Keblinger

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A história da menina comum

| segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Estávamos de mudança. Eu estava no quarto de mamãe colocando seus objetos pessoais em caixas quando encontrei um pedaço de papel dobrado no fundo da última gaveta do guarda-roupa.
“Por que você teve que partir? Eu te esperei, mas você nunca retornou.” Li sem entender do que se tratava e então fui até a varanda, onde ela terminava de colocar as caixas no porta-malas do carro e lhe entreguei o papel.
- Achei isso em suas coisas, quem escreveu? – perguntei. Ela me encarou com um olhar carregado de um sentimento que eu não fui capaz de reconhecer, era como se seus olhos enxergassem coisas que não estavam ali. E ela me contou tudo.

Toda garota na adolescência, involuntariamente, se apaixona perdidamente por aquele garoto que nunca sequer a notará e comigo não foi diferente. Ele era mais velho, do tipo popular, com o penteado meticuloso, olhos atenciosos e cheio de charme. Um diabo vestido de anjo, capaz de te nocautear somente com aquele sorriso brilhante que só ele tem.
Foi no último ano do colegial que eu o conheci, ele veio transferido de outra escola, era novo na cidade, ou seja, era a sensação do momento. Ninguém sabia nada sobre ele e esse ar de mistério é o que o deixava ainda mais atraente.
Eu sabia que não teria a mínima chance de ter alguma coisa com ele, pois todas as garotas mais lindas da escola estavam a seus pés, confesso que naquele momento eu daria qualquer coisa para ser uma delas, como eu poderia saber que eu me arrependeria tanto depois?
Os meses foram passando e minha atração pelo garoto novo na cidade só aumentava. Eu o observava por longos minutos, acariciando seus cabelos com o olhar, desenhando corações nas folhas do caderno e imaginando nossas iniciais dentro deles. Fico espantada com quanta tolice pode caber dentro de uma pessoa apaixonada.
No último mês de aula, estávamos nos preparando para o tão sonhado e temido baile de formatura e é claro que por ser uma garota que extrapolava por ser comum, eu não tinha um par, enquanto as queridinhas dos meninos duelavam como leoas enlouquecidas pela atenção do macho alfa, o eterno garoto novo na cidade.
Eu era a oradora da turma, havia preparado um discurso excelente e estava ensaiando no auditório do colégio, sem saber que uma pessoa estava sentada na platéia me assistindo. Fiquei tomada por uma raiva sem tamanho, aquele discurso não era para ser ouvido até o dia do baile, e fui expulsar o bisbilhoteiro. Era ele.
- Você sabe que não deveria estar aqui, quem deixou você entrar? – eu perguntei enquanto me aproximava de onde ele estava sentado, ainda não o reconhecendo na luz baixa.
- Eu tenho meus meios – ele disse presunçoso – E a propósito, essa coisa que você escreveu está muito boa.
- Essa coisa se chama discurso – eu retruquei e finalmente vi seu rosto, com um sorriso brincalhão desenhado.
- É, que seja, só entrei aqui, pois vi que você estava sozinha, não queria te convidar para o baile na frente de todas aquelas feras, se é que você me entende – ele falou.
Meu estômago afundou ao ouvir as palavras dele. Ele estava me convidando para o baile? Eu estava delirando, era a única resposta óbvia.
- Seu silêncio é um sim ou um não? – ele perguntou.
- É um “eu vou pensar” – na hora eu não acreditei que tinha dito aquilo. Uma voz em minha cabeça gritou: “Sua idiota, diga sim. SIM.”
- Assim que você tiver pensado, você sabe onde me encontrar – ele se levantou e saiu.
Dois dias depois eu disse a ele que aceitava o convite e ele me confessou que estava morrendo de medo que eu recusasse e que eu era a única garota pela qual ele havia se interessado desde o começo, justamente por eu não ser como as outras. Ainda bem que ele nunca soube que aquilo era o que eu mais queria.
A beleza do baile foi ofuscada pelo encanto de sua companhia. A valsa. Todos os pares de olhos fixos em nós dois... Mas nada daquilo se compararia com o momento mágico do fim da noite.
Foi dentro do carro dele que fizemos amor, foi lá a minha primeira vez, foi lá que você foi concebida.
Estávamos no campo à beira da cidade, dois meses depois, quando contei para ele sobre a gravidez.
- Vamos fugir – ele propôs.
Eu disse que não podia, dei-lhe um último beijo e parti. Do fim do campo olhei para trás e ele ainda estava lá, o sol se deitava, o vento manso soprava e eu apenas disse de longe: Eu sinto muito, não podemos ficar juntos.

- Por que você fez isso, mãe? Por que não ficou com ele?
- Eu era nova demais, eu não sabia ao certo o que fazer. Eu tinha uma vida toda pela frente e...
- Você não queria um bebê.
- Eu me arrependo de ter pensando nisso, eu te amo, você foi a melhor coisa que me aconteceu.
- Mas por que eu não tenho um pai?
- Porque ele foi embora. Ele me esperou no campo por dez dias seguidos, para que pudéssemos fugir e construir uma vida só nossa, mas eu nunca fui encontrá-lo.
- E agora?
- Agora o quê?
- Você quer encontrá-lo?
- Eu já encontrei – e foi então que ela me disse o verdadeiro motivo de nossa mudança. Nós iríamos morar com ele, há tempos ela vinha tentando rastreá-lo para corrigir o maior erro de sua vida, que foi deixá-lo partir.
E ele havia esperado. A esperança de que um dia nossa família seria completa fez com ele esperasse dezesseis anos pelo retorno de minha mãe.
No final, não estávamos de mudança, estávamos recomeçando.

Pauta para o Bloínquês

15 sorrisos compartilhados:

{ Raissa Zylberglejd } at: 29 de novembro de 2010 00:57 disse...

CA-RA-CA.
Eu amei esse texto. MARAVILHOSO, de verdade. Entre demais na história. Parabéns (:

{ Gabriele Santos } at: 29 de novembro de 2010 01:05 disse...

Ah vey que droga, perdir as chances de ganhar.
rsrsrsrs
mas se eu perder para você esta "derrota" será bem vinda, porque sua vitória será merecida.
Recolho-me aos Parabéns, é o que sai neste momento.
Parabéns!

{ Luana } at: 29 de novembro de 2010 13:20 disse...

Que liiiiiiiiiindoooooooooooooooooo! *-*
Adorei o texto! Seria idiota se eu perguntasse se tem algum fundo de verdade?

{ Nat } at: 29 de novembro de 2010 14:02 disse...

Nossa, faz muitoooo tempo que não passo por aqui, já estava com saudade !
Muito lindo o texto viu?! Recomeçar sempre é bom, a gente se sente melhor depois que algumas escolhas são feitas.
Adorei!
Beijos

{ Tassyane Américo } at: 29 de novembro de 2010 14:47 disse...

Nossa, incrível como o teu texto me fez entrar na história. Ficou ótimo, espero que ganhe! =)

Lindo mesmo!

{ Jéssica Trabuco } at: 29 de novembro de 2010 17:53 disse...

Sempre é hora de recomeçar... de ir atrás da verdadeira felicidade *-*
LIndo!

{ Elania } at: 29 de novembro de 2010 19:41 disse...

Nossa.
Maravilhoso *-*.
Sem palavras, me encantou o conto.
Parabéns :)

{ Katja Malena } at: 29 de novembro de 2010 20:43 disse...

Sorrir faz bem...
Gostei daqui!
Seguindo!

{ Thiara Ribeiro } at: 30 de novembro de 2010 08:31 disse...

Cheia de lágrimas nos olhos! *-*

{ Mahh Ruiz } at: 30 de novembro de 2010 10:32 disse...

Nos que texto lindo, foi você quem escreveu?
Beijos.

{ Shuzy } at: 30 de novembro de 2010 15:00 disse...

Encantador... Lindo lindo lindo, pra ler com o coração!

{ Rebeca Amaral } at: 30 de novembro de 2010 22:15 disse...

Poxa Rodi, por que fazes isso comigo? Estou muitíssimo emocionada com esse texto! Que lindo, que lindo! E a última frase então? Arrepiou geral! Preciso começar a por em prática as coisas lindas que leio aqui, hehe.

Um beijo, honey.

{ RaH } at: 1 de dezembro de 2010 01:18 disse...

Q linda a história!Um enrredo simples q em suas palavras ficou mto intenso!
beijos

{ Luana } at: 2 de dezembro de 2010 15:47 disse...

Que lindo *-*

{ Tati } at: 2 de janeiro de 2011 12:09 disse...

Surpreendente menino, muito bem escrito e intenso. Você é muito bom nisso.

Beijos

 

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