Keblinger

Keblinger

Uma última conversa

| quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

(…) For auld lang syne, my dear
For auld lang syne,
We'll take a cup of kindness yet,
For auld lang syne…
Auld lang syne – Lea Michele

Aproximei-me discretamente daquele velho que estava prestes a partir e o interceptei. Por um fragmento de segundo, ele me olhou profundamente e sua boca cheia de rugas se abriu e formou uma pergunta:
- O que você tem a me dizer? – ao som daquelas palavras pus-me a refletir nas coisas.
- Tenho que confessar que não botei muita fé quando você apareceu e como não gosto de mudanças repentinas passei a te odiar por um tempo ao ponto de fechar os olhos para as coisas boas que surgiam. As lembranças frescas do que havia passado e ficado para trás me atormentavam e empurravam qualquer chance de esperança por um precipício de frustrações.
Ele não mudou suas feições enquanto eu falava, apenas meneou a cabeça, não sei se por concordância ou simplesmente por fazê-la. Continuei.
- Com o tempo, eu finalmente percebi que nem tudo estava tão mal quanto eu via, que havia sim motivos para sorrir e agradecer e até colher uma lembrança ou duas para levar adiante. Você me tirou bens preciosos, levou-os para um lugar tão distante que talvez eu nunca os veja outra vez, mas por outro lado, me presenteou com inúmeras outras coisas de valores particulares e especiais. Seus planos nem sempre são claros para mim, mas quando os reavalio sempre enxergo o melhor, apesar dos vários contratempos que ocorreram para se chegar até lá.
Ele suspirou, não pude dizer se foi de alívio ou de impaciência e então fez outra pergunta:
- Você sente que você tenha mudado? – mais uma vez parei para pensar por um instante.
- Acredito que grande parte do que agreguei e mantive foi devido a uma mudança interior, que já vinha acontecendo aos poucos, mas que se intensificou ultimamente – sorri naturalmente ao dizer isso – Tudo ao redor muda quando nós mudamos, certo? – ele fez que sim com a cabeça.
- Todos os dias em que te acompanhei não foi apenas para tirar-lhe ou dar-lhe coisas, foi para causar uma mudança dentro de ti. Foi para abrir lentamente teus olhos e mostrar que você pode fazer a diferença contanto que acredite nisso. Agora é uma época de reflexão, renovação, de repensar os valores e seus conceitos. Um período de nostalgia e esperança em que o passado se une aos desejos futuros que estão em seu coração no presente. Não descarte velhos pedidos e nem acenda novas chamas que em breve se apagarão, aprenda a discernir o que é possível e real, renove sua fé em você mesmo e busque aquilo que está em seu alcance e tão logo perceberá que até o que não estava você atingiu.
Aquelas palavras recaíram sobre meus ombros e eu pude sentir o peso delas.
- É, estou pronto para te dizer adeus, Ano Velho – ele sorriu e sacudiu a cabeça novamente, saí de seu caminho e antes que ele se afastasse muito acrescentei – peça que o Ano Novo desacelere os movimentos de translação, o tempo está correndo mais rápido do que posso acompanhar, quero aproveitar mais tudo o que tiver a oportunidade antes de ter que dizer adeus outra vez.
Ele virou-se com cuidado, acenou e então partiu, para o lugar aonde todos os anos velhos vão e jamais retornam, a não ser na memória da gente. 

É isso, pessoal, estamos chegando ao fim de mais um ano, que foi conturbado, perturbado, animado e recheado de surpresas e é exatamente tudo isso que desejo para todos no próximo ano e adicione também uma pitada de fé em si mesmos para que seus sonhos jamais se desvaneçam e sim se realizem conforme for a necessidade. Desejo também que as alegrias se multipliquem e que o amor chegue a ponto de transbordar, mas não transborde (ele é valioso demais para se desperdiçar) e que os ressentimentos, mágoas e tristeza possam encontrar seu modo de transformarem-se em algo positivo. Desejo que cada dia seja abençoado e que seja vivido com muito apreço, pois cada um deles é único, sem preço e insubstituível. Um feliz ano novo acompanhado de tudo que há de bom para você que está lendo isso e para um mundo cheio de problemas que precisa descobrir o que é a felicidade e solidariedade. 

O menino que acreditou

| sábado, 24 de dezembro de 2011


Londres – meados de 1800

O destino é cruel se você é pobre e a vida não dá a mínima para isso, aprendi essa lição da pior maneira possível, acredite. As pessoas têm fachadas e tantos lados quanto a soma de vários dados, algumas tendem a ser boas, generosas e, até certo ponto, altruístas, ao passo que outras desenvolvem sentimentos amargos e se tornam más, de qualquer forma, não devo julgar. Aliás, julgar é o que menos faço, pois aprendi também que quando se trata do ser humano, podemos nos surpreender. Sempre.
Nasci em um berço qualquer, fui abandonado em uma viela qualquer e levado para um orfanato qualquer. Hoje ajudo a comandar o lugar, mas não estou aqui para falar de mim.

Na primavera passada – época do desabrochar das flores e de temperaturas amenas com gosto de família e abraço de mãe – acolhemos Oscar. Franzino, pequeno para a idade e extremamente curioso e falador. Durante suas primeiras semanas aqui ele não teve problemas em se enturmar, mas nunca falava de sua origem.
O verão expulsou a primavera e iluminou a casa velha em que moramos, as janelas foram abertas para o vento entrar e percorrer os quartos e brincar com as crianças – assim a temporada de visitas começou. Sorrisos foram ensinados, cumprimentos e boas maneiras foram mais cobrados, tudo na mais pura intenção de deixar aquelas portas em rumo de um novo lar, ou talvez o primeiro lugar que pudesse verdadeiramente receber esse nome.
Lembro-me do empenho de Oscar para ajudar todos os outros meninos, enquanto se escondia quando uma família tentava conversar com ele.
- Ainda não chegou a minha vez – ele me disse sem rodeios quando perguntei o motivo.
As visitas diminuíram até cessarem por completo. Três crianças encontraram quem chamar de mãe e pai.
Assim que o outono começou a varrer as folhas das árvores e abaixar a temperatura, começamos a nos preparar para o inverno. A mais devastadora das estações. O inverno é impiedoso e seu frio espalha-se pelas veias, tentando nos congelar de dentro para fora.
Vivemos da ajuda das pessoas boas e infelizmente elas parecem estar deixando de existir.
Quando dezembro deu as caras, avistei o sorriso mais exuberante no rosto de Oscar, que passou a correr pelos corredores berrando que o Natal estava próximo e quando não lhe davam atenção, ele atirava um bola de neve para se fazer notar.
- O Natal é minha época preferida – ele comentou muito sugestivamente – Pedi uma família para o Papai Noel – e seu sorriso tímido surgiu outra vez. Eu não soube o que dizer, apenas afaguei seus cabelos bagunçados e voltei para meus afazeres.
Na semana do Natal, numa manhã criteriosamente gelada, acordei pelos murmúrios alvoroçados das crianças no pátio. Caminhei até lá, esfregando os olhos para afastar o sono e me deparei com Oscar, na calçada, segurando o que parecia ser um pequeno pinheiro em frangalhos.
- Não é assim que as coisas funcionam aqui – eu lhe disse severamente, tomado pelo mau humor de ter sido acordado –, o Natal não existe dessa porta para dentro.
- Só porque você perdeu a fé no Natal, não significa que o Natal perdeu a fé em você – ele rebateu muito sabiamente e entrou com o pinheiro. As outras crianças o abraçaram e trataram de ajudá-lo a enfeitar a árvore.

O Natal chegou e passou, os pedidos feitos rapidamente foram esquecidos na manhã seguinte. Esgueirei-me para o quarto de Oscar, para ver como ele estava.
- Não foi dessa vez – ele me disse e seu sorriso não apareceu –, mas eu sei que um dia meu pedido vai se realizar, como sei que depois desse inverno virá a primavera.

Vários invernos se passaram e ainda muitos tornarão a passar e todo Natal, aquele garotinho de olhar sorridente, que agora se tornou um homem quase feito busca uma árvore e a enfeita para aquecer a magia da esperança dentro de cada criança que tenha um pedido semelhante ao seu. 

Pauta para Bloínquês
Bom, galera, Natal é época de doação, assim como deixei exposto no conto. É uma época para olhar mais intimamente e assim olhar para o outro e deixar aquela fagulha de fé e esperança crescer, para que ela não se perca em outros períodos. Desejo a todos um Natal maravilhoso, independente de como você tenha decidido passá-lo. Grande abraço.

Nuances de uma amizade - Ele

| terça-feira, 20 de dezembro de 2011


♫ (...) When I can’t find the words
You teach my heart to speak... 
You make it real - James Morrison

Nós homens somos mais práticos, desapegados e calados. Não que isso seja uma regra geral, mas normalmente é assim que é, portanto as coisas nem sempre funcionam de acordo com o que temos em mente.
A ideia de se prender a uma garota é, no mínimo, assustadora – poucos homens sonham com uma esposa, filhos e um churrasco no quintal com os vizinhos estranhos –, e eu, definitivamente, não faço parte desse pouco. É óbvio que deve ser incrível encontrar aquela garota perfeita que seja compreensiva, até quando você não diz nada, que ria das suas idiotices mais estúpidas e que tenha orgulho de te ter por perto só para dizer que te pertence. A garota que não se incomode em lhe dizer verdades que você nem sempre quer ouvir e que lhe dê conselhos quando precisar. Eu conheço uma garota assim.
A garota ideal, nesse caso, é minha melhor amiga. É estranho ver nela todas as qualidades que deveriam estar em outras garotas, pois somos amigos... bem, somos algo mais que isso.
Ela é aquela que me abraça sem arranjar uma desculpa, que me beija sem receio e segura minha mão só para sentir o calor do meu toque. Ela sorri ao olhar para mim e com isso me arranca um sorriso singelo e natural, sem motivo. Ela me olha por minutos sem dizer uma palavra e me encara na tentativa de permanecer séria, mas sempre perde e cai na risada. Ela é aquilo que preenche a falta de não ter alguém e se encaixa de forma tão perfeita que não há necessidade de mais ninguém.
Nós fizemos um acordo de não deixar que os sentimentos se infiltrassem no que temos, pois perderia todo o sentido, afinal, quando perguntam, respondemos que somos só amigos. E somos, não é?
Eu nunca me preocupei em dar um nome diferente ao que temos. Se é amizade colorida, aquarela ou tinta guache, não importa... ou não importava. Às vezes eu tenho a curiosidade em saber o que temos de verdade, em saber o que é isso que nos mantém unidos e enlaçados nessa forma que é tão simples e pura.
Ela é meu porto-seguro quando sinto uma tempestade pela frente, é quem me vem na mente quando tenho uma novidade pra contar, é quem compartilha meu sucesso e fracasso e quem sorri e chora ao meu lado, mas serão estas apenas cores de nossa amizade? Acho que preciso mesmo de uma resposta, mas não tão depressa.
Talvez devamos viver o que temos de forma despreocupada, como temos feito, até o dia em que... Não, não gosto de pensar que pode surgir outro alguém. A mera hipótese de perdê-la me assusta terrivelmente – sentimentos que deveriam ficar ofuscados parecem estar encontrando cores vibrantes para se fazerem notar.
Qual a ideia dela de tudo isso? Aonde ela pensa que vamos chegar? Se é que caminhamos na direção de algo. Não tenho mais certeza das coisas e as dúvidas traiçoeiras me encaram no escuro, indagando respostas, que eu não tenho.
Já disse que os homens são adeptos do silêncio e quando se veem nesse tipo de situação, preferem que lhe digam o que fazer, mas se ela disser que devemos parar? Ou cabe a mim esta decisão? Não. Não quero tê-la por perto sem suas cores.

Cadê aquela maluca com seu olhar pensativo para alegrar meu dia? Preciso dela agora, para dar o acalento que meu coração pede. Só ela consegue decifrar o silêncio em mim e este é um silêncio incrivelmente barulhento, mas ela entende. Entende até o que eu não digo. 

Nuances de uma amizade - Ela

| sexta-feira, 16 de dezembro de 2011


♪ (...) What if we were made for each other
Born to become best friends and lovers... 

Dizem que um “você é um idiota” de uma garota é um “eu te amo” disfarçado. Eu não posso dizer se concordo inteiramente com isso, afinal ele é um idiota, como tantas vezes eu já lhe disse.
A maioria das garotas sonha em encontrar o amor de sua vida – um cara charmoso e inteligente que apanhe flores e lhe dê caixas de bombons –, mas eu sou mais prática. Não que eu não sonhe com aquele grande amor, por mais patético que seja admitir, eu sonho. E no meu sonho é ele um cara normal, que me faça rir e que ria da minha cara quando houver oportunidade, um cara que me cubra de cócegas quando quiser tomar algo de mim e que beije a ponta do meu nariz no meio da noite.
É assustador o quanto a minha descrição de cara ideal seja as características de meu melhor amigo. Ele que me arranca as mais altas gargalhadas e me faz sorrir com pequenos gestos bobos. Ele que me suporta nos meus piores dias e ainda consegue achar paciência para fazer uma piada qualquer com o meu humor azedo – por dentro eu rio, ainda que ele nunca vá saber disso. Ele que está sempre ao meu lado quando preciso de alguém e quando meus lábios pedem um beijo. Aprendi a buscar pequenas doses de paixão na boca dele, na pessoa dele.
Muitas pessoas diriam que isto é errado e que devemos descobrir o que realmente queremos e o que temos, mas acredito que não precisamos de um rótulo que nos defina e já fizemos um acordo de que não haverá sentimentos envolvidos. Às vezes alguns sentimentos são grandes inconvenientes.
Somos dois amigos, grandes amigos, que ficam juntos quando há a necessidade ou quando o momento é propício... ah, eu devo ser honesta e confessar que algo mais nele me atrai e que não suporto o fato de que ele possa ficar com outras garotas, talvez isto seja apenas um ciúme tolo de amigo. É, é isso.
Meu coração me diz que se há algo, mesmo que pequeno e, a nosso ver, superficial, é porque estamos destinados. Fomos destinados a viver algum tipo de história, só não posso dizer se estamos escrevendo um romance ou um drama.
Ele tem tudo o que preciso. Ele é exatamente o que eu nunca procurei, mas o que eu encontrei, porque era assim que devia ser.
Meu amigo colorido que ofusca o preto e branco dos meus dias e faz minha vida mais feliz. Eu não sei o que vai acontecer entre nós, mas por enquanto ele é meu melhor presente e não consigo enxergar um futuro sem que ele esteja por perto.
E quanto mais perto, melhor – malditos sentimentos, talvez eles devessem permanecer em silêncio e permitir que eu viva livremente o máximo que eu puder.
Eu só queria saber o que ele pensa sobre tudo isso e por mais que um lado me diga que devo parar com essa mistura de emoções, o outro pede mais. Ainda não decidi qual lado devo ouvir e com certeza não estou preparada para nenhuma decisão agora, porque o que temos é bom e é o bastante para me fazer feliz.

Onde está ele com aquele sorriso retardado para animar meu dia? Preciso dele aqui, sua presença acalma meus pensamentos e dá vozes ao que já se calou dentro de mim. 

Logo em breve - Ele

Palavrear

| segunda-feira, 12 de dezembro de 2011
Primeiramente vou lhes descrever meu ambiente de trabalho, acredito que desta forma você possa me conhecer melhor, afinal minhas palavras vão lhes dar as mãos e guiá-los pelos caminhos sinuosos que eu conduzir – escrevo de um quarto com baixa iluminação, apenas claridade o suficiente para enxergar a nuvem de ideias sobre a minha cabeça e o pequeno palco onde meus dedos valsam na composição de palavras e parágrafos.
Tenho a impressão de que cada pessoa é destinada a algo nesta vida, não que necessariamente todas elas irão cumprir seu papel ou seguir o roteiro exatamente como manda o figurino, não... na verdade, estou falando que todos estão destinados a serem artistas. Cada um a seu modo singular. Cada um com sua arte individual.
Eu poderia estar encarando plateias e emocionando as pessoas na pele de personagens numa peça de teatro, mas não tive o privilégio de me tornar um ator. Eu poderia então guiar os sentimentos alheios através de notas musicais ou do som da minha voz, mas não fui agraciado pelo dom de cantar e me perco nas partituras, além da minha péssima coordenação motora que não me permite tocar instrumento algum. Quem sabe eu poderia ser um daqueles dançarinos excepcionais, que parecem flutuar sobre os próprios pés, mas também não fui sortudo nesse quesito. Contudo, eu disse que cada um tem a sua arte viva dentro de si. A minha arte é a escrita, é o dom de dar forma aos pensamentos, talvez até antes mesmo de eles existirem. É a arte de mostrar às pessoas mundos que não estão ali, pessoas que poderiam ser conhecidas e até são, por certo tempo e delinear situações sutis e trágicas que muito bem poderiam ser reais.
A minha forma de ser artista é simples. Eu apenas construo conjugações de verbos, ligo palavras, costuro travessões e pontos finais. Eu palavreio.
Toda arte tem sua beleza, assim como toda palavra tem sua verdade. Nesse momento não sei dizer o que vai surgir na próxima linha, não consigo prever quando o meus dedos se cansarão, nem quando o fim vai chegar, sabe por quê? Porque a arte da escrita é imprevisível, você nunca sabe aonde vai chegar, a menos que comece a escrever.
Atores, músicos, cantores e dançarinos precisam de palmas, elas são o reconhecimento. O carinho demonstrado pelo público. Puras e lindamente capazes de transformar. Um escritor precisa de um par de olhos que leia sua obra, ele precisa de palavras de outrem que lhe digam o valor de seu talento e até mesmo do silêncio de uma expressão que mostre o quanto ele foi capaz de tocar o leitor.
Artistas em geral não pedem muito, porque a arte é uma dádiva e dádivas devem ser compartilhadas. Por isso eu palavreio, para que você leia e para que eu tenha a mínima pontinha de esperança de que mudei algo em você, nem que seja só por aquele momento. 

Mais eu texto em homenagem aos blogs, o Palavrear é o blog da Sara R. Carneiro. Espero que ela não se incomode que eu tenha usado o nome de seu blog aqui e espero que tenha gostado e você também. É isso, grande abraço, seus sorridentes.

Do tempo que escorre pelos dedos

| terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Quer descobrir o que ele faz sozinho naquele banco?
Não

Clique em sim para ler meu novo conto na Franquia.

Ao caro futuro Eu

| quinta-feira, 1 de dezembro de 2011
De um eu que é e que um dia terá sido

Dizem que é necessário certo tipo de sapiência para entender os ases que o destino guarda na manga, mas hoje tenho que discordar de tal afirmação, pois sei que um bom observador vê além do que os olhos oportunamente mostram e, portanto sabe discernir quando o acaso está apenas blefando descaradamente.
 Espero que nessas estradas longínquas dos vários amanhãs que percorreste, você tenha encontrado as respostas para diversas das perguntas que um dia eu me fiz. Espero que já tenha aprendido que a autoconfiança nem sempre é sinal de sucesso e de que demonstrar o medo também não é sinônimo de covardia.
Um olhar vago como o meu, ofuscado pelo tempo em andamento não me concede privilégios maiores para dizer como vai a nossa vida. Você ainda tem aquele sonho bobo de mudar o mundo e provar para as pessoas que ainda existe algo pelo qual lutar? E será que você se desarmou daquelas utopias ridículas que sempre lhe causaram frustrações? Ah, e sobre seu grande sentimento de conformismo? Como ele está?
Eu sei que algumas coisas não mudam, mesmo que o tempo dê dezenas de voltas em torno de si mesmo e pensando bem, se não mudam é porque são fragmentos da essência e se tirar a essência o que sobra?
Estamos esperando por tantas coisas, desejando mudanças, buscando soluções e ignorando várias responsabilidades que realmente não deveriam ser deixadas de lado – mas quem eu quero enganar? Você se conhece muito bem.
Queria te ver quando estivesse lendo esta carta, analisar seu semblante tão apático e tentar desvendar as palavras por detrás de suas sobrancelhas franzidas ou daquele sorriso irônico silencioso. Certamente você estaria avaliando seus arrependimentos, que mais certamente ainda, seriam mais por causa das coisas não feitas do que pelos erros patéticos que cometemos. Talvez um dia você aprenda que esperar pelas coisas o tempo todo é uma perda de vida, pois o tempo nunca nos pertenceu para que o percamos.
Não há muito mais o que dizer, na verdade já não me recordo o motivo pelo qual comecei a escrever tudo isso. Provavelmente eu não queria que você se sentisse sozinho – por falar nisso, você ainda é hermeticamente fechado para os sentimentos ou você encontrou uma chave para destrancar-te no meio de seu trajeto? Obviamente saberei de todas as respostas quando eu me tornar você e ser apenas um eu perdido na poeira do passado.
Para finalizar, quero reacender em ti aquele otimismo enjoativo que você sempre teve, lembrando-o de que quando o sol não brilhar, podemos aprender a desenhar com as nuvens.

Para um eu que não é e um dia será

O sonho da bailarina

| domingo, 27 de novembro de 2011

As clássicas notas do piano, destilando Für Elise de Beethoven espantam o som do nada e preenchem as lacunas do ar dando vida a bailarina que se esquece de ser apenas um objeto para bailar em seu perímetro compacto.
Ela gira em torno de si mesma e ao redor do ritmo suave da melodia, como se o som se desprendesse dela e conduzisse o tempo e não o contrário. Sua dança solitária e sem plateia traz apenas o aplauso amargo da tristeza. Sua vida frágil nunca lhe proporcionara algo mágico e grandioso. Seu destino estava preso na caixinha de música, selado por imã que a sustentava sobre seu próprio peso insignificante.
A bailarina tinha um sonho, maior que o seu ser. Um sonho de libertar-se de sua condição inanimada e saltar nas pontas dos pés nos mais variados palcos do mundo. Ela tinha o sonho de ser reconhecida, de ter olhares ávidos sobre ela e expectativas sobre seus próximos passos... mas seu sonho se trancava no escuro quando a tampa da caixa era baixada.
Suas lágrimas irreais e invisíveis respingavam no piso e a escuridão engolia todas as suas esperanças de se tornar alguém que ela nunca poderia ser. Por vezes ela ouviu as pessoas dizendo que tudo é possível se você tiver fé o bastante e força de vontade, porém, essas mesmas vozes quebravam o silêncio de seus pensamentos para lhe dizer que há sonhos que jamais se realizarão, não importa o quanto você deseje e nem o quão forte seja sua fé. Então ela chorava.

A bailarina incansável e sonhadora nunca pisou em outro lugar a não ser aquele a qual sempre pertenceu. Ela nunca ouviu o som da ovação por uma apresentação sua e nunca mais foi capaz de dançar quando, por descuido, derrubaram sua caixa protetora e ela se desfez em vários pedaços espalhados pelo chão.
Seu grito mudo não foi ouvido por ninguém e sua queda não foi tão sentida, mas ela livrou-se, enfim, das correntes que a segurava. Sua pequena alma na forma de um floquinho de luz projetou-se pela janela e atirou-se na cauda do vento, onde ela valsou, rodopiou e inventou passos magníficos.
Hoje em dia ela ainda baila por todos os cantos, ao som de diversas canções e sinfonias. Livre. Despretensiosa. E mais sonhadora do que nunca.
Ela entendeu que alguns sonhos são realmente impossíveis, mas que também sempre há a possibilidade de trocá-los por um que não seja.

Clique no nome da música pra ouvi-la, caso não a conheça. 

Sobre a chuva e temores

| quarta-feira, 23 de novembro de 2011
Para uma questionadora nata

Ontem me peguei lembrando daquela tarde chuvosa em que você repentinamente me perguntou do que eu tinha medo. Enquanto meu silêncio falava por mim, você me confidenciou que tinha medo de trovões e me pediu que lhe desse um abraço protetor – como se eu, fraco como sou, pudesse garantir alguma proteção.
As palavras sempre escorrem por entre meus dedos quando você me encara com seus olhos indagadores e sedentos de respostas e por isso sinto-me mais confortável ao lhe escrever. Eis aqui minha resposta à sua pergunta daquele dia de chuva:
Eu não tenho medo da solidão, contanto que você esteja do meu lado provando que ela não existe; não temo a distância se te tenho sempre ao alcance dos meus olhos; não me assusto com o vazio da saudade, pois quando tateio em busca de um refúgio você sempre está presente; as noites em que o vento sussurra melancolia não são tão apavorantes, pois destranco as memórias mais iluminadas de nós dois e tudo fica bem; já não mais tenho medo da minha própria mudez, pois sei que você aprendeu a decifrar meu calar... por fim devo logo admitir que também tenho medo de trovões, daqueles que ribombam no horizonte e que fazem a terra tremer de susto, mas nem eles conseguem me amedrontar por completo quando você está do meu lado me pedindo por um abraço que, na verdade, é a proteção que eu preciso, ainda que você não saiba disso.
Meu maior medo é piscar de um modo mais demorado e ao abrir os olhos não encontrar sua presença; é buscar por seu sorriso e encontrar o nada debochando sadicamente; é estar em casa sozinho numa tarde de chuva e não ter seus braços para me aconchegar; é saber que a tempestade não se abrirá num arco-íris quando você estiver longe.
O medo que se desprende de meu âmago e atinge a superfície é o temor tremendo que tenho de te perder, pois se isto acontecesse, em minha vida já não haveria mais sol, o mundo seria eternamente nublado e cheio de trovões furiosos.
As gotas começam a cair das nuvens outra vez, só lhe peço que não se demore a chegar, estou encolhido no canto do quarto à espera de seu abraço – aquele capaz de acalmar até mesmo a fúria do céu – para me aliviar o medo e me fazer ter a certeza de que ele será meu conforto para sempre.

De um assustado omisso.

Pauta para Bloínquês

Dance comigo

| segunda-feira, 14 de novembro de 2011
Ela me encarou com aqueles olhos ocos e tão sedentos de vida e me pediu que eu lhe contasse tudo.
- Mas me diga apenas o que for bom – seus lábios se moveram e as palavras escorreram tão puras que trouxeram uma onda de tristeza. E eu a contei tudo. Tudo o que era bom.


A rua estava molhada, o céu estava molhado e até mesmo a noite não conseguira ser imune ao intenso banho que a chuva derramou. As gotas de água cristalinas e geladas se atiravam em queda livre e borrifavam o mundo numa cascata prateada. Não havia lua naquela noite, apenas o breu e o véu da escuridão na face da cidade.
Eu dirigia cautelosamente devido ao asfalto molhado e quando enveredei por uma rua de fácil acesso, me deparei com um carro parado no acostamento. As luzes piscavam animadamente, como se estivessem felizes pela chuva que caía. Eu estacionei ao lado do veículo e tentei enxergar através do vidro embaçado e através da cortina de chuva, mas não consegui.
Saí do carro e lá na rua estava uma moça. Ela não notou minha presença de imediato. Ela tinha o rosto voltado para o céu, os olhos fechados e os braços abertos e girava... Girava feito uma bailarina, dançando ao som das gotas que deslizavam por seu corpo e penetravam em suas roupas.
- Com licença – eu disse com certa insegurança e ela lançou-me um olhar maroto e saltitou para perto de mim.
- Não é mágico? – ela perguntou e abriu os braços outra vez, girando ao redor de si mesma.
- Você está bem? Quer que eu chame alguém?
- Estou ótima – ela me respondeu e um sorriso desabrochou em seu rosto – Dance comigo.
Eu recuei intrigado e ela me puxou. Não sei por quanto tempo relutei até deixar-me levar pelo leve balanço de seus movimentos e pelo ritmo cadenciado da chuva, que continuava a cair,  tocando a melodia para nossa dança.
- É mágico – eu respondi finalmente e ela sorriu outra vez. E era bom ver o seu sorriso.

Ela piscou assim que eu terminei de contar, como se estivesse presa nas imagens que visualizava em sua mente.
- Eles ficaram juntos? – ela perguntou e seus olhos me encararam. Tão vazios de lembranças e aquilo me apunhalava na alma e me fazia chorar por dentro.
- Sim, eles ficaram juntos por muito tempo e foram tão felizes que tal felicidade não se cabe em palavras – eu contei.
Ela sorriu ternamente e fechou os olhos para se entregar ao sono.
Enquanto eu a observava dormir, eu sentia a dor cavar mais fundo dentro de mim, forjando uma toca para se alojar e permanecer definitivamente.
Ela não se lembrava mais das coisas. Ela não se lembrava de ser a moça na chuva, com o sorriso, com a alegria e espontaneidade, mas ela se lembrava de mim, pelos menos isso a doença não lhe tirou e todas as noites, antes que ela adormeça, eu lhe conto a história de quando nós nos conhecemos e ainda tenho a esperança de que talvez um dia ela se lembre e de que seu sorriso doce daquela noite possa chover em mim outra vez. 

Pauta para Bloínquês

Passos ao acaso

| quinta-feira, 10 de novembro de 2011
Por muito tempo caminhei sem rumo, seguindo passos de alguém que eu não via, deixando rastros que poderiam ser ou não seguidos. Eu viajava por uma estrada secundária, sem muitos viajantes a me fazer companhia. Levava na bagagem apenas o que eu necessitava no momento e pouco dinheiro para se manter. Eu era um nômade vivendo a vida à sua maneira, ditando minhas próprias regras e compondo minha própria canção. As dúvidas me esperavam nas encruzilhadas e as respostas palpitavam em meu instinto. Direita ou esquerda? Qual caminho seguir? Já não me recordo quantas vezes me fiz essa pergunta, mas isso não importa, acertando ou errando a direção, eu segui adiante. Meu caminho nem sempre foi plano, encontrei pedras, ladeiras íngremes e barreiras que quase me fizeram desistir, mas eu continuei. Confesso que até colecionei algumas pedras e as levo na mochila.
Carrego sempre comigo meu velho e surrado caderninho de anotações, mas a maioria delas eu faço na cabeça, guardo na memória aquilo que me é importante e no coração aquilo que me é valioso. Certa vez, numa dessas minhas andanças solitárias e sem rumo, encontrei um velho caminhante que vagava livre e incerto como eu, trocamos poucas palavras, lembro-me de ter lhe perguntado o motivo pelo qual ele caminhava daquela maneira, afinal ele já era um velho fraco, as palavras dele ainda ecoam em minha mente e preenchem uma linha de meu caderninho. Ele me disse "Nós fazemos nossa própria sorte, e então chamamos de destino", depois disso tomou o caminho oposto ao meu de uma encruzilhada. Sorri ao vento enquanto anotava as palavras, tentando encontrar o sentido nelas e entender realmente o que ele quis dizer com isso.
Naquela mesma noite, observando as estrelas brilharem no manto azul-marinho do céu, ponderei mais uma vez sobre aquela frase e percebi que muitas vezes esperamos que o destino decida as coisas por nós, esperamos que ele nos livre das situações difíceis e nos ensine a lidar com as adversidades e conflitos, mas o destino é apenas um pedaço de madeira na mão de uma marceneiro e nós somos os marceneiros. Moldamos nosso destino conforme queremos. Nos machucamos com algumas lascas da madeira, talhamos em busca da figura perfeita, mas se a escultura final vai ser bela ou não, isso não depende de mais ninguém, apenas de nós mesmos.
Acordei junto ao nascer do sol, que me lambia com seus raios cálidos de bom dia. Acordei com um pensamento certo. De agora em diante eu sabia meu destino, eu não esperava por ele. Aquele velho, que posso nunca mais ver, me ensinou uma lição valiosa que levarei para toda a vida, nem tive tempo de agradecê-lo por isso.
Sei que em meu caminho pela frente ainda encontrarei milhares de encruzilhadas duvidosas, mas decidi aonde quero ir. Decidi onde quero que minhas pernas cansadas me levem. Meu corpo pede paz, minha espírito errante pede descanço. Meu caminho agora é em direção ao meu lar. Escolhi meu caminho, moldei minha escultura na madeira.
Apesar de muitos passos que dei, por caminhos sinuosos, nunca deixei de me perguntar por onde anda aquele velho sábio. E quem o vai saber? Ele está perdido nas estradas da vida, buscando ou alterando seu destino, como outrora eu havia feito.
Me perdi em meus passos para encontrar meu caminho de volta ao meu lar, a vida é engraçada. Às vezes basta nos perdermos para nos encontrarmos.

2 anos de sorrisos

| quinta-feira, 3 de novembro de 2011


Como já fica claro pela imagem e pelo título, hoje o blog completa 2 anos. YAAAY.
Dois anos de blog não são duas semanas nem dois meses, é preciso muita dedicação e vontade para mantê-lo “vivo” durante todo esse tempo. Apesar dos trancos e barrancos consegui deixá-lo ativo, pois não consigo me afastar daqui e pensei em comemorar essa data, relembrando os pontos altos do segundo ano de minha estadia nesse endereço eletrônico que se tornou uma casa cheia de amigos e visitantes.

Quando completei um ano de sorrisos eu estava vivendo como um eremita que conheceu um dragão um tanto quanto misterioso e interessante e isto fez com que surgisse uma amizade inesperada entre os dois. Nesse meio tempo fiz algumas singelas homenagens a blogs que eu acompanho. 
No mês de dezembro embarquei numa aventura ao lado de um Papai Noel afundado numa crise terrível enquanto me despedia dos amigos da faculdade e sentia a falta surgir sorrateiramente.
Também nessa época apresentei aqui um homem que de tão solitário havia se apaixonado pela lua, pobre coitado e como último post de 2010 mostrei um diálogo entre o Ano Velho e o Novo.
Janeiro chegou com um novo conto em partes, a história de dois primos curiosos seguindo pistas deixadas pelo avô em sua enorme mansão, em busca de algo secreto.
Fevereiro, o menor dos meses, foi marcado pelo meu maior conto, a sangrenta história de um serial killer impiedoso.
Em março postei meu discurso de formatura, entrei na pele de um homem com o coração de pedra que se tornou uma estátua pela maldição de uma bruxa e contei o drama de um escritor alcoólatra frustrado.
Abril e maio foram os meses vampirescos, comecei a publicar um conto sobre um vampiro, que cresceu demais para estas páginas e sua história hoje em dia está sendo contada na forma de um livro que eu ainda não terminei.
Em junho mostrei a insípida rotina de um homem que trabalha num farol, conto que me rendeu o primeiro lugar na ABL e me deu "A hora da estrela" de Clarice Lispector.
Em julho atingi o marco de 300 postagens e publiquei meu conto inédito “O escritor que nunca viu”, o qual dá o nome a um livro de contos publicado no ano passado.
Agosto foi a época dos contos protagonizados por animais, destacando a história de Abel e Ariel, um romance bonito, mas incomum.
Em setembro voltei a publicar um conto em partes, uma história de amor virtual.
Retornei oficialmente a estas páginas no final de outubro, que dá destaque ao conto “A vitrine de sorrisos”, para fazer jus ao nome do blog.
Novembro chegou com a ausência das borboletas amarelas e com o aniversário.

Foi um prazer dividir este espaço com todos vocês nesses dois anos e esta experiência tem sido maravilhosa. Aprendi tanto quanto tentei ensinar e conheci diversas pessoas excelentes que eu nunca teria conhecido se não fosse por aqui.
Essa comemoração é dedicada a todos que me ajudaram chegar até aqui e que a gente possa sorrir mais juntos, enquanto pudermos.
Um grande abraço desse cara que andou sumido, mas que reencontrou o caminho de casa.

Demorei, mas...

| sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Galera sorridente que passa por aqui de vez em quando e que passou nesses últimos tempos de escassez de postagens e viu o blog abandonado, minhas sinceras desculpas.
Agora estou de volta (o que não significa que eu tenha graaaaandes inspirações pra escrever, mas farei o que posso pra deixar tudo bonitinho por aqui), afinal logo o blog completa dois anos e é necessário que seja feita uma comemoração (eu acho).
Enfim, este post é apenas um aviso de boas vindas pra mim mesmo e para vocês que não me esqueceram.
Até a próxima. Grande abraço.

A vitrine de sorrisos

| segunda-feira, 17 de outubro de 2011
Havia na cidade um homem triste, tão triste que seu coração já não sabia o significado de outro sentimento. Seus olhos permaneciam cabisbaixos e negligentes aos outros olhos que imploravam silenciosamente por um contato visual que traduzisse a dor de suas pupilas.
Sua tristeza lhe fez só; sua solidão lhe tornou introspectivo, aprisionado em seu próprio ser vazio e desolado.
O homem triste já não se lembrava do motivo daquela tristeza enraizada em suas memórias, ele apenas surpreendia-se, vez ou outra, com o vento que sacudia a árvore da melancolia e espalhava mais folhas de pranto em seu jardim mal cuidado.
Um dia, afundado até os joelhos em sua existência patética, ele topou, assim por acaso, com uma loja peculiar.
A vitrine exibia diversos tipos de sorrisos, daqueles mais tolos aos mais grandiosos, tantos sorrisos que ele nunca tivera em sua vida.
- Quanto é o sorriso do canto de baixo da prateleira? – ele perguntou ao vendedor assim que cruzou as portas de vidro e sentiu o aroma de felicidade inebriando o ambiente.
- Nós apenas pagamos o preço por não sorrir – o vendedor respondeu e observou a expressão confusa do homem. – Um sorriso de verdade não tem preço, porque o que vem do coração é natural.
Lá no seu âmago invisível, tão profundamente escondido, o homem triste sentiu um sacolejar diferente. Seu coração saltou sobressaltado por aquela reação que brotava como uma nascente e corria desesperada rumo à superfície. Repentinamente seu rosto foi atingido por um formigamento incomum e do outro lado do balcão, num enorme espelho, ele o viu.
O sorriso que antes estava depositado numa almofadinha no canto escondido da prateleira estava desdobrado em seu rosto, como se nunca tivesse estado em outro lugar que não fosse aquele.
O vendedor compartilhou do sorriso e o leve perfume de alegria intensificou-se. O homem, não mais triste, entendeu que às vezes a felicidade cabe naquelas coisas mais simples como um breve diálogo e que as palavras são mais fortes que o vento, elas edificam muros que o barram, impedindo as folhas de tristeza de cair.
Aquele homem deixou a loja com seu sorriso vitorioso, cheio de novos sorrisos no bolso e esperando ansiosamente para usá-los. Ele ficou triste outras vezes, isso é inevitável, mas agora ele entende que a vida é feita daquilo que faz bem, por isso sua tristeza não importa tanto e os sorrisos são mais do que essenciais. Eles são fragmentos visíveis de felicidade.

Ando meio sumido ainda, eu sei, gente, mas logo estarei de volta (eu espero). Não consigo ficar longe daqui por muito tempo e sinto que esse afastamento me faz mal, mas enfim, é temporário. Conto com a compreensão de vocês, grande abraço.

Pedaço de tempo

| sábado, 8 de outubro de 2011

Quer saber o que tem dentro do baú?
Não

Clique em sim para ler meu conto novo na Franquia.

Uma história de @mor.com - Parte 3 (Final)

| sábado, 1 de outubro de 2011
Para entender - Parte 1 e Parte 2


O tempo é um ser extremamente impiedoso, devo logo dizer. Ele tem o prazer maquiavélico de apressar os dias felizes e caminhar lentamente sobre períodos melancólicos. E o tempo - ah, o tempo - ele é quem comando tudo, não há como contê-lo.
Os dois apaixonados sentiam cada vez mais dentro de si a devastadora distância imensurável que existia entre eles. O toque era necessário para tornar as coisas reais, é assim que a realidade é, feita de coisas palpáveis e ao alcance das mãos. Os sonhos existem apenas num mundo perfeito e paralelo e os contos de fadas só acontecem para os mais sortudos. E já sabemos que a garota russa e o menino canadense não são extraordinariamente fora do comum para protagonizarem um conto de fadas. Infelizmente.

Imagine o amor como uma sementinha, ele precisa ser regado, adubado e cuidado para crescer e se desenvolver, agora imagine essa sementinha depositada em um vaso menor do que seu poder de expansão. Duas coisas podem acontecer: ela vai crescer e quebrar o vaso ou será sufocada por ele. É com pesar que anuncio que foi o segundo caso que vingou, ou não vingou, afinal.

Eles tinham tanto amor dentro deles que não dava para guardar apenas para esperar por um capricho do tempo que fosse os colocar um diante do outro. Como todo amor, esse necessitava ser compartilhado e isso não poderia ser feito à distância. Reitero meu infelizmente.
Com a naturalidade que tudo começou, as coisas caminharam para seu o fim, mas hei de dizer que a história dos dois termina em reticências e não em um ponto final. E você, caro leitor, sabe muito bem o que as reticências significam.

(...)

É isso, mais um conto curto terminado (depois de muito tempo, né?), mas a falta de inspiração me persegue, portanto não é culpa minha, haha.Ah, mais uma vez (tá ficando chato já), se não for pedir demais, curtam a página do blog no Facebook - só clicar ali em cima no lado direito. Abraços!

A moça que virou flor

| quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Quer saber como isto aconteceu?
Não

Clica em sim para ver meu novo conto na Franquia. 

Uma história de @mor.com - Parte 2

| segunda-feira, 19 de setembro de 2011
Para entender - Parte 1

Antes de continuar com a narrativa acredito que o leitor tenha a curiosidade sobre aspectos particulares dos personagens, isto é normal, então vamos nos ater a estas particularidades agora.
Ele era um garoto canadense, tímido e de sorriso escondido no canto do rosto. Seu quarto era cheio dos CDs de suas bandas de rock indie preferidas e Arcade Fire estava sempre preenchendo o silêncio daquele cômodo. Estudante e infelizmente não relacionado com nenhum jogador de hockey profissional, o que não lhe permitia gastos excessivos; ela era uma garota russa, de coração quente e mente perspicaz. Sua estante de livros estava repleta de autores de diversos países e seu marca página atual estava entre as páginas de Anna Karenina de Liev Tolstói. Aspirante a jornalista e felizmente não relacionada à família Romanov, também não podia se dar ao luxo de grandes despesas.
Estamos então cientes que de o único contato entre eles continua sendo via internet. Vamos prosseguir, sim?

Abraços calorosos se desaquecem na viagem intercontinental e beijos enviados perdem seu sabor devido à distância, mas aquele sentimento plantado no peito de ambos se esforçava para continuar vivo. A realidade na qual viviam se resumia aos momentos compartilhados em suas vidas online, mas claro que o mundo real, apesar de desinteressante e desprovido de emoção cava profundamente até encontrar os desgarrados. Assim, aos poucos a vida social voltou-lhes a fazer companhia.
Ele entendeu que apesar de viver paralelamente em uma história apaixonante, havia sua vida que merecia atenção, ela também compreendeu isto e voltou a sair com as amigas, com o pensamento voltado para o garoto de sotaque estranho.
Enquanto estavam afastados um do outro, outro sentimento chegou de mansinho. Uma saudade inconveniente e delicadamente dolorida.

Sem que percebessem, começou um duelo entre os dois mundos. De um lado a realidade buscava ofuscar o conto de fadas moderno, do outro, o romance virtual juntava forças para atravessar as terras de ninguém e firmar-se vitoriosamente fora de suas conexões invisíveis. Quem vai vencer? Como eu já disse que não podemos nos apressar, esse é assunto que fica pra depois.

CONTINUA
Já curtiu a página do blog no Facebook? Sim? Eu fico muito feliz por isso =)
Não? Tá esperando o quê? Clica logo ali em cima no lado direito e espalhe sorrisos (sim, eu viajo)

Uma história de @mor.com - Parte 1

| quinta-feira, 15 de setembro de 2011
Do lado de cá ele digita e espera.
Do lado de lá ela lê e sorri.




Dizem que não há barreiras para o coração, que quando o amor tem a necessidade de brotar, ele o fará independente de qualquer circunstância, eis aqui um relato fiel de um destes casos.
Os dois haviam se conhecido sem grandes pretensões num bate-papo comum de um site comum. Obviamente ambos viviam uma vida tão pacata quanto uma noite fria no deserto.
De um lado ele fazia aquelas perguntas de praxe que toda pessoa que se conhece virtualmente faz, do outro lado ela as respondia pacientemente.
As palavras dos dois se transformaram em códigos binários que viajaram quase à velocidade da luz durante um ano. E convenhamos que durante um ano muita coisa pode acontecer.
Ele percebeu que sua vida fora das ondas cibernéticas não fazia mais sentido, que não havia nada no mundo real que lhe despertasse algum interesse que fosse capaz de desconectá-lo e tudo isso se devia ao fato de que naquele mundinho pequeno dentro da tela de seu notebook era onde sua história realmente era escrita. Ela deixou de sair com amigas, trocando noites de festa por noites regadas a diálogos intermináveis com aquele garoto que de uma forma tão natural ganhara um espaço mais que especial em sua vida.

Evidentemente aquele sentimento que começou despretensioso passou a evoluir para algo maior, algo que não se traduzia em palavras jogadas à distância e que não cabia nas telas de poucas polegadas. É, o amor tem suas maneiras peculiares de aparecer e repreendê-lo por isso não vai mudar nada. Os dois entenderam que o melhor a se fazer era acolher aquele sentimento, o qual alimentaram por mais um ano.
Não sei se mencionei, mas os dois vivem em continentes diferentes, isto explica o grande desencontro de um encontro que nunca existiu, pelo menos não fisicamente. O amor, por outro lado, tem asas. Ele viaja para todos os cantos, à procura de um coração fértil para plantar sua semente.

Como escritor onisciente que sou, contarei esta história aos poucos, que é para não apressar os acontecimentos, então nos vemos outra hora.

CONTINUA.
Galera, criei uma página para o blog no Facebook, ali no cantinho à direita, você pode curtir e me fazer feliz. Abraços.

E que o amor viva

| terça-feira, 6 de setembro de 2011

Vem comigo descobrir o que acontece?
Não

Clica em sim para ver meu conto para a Semana Especial. 
O que é a Semana Especial? Ah, sim. A Franquia fez 1 ano de portas abertas no dia 1º de setembro (parabéns, yay), sendo assim, nós (franqueados) decidimos inovar e criar a introdução de um conto juntos, o qual cada um terminaria da maneira que lhe conviesse. Hoje foi a minha vez de dar um final para a história e eu gostaria de convidá-los a ler meu conto, assim como o dos outros integrantes, afinal a Franquia é o lar não somente de escritores, porque todos os leitores entram pela porta da frente, sentam-se confortavelmente e são livres para ir e voltar quando bem entender. Espero a visita de vocês e até a próxima. Grande abraço.

Apenas um diálogo

| quarta-feira, 31 de agosto de 2011

- Você percebeu que somos diferentes? - um perguntou ao outro, despretensiosamente, apenas interessado em puxar assunto.
- Somos da mesma espécie, não somos? - o outro respondeu sentindo certa confusão.
- Sim, mas você não notou nenhuma diferença? - o outro insistiu.
- Não entendi muito bem aonde você quer chegar.
- Então você deveria prestar mais atenção.
- Não vejo grande diferença.
- Nem mesmo na nossa cor?
- Ah, era disto que você estava falando?
- Sim, somos diferentes.
- Eu não acho que a cor importa, no final somos iguais, se nos jogarem água, ambos nos molharemos; se nos espetarmos com um espinho, ambos sentiremos dor e isso não é por causa da cor.
O outro pensou por um momento e respondeu:
- É, você tem razão, a cor realmente não importa. Vamos mudar de assunto então - ele propôs em seguida - Há coisas mais importantes para conversarmos.
- Qual sua comida favorita? - o outro perguntou e então a conversa continuou naturalmente, como devia ser, sem discussões irrelevantes sobre coisas que não deveriam ser discutidas em primeiro lugar.
Na maioria das vezes é melhor escutar o coração e não os olhos.

Porque sua vida é você quem faz

| domingo, 21 de agosto de 2011
- Sim, eu posso cantar - ela disse em pensamentos, despreocupada com o que pudessem dizer.



Em meio a tantos pássaros canoros no meio da mata, onde o som se propaga e ecoa por quilômetros, ricocheteando nas árvores, havia uma coruja. Como não há nada melhor do que nomes para criar um laço de afeição, a chamaremos de Tália.
Tália era uma ave irônica e determinada, e saiba que isso não pode ser dito da maioria das aves, portanto ela era especial. É evidente que pios de coruja estão longe de serem considerados belos e inspiradores como canto dos rouxinóis, pássaros presunçosos (diga-se de passagem), mas nossa protagonista notívaga nunca se importou com a opinião alheia.
Todas as manhãs, antes de se embrenhar em sua toca e adormecer, ela escolhia um galho alto, numa clareira espaçosa e bastante acústica e soltava a voz. Seu canto esganiçado, ora desafinado, ora próximo ao considerado razoável, expandia-se pela floresta, arrepiando a copa das árvores e viajando nas costas do vento.
A maioria dos animais que acordavam com aquele despertador inconveniente se irritava e logo botavam uma carranca de mau humor na cara, não que isso incomodasse Tália. Ela fazia seu ritual musical fielmente todas as manhãs, até o dia em que abriu o bico e não ouviu sua voz estridente fluir para fora.
Apavorada, ela logo pensou que tivesse sido amaldiçoada pelas aves das belas vozes e que ficaria muda pelo resto da vida. Os dias se passaram e tudo o que ela conseguia produzir era o silêncio. O mais puro e assustador silêncio.
Tália, obviamente, recompôs-se e procurou ajuda. Em vão.
Quando suas esperanças estavam se esgotando, numa manhã fria de inverno, ela engasgou-se e ao tossir produziu um ínfimo ruído com a garganta. A chama da esperança flamejou.
Dias depois, ela estufou o peito, pomposamente, em seu palco improvisado e cantou. Cantou como se aquela fosse a última vez, errou e engoliu notas, atropelou a afinação e sentiu-se realizada, pois estava fazendo aquilo que a deixava feliz, independentemente da aprovação dos outros.
Tália não deixou de cantar quando lhe diziam que sua voz era horrorosa, ela não deixou de cantar quando a rouquidão a envolveu, porque cantar era sua essência e aquilo ninguém poderia lhe tirar.

Sim, eu sei que estou meio desaparecido e com poucas postagens, odeio isso, devo admitir, mas farei o possível para me manter mais presente (também sei que sempre digo isso, hehe).Vagando pelo we♥it, encontrei várias fotos (inspiradoras) de animais, e como tenho uma mente mirabolante e notando que a história de Abel e Ariel foi bem recebida, decidi escrever alguns contos protagonizados por bichos, espero que gostem da ideia e se divirtam como eu. Grande abraço.

Carta #4

| terça-feira, 16 de agosto de 2011

S.


Por tudo o que passamos eu simplesmente não posso me prender ao desapego e deixar todas as lembranças desvanecerem no ar, porém, manter essa chama de vontade de você me consumirá completamente e destruirá a tentativa de permanecer puro diante de minhas novas concepções. 
Às vezes não há um limite que separa aquilo que é bom daquilo que é nocivo, eu me recuso a encontrar defeitos onde só existe perfeição, assim como impeço minha mente e meu coração de arrancarem você de mim. Eu não estou pronto para livrar-me dessa perdição insana que suas lembranças invocam, o pecado ainda está nitidamente pregado em minha pele e enquanto pensar em ti me der forças para continuar, eu serei impuro e impróprio para este lugar sagrado. 
Meus suplícios contraditórios a minha verdadeira vontade imploram que você se retire de meus pensamentos e me proporcione a liberdade tão desejada, mas meus desejos mais secretos são mais fortes e sabotam qualquer tentativa de abrir mão de sua presença constante em minhas memórias imorais e me afundam cada vez mais no mar de culpa que rapidamente me afoga. 


N.

Quem acompanhou o conto "As cartas do monge sem nome" que eu postei no meio do ano passado se lembra (ou não) das cartas misteriosas, porém nas sete partes do conto foram apresentadas apenas seis cartas, decidi então escrever as outras, que serão postadas aleatoriamente. Para ler o conto clique aqui (e leia cada parte) e para ver somente as cartas clique aqui.

Das conjugações equivocadas

| sexta-feira, 5 de agosto de 2011
♪ (...) And one day I'll see you again, again
And someday when this war ends
I hope you remember this... ♫

Eu não me lembro quando foi que passei a precisar de você em minha vida como uma forma de sustento, era como se sem você eu literalmente perdesse o ar e então meus pulmões assustados gritavam seu nome e você vinha correndo me resgatar. Quando percebi que não havia razão para ser apenas eu sem você minhas antigas convicções sobre o amor desvaneceram e eu enxerguei através do véu que me cegava. O amor é real. Ele existe e é muito mais do que aquilo que se acredita. Descobri que quem ama, não ama só com o coração, pois o amor é de corpo inteiro.
Entendi que o verbo amar foi feito para ser conjugado no plural. Você me ensinou tudo isso. Você me deu a base para edificar esse sentimento grandioso em meu peito... mas assim que você partiu, meu mundo desmoronou, pois você era o pilar principal.
Meus dedos estão machucados e não conseguem juntar todos os pedaços espalhados pelo chão, então eu apenas sopro as fagulhas do pó que me tornei e as assisto flutuar para longe.
Depois de um certo tempo eu parei de me perguntar o motivo de sua partida e foi nesse momento que você voltou. Não vou negar que meu coração saltou diversas vezes de emoção ao te ver, porque eu estive esperando por você, contando cada segundo sufocante sem a sua presença.
Ah, se meu coração pudesse prever sua fala, ele não despencaria do ar num de seus saltos.
– Eu voltei para te dar um adeus apropriado – você me disse.
Lembro que balbuciei alguma coisa ininteligível e as lágrimas afogaram meus olhos.
– Por mais que tentemos, nós não fomos feitos para durar. O que aconteceu durou o tempo exato, o amor exato... – nessa hora eu parei de ouvir e mergulhei em devaneios.
Então havia uma medida para amor? Havia uma dose certa que se tomada em excesso se tornava nociva. Talvez eu não estivesse amando de verdade, aquela dependência era apenas isso. Eu me vi conjugando erroneamente o verbo no singular o tempo todo. Meu mundo não estava desfeito, afinal, ele apenas perdera uma peça importante, mas não de todo crucial para sua existência.
Suspirei com força e percebi que o ar não me faltava mais. Os cacos quebrados que me machucaram eram apenas as lembranças daquilo que poderia ter sido e não foi. Apenas patéticas ilusões que já não doíam mais.
– Não preciso mais de suas explicações – encontrei minha voz para dizer. – Se você veio dizer adeus, considere isso feito.
Seu olhar petrificado foi o bastante para mim.
O grande mal das pessoas é que a maioria delas se ilude com aquilo que parece ser real, há uma linha tênue entre o amor-singular e o amor-plural e esse tipo de conjugação ninguém te ensina, esse é um conhecimento que se adquire. E se for para viver, que seja daquilo que é verdadeiro, pois o resto eu dispenso.

Pauta para Bloínquês

E quem disse que não é possível?

| segunda-feira, 1 de agosto de 2011


Abel é um gato e isso é basicamente tudo o que você precisa saber sobre ele, pois ele é apenas um gato comum que dorme praticamente o dia todo, mia quando quer afagos e arranha sua perna quando tem fome. Como eu disse, apenas um gato comum. Mas se ele não tem nada de especial por que eu estaria contando uma história sobre ele? Bem, continue lendo e descobrirá.
Todos os dias eu acordo com os pulos de Abel sobre minhas costas, ele simplesmente detesta quando eu acordo tarde, pois não gosta de ficar sozinho encarando a televisão desligada. Muito contrariado, levanto-me e faço nosso café da manhã. Pão caseiro com manteiga e chá para mim e uma tigela cheia de leite para Abel. Acho engraçado quando ele, feliz da vida, toma seu leite e depois me olha com a boca toda molhada, como se sorrisse em agradecimento.
Eu não sou fã dos programas matinais, mas sempre ligo a TV para que Abel se entretenha com as dicas de culinária que ele nunca usará, enquanto espera pelos desenhos animados. É, ele adora os desenhos e não pisca quando os assiste. Pensando bem, ele não é um gato tão comum assim.
Quando saio para o trabalho e interrompo seu programa preferido, ele me lança um olhar rabugento e eu já fico ciente de que ele ficará todo esnobe quando eu retornar. Bichano mimado.
Certo dia, voltando do trabalho, passo em frente ao pet shop onde compro a ração de Abel e me deparo com um aquário com um peixe-dourado. Nunca entendi porque eles são chamados de peixe-dourado se possuem outras cores. O peixe que nadava distraidamente era vermelho e branco e sua cauda em forma de véu balançava-se na água com uma leveza tranquilizante só de olhar.
Abel poderia gostar de uma companhia, eu logo pensei, e apesar de não estar escolhendo o animal certo para isso, comprei o peixe.
Cheguei a casa, ele me olhou irritado, ainda pelo fato de eu ter desligado a TV, mas assim que viu o aquário em minhas mãos e uma criatura nadadora dentro dele, ele se aproximou de mansinho.
- Esta é Ariel - eu disse a ele, que certamente deve ter se lembrado do filme “A pequena sereia” que assistira há algum tempo.
Coloquei o aquário em uma mesinha perto do sofá e fui preparar a janta, não sem antes zapear pelos canais em busca de algum desenho para Abel. Minha surpresa foi que ele ignorou completamente a programação e apoiado no encosto do sofá, assistiu ao nado despreocupado de Ariel. Fiz uma nota mental para checá-los a cada cinco minutos, você já deve imaginar qual foi a minha preocupação.
Enquanto preparava uma macarronada, checando-os de tempo em tempo, percebi que Abel não se movera um centímetro, ele estava fascinado pelo peixe, como era pela TV.
Durante a janta, coloquei o filme preferido dele no DVD, mas não surtiu efeito algum. Ariel ganhará toda a atenção que ele podia dar.
Na manhã seguinte acordei tarde, sem meu despertador felino e quando vasculhei pela casa à sua procura, lá estava ele, empoleirado no sofá, de namorico com Ariel. Eu já devia ter imaginado.
E a relação silenciosa dos dois se fortalecia a cada dia, algumas vezes eu podia jurar que eles mantinham contato visual e realmente podiam entender um ao outro.
Abel revoltou-se quando eu apareci em casa com outro peixe e coloquei-o ao lado de sua amada Ariel, é que o vendedor do pet shop me dissera que esse tipo de peixe não gosta de ficar sozinho, mas eu devia ter me lembrado que ela não estava sozinha, Abel estava sempre lá. Não propositalmente, eu criei um triângulo amoroso. Coisa de novela.
Com o passar do tempo não me surpreendi quando Ariel ignorou o novo companheiro, ela só tinha olhos para Abel, que todo o dia escalava o sofá e passava horas contemplando as nadadeiras flutuantes dela. Sem outra opção, livrei-me do outro peixe, dei-o para o vizinho que possuía um aquário enorme onde ele seria mais bem aceito.
Abel ficou muito feliz com minha decisão e ronronou de alegria, Ariel nadou em círculos toda contente e assim os dois voltaram a ter privacidade.
É, o amor pode nascer em qualquer lugar, se você não acredita dê uma passada lá em casa e veja o romance daqueles dois, de mundos tão diferentes, mas de sentimentos parecidos. A história de Abel e Ariel continua até hoje e quando se trata de amor, tudo pode acontecer.

Pauta para Bloínquês

Nº 300

| sexta-feira, 29 de julho de 2011


Como já era de se esperar quando chegasse a esse marco (?), eu faria uma postagem, hehe.
Então como o título e a imagem sugerem, essa é a postagem de número 300, é um número relativamente alto para postagens, na minha humilde opinião, é claro.
Se eu imaginava que fosse chegar até aqui quando criei o blog? Sinceramente, não. Mas foi e está sendo uma experiência maravilhosa compartilhar esse cantinho com as pessoas que passam e já passaram por aqui, principalmente porque grande parte da minha motivação são os leitores, que interagem comigo e expressam suas opiniões.
Eu sei que ultimamente tenho estado afastado daqui e dos demais blogs, e isso é realmente contra minha vontade. Confesso que já cogitei em parar com o blog temporariamente, mas acho que isso não me faria bem, por isso vou mantê-lo ativo, embora com um número escasso de postagens, espero a compreensão de todos.
Ter chegado até aqui é prova de uma dedicação que não quero deixar para trás. Eu amadureci bastante nesse espaço e me expus de uma maneira que jamais imaginei que eu seria capaz, a transição de escritor de gaveta para um blogueiro que é lido foi surpreendente e isso me ensinou várias coisas. Aprendi a aceitar melhor as críticas e lidar com pensamentos diferentes, conheci outros mundos e outras palavras que se tornaram refúgios e pude ver que não sou um louco sozinho, tem um bando de loucos por aí que pensam como eu, haha.
Enfim, tenho que agradecer aos meus seguidores e leitores e amigos e parceiros e todos que me ajudaram a fazer do sorriso uma arte que encanta primeiramente ao seu criador.
Um abraço bem apertado a você que tirou um tempinho  para me ler e saiba que você é importante para mim.
Até a próxima, seus sorridentes!

O escritor que nunca viu

| segunda-feira, 25 de julho de 2011
As palavras são meu mundo, minha realidade. Elas são e sempre foram meus olhos.
Minha vida sempre fora mergulhada na escuridão ou claridade, eu nunca soube ao certo. Nunca soube o que as palavras preto e branco significavam. Eu não sabia o que eram cores, portanto meu mundo é algo que você, que enxerga, não pode imaginar. Eu nasci assim, com olhos que jamais puderam ver a luz do sol e o brilho da lua e das estrelas. Sem poder ver, meus outros sentidos se tornaram mais aguçados. Minha audição era perfeita, meu tato de uma sensibilidade impressionante e meu olfato muito perspicaz, mas eu queria ver, eu queria ver aquilo que sempre havia sido a coisa mais importante em minha vida, eu queria ver as palavras, queria folhear um livro e poder devorar com os olhos aqueles caracteres interligados que formavam universos paralelos.
Minha mãe lia para mim desde quando eu era bem pequeno, no começo foi difícil para ambos, pois eu não conseguia imaginar como eram as coisas descritas e ela se frustrava por nem sempre conseguir me explicar... meu tato ajudou bastante nesse processo de conhecimento de formas e texturas, mas eu nunca soube o que eram cores. Eu queria tanto poder imaginar as cores e tudo aquilo que eu ouvia e não podia tocar, mas cada palavra que dava a mão para a outra, formando uma ciranda nas linhas sobre o papel me transportava para outro lugar e eu me deixava levar, sentia a leveza me puxar para dentro da página... eu fui heróis, vilões, protagonistas, poetas, trovadores. Eu fui o leitor que nunca leu.
As palavras tornaram a minha vida mais saborosa. Eu me empolgava em travessões, prendia a respiração em vírgulas, me deleitava nas reticências. Eu brincava com os pingos dos "is", me deitava na curvas do "s", me enroscava dentro dos "os". Meu mundo mágico de palavras, dois pontos, aspas, exclamações... mas nunca de pontos finais. Eu não queria que isso parasse, minha avidez por esse reino fabuloso de histórias era minha forma de dar cor a minha vida, ainda sem cor alguma existir.
A cada dose de leitura de minha mãe, eu mergulhava em sua voz que me guiava por lugares inesperados, que me dizia frases lindas, poéticas, suaves... a melodia do som das letras. Eu me entregava ao livro e sorvia cada detalhe mínimo que ele oferecia e fui tão seduzido por isso que eu desejei escrever.
Eu queria me tornar um escritor, criar histórias, personagens, edificar lugares que nunca estive, construir castelos de palavras e montanhas de expressões, eu queria gerar vida, vozes, colocar em palavras meus sentimentos.
As letras em braile possuíam uma forma diferente e eu nunca gostei disso, eu queria escrever nas letras que eu conhecia, nas formas que eu toquei. Pedi uma máquina de escrever para minha mãe, eu não quis um computador, e as teclas da máquina foram adaptadas de forma que eu pudesse reconhecer as letras ao tocá-las. Eu, a máquina e uma folha de papel em branco, a combinação peculiar que deu certo. Muitos criticaram meu entusiasmo e minha vontade de seguir em frente com aquilo, mas eu me apeguei aos incentivos sinceros e me atirei de corpo e alma no mundo das letras invisíveis.
Comecei a escrever aos poucos, a cada dia eu me colocava diante da máquina e deixava meus dedos brincarem sobre as teclas rígidas que estalavam enquanto marcavam o papel com as palavras que eu ordenava. Era uma sensação incrível, me descobri na escrita como eu nunca havia feito, me libertei da venda que eu mesmo havia me colocado. Minha mãe corrigia pequenos erros que escorregavam por entre meus dedos, mas com o tempo isso deixou de ser necessário, pois eu, a máquina e o papel éramos um só, mantínhamos uma cumplicidade invejável, meus melhores amigos e conhecedores de meus desejos e segredos.
A escrita me levou por caminhos secretos, abriu minha mente para cenários que eu criava e me dava voz, dava tom, dava gosto, cheiro, som e, além disso, me dava visão. Quem diria que um garoto cego pudesse escrever coisas tão belas de um mundo ao qual nunca vira? E assim fui atraindo a curiosidade das pessoas através de minhas palavras. Minha mãe pagava para publicar meus escritos no jornal da cidade.
Hoje em dia sou reconhecido pelo o que faço, as palavras que uno de forma sincera e singular me levaram a atingir um reconhecimento que eu nunca esperei. Eu nunca pude ler aquilo que eu escrevia, nunca pude ver a distribuição das letras no papel, a métrica utilizada pelos editores, nunca pude ver as cores das capas de livros que eu concebi. Todos eles eram partes de mim. Todos eram degraus da escada imaginária que me levou ao alto patamar dos meus sonhos mais incríveis e impossíveis. As palavras me rodeiam como crianças brincando de roda, as letras me sussurram variações, as pontuações me mantêm no ritmo e a escrita me domina... e eu me dôo por completo.
As palavras sempre foram e sempre serão meus olhos e é através delas que meu mundo ganha cor.

Esse conto foi escrito no ano passado para participar de um concurso cultural, porém é inédito aqui no blog.
Achei que seria interessante publicá-lo hoje, no Dia do Escritor. Aproveito para parabenizar a todos os escritores que temos por aí, famosos e amadores, contistas e contadores, cronistas, poetas, de gaveta, de guarda-roupa e afins. E também aos leitores, que são a alma da escrita e a levam adiante. 

Para eles

| quarta-feira, 20 de julho de 2011

Amigo é quem te manda mensagens super cedo mesmo sabendo que você só acorda depois das 12h.
É quem te bota inúmeros apelidos e não está nem aí para o que você vai dizer.
É a pessoa que te faz ter crises de riso inesquecíveis.
É quem briga contigo quando você faz algo errado e te apóia quando você está certo.
É quem topa fazer as maiores loucuras que você tem em mente e te inclui em suas loucuras.
É quem te liga de madrugada para jogar conversa fora.
É aquele que te vê caindo e ajuda enquanto morre de dar risada.
É quem te leva de intruso em festas que você não foi convidado.
É quem faz vídeos engraçadíssimos com você.
É quem tem diz na sua cara que você é um vagabundo e precisa sair dessa vida.
É aquele que tira centenas de foto ao seu lado.
É aquele que canta e dança com você e até é pego no flagra pela sua mãe.
É quem tem um sonho ruim contigo e te liga pra saber se você está bem.
É quem fica triste quando você mente que vai embora da cidade.
É quem te abraça com força quando faz tempo que não te vê.
É quem comenta em todas as suas fotos do Orkut.
É quem faz de guerra de cutucadas no Facebook.
É quem te menciona no Twitter e dá RT nas suas besteiras mais idiotas.
É quem vai ao cinema contigo para ver filmes sobre o fim do mundo.
É para quem você fica devendo um chocolate branco com frutas vermelhas e nunca paga.
É quem vai tomar açaí contigo mesmo quando está super frio.
É para quem você chora e conta detalhadamente como sua cachorra morreu.
É quem te procura quando precisa de um ombro amigo, mesmo que seja só para ficar em silêncio.
É quem fica sentado na calçada contigo batendo papo.
É com quem você passa horas no MSN num papo cabeça cheio de filosofias.
É quem te leva em viagens pra conhecer a família.
É quem te faz uma festa surpresa de aniversário com a decoração do Nemo.
É quem inventa de fazer pizza no meio da semana.
É quem te bota no porta-malas do carro quando não tem mais lugar.
É com quem você troca suas músicas mais esquisitas.
É com quem você aprende pequenas lições valiosas.
É em quem você pensa quando está sozinho.
É quem mesmo de longe se faz presente.
É aquele que você corre quando tem alguma coisa para contar.
É quem conhece seus defeitos e te ama mesmo assim.
É quem te defende quando precisa.

Amizade é, acima de tudo, cumplicidade e amor.

Eu poderia ter escrito um conto sobre o tema, mas preferi homenagear aqueles que tornam a minha vida mais alegre, sejam reais ou virtuais, e essa lista poderia muito bem se estender metricamente, mas o que importa é que eu tenho a eles e eles têm a mim.
Por mais clichê que seja:
Um feliz dia do amigo para todos.

Carta #3

| sábado, 16 de julho de 2011
S.


Meus pesadelos mais perturbadores são meus devaneios que insistem em buscar sua presença escondida em minha mente profana. Por um lado tento enterrar as memórias que você está, mas por outro lado saboto a mim mesmo e crio uma cova rasa ao qual sujarei minhas mãos ao te arrancar de lá. Meus pensamentos se libertam facilmente das correntes que os prendem e voa para os lugares em que estivemos. 
Suas palavras doces e ardentes ao mesmo tempo ecoam pelo ar em lembranças vívidas que deveriam ser apagadas. Eu perco o controle de mim mesmo, luto e perco a batalha que é manter-te fora da cabeça. Duelo com meu próprio peito para que ele te expulse, mas fracasso a cada tentativa. Livrar minha vida de ter você dentro de mim é o mesmo que arrancar meu coração e despedaçá-lo. 
Então eu sucumbo nas memórias, afogo-me nas lembranças mais tórridas que me trazem calafrios e deixo você tomar conta de meu ser mais uma vez, somente para me arrepender mais tarde, mas esse é um preço que eu pago com vontade. Prefiro me arrepender de te manter em segredo em meus pensamentos, do que arrancar sua essência impura que se prende em cada centímetro de meu corpo. Talvez um dia isso passe, mas enquanto esse dia não vem, que o fogo que um dia existiu entre nós, queime meu pudor doentio e me apeteça no silêncio da noite. 

N.

Quem acompanhou o conto "As cartas do monge sem nome" que eu postei no meio do ano passado se lembra (ou não) das cartas misteriosas, porém nas sete partes do conto foram apresentadas apenas seis cartas, decidi então escrever as outras, que serão postadas aleatoriamente. Para ler o conto clique aqui (e leia cada parte) e para ver somente as cartas clique aqui.


 

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