livres para viver um futuro como bem entendessem.
Pois a vida é assim, uma caixinha de surpresas que a gente abre em cada amanhã.

A história pode ser real ou não, depende do ponto de vista de cada um. Depende de quem conhece a menina ou de quem apenas ouviu falar dela, como vocês. Abraços.

13 sorrisos compartilhados:

{ Adriana Antunes Polak } at: 16 de março de 2011 22:48 disse...

Gosto da maneira como vc escreve. Me prendo, viajo, crio... Parabéns!
Bjos.

{ Charlie Bravo' } at: 16 de março de 2011 22:56 disse...

Eu fazia isso com as pessoas da faculdade. Imaginava quem elas eram e montava histórias variadas sobre o mundo dela, nunca cheguei a falar com Belle, e ela nem sabe que eu existo, mas escrevi um bom conto sobre a moça do cabelo ruivo.

rs, abraços, Charlie B.

{ Leticía Gomes } at: 16 de março de 2011 23:17 disse...

Rô! Fiquei tão, mas taõ feliz de ver seu comentário e depois ler tudo aquilo! Muito obrigada mesmo, você sabe que está nos meus preferidos e eu peço desculpas por quase nunca estar aqui. Às vezes veio, leio, mas não comento.

Mas sobre o seu texto: eu tenho apego à casas simples, não sei porque, sempre foi um "xodó" meu. vi-me na garota, então. achei demais seu jeito de interagir com sua propria personagem. nunca tinha visto isso antes.
o texto, é claro, prendeu os olhos do começo ao fim porque, na minha opiniao, poderia estar facilmente num livro de cronicas ou contos. parabéns pra voce, mesmo, pelo talento. eu posso perguntar sua idade? rs, acho que voce se daria bem na parte da redação do vestibular (tudo bem não querer falar, haha)

ok, chega de falar.
abraços, voltarei! haha

{ Rebeca Postigo } at: 16 de março de 2011 23:28 disse...

Adorei o texto!!!
A simplicidade das palavras trouxe nas entrelinhas muito mais que apenas significados isolados...
Amei!!!

Bjs

{ A Escafandrista } at: 17 de março de 2011 00:11 disse...

é lindo, cada um poderia escrever o final de seus personagens... e se pudessem não ter final? ai que delícia vir aqui e refletir... bjs.

{ Inercya } at: 17 de março de 2011 02:27 disse...

Que encanto de história! Provavelmente a menina sonhadora foi em busca de seus sonhos e pode até ser que ela tenha encontrado uma casa verde como essa que ela tanto apreciava. Há possibilidades, mas não se sabe. Mas, por aí, alguém deve ter notícias dela.

Muito fofa a história e o jeito que você a escreveu. Foi delicioso lê-la.
um beijo :*

{ Daninha } at: 17 de março de 2011 08:35 disse...

E quem sabe, eles não acabem se encontrando nesse futuro incerto?!
Pois a vida é realmente uma caixinha de surpresas.
Beijos ^^'

{ Patrícia ♥ } at: 17 de março de 2011 14:41 disse...

Parabéns pelo blog, perfeito!!

estou seguindo!!

beijo
http://pathyoliver.blogspot.com

{ • Cynthia Brito • } at: 17 de março de 2011 15:00 disse...

Bom, Rodolpho, na verdade o André passa por uma situação difícil, e carinho,para ele, agora, é essencial. Ele consegue reconhecer que apesar dos pesares a Karina sempre o amou,embora todo aquele amor fosse fruto de uma farsa. Ele está confuso. É isso. Espero que isto não tenha atrapalhado sua leitura - juro que esta nunca foi nem será minha intenção :D
Sei que estou muito dispersa do blog, inclusive do meu :x Mas, agora,minha vida tá pipocando. É muita coisa para fazer, muitos cálculos, muita química, muita história, muitos contos. E isso requer muito de mim. Primeiro disposição,depois tempo, também a concentração,e dentre tantas outras coisas que muitos na minha idade (ou não) precisam fazer.

Bom, ainda estou em dívida contigo. Li palavras soltas do conto O homem de pedra. Tem uma ótima aparência e o título chama muito a atenção. Mas ainda não li :/Prometo,numa boa, vir aqui ler do começo ao fim :D Promessa é dívida #nénão?

Beijos e bom fim de semana.

Com amor,
Cynthia *

{ . pamela moreno santiago } at: 18 de março de 2011 14:50 disse...

Já fiquei presa no título e tentando imaginar o que aconteceria ao longo de seu conto.
Confesso que tenho muuuuuita preguiça de ler contos grandes, mas este foi uma das exceções mais prazerosas a que me dei. Está perfeitamente escrito. Meus parabéns.
E obrigada pela visita e pelas palavras no meu.
Beijos e um bom fim de semana.

{ Flor de Lótus } at: 18 de março de 2011 15:03 disse...

Lindo post, fiquei tentando imaginar como seria a menina da casa verde, eu nunca basiei um personagem meu em alguém real, aliás nem sei muito bem de onde eles saem, parece que eles chegam aos meus ouvidos e me pdem que eu conte suas histórias.
Um ótimo fim de semana!
Beijosss

{ Alexandre Fernandes } at: 19 de março de 2011 20:28 disse...

Bem diferente Rodolpho. Gosto dessa coisa vaga em alguns contos. Você fica imaginando. Praticar este exercício é muito bom. Você não fica preso ao final estabelecido, mas fica, imaginando muitas possibilidades, diante das tantas opções, construídas nessa realidade. Ficcional ou não, apenas esta sensação de não saber bem, é realmente fantástico. Nos abre um leque impressionante de opções.

Que texto ótimo!!

Abração!

{ Tati } at: 27 de março de 2011 20:51 disse...

Posso até me sentir como essa sua Menina da casa verde sabia... Sei lá... Muito lindo esse teu escrito, me tocou muito e eu realmente me vi em muitas linhas.

 

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