Keblinger

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As palavras sempre ficam

| quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011
“Meu amor não cabe em quatro letras, ele se esparrama diversas vezes pelo alfabeto todo e ainda assim é sem medidas.” Encontrei o bilhete dele sobre o criado-mudo, ao lado do despertador, assim que me levantei da cama e vi que o dia já estava quente demais para que eu ficasse dormindo.
Toda manhã ele me deixa palavras lindas de mãos dadas que acenam do pequeno pedaço de papel e me arrancam o maior sorriso que nenhum simples bom dia poderia ser capaz. Eu me levanto como sempre, abro a janela e com a expressão congelada de felicidade, saúdo o sol. Depois eu começo a rotina automática: escovar os dentes, ajeitar o cabelo, lavar o rosto, fazer café e assim por diante.
Ele já devia estar no trabalho uma hora dessas, sufocado em uma papelada interminável e pensando em mim, eu sei disso, pois sempre penso nele e ele uma vez me disse que nossos pensamentos estão em sintonia e eu acreditei.
Passei algumas horas diante da televisão, vagando de canal em canal, procurando alguma coisa que captasse meu interesse, mas foi em vão... voltei ao quarto, contemplei o papel dobrado, as letras sólidas e bem feitas e sorri mais uma vez. Era isso que sempre fazia meus dias mais importantes, que me mostrava o quanto sou especial para ele. Palavras regadas com amor.
Ainda me lembro daquele dia chuvoso em que nos conhecemos, ele corria apressado para atravessar a rua e derrubou várias folhas de papel no asfalto molhado, geralmente eu me faria de distraída para não precisar ajudar, enquanto continha uma risada imprópria para o momento, mas ao ver sua aflição e os olhares suplicantes para os lados, eu decidi ajudar. Corri até ele, com meu guarda-chuva azul com bolinhas brancas e o ajudei a apanhar todo aquele papel em branco.
- Por que esse desespero todo por folhas em branco? – eu perguntei intrigada.
- Bom, um papel em branco é tão importante quanto um preenchido por letras, pois eles são os alicerces de qualquer criação.
- Não me diga – respondi indiferente.
Ele pegou uma folha seca e uma caneta de uma pasta, escreveu algo e me entregou.
“Era uma vez...”
- Era uma vez o quê? – perguntei.
- Quem pode saber? – ele riu – A partir de folhas em branco começamos novas histórias, mas nunca sabemos aonde elas vão nos levar, todo esse espaço vazio é um mistério, você não acha?
- É, acho que você acabou de provar seu ponto de vista...
- Desculpe, mas eu tenho que ir – ele disse e se despediu, deixando cair atrás de si um pedaço de papel, o agarrei antes que a água levasse embora e vi que era seu cartão, com seu nome, telefone e endereço do escritório em que trabalhava.
Voltei para casa aquele dia, ainda segurando o papel com as três palavras escritas na caligrafia mais caprichada que eu já vira. As palavras me encaravam impacientes, como se pedissem por uma continuação, mas eu não sabia o que lhes dizer.
“Quem pode saber?”, a voz dele me perguntava constantemente no decorrer do dia.
No dia seguinte, ainda sem saber a razão, eu estava parada no mesmo lugar de onde o vira numa luta para resgatar os papéis vazios e no mesmo horário do dia anterior ele atravessou a rua apressado e eu o segui.
- Era uma vez o quê? – perguntei mais uma vez, me aproximando dele.
Ele sorriu ao me ver, baixou a cabeça e respondeu:
- Era uma vez uma moça curiosa que foi chamada para almoçar pelo homem da pasta cheia de folhas em branco.
- E ela aceitou? – eu perguntei encenando a moça interessada.
- Ela nem pensou duas vezes – ele disse e fomos almoçar em um magnífico restaurante de comida caseira.
Foi assim que eu descobri sua idade e gostos e lhes disse os meus. Passamos a comer juntos todos os dias e nossa sintonia aumentava cada vez mais, eu me sentia bem ao seu lado, eu sorria e o fazia sorrir. Lembro-me do nosso primeiro beijo, com gostinho de arroz temperado e do modo como ele corou em seguida.
Namoramos por dois anos e decidimos morar juntos. Acordei na manhã do primeiro dia na casa nova e me deparei com um bilhete no espelho do banheiro que dizia:
“Enquanto eu não estiver por perto, lhe deixo minhas palavras. Elas vão ficar contigo e lhe fazer companhia.”
E ele estava certo, mesmo em sua ausência as palavras sempre ficam, mas eu conto as horas para tê-lo em meus braços outra vez.

Segundo texto em homenagem aos blogs nesse ano, o As palavras sempre ficam é o blog da Gabriela Furtado, espero que ela e todos que lêem gostem do texto. Grande abraço.

13 sorrisos compartilhados:

{ A Escafandrista } at: 24 de fevereiro de 2011 23:59 disse...

adorei e estou seguindo. já estava devendo uma visita ao teu blog tbm, pois havia visto teus comentários no blog do cris, na oficina, e gostei. bjs

{ Cristiano Guerra } at: 25 de fevereiro de 2011 00:47 disse...

Ha, que fantástico. O que me faz rir, Rodi, é toda essa boa-aventurança que você sabe espalhar por aqui. Você é mestre nisso.


Abraço

{ Taynara Ambrósio } at: 25 de fevereiro de 2011 01:55 disse...

Rôh, você é fantástico. Lança logo o teu livro, fará muito sucesso.
Esse texto arroncou muitos sorrisos apaixonados de minha boca.Diga-se de passagem já pelo início dele né? adoro suas figuras de linguagens.

História fascinante. Beijos.

{ Tassyane Américo } at: 25 de fevereiro de 2011 14:56 disse...

Tuas palavras sempre emocionam. Incrível! Saudades disso tudo aqui, desse mar de emoções, Rod! Beijão e mais um vez: Adorei!

{ Tati } at: 25 de fevereiro de 2011 23:47 disse...

É meu Rapaz, cada vez em que te leio, sinto-me embalada por essa sua sutileza e excelência em conduzir as letras.
Gostei demais desse e realmente, as palavras sempre ficam, sempre acompanham.


Um Beijo

{ • cynthia bs } at: 26 de fevereiro de 2011 09:15 disse...

Olá rapaz. Ah, que alívio saber que tens outro conto \o/ Meu coração saltita de alegria, viu? hehe* Sim, quanto ao conto que estou a escrever, já postei a 6ª parte, se acaso quiseres ler (é que você pediu para que eu te avisasse).

Espero que gostes.

Ah, espero ansiosa pela última parte, estou roendo as unhas (:

Beijinhos e até logo.

Com amor,
Cynthia**

{ Flávia } at: 26 de fevereiro de 2011 15:24 disse...

ouuun, que lindeza esse! =D

Adorei, muito meigoo! ^^

As palavras sempre ficam...

beeijos

{ • cynthia bs } at: 26 de fevereiro de 2011 16:57 disse...

Ah, ta certo. Poste logo. E prepare-se para a próxima parte de "Uma história de amor".

Obrigada por me seguir no twitter. Também te sigo. Qualquer coisa só gritar . hehe

Beijinhos*

{ Bruna Frisso } at: 26 de fevereiro de 2011 18:40 disse...

Nossa, realmente lindo o seu texto. Fiquei impressionada. Parabéns, seu dom com as palavras é realmente diferente. Qualquer coisa passa la! Beijos

{ Inercya } at: 27 de fevereiro de 2011 04:48 disse...

Oi pra você também (:
Quase perdi de ler esse conto incrível! Ainda bem que cheguei a tempo. Engraçado, parece que as palavras saem dançando dos seus dedos. Foi que eu constatei ao ler esse conto. Não sei, deve ser sua forma de escrever...Uma forma diferente, mas muito encantadora.
A proposito, achei linda essa história.
:*

{ Lariissa } at: 27 de fevereiro de 2011 16:07 disse...

eu adoro esses textos, todos são maravilhosos!

{ Sara R. Carneiro } at: 28 de fevereiro de 2011 16:54 disse...

Rô, esse texto ficou absolutamente perfeito. Já li muitos (lê-se todos) textos bons aqui, mas esse me fez sorrir de uma maneira diferente. Parabéns, mil vezes parabéns. Fiquei sumida por uns dias daqui e quando volto me deparo com essas palavras maravilhosamente encaixadas num texto de encher o coração de alegria. Mais uma vez, parabéns. Beijo na testa.

{ Charlie Bravo' } at: 1 de março de 2011 13:30 disse...

Apaixonada que só ela! Eu sou o tipo que escreve bilhetes, que quer ser lembrado!

Abraços Rod.

Charlie B.

 

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