Keblinger

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Metamorfoses

| segunda-feira, 22 de novembro de 2010
Não sei se vocês conhecem, por isso vou contar a história da menina-borboleta.

Ela era assim, tímida, sempre na dela. Vivia isolada em seu mundinho interior, trancada em pensamentos e engolidora de palavras. Uma menina só, sem brilho nos olhos e com trancas na alma.
Uma vida desse jeito deve ser horrível, você pode estar se perguntando e eu concordo, mas para ela tudo era maravilhoso, principalmente porque essa menina não conhecia nada, além disso, o conformismo dela era exatamente moldado pelo mundo pequeno ao qual ela fazia parte.
Sim, ela era uma menina bonita, de feições bem definidas, cabelos vivos e dançantes ao vento, tinha as mãos lisas e os pés cansados de dar voltas e mais voltas dentro do círculo desenhado em sua vida.
Certa noite, na janela de seu quarto, ela observou o lento percurso de uma lagarta sobre o parapeito, que deslizava sem rumo, como se perdida na própria sorte. A menina se viu naquela lagarta, tão pequena, tão frágil e perdida. Desorientada e sem saber aonde ir e o que fazer.
A lagarta fez uma pausa para recuperar o fôlego e a menina jura que ela a encarou por um milésimo de segundo e esse olhar foi tão profundo que ela viu não só os olhos da ínfima criatura, mas viu o seu interior. Oco, frio e desolado.
A menina assustada correu até o espelho mais próximo e analisou seu reflexo, quase uma silhueta recortada à luz da lua, mas seus olhos grandes mostraram a ela seu próprio interior. Igual ao da lagarta.
Ela se moveu lentamente de volta à sua convidada inesperada e não a encontrou ali.
Dormiu apoiada na janela, com a brisa a lhe fazer carinho e as estrelas a velar seu sono.
O sol manso e morno da manhã, sorriu ao ver a menina por ali, debruçada na janela, certamente o esperando, ele pensou.
Assim que abriu os olhos, sua vista se ofuscou pelo dia claro e ela percebeu que diante de sua janela havia um jardim lindamente colorido, como as aqualeras dos pintores que ela ouviu falar certa vez. Ela ficou encantada com todas aquelas flores que se sacudiam ao sabor do vento e acenavam sorridentes para a estranha.
A menina passou uma boa parte do dia recostada na janela, conversando com as flores e as pequenas joaninhas que ela jurava que só existiam em filmes. As camélias e jasmins lhe contaram segredos, as tulipas brincaram com as abelhas, os brincos de princesa e os hibíscos foram beijados por beija-flores, enquanto lírios e margaridas chamavam borboletas. Mais ao fundo, girassóis se bronzeavam e copos de leite fofocavam com as rosas. O extenso tapete verde de grama formigou os pés da menina que decidiu se juntar as flores.
A menina-borboleta não era borboleta afinal, era uma menina-flor, que desabrochou para o mundo e nunca mais foi a mesma, pois ao ver aquele outro universo tão perto do seu, um desejo crescente por ver e conhecer mais nasceu em seu peito.
Seus olhos tinham brilho agora, um brilho de vida e esperança. Seus pés caminharam para fora daquele círculo e ela encontrou a chave para os seus pensamentos e vomitou as palavras que sempre manteve presas.

Algum tempo depois ela topou com o olhar de uma borboleta alegre e nesse mínimo segundo ela viu que naquele olhar havia calor, liberdade e vida.
A menina abriu suas asas, esticou suas pétalas e correu pelo jardim. Correu além da cerca que o envolvia, correu por estradas, correu pela vida e para a vida.
Se você um dia a encontrar por aí, diga a ela que as flores sentem saudade, mas não peça para que ela volte. Ela merece conhecer tudo o que a vida tem para mostrar antes que suas asas se cansem e suas pétalas murchem.

Oitavo texto em homenagem aos blogs, o Metamorfoses é o blog da Fabrízia Oliveira, que estava esperando por esse texto, rs. Espero que tenham gostado pessoal.

15 sorrisos compartilhados:

{ Metamorfoses } at: 22 de novembro de 2010 11:37 disse...

Caraca!! Quando abri o blog e vi, nem acreditei...rsrs
Ai, fiquei tão feliz!!rs!Amei!
Obrigada!
"As flores sentem saudade..." Q lindo!!

{ Jorge Manuel Brasil Mesquita } at: 22 de novembro de 2010 12:10 disse...

Só com a verdadeira sensação de se ser livre se conhece o seu mundo interior e toda a beleza que restar ao seu mundo exterior.
Jorge Manuel Brasil Mesquita
Lisboa, 22/11/2010

{ Thammy } at: 22 de novembro de 2010 16:00 disse...

Como não gosta não é Rodolpho? Impossível. :)
O mais bonito de tudo o que descrevestes é saber que mesmo quem se encontra perdida hoje, a fé mostra que lá na frente podemos sim sentirmos as coisas de outra maneira. É tão bom isso!
Beijoca.

{ Thammy } at: 22 de novembro de 2010 16:01 disse...

Ahhh, posso te pedir um favor?
Me mande o texto que você escreveu em homenagem ao meu, por e-mail.?!
meninabordada1@gmail.com

Gosto tanto dele e queria postá-lo no blog, se você permitir.
Beijinho!

{ Cynthia Brito } at: 22 de novembro de 2010 16:23 disse...

Adorei este blog, os textos são muito bons, completos, e fantásticos... dá gosto ler sabe?
Amei *--*
To seguindo, beijos :P

{ Thiara Ribeiro } at: 22 de novembro de 2010 16:51 disse...

Puro encanto!
Lindo!

;**

{ Lizzy S. } at: 22 de novembro de 2010 16:55 disse...

Estou com um setimento tão bom depois dessa leitura gostosa!
É muito bom sair de botão e virar flor e conhecer o mundo, sem medo, sem limites.
beijos.

{ Gabriela Furtado } at: 22 de novembro de 2010 17:10 disse...

Como sempre: um ótimo texto!!
Acho que poucas meninas- borboletas descobrem que são meninas-flores...
beeeijoos querido:***

{ Jaqline } at: 22 de novembro de 2010 18:57 disse...

Que ideia linda *-*
e o texto então...muito reflexivo. A menina do blog homenageado vai ficar feliz porque ficou lindo.

ps: É, eu sei que sumi, mas to tentando voltar aos poucos, rs. Vou aparecer mais por aqui *-*
Beeijos

{ Jéssica F. } at: 22 de novembro de 2010 21:27 disse...

adorei a história da menina borboleta, ou melhor, menina flor *-* e digo que ás vezes me sinto como ela antes de se libertar =)

{ Ju Fuzetto } at: 23 de novembro de 2010 14:55 disse...

Incrível... Adorei!!

beijocas

{ Rebeca Amaral } at: 24 de novembro de 2010 02:42 disse...

Own, que lindo! Essa menina borboleta é tão parecida com alguém que conheço... Eu. Rá, essas metamorfoses não inevitáveis e realmente essenciais. Como disse Raul, eu também digo que prefiro ser assim, uma metamorfose ambulante.
Arrasou no texto!

Um beijo pra você!

{ Alexandre Fernandes } at: 24 de novembro de 2010 13:17 disse...

É incrível como você consegue delinear a história. O crescimento do enredo tem uma delicadeza singela, que encanta de modo especial. Porque esta historinha não é apenas bonita, mas fascina pelo modo doce de ser contado, pela alegria que se propicia ao se ler.

De alguma forma serve como análogo às pessoas que enfim abrem as asas para poderem conhecer um pouco o mundo, copnhecer novas belezas fascinantes.

Maravilhoso conto meu amigo. Daqueles que criam uma lágrima no peito... de emoção!

Ainda tenho muito a aprender contigo!

Um abraço!

{ Doce Nostalgia } at: 27 de novembro de 2010 21:25 disse...

Olhaa que lindo isso!

Gostei mesmo *-*

Beijos!!!

{ Tati } at: 2 de janeiro de 2011 11:50 disse...

Estou aqui lendo os perdidos meu amigo e olha estou encantada com isso tudo que você me fez sentir com suas linhas.

Muito bem escrito, envolvente e sabe, além disso, está muito reflexivo e profundo. Eu gostei demais.

Um Beijo

 

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