Keblinger

Keblinger

Carta #7

| domingo, 30 de janeiro de 2011
S.

Nos dias da primavera são os que eu mais penso em ti, nos seus beijos doces e no seu corpo cheirando a rosas. Olho para o sol se deitando no horizonte e peço ao vento para me trazer teu cheiro suave. Mergulho em pensamentos das nossas noites de amor, quentes como brasas, enquanto eu te possuía e você me sufocava naquele abraço apertado, arranhava minhas costas e arfava em meus ouvidos. As noites de primavera me levam a esses devaneios luxuriantes e pecaminosos, me fazem sentir o peso da vergonha nos ombros, me atiram no rosto as blasfêmias que tenho dito e as promessas que eu tenho quebrado. Eu não posso te manter em meus pensamentos, não posso te guardar em meu peito, mas a vontade de ter em meus braços mais uma vez é mais forte que qualquer negação. Meu corpo aprendeu a viver colado ao seu, não posso mais viver sozinho, despregado de seu suor e de sua pele lisa. Quero você aqui e quero você longe, minha vida tem se tornado um martírio cada vez mais doloroso por causa desse paradoxo de ter em segredo dentro do coração e tentar te expulsar da minha cabeça.

N.

Quem acompanhou o conto "As cartas do monge sem nome" que eu postei no meio do ano passado se lembra (ou não) das cartas misteriosas, porém nas sete partes do conto foram apresentadas apenas seis cartas, decidi então escrever as outras, que serão postadas aleatoriamente. Para ler o conto clique aqui (e leia cada parte) e para ver somente as cartas clique aqui.

Férias na mansão - Parte 6 (Final)

| sexta-feira, 28 de janeiro de 2011
Hora do conto - Para entender, leia a Parte 1, Parte 2, Parte 3, Parte 4 e Parte 5

Voltamos cada um para o seu quarto e apanhamos o primeiro bilhete, o de Lily estava comigo. Jesse veio até meu quarto com o dele.
“A curiosidade vai guiar o caminho.”
- A curiosidade fez a gente começar com tudo isso, quando entramos no escritório do vovô – eu falei.
“O conhecimento leva ao saber oculto.”
- Nossas deduções e conhecimento das coisas nos levaram a desvendar uma pista atrás da outra – Jesse disse.
“Nunca deixe que lhe tirem aquilo que você mais tem.”
- Ainda não entendo esse bilhete da Lily – confessei e meu primo disse que não tinha ideia também.
- Ela é sua irmã, o que ela mais tem?
- Bonecas? – arrisquei e ri de quão patético isso soou.
- Não, cinco letras... quer dizer cinco dígitos – Jesse falou sem entender o próprio raciocínio.
- Espere um pouco, Jesse, é isso, acho que sei o que é, vamos. – antes de voltarmos ao terceiro andar, apanhei um caderno e um lápis.
Diante da porta, desenhei dois quadros e os mostrei a Jesse.


- A regra dos cinco, o que isso tem a ver? – ele me perguntou.
- Tudo levou a gente de volta para o início, para a primeira pista. O bilhete de Lily. O que ela mais tem? – meu primo me olhava sem entender – Ela é uma criança, Jesse, ela sonha. A palavra que procuramos é “sonho”.
Aprendemos a regra dos cinco com os nossos pais, para cada letra de uma palavra usamos um correspondente numérico com a mesma posição na outra tabela.
- Tem fundamento – ele disse e pegou o caderno de minhas mãos – Vamos tentar, digite aí: 45435.
Digitei, mas nada aconteceu.
- Tem certeza que você fez certo? – perguntei e olhei para o papel, convertendo as letras em números. S 4, O 5, N 4, H 3 e O 5.
- O número morto, Daniel, se lembra? – Jesse me perguntou.
Toda palavra transformada em números continha um número morto, ou seja, o 0.
- Qual letra pode ser? – perguntei, mas me dei conta instantaneamente – É o H, o vovô é egocêntrico a ponto de deixar sua inicial como o número morto. Então digitei 45405.
Ouvimos um estalo e a porta se abriu.
Nessa mesma hora Lily apareceu no topo da escada segurando uma boneca.
- Do que vocês estão brincando? – ela perguntou.
- Sejam bem-vindos – uma voz falou de dentro do cômodo secreto.
Jesse e eu olhamos assustados e demos de cara com o vovô, enquanto Lily se aproximava.
- Mas vo... o quê... – balbuciei e pela primeira vez ouvimos o som da risada de vovô.
- Vamos, entrem. Vou explicar tudo, venha você também, Lily – ele convidou.
O cômodo era enorme, cheio de estantes e livros por toda a parte. Era uma biblioteca. Vovô nos guiou até uma mesa e nos sentamos, Lily começou a percorrer os corredores.
- O conhecimento só vem para aqueles que o buscam, para os ávidos e curiosos, para os sonhadores – disse vovô e indicou minha irmã com a cabeça. – Eu fiz esse jogo com vocês para testar sua persistência e sabedoria e estou impressionado com a rapidez com que o completaram. Agora vocês têm o direito de estarem aqui e desfrutar de todo esse mundo. Eu tenho alguns exemplares bem raros de livros históricos que nem mesmo museus possuem, além dos papiros raríssimos da Biblioteca de Alexandria. Este lugar é um templo e agora vocês fazem parte dele.
- Você esteve aqui dentro o tempo todo? – perguntou Jesse, mudando totalmente de assunto.
- Sim, estive esperando por vocês.
- Vovô, o senhor é um maluco – eu disse e nós rimos.
Vovô nos guiou pelo imenso labirinto de estantes e nos mostrou livros e histórias fascinantes, contemplamos os papiros antigos protegidos dentro de uma caixa de vidro selada a vácuo e várias relíquias de viagens que ele fizera.
- Vou deixá-los por um instante, não façam bagunça – ele aconselhou e saiu.
- Nem acredito que conseguimos, Daniel. Olhe este lugar, é incrível – Jesse me disse entusiasmado.
- É realmente impressionante, eu nunca imaginaria que vovô tivesse uma biblioteca tão rica como essa.
Lily se aproximou carregando um livro e pediu:
- Lê uma história para mim – e me entregou um exemplar de O pequeno príncipe - Antoine de Saint-Exupéry.
- É claro, senta ali e vamos ler – eu disse e nos sentamos em um grande tapete circular. Assim que abri o livro um pedaço de papel caiu de dentro dele, Jesse o pegou, leu e me mostrou.
A breve linha estava escrita com uma caligrafia fina, exatamente igual a dos bilhetes que encontramos em nossos quartos e dizia: Os jogos estão apenas começando.

FIM

Bom, é isso, mais um conto chega ao fim. Graças a Deus, né? Haha. Espero que tenham gostado de mais esse e até a próxima. Abraços.

Não era para ser

| quarta-feira, 26 de janeiro de 2011
♫ (...) It's hard to believe
That there's no way out for you and me
And it seems to be the story of our lives... ♪

“Talvez não fosse mesmo para ser.” Você me disse na noite em que partiu e deixou atrás de si o rastro da indiferença que sentia.

Nossa história muito provavelmente começou baseada nas mentiras de dois corações solitários cansados de ficar sozinhos. Fizemos juras e vivemos uma falsa história de amor, a qual mascarávamos com frases bonitas e sorrisos amarelos.
Dentro de cada um de nós, sabíamos desde o começo que aquilo não duraria muito tempo, que apesar da chama acesa em nosso peito, um vento muito mais forte chegaria e a apagaria como a brisa extinguindo a chama de uma vela.
Há vários tipos de romances espalhados pelo mundo, vários cadernos de linhas vazias esperando ser preenchidos por versos coloridos e perfumados, nós apenas rabiscamos nosso caderno por um tempo, fizemos rascunhos que nunca serão passados a limpo, colocamos reticências onde nunca haverá um ponto final verdadeiro, exatamente porque nunca houve um começo. Não há como terminar uma coisa que nunca existiu.
Não vou dizer que as ternuras e carinhos trocados tenham sido em vão ou pura falsidade, não. Temos em nossa consciência o que de fato significou algo e o que foi consequência de uma relação não concretizada.
Os sorrisos foram reais, os momentos de felicidade, embora efêmeros foram importantes e inesquecíveis, mas é preciso de muito mais do que isso e o que é preciso é justamente aquilo que não podemos dar.
Não sei qual dos dois lados errou mais, mas não convém apontar as falhas alheias ou buscar dentro de si mesmo os próprios erros.
Assim como nada é para sempre, o nosso para sempre nunca teve sequer a chance de existir.

"Entenda que eu te amo, mas não preciso de você"
(Desconhecido)

Topei, por acaso, com essa frase final e ela ficou martelando na minha cabeça até eu encontrar maneiras de entendê-la realmente e através desse conto eu expus o que julguei ser uma interpretação relevante. Grande abraço.

Férias na mansão - Parte 5

| domingo, 23 de janeiro de 2011
Hora do conto - Para entender, leia a Parte 1, Parte 2, Parte 3 e Parte 4

Jesse e eu descemos rapidamente as escadas e fomos ver do que se tratava aquele grito. Encontramos a criada na porta do quarto de Lily.
- Ela teve um pesadelo, só isso – a velha nos disse.
Lily saiu do quarto, agarrada a uma boneca e forçando uma cara de inocente e disse:
- Foi um sonho ruim, mas já acordei.
Deixamos as duas e fomos até o jardim, para pensar como desvendaríamos o próximo enigma.
06/08/1945 – A bomba atômica é lançada pelos EUA na cidade japonesa de Hiroshima.
Relemos várias vezes e não conseguimos encontrar nenhuma resposta.
- Vovô sabia sobre nossos estudos, certo? – perguntei para Jesse, uma linha de pensamento começava a se formar.
- Acho que sim, ele viu nossos livros.
- Exatamente, ele criou esse jogo baseado em nossos livros – eu disse.
- Não entendi – Jesse admitiu.
- A primeira pista foi ligada à química, a reação do calor e a mensagem secreta. Depois usamos matemática ou números, no livro e no relógio e essa última pista é sobre história...
- Então você quer dizer que para descobrirmos a próxima pista temos que usar a literatura?
- Isso mesmo – eu respondi e digitei “Hiroshima + literatura” no celular e pesquisei, assim que vi o resultado percebi o que tinha deixado passar por distração.
- A rosa de Hiroshima, o poema de Vinícius de Moraes – Jesse leu sorrindo.
- A pista está no poema – falei e lemos todo o poema, mas mais uma vez nos vimos em um beco sem saída.
- E se perdemos alguma coisa? – Jesse perguntou depois de um tempo e ao ver meu olhar confuso, começou a explicar – Na primeira pista, vovô usou os números em forma de data, mas que tinham um segundo sentido, depois o século da construção do castelo também tinha um outro sentido, mas a pista que encontramos no relógio teve o sentido correto, “a moldura guarda um segredo”, e se tiver algo mais?
Pensei por um momento e quando me dei conta estávamos novamente no terceiro andar, diante do quadro abstrato. A gravação na madeira estava ali, mas não tinha nada demais, a não ser...
- É claro. A moldura guarda um segredo... o quadro também é o segredo.
Jesse encarou o quadro, tentando entender.
- Se você olhar atentamente, essa mão não tem o polegar – ele falou – É isso?
- O indicador levantado, pode se referir ao número 1 e os outros dedos dobrados ao número 3 – meu primo ainda não acompanhou meu raciocínio. Apanhei meu celular, mostrei-lhe o poema e expliquei – 1ª estrofe, 3º verso.
“Pensem nas meninas.”
- Lily? – Jesse indagou.
- Ela também recebeu o primeiro bilhete. Talvez haja algo mais. Vamos.
Caminhamos de volta às escadas, mas uma porta me chamou a atenção. Passamos tantas vezes por ela, sempre pensando em outra coisa que nunca a notamos. Apontei para o meu primo que exibiu um olhar confuso ao ver um painel eletrônico instalado na porta dupla. Era preciso uma senha numérica de cinco dígitos para destrancá-la.
Ao que tudo indicava, as pistas estavam nos guiando àqueles cinco dígitos.

EM BREVE - PARTE 6 (Final)

Uma noite no descampado

| quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Ao som do rádio, atrás do volante, eu tentava manter minha excitação sob controle e ela, calmamente, ao lado, sorria ao vento e segurava os cabelos.
Eu tinha dito que a levaria a um lugar especial, para nossa primeira noite especial, pois ela é uma garota especial. Ela concordou, eu sei que também esperava por esse momento e ambos estávamos apreensivos e com aquele frio na barriga que puxava como um gancho.
O céu estava vestido de um azul claro e sem nuvens, o calor do sol era enfraquecido pelo sopro do vento causado pelo carro em movimento.
“Estamos quase lá”, eu pensei e olhei de esguelha para ela, que cantava e se sacudia.
As músicas continuaram a tocar e pouco antes da despedida do dia, chegamos ao descampado.
Ela olhou através do vidro para a extensa campina coberta de relva e sorriu para mim, como se aprovasse a escolha da localidade.
- Eu costumava vir aqui com meu pai para pensar – eu disse e acompanhei a vista dela. Nenhuma árvore por perto, ninguém além de nós.
- Aqui me parece um bom lugar para pensar, acho que até estou pensando agora – ela disse rindo-se.

- Você tem certeza de que está pronta? – eu perguntei. A lua brilhava lindamente, acompanhada das milhares de estrelas cintilantes com aquele céu azul escuro de fundo. A brisa leve levantou alguns de seus fios dourados de cabelo e o silêncio em volta gritava por uma resposta. Seu olhar expressivo pousou sobre mim, como se tentasse penetrar em minha cabeça e desembaralhar o emaranhado de pensamentos. Meu coração palpitava e parecia estar preso em minha garganta, ainda indeciso se voltava para o lugar ou se saltava para fora. Minhas mãos tremiam e eu tentava não deixar isso à mostra.
Ela se inclinou com aquela sensualidade de menina crescida e me beijou com suavidade, acrescentando doses de fervor e malícia a cada beijo.
Pulamos para o banco traseiro, ela me pregou no assento com o peso de seu corpo e se debruçou para me beijar ainda mais, enquanto suas mãos avidamente desabotoavam minha camisa e deslizavam pela minha pele arrepiada.
Delicadamente tirei sua blusa e deixei meu dedos alucinados percorrerem cada centímetro, desbravando seu corpo desnudo, descobrindo mistérios.
Enlacei meus dedos em seu cabelo e a beijei como nunca. Nossos corpos se uniram, eu a desvendei como um tesouro perdido e o som de sua respiração ofegante em meu ouvido me instigava a continuar com aquilo. Seu corpo se movia conforme os meus movimentos, seu suor se misturou ao meu... e chegamos ao clímax do prazer.
Depois do ato, com sua cabeça em meu peito, eu não encontrei palavras para quebrar o silêncio que agora soava ameno.
- Está pensando em quê? – ela me perguntou com uma voz cansada.
- Em tantas coisas – eu respondi.
- Aqui é realmente um lugar para pensar, estou pensando em muitas coisas também – nós dois rimos.
- E será que você pode dividir um pensamento?
- Não, eu posso trocar. Digo um meu e você diz um seu, de acordo? – eu fiz que sim e esperei ela continuar. – Eu estava pensando em quão maravilhosa foi essa noite. E sim, eu estava pronta. Agora é a sua vez.
Pensei por um instante e disse:
- Eu estava pensando que eu sou um cara muito sortudo por ter você e que te acho linda mesmo com o cabelo todo bagunçado.
Ela passou as mãos no cabelo e escondeu o rosto.
- Bobo, não era para você ter me visto desse jeito. Agora pegue o lençol e vamos dormir, estou pensando em descansar e guardar esse momento para sempre.
Apanhei o lençol e atirei sobre nossos corpos.
- Esse momento vai ser sempre nosso – eu disse e a envolvi em meus braços.
Adormecemos ao som dos grilos e do vento que cantava canções de ninar e um último pensamento me ocorreu. Não foi o lugar, a noite nem nenhuma outra coisa que fizeram daquele momento especial. Foi ela, fomos nós.
Nós temos o poder de fazer coisas simples se tornarem inesquecíveis.

Pauta para o Bloínquês

Um ciclo em fechamento

| terça-feira, 18 de janeiro de 2011
Caminhando em passo lento,
sigo a multidão em andamento,
ainda brigando com o entendimento,
onde a realidade me traz tormento

O tempo tão cruel e sonolento,
me apunhalou com esse sentimento
que se fez presente com seu fraco batimento,
assim que deste seu último alento

Se eu pudesse assim, só por um momento
te embalar ao som do vento
congelado na ternura em acalento
e ver-te mais uma vez em movimento,
um sorriso viria em agradecimento,

porém meu peito rasgado e incruento
chora sem primor e sem sustento,
pois a eternidade vestida em paramento
roubou-te sem o meu consentimento.

O adeus me arrebata violento
quando tudo isso chega ao encerramento.
Lágrimas e dor em meu coração ostento,
enquanto pás de terra lhe dão acolhimento.

Pauta para o Bloínquês
É, me arrisquei em mais um poema. Não custa tentar, né?

Férias na mansão - Parte 4

| domingo, 16 de janeiro de 2011
Hora do conto - Para entender, leia a Parte 1, Parte 2 e Parte 3

Rapidamente retirei o pedaço de papel do relógio e o desenrolei à vista de Jesse, para que ambos pudéssemos ler o que estava escrito.
- “A moldura guarda um segredo” – meu primo leu. – Que moldura?
- O corredor dos quadros – eu falei sem pensar.
A mansão de vovô tem três andares, o primeiro abrange a cozinha, copa, escritórios, a sala de reuniões e outros cômodos. Os segundo andar é onde se localizam os quartos da família, os de hospedes e dos criados e o terceiro andar é um corredor cheio de cômodos desconhecidos e com quadros espalhados por toda sua extensão.
Não podíamos ficar circulando pela casa como ratos noturnos e por isso decidimos deixar para procurar pela “moldura” na manhã seguinte, sendo assim Jesse foi para o seu quarto e eu fui para o meu.
Deitei na cama, mas meus pensamentos não paravam de questionar para onde vovô estava nos levando com aqueles jogos e enigmas. Adormeci preso a esses questionamentos.
Logo cedo, após o café da manhã, Jesse me puxou pela manga da camisa e disse que queria terminar logo com aquele mistério.
Esperamos por uma deixa da criada e subimos ao misterioso terceiro andar.
- E agora? Qual moldura estamos procurando? – Jesse perguntou encarando o longo corredor cheio de quadros.
- Eu não tenho ideia – respondi e comecei a caminhar, observando cada retrato, paisagem ou desenho abstrato emoldurado.
- Você contou? – Jesse exibia um olhar irritado e eu não compreendi a pergunta – São vinte e oito quadros. Que tipo de pista é essa?
Retirei o papel dobrado do bolso e o li novamente.
- Talvez não estejamos procurando por um quadro. Aqui diz que a moldura guarda um segredo, vamos nos separar e procurar alguma coisa nas molduras.
Jesse assentiu e ficou responsável pelo lado esquerdo do corredor e então começamos a procurar por algo que nem sabíamos o que poderia ser.
- Aqui, encontrei – eu quase gritei e Jesse abandonou rapidamente o quadro em que estava vasculhando. Ambos estávamos diante de um quadro abstrato, era uma pintura a óleo do mundo na ponta de um dedo indicador gigante.
Na parte inferior direita da moldura havia uma data gravada na madeira: 06/08/1945.
- O ano em que terminou a Segunda Guerra Mundial – falei.
- Mas o que aconteceu em 6 de agosto?
Apanhei meu celular, digitei a data em um site de pesquisa e assim que obtive uma resposta mostrei a tela ao meu primo.
06/08/1945 – A bomba atômica é lançada pelos EUA na cidade japonesa de Hiroshima.
- Será que isso nunca vai ficar fácil? – Jesse reclamou e antes que eu pudesse responder ouvimos um grito vindo do andar de baixo.

EM BREVE - PARTE 5

Eu sou contra

| sábado, 15 de janeiro de 2011

Ganhei esse selo da Larissa Cunha, agradeço a ela por ter se lembrado de mim e confesso que fiquei satisfeito por ter recebido esse selo. Ele é diferente, pois não é simplesmente um selo de elogio ao blog (não que eu não goste deles), mas esse tem essa proposta explícita e achei muito bacana essa iniciativa.

O selo veio com algumas regras simples:
1. Explicar o que é bullying: (vou usar as palavras dela)
Bullying é um termo em inglês (bully = valentão) que define uma agressão física ou psicológica de forma repetida por um indivíduo ou um grupo de indivíduos, com a intenção de ofender, intimidar, agredir outro indivíduo ou grupo de indivíduos, os quais são incapazes de se defender.
A versão digital desse tipo de comportamento é chamada de cyberbullying, quando a agressão é propagada pelo meio virtual. Há também aqueles que agridem outros indivíduos e também sofrem bullying.

2. Contar se você já passou por isso ou não. Se sim (e você estiver a vontade) conte sua historia. Caso contrário expresse sua opinião sobre o assunto:
Graças a Deus eu nunca passei por isso e acho que as pessoas que cometem esse tipo de agressão são pessoas superficiais, de cabeça fraca e ignorantes. Se pararmos para reparar bem, o bullying é um tipo de preconceito, pois os agressores procuram "alvos" que fogem dos padrões ou que são diferentes. Sem dúvida isso é uma coisa muito séria que precisa acabar.

3. Divulgar o link do blog que deu início a circulação do selo:
Blog: Horrana Porfírio – Hoho’n

4. Indicar mais 6 blogs que você acha que vão aderir a esta campanha:
Vou fugir da regra e vou deixar que todos os interessados peguem o selo e divulguem essa campanha, pois vale muito a pena.
Sim, eu sou contra bullying e cyberbullying e você?

Brincadeiras de criança

| sexta-feira, 14 de janeiro de 2011
No dia de seu casamento Lúcia estava ansiosa para subir ao altar e se encontrar com seu noivo Roberto.
Ao sair do carro, quase entrando na igreja, ela se depara com uma moça chorando. A moça estava bem vestida, tinha olhos azuis e aparentava ter uns 32 anos. A mulher vai até Lúcia, lhe entrega uma carta, pede para que ela a leia e depois vai embora. Lúcia não entende, mas entrega a carta para seu pai e pede para ele guardar para ela ler depois do casamento.
Horas depois de o casamento ter acabado, já na festa, ela nota a ausência de uma pessoa que ela adorava muito, seu amigo Gustavo.
Gustavo era amigo de infância de Lúcia. Quando criança eles eram unha e carne, mas fazia anos que eles não se falavam. Ela o procurou a festa inteira, perguntou para sua família sobre Gustavo, mas nem a família dela sabia do paradeiro dele. Ele era uma pessoa muito importante para ela e não podia ter faltado assim em seu casamento.
Horas depois, ela já tinha desistido de tentar saber alguma coisa sobre Gustavo, mas a festa continuou e foi uma festança daquelas. Depois de algumas horas os noivos vão embora para preparar as malas e seguir viagem para a lua de mel. Chegando em casa Lúcia lembra da carta que recebera da mulher misteriosa e fica procurando em casa, mas lembra que seu pai a pôs dentro do casaco do marido dela e então ela vai buscar. Ela pega a carta, senta-se no sofá da sala e começa a ler.
A carta dizia assim:

Para minha querida Lúcia

Olá Lúcia, tudo bem com você? A gente já não se fala faz um tempinho não é? Fiquei sabendo do seu casamento e fiquei muito feliz, mas ao mesmo tempo bateu uma tristeza imensa no meu coração ao saber dessa noticia.
Lembra quando a gente era criança e brincava no parquinho que tinha perto da minha casa? Você sempre fugia porque sua mãe não deixa você sair sozinha, acho que ela até hoje nunca desconfiou disso, não é verdade? Só que depois ela sempre perguntava aonde você tinha se sujado tanto e você sempre conseguia arrumar uma desculpa ótima.
Eu sinto muita falta das nossas brincadeiras de criança, mas a brincadeira que sinto mais falta é aquela em que fingíamos estar casados. Eu adorava brincar disso com você, mas acho que levei essa brincadeira muito a sério e como disse a você há muitos anos que te amava desde criança, sempre te amei, mas você só dizia que nunca poderia acontecer nada entre nós porque eu era muito seu amigo. Quando você dizia isso eu ficava triste, sempre pensando como eu podia mostrar a você o amor que sentia por ti, mas você nunca notou.
Quando você me mandou o convite para seu casamento meu mundo veio abaixo, ainda mais quando vi no convite que você ia casar-se com o Roberto, meu melhor amigo. Mas fazer o quê? Você não soube aproveitar todo o amor que demonstrei por você, é por isso que te enviei essa carta, para você saber o verdadeiro amor que tinha por você e foi por esse amor que me suicidei um dia antes do seu casamento.
Eu não conseguiria aguentar te ver com outro homem, mas não fique chocada com essa notícia, eu tentei de várias formas ter o seu amor pra mim, mas não consegui. O melhor era eu ter feito isso mesmo, mas antes do meu suicídio eu lembrei das nossas brincadeiras de criança.

Com todo amor que te dei que nunca foi correspondido, do único homem que te amou verdadeiramente.
Gustavo.

Lúcia ao ler a carta achou que fosse uma brincadeira de mau gosto e lembrara que tinha o número da mãe dele perdido em algum lugar. Procurou a casa inteira e achando o número ligou imediatamente para ela.

- Alô - Respondeu uma voz que mal conseguia sair de tanto soluço por causa de muito choro.
- É da casa da mãe do Gustavo?
- É sim - respondeu a senhora
- Aqui é a Lúcia, amiga de Gustavo.
Quando a senhora ouviu o nome dela caiu aos prantos e Lúcia ouvia tudo pelo telefone.
Ela perguntou sobre Gustavo para a senhora e ela respondeu que ele tinha se suicidado, mas não sabia o motivo e disse para ela que o velório seria amanhã e o enterro no mesmo dia.
Lúcia e Roberto resolveram não viajar aquele dia para dar o último adeus a Gustavo.
Na hora do enterro Lúcia lembrou-se da carta e começou a chorar sem parar.
- Tudo por minha causa. Como eu não fui perceber que seu amor por mim era verdadeiro? Para demonstrar seu verdadeiro amor resolveu se suicidar. – ela gitou.
As pessoas olharam para ela como se ela estivesse louca e pensaram como ela poderia pensar que ele havia se suicidado por causa de um amor.
Depois desse dia Lúcia nunca mais foi a mesma, porque ela sentia uma coisa que havia lido numa frase a muito tempo atrás.
A frase dizia: "A gente só dá valor depois que perde".

Texto escrito por Carlos Faria Dourado. Um amigo que está começando a escrever e pediu que eu postasse seu texto aqui, quem sabe ele não se anima a criar um blog.

Férias na mansão - Parte 3

| quarta-feira, 12 de janeiro de 2011
Hora do conto - Para entender, leia a Parte 1 e Parte 2

Jesse olhava descrente do papel para mim, sem saber o se aquilo era real ou não.
Gradualmente, no centro da folha em branco, apareceram letras, ligadas uma a uma, formando uma frase. Era uma pergunta.
- “O que CRZ disse em 22/12/11,12,13?” – eu li em voz alta, enquanto meu primo ainda tentava entender como as palavras haviam aparecido ali.
- Como é que...
- Tinta invisível – eu respondi – É feita com limão e leite, você escreve no papel e depois de seca ela desaparece e o calor faz aparecer novamente – afastei a folha da luminária.
- O velho é pirado, mas é esperto. – ele disse e eu concordei. – Mas o que será que isso quer dizer? – ele apontou para a mensagem que tínhamos descoberto.
- Eu não sei, parece uma data.
- Uma data no futuro. – ele zombou.
- Quem é CRZ? – Jesse deu de ombros.
Sentei na cadeira diante da mesa e comecei a analisar as iniciais e a data peculiar. Jesse percorria o escritório tentando encontrar mais alguma pista e eventualmente ia até a porta para checar se alguém havia percebido nossa presença indevida ali.
- A sombra do vento. Meu pai estava lendo esse livro – eu disse e apontei para o livro sobre a mesa. Jesse se aproximou e apanhou o livro, leu a sinopse e disse:
- Parece interessante, mas não acho que o vovô esteja lendo, não tem nenhum marcador de página. – então ele depositou o livro sobre a mesa e a capa chamou minha atenção.
A sombra do vento – Carlos Ruiz Zafón.
- Jesse, acabei de encontrar CRZ – ele seguiu meu olhar e agarrou o livro outra vez.
- Espera um pouco – ele começou a pensar – Vovó usa números e frases, mas nenhuma deles têm o significa original. Não estamos procurando por uma data... – e sem terminar a frase ele folheou o livro e sorriu ao encontrar o que procurava. – Olha aqui. Página 22, linha 12, 11ª, 12ª e 13ª palavras.
- Castelo de Montjuic. - eu li. – Isso não faz sentindo...
- Ainda não.
- Vamos sair daqui, Jesse, quando descobrirmos do que isso se trata, nós voltamos – eu falei e ele consentiu.
Deixamos tudo como estava. O livro sobre a mesa, a bola de papel no cesto e a luminária apagada. Voltamos para os nossos quartos, cada um com o mesmo pensamento: “O que ele queria dizer com Castelo de Montjuic?”
No meu quarto usei meu celular com acesso a internet para pesquisar sobre o castelo, aparentemente a única informação relevante que eu encontrei foi o século em que ele foi construído.
A governanta nos trouxe um lanche ao fim da tarde enquanto estávamos sentados no jardim. Lily brincava com uma boneca e pouco se interessava em nosso assunto.
- O castelo foi construído no século XVII? – Jesse perguntou para confirmar.
- Isso, primeiramente ele era um forte depois foi convertido em um castelo – eu respondi.
- Agora estamos lidando com um número referente a um período histórico, tenho certeza de que a resposta não está aí – ele disse – Temos que voltar ao escritório.
Eu já tinha isso em mente e foi após o jantar, quando Lily e a criada dormiam que nos esgueiramos mais uma vez ao escritório deserto.
A luz da lua atravessava o vidro da janela e dava um ar mais misterioso ao ambiente.
- Onde mais vemos os números, além de datas? – Jesse perguntou.
- Nas horas – olhei ao redor a apontei para o relógio. – É isso, o relógio. XVII, se somarmos os algarismos, temos 17, mas o relógio vai do 1 ao 12, então 1 + 7 = 8.
Nós nos aproximamos do grande relógio de madeira, eu abri a porta de vidro. O pêndulo ia de um lado para o outro, indiferente à nossa curiosidade. O número 8 parecia estar em alto relevo, cutuquei-o e ele se revelou como um compartimento secreto, uma micro-gaveta.
Jesse me encarou boquiaberto. Havia um pedaço de papel enrolado, no interior do número 8.

EM BREVE - PARTE 4

Das lágrimas ao clichê

| segunda-feira, 10 de janeiro de 2011
♫ (…) Can you undo goodbye?
It's the word I wish I could forget… ♪

As estrelas me encaravam com uma expressão terna e curiosa, como se pedissem uma explicação pelas lágrimas que rolavam pelo meu rosto e saltavam ao nada para se perderem no breu da noite.
Eu estou sobre o telhado da minha casa...
“Onde você vai quando está triste?”, você tinha me perguntado, mas eu nunca te dei uma resposta a essa pergunta.
... um sorriso patético se formou ao imaginar o que você diria se me visse aqui sozinho, mas apesar de tudo, esse é um bom lugar para pensar. Aqui no alto, usando a brisa como cobertor e o céu escuro como teto eu escuto as minhas vozes internas. E todas elas gritam: “Onde está você?”

As pessoas desde sempre questionavam nossa relação sempre que nos viam juntos e nós, bobos como éramos, sempre atirávamos a mesma desculpa: Só amigos.
É claro que existia algo mais, eu sentia isso dentro do seu coração e você sentia isso no meu. Nosso encontro não foi mero acaso... não era para ter sido.
Eu nunca soube direito como lidar com a gente depois do nosso primeiro beijo e da nossa primeira noite juntos. Tudo foi maravilhoso, mas eu sentia que a qualquer momento eu poderia quebrá-la e que morreria de dor tentando juntar os pedaços.
Quando você tem o coração de alguém nas mãos, qualquer leve descuido pode ser fatal. Eu tinha medo de ter raiva para não fechar o punho com força e esmagá-lo. Eu não caminhava no meio-fio por medo de que um carro pudesse sacudir meu corpo e eu pudesse derrubá-lo.
Acredito, porém, que você tenha sido a mais forte. Com meu coração frágil nas mãos, você corria, saltava e se equilibrava em muretas. Você fazia malabarismos e o usava como mais um objeto a ser atirado ao ar... tão imprudente. Tão corajosa.
- O que uma pessoa precisa fazer para te magoar? – você me perguntou certa vez.
- Brincar com o meu sentimento – eu respondi depois de um tempo e você me entregou um coração surrado e cheio de remendos.
- Não posso mais continuar com isso – você me disse e tomou das minhas mãos aquele coração robusto e cheio de pulsar.

Aqui estou eu, vazando em lágrimas por alguém que nunca mereceu ao menos tocar meu peito.
Nem todas histórias de amor foram feitas para durar, certo? Eu nunca soube de nenhum conto de fadas baseado em fatos reais, porque a vida real é cruel. A realidade dói.
- É isso, estrelas, a dor que me machuca é de um coração ferido que ainda não foi curado – mas elas não me entendem.
Eu sei que o clichê todo poderoso do “tudo passa” vai arranhar minha porta e eu vou deixá-lo do lado de fora, por um bom tempo. Todo bom clichê nunca é percebido na hora, ele fica lá deitado no tapete de entrada e quando a gente menos espera, ele escorrega para dentro e então você percebe que era verdade. Tudo passa, mais cedo ou mais tarde.
Minhas vozes interiores ainda gritam e vou permitir que gritem até que fiquem roucas, ainda assim elas sussurrarão em busca dos seus ouvidos... Mas um dia elas vão se calar e nesse dia eu vou perceber que perdi muito tempo com alguém que não valia nem a metade dele.
É aqui que eu fico quando estou triste. Onde será que você está agora?

Pauta para o Bloínquês - Edição Musical e Projeto Créativité - Edição De-sa-fi-o

Férias na mansão - Parte 2

| sábado, 8 de janeiro de 2011
Hora do conto - Para entender, leia a Parte 1

O escritório se revelou como um cômodo enorme e cheio de estantes vazias. Havia um grande relógio com um pêndulo num canto ao fundo, uma poltrona acolchoada estava colocada diante de uma mesinha redonda, sobre ela havia um livro, uma luminária, canetas e tiras de papel. Um cesto de lixo com uma única bola de papel em seu interior se via ao lado da mesa. Jesse e eu nos olhávamos com curiosidade, encaramos mais uma vez o ambiente estranho, havia alguns retratos nas paredes, um lustre suntuoso no teto alto e o chão de carpete.
Uma rajada de vento derrubou uma das tiras de papel da mesa. A apanhei e li em voz alta:
- Nem tudo que reluz é ouro...
- Nem tudo que se descarta é lixo – Jesse disse. Isso era uma brincadeira que nossos pais tinham, sempre que um citava um ditado, outro respondia com uma versão diferente.
Dei de ombros e coloquei o papel sobre a mesa novamente, todas as outras tiras estavam em branco.
O cesto ao lado da mesa atraiu minha atenção.
- O que você disse mesmo, Jesse? – perguntei enquanto pegava a bola de papel dentro do lixo.
Ele repetiu a frase e eu desamassei a folha. Não era uma tira. Era uma folha inteira, no canto superior direito, em letras miúdas se lia “O essencial é invisível aos olhos. (Antoine de Saint-Exupéry)”
Pensei por um momento, passei a folha para ele e ambos concordamos que nem tudo que se descarta é lixo, mas aquela folha era.
Deixamos o cômodo e voltamos para nossas atividades normais. Enfim tínhamos descoberto o que tinha lá dentro e era nada de interessante. Mas por que aquela frase na folha não saia de minha cabeça?
Ao cair da noite já estávamos debruçados em nossos livros e num instante um pensamento me ocorreu e foi como se tivessem me tirado uma venda dos olhos.
- Venha – chamei Jesse e nós corremos até o escritório destrancado. Tomando cuidado para não sermos pegos, o invadimos mais uma vez – É claro. Como não pensei nisso antes? – eu disse atônito enquanto acendia a luminária – Jesse, pegue aquela folha no lixo e traga aqui – pedi.
Meu primo me olhava com a testa franzida sem entender minhas intenções, mas mesmo assim, fez o que eu pedi.
Desamassei o papel assim que ele me entregou e vi seu olhar de espanto quando a reação aconteceu.
É, definitivamente o essencial é invisível aos olhos, mas só aos olhos desatentos.

EM BREVE - PARTE 3

Férias na mansão - Parte 1

| quinta-feira, 6 de janeiro de 2011
Hora do conto

A mansão de meu avô Howard era uma típica casa de um velho solitário e ranzinza, era uma casa enorme, com paredes altas e cheias de quadros gigantes pendurados pelos corredores. Eu morria de medo de percorrer aqueles corredores mal iluminados, sempre tive a impressão de que os olhos petrificados das pessoas nos quadros me seguiam. Embora fosse assustador estar naquela casa, eu, minha irmã e meu primo, Jesse, passávamos algumas temporadas por lá, quando nossos pais viajam.
Eu tinha por volta de 14 anos, Lily 7 e Jesse 12, naquele verão, quando fomos para lá. A casa silenciosa e apavorante nos saudou sombriamente, atravessamos as grossas portas da entrada principal e nem sequer imaginávamos que não sairíamos da mesma maneira.
Uma única criada, velha e rabugenta, nos mostrou nossos aposentos. Quartos luxuosos e cheio de ostentação, mas vazios de calor humano. Tudo naquela casa emanava uma sensação de mistério que envolvia até o ar que respirávamos.
Vovô Howard passava o dia todo dentro de seu escritório, trancado em seu mundo solitário e frio. Só o víamos nas refeições, nas quais ele pouco falava. Nunca vi o mero vislumbre de um sorriso passar por aquele rosto vincado de rugas.
Nós três passávamos o dia fora de casa, correndo pelo gramado, visitando o jardim e a estufa decorada de flores exóticas. E ele permanecia no escritório.
- O que será que tem lá dentro? – Jesse me perguntou olhando para a janela com as cortinas cerradas, no segundo andar.
- Não tenho nem idéia – respondi.
Sempre ouvíamos nossos pais cochichar pelos cantos, sobre as manias peculiares do vovô, de como ele criava jogos e enigmas para que eles solucionassem. Na verdade, o velho em si era um enigma.
Todas as noites antes de nos deitarmos, estudávamos um pouco, ordem de nossos pais que nos empurravam literatura, história, matemática e química.
Numa bela manhã, porém nublada e cinzenta, acordei e encontrei um bilhete ao lado na mesa de cabeceira. Estava escrito numa caligrafia fina e tremida “A curiosidade vai guiar o caminho.” Cocei a cabeça tentando entender aquilo, reli umas três vezes, e por fim desisti. Ao cruzar com Jesse no corredor, vi seu olhar abobalhado e ele me disse que havia encontrado um bilhete também, que dizia “O conhecimento leva ao saber oculto” e o bilhete de Lily talvez tenha sido o mais estranho “Nunca deixe que lhe tirem aquilo que você mais tem.”
Aparentemente, nosso querido vovô lunático havia começado com seus jogos de adivinhações. Nossos pais nos haviam advertido sobre isso e nos deram dicas de como resolver alguns, mas por enquanto eram apenas bilhetes.
A governanta de cara fechada nos informou que ficaríamos sozinhos por algum tempo, nosso avô havia viajado e voltaria dentro de poucos dias.
Jesse me olhou com os olhos brilhando de emoção e sussurrou:
- Hora de descobrir – ele só precisou dizer isso para eu entender que ele queria visitar o escritório secreto do vovô.
Assenti, mesmo tendo certeza de que a porta estaria trancada.
Deixamos essa aventura para depois do almoço, momento que sabíamos que a velhota tirava uma soneca.
Lily ficou em seu quarto com suas bonecas. Jesse e eu cruzamos a mansão até chegarmos diante da porta branca. Girei a maçaneta. Um clique me surpreendeu.
A porta estava aberta, afinal.

EM BREVE - PARTE 2

[Re]construções

| terça-feira, 4 de janeiro de 2011
♫ (...) Todos caminhos trilham pra gente se ver
Todas trilhas caminham pra gente se achar, né? ♪

Acordei assustado no meio da noite, passei a mão pela cama, sobre o lençol bagunçado, mas você não estava lá. Na verdade você nunca esteve lá, você apenas se deitou comigo em meus sonhos e ao acordar a realidade te rouba de mim.

Andei a vida toda, um passo de cada vez, sempre tentando fazer a coisa certa e seguir o caminho correto. O medo de dar um passo fora da linha e de me perder pela estrada me fazia seguir estritamente o risco no chão e com isso eu caminhava de cabeça baixa, atento somente à linha... Mas dizem que é preciso estar distraído para encontrar o que realmente procuramos.
Numa dessas minhas caminhadas de pensamentos soltos, olhos baixos e mãos no bolso, foi que eu esbarrei em você. Geralmente eu não levantaria a cabeça nem pediria desculpas, apenas continuaria meu caminho, ignorando a interrupção momentânea, mas alguma coisa, mais forte do que eu, me fez despregar os olhos do chão e encontrar seu sorriso desajeitado. Desculpamos-nos ao mesmo tempo e você sorriu outra vez por essa coincidência.
A pressa que eu vestia rapidamente desvaneceu e meus olhos só tinham olhos para você. Seus cabelos eram despenteados pelo vento, seu rosto parecia esculpido em mármore, feito pelas mãos de um artista de talento incrível.
- Me desculpe – eu disse outra vez, ainda sem saber porque, talvez fosse apenas um pretexto para te manter por perto por mais algum tempo.
- Pelo o quê? – você perguntou e sua voz, clara e sem o peso da minha flutuou no ar e bailou no vento.
Será que é isso que chamam de amor à primeira vista? Mas eu nunca acreditei nesse tipo de coisa, ou melhor, podemos nos apaixonar à primeira vista, mas com o tempo essa paixão diminui, portanto prefiro me apaixonar a prestação. E você na minha frente me dominava os sentidos.
- Por ficar encarando – respondi e desviei, relutantemente, o olhar.
Outro sorriso simples e magnético brotou em seu rosto, você toda educada me disse que estava atrasada e partiu. Deixou-me sozinho com a minha linha sob os pés.
O chão sugou meus olhos outra vez e sobressaltei-me ao vê-lo. Eu estava fora da linha.
Então é assim? As coisas acontecem fora da linha? Os caminhos se cruzam para formar outros caminhos. Os pés escorregam para um novo sentido.
Olhei para trás e percebi que enquanto mantive meus passos na direção que as regras gritavam eu não vivi a minha vida como eu queria.
Agora vou reconstruir meu caminho, meus pés e minha direção. Levantarei a cabeça e passarei a enxergar olhares e belos sorrisos. Tropeçarei por não ficar atento ao chão e procurarei com calma, por um par de mãos para aquecer as minhas, por um par de olhos profundos para eu me afogar e por aquele sorriso riscado no canto da boca para combinar com o meu.
Por mais forte que seja seu alicerce, a vida é feita de reconstruções, às vezes precisamos pôr abaixo algumas atitudes e edificar outras em seu lugar.

Deitei na cama, você já me esperava e não era sonho dessa vez. Encontrei você fora da linha que eu seguia, seu olhar grudou no meu e seu encanto me enlaçou.
Toda noite quando deito ao seu lado eu me desculpo e você, sorrindo encabulada, me pergunta o motivo e eu sempre respondo:
- Por te querer só para mim.

Primeiro texto em homenagem aos blogs em 2011. O [Re]construções é o blog da Tatiane Tosta, espero que ela e você que está lendo tenha gostado do texto. Abraços.

A lista

| domingo, 2 de janeiro de 2011

Quer saber o que tem nessa lista?
Não


Clique em sim para ver meu 14º texto no Contos Franqueados.
 

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