Keblinger

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Louco amor

| terça-feira, 21 de dezembro de 2010
Repousei o corpo vazio dela na grama do jardim. Seu semblante sereno e sem vida grudou-se em minha retina e mesmo de olhos fechados eu ainda podia vê-la.

Naquele momento eu só conseguia pensar no passado e nas circunstâncias que levaram aquilo a acontecer. Meu sangue era atirado de um lado para o outro em meu corpo, por meu coração despedaçado que gritava de culpa.
Eu nunca desejei que isso tivesse acontecido, tentei me controlar ao máximo para manter a situação no controle, mas não pude.
O líquido rubro que deslizava para fora do corpo dela manchava minha camisa branca e corrompia a inocência do tecido, a vida fluindo de seu corpo e a morte se apoderando aos poucos.
A faca que arrancara sua vida jazia no canto da sala, ao lado da poça de sangue que se formou gradualmente. A faca fria e silenciosa.
Nada disso era para ser assim. Por que ela teve que despertar o monstro nefasto que se escondia dentro de mim?
A grama começava a pinicar as minhas pernas, enquanto meus olhos não se desgrudavam daquele corpo pálido no jardim. O sol começava a recolher seus raios, calmamente. Em breve o caos começará, uma multidão se formará ao meu redor, dedos serão apontados e vozes rotularão um culpado. Luzes e sirenes protagonizarão a cena crucial daquela cena do crime.

1 hora antes

O telefone toca, do outro lado da linha há um silêncio perturbador antes de uma voz insana começar a falar:
- Eu preciso de uma resposta – ela disse e o choro engasgado saltou de sua boca e pontilhou cada palavra.
- Eu já te disse o que vai acontecer – respondi brandamente.
- Não. Eu quero você, só você. Vamos ficar juntos...
- Já disse que não, droga – o monstro começava dar sinais de despertar.
- Você não pode fazer isso comigo. Você me prometeu que ficaríamos juntos, você jurou que me amava...
- Você enlouqueceu? – minha voz subiu dois tons – Eu nunca falei nada disso, eu...
- Cala a boca, eu não quero ouvir mais nada. – o grito dela socou meus ouvidos e isso acordou a fera.
- Agora você vai me ouvir. Eu nunca te amei, nunca dei motivos para você acreditar que existisse algum sentimento meu por você. Você é uma mulher perturbada e obsessiva, eu quero você fora da minha vida, entendeu? FORA.
O silêncio voltou por um momento.
- É isso mesmo que você quer? Então você terá – e a ligação foi encerrada.

Agora

Eu cheguei aqui o mais rápido que pude, mas quando entrei na casa ela já havia cortado os pulsos e sangrado até a morte. O sangue dela refletiu a expressão de horror no meu rosto.
Eu estava noivo de outra mulher e ela jamais aceitou isso, ela possuía esse amor doentio dentro dela que eu nunca soube direito como lidar.
Eu fiz isso. A culpa pairava sobre mim e sibilava “você nunca mudará o que aconteceu” e ela estava certa, eu nunca poderia reverter aquilo. Ela estava morta por causa do que eu disse.
Liguei para a emergência e para a polícia e eles estão perto agora.
A noite caiu. O tumulto começou. Primeiro uma vizinha saiu de casa e gritou assustada ao ver a cena no jardim da casa ao lado. Uma moça morta e um homem todo sujo de sangue.
Os policiais me arrastaram para longe e me algemaram, o corpo dela foi colocado em uma maca e levado para outra direção.
- Eu sou inocente – uma voz dizia em minha cabeça, mas eu não conseguia pronunciar estas palavras.

Depois do meu testemunho e de outras pessoas, foi comprovado que ela era mentalmente instável e que aquilo tudo realmente se tratava de um suicídio.
Eu fui liberado sem maiores complicações, mas será que algum dia eu vou me perdoar verdadeiramente pelo o que aconteceu?

Pauta para o Bloínquês - Edição Musical e Projeto Créativité - Edição C&F
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Playlist atualizada

11 sorrisos compartilhados:

{ Lívea Colares } at: 21 de dezembro de 2010 11:35 disse...

Muito legal e envolvente, vc deveria escrever um livro!

{ Flávia } at: 21 de dezembro de 2010 15:36 disse...

Credo! =(
Que depressão!
hauhauhauhauha!
Choqueimi!

Maas, claro que eu adoreeeeiiii! ^^
Beijókas neném

{ Thammy Kherullyn. } at: 21 de dezembro de 2010 16:18 disse...

Sempre mostrando ao mundo facetas de um dom tão divino! Parabéns Rodolpho. Não consigo não gostar dos seus textos. Eles simplesmente me enlaçam em admiração.

Um beijo!

P.s.: Postarei seu texto no natal, porque foi um verdadeiro presente para mim. E não vejo data melhor emoldurá-lo lá, no meu cantinho!

{ Projeto Créativité } at: 21 de dezembro de 2010 18:21 disse...

Não tenho nem palavras para expressar o quão perfeita é essa história!
Uau! *-* No meio eu pensava que ele tivesse a matado, mas depois vi que era suicídio, e o texto ficou melhor!
*-* parabéns!

{ Ariane s.s } at: 22 de dezembro de 2010 13:22 disse...

Ahh ! Amei o texto , tipo , é meio que um amor de uma mulher por um homem , e um homem amando outra mulher , nisso vira uma guerra e tals.
Nossa , vai virar livro , filme , tudo que tem direito.
Amei Ro ...
(to competindo com você no creativite)
Beijaços escritor compulsivo

{ Maíra } at: 22 de dezembro de 2010 18:48 disse...

Olá. Adorei seu blog, é uma graça!! Estou te seguindo! Aparece lá no meu http://mairacintra.blogspot.com/ e segue se gostar!
valeu, beijos!

{ Daniella Ockner } at: 22 de dezembro de 2010 21:21 disse...

O sentimento de culpa é algo que pode surgir sem grandes fundamentos, mas que perturba profundamente nossos pensamentos e ações. "Ele" poderia ter se controlado e "ela" tirado a própria vida mesmo assim, mas depois de feio, o que/quem daria essa garantia ao rapaz?
Prender a atenção do leitor é uma habilidade que você com certeza possui, e sabe desfrutar muito bem disso!
Um beijo

{ Luana Santana } at: 23 de dezembro de 2010 00:11 disse...

Oi querido
Parabéns atrasado, vale? Mas então, parabéns pela nova idade e pelo livro, eu na postagem dos selos, tomara que consiga publica-lo en?

Bem, o post de hoje me prendeu muito, adorei, muito diferente. Infelizmente isso acontece na vida real, tenho uma amiga que sofreu algo parecido.

Obrigada pelo selo e assim que puder eu irei publica.

Tenha um Feliz Natal e um Ano novo cheio de amor, saúde e paz.
bjs

{ Mali Melo } at: 23 de dezembro de 2010 15:10 disse...

Caramba, que texto forte... E lindo.
Sou fã dessas metáforas. São perfeitas, as melhores que eu vejo por aí *-*
Adorei :) xx

{ Rebeca Amaral } at: 24 de dezembro de 2010 16:41 disse...

Ai como dói se sentir culpado, não ter a consciência leve. Nossa, é ruim demais. Amei o texto mais uma vez. Você se superando SEMPRE! Um beijo.

{ Tati } at: 2 de janeiro de 2011 13:33 disse...

É Menino, você é grande nas linhas e eu adoro mesmo ler você - por isso, mesmo os que perdi, faço questão de usar do tempo que me resta, lendo você.

Está incrível e bom. Parabéns.

Beijos

 

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