Keblinger

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Velhas lembranças

| segunda-feira, 2 de agosto de 2010
Aqui na casa de campo, as horas passam de uma maneira peculiar, nem rápidas, nem lentas. Assisto ao desenrolar da vida selvagem pela janela, vejo os pingos da chuva limparem o vidro, vejo o vento sacudir os galhos revoltos das árvores em dias calmos. Eu apenas vejo, sou um observador. E com isso vejo os dias sendo tirados de mim, um a um, a cada anoitecer. Às vezes me sento na cadeira de balanço na varanda da frente, só para sentir a natureza mais perto de mim, sinto o ar fresco noturno, digo "olá" para as estrelas que me visitam e aceno timidamente para a lua. Nas manhãs me encanto com os pássaros que fazem morada por perto, ouço a melodia suave que eles oferecem e respiro a brisa leve, enquanto vejo o sol espalhar sua luz cálida pelo mundo, secando as gotas de orvalho do verde ao redor.
Tem dias que eu começo a me lembrar da vida, dos anos que se passaram, daquilo tudo que ficou para trás e não volta mais. Lembro da minha infância onde eu colecionava de tudo, colecionei livros, músicas, objetos, mas nunca colecionei amores. Eu tive um grande amor. Acredito que na vida da gente, temos apenas um grande amor e um é o bastante para não passar por essa vida sem ter um sentido.
Eu me lembro dela, lembro do seu jeito de sorrir e me olhar, lembro das expressões e caras que fazia quando eu dizia algo engraçado, lembro de seu rosto corado quando eu lhe dizia que meu coração batia por ela. Ah, eu lembro do nosso primeiro beijo, do primeiro toque de sua mão suave... me lembro de esperar por ela no altar e vê-la caminhando de branco até mim, com aquele sorriso que iluminava minha vida. Lembro de quando dissemos "sim". Lembro dos votos que escrevi:

A partir de hoje, não sou apenas um, minha alma se une a sua sob a benção do Criador.
A partir de hoje minha vida começa de verdade, meu sonho desperta para o mundo e eu declaro ser só seu. Declaro que minha vida está em suas mãos, que meu amor está em seu poder, que você é meu mundo.
A partir de hoje, meu amor, até o fim dos tempos, eu prometo te amar.

A vida da gente é cheia de histórias, uma costurada a outra, algumas cheias de risos e outras preenchida por lágrimas. Chega um momento em que olhar para trás é tudo o que resta, sentir o sabor doce e nostálgico das lembranças e o gosto amargo da saudade.
Esqueci de muita coisa que vivi, memórias apagadas pelo tempo incontrolável, mas as dores da vida deixaram cicatrizes que nem o tempo apaga. Eu tive um grande amor, mas a perdi. A vida me presenteou com sua presença por vários anos, para depois roubá-la de mim. Naquele adeus meu coração foi enterrado junto com ela e nunca mais senti meu peito vibrar. Mas eu sei que ela me espera, onde quer que esteja e sei que um dia nos reencontraremos, sabe por quê? Porque um grande amor não é para a vida toda, é para toda a eternidade.
Eu estou sempre rodeado de pessoas nessa casa, cada um vivendo sua vida particular, longe dos assuntos alheios. Sou bem cuidado, acho que era isso que eles queriam, ver seu velho pai sendo bem tratado. O asilo não é tão horrível quanto me disseram, apesar de eu sentir muita falta dos meus filhos e netos que me visitam com pouca frequência, eu tenho dias lindos, mesmo quietinhos. Mas eu queria ter minha família por perto, pelo menos nos últimos anos de minha vida.
Sei que tenho meus defeitos, que cometi meus erros, mas quem não é assim? A família perdeu seu valor com o passar dos anos. Na minha época de juventude, almoçávamos e jantávamos à mesa todos os dias, compartilhávamos nossas histórias e nos importávamos mais. Mas o que um velho como eu pode saber, não é? Fui colocado nesse asilo com um carimbo de "inútil" na testa, já não me resta muita coisa além de olhar para trás tendo a certeza de que eu fiz minha parte.
Não vivo uma vida solitária, sei que é isso que sussurram pelos cantos, mas eu tenho meu amor comigo, onde quer que eu vá.
Um dia não vou acordar mais nesse mundo, um dia me colocarão debaixo de sete palmos e me levarão flores que nunca verei, mas nesse dia eu hei de encontrá-la e nesse dia eu finalmente vou saber o que é viver de novo.

Pauta para a Final da Gincana do Dia do Escritor do OUAT - Tema: Livre / Frase: "Tenho dias lindos, mesmo quietinhos"

13 sorrisos compartilhados:

{ Mari E. } at: 2 de agosto de 2010 18:01 disse...

OWWN q lindo, cara! É fato que a família está desvalorizada, e o amor também, com isso eu concordo! Mas se o amor ainda existir, espero que alguém me ame assim um dia! Bjão, amigo!

{ Bruna } at: 2 de agosto de 2010 18:45 disse...

Um belo texto. também concordo hoje em dia todos os valores perderam o sentido, todomundo se esqueceu de tudo
Um otima semana
beeijo

{ Luria Corrêa , Martins . } at: 2 de agosto de 2010 18:52 disse...

Nossa Rodolpho, quanta maravilha. Durante todo o tempo que li, imagei cenas de Will na cabana. ( A Cabana - livro ). Realmente, foi um dos que mais me fizeram pensar, a mensagem simplória e tão grandiosa foi transmitida de maneira esplêndida.

bejs :D

{ Leni } at: 2 de agosto de 2010 19:09 disse...

Lindíssimo texto. Escreves demasiadamente bem.
beijos

{ Flávia } at: 2 de agosto de 2010 20:09 disse...

Nossa Rodi, fiquei de boca aberta!
Quanta sutileza com as palavras... Quanto romântismo [de novo] haha!

Ficou muito lindo o texto. Me prendeu, como sempre.
Adorei a maneira que descreveu o 'velhinho'... Aliás, adoro sempre cada palavra!!!

Parabéns
beeijos S2

{ Rebeca Rocha } at: 2 de agosto de 2010 21:14 disse...

A beleza de todos os dias, se esconde nas coisas mais simples :)

Abraços :*

{ *Amanda* } at: 2 de agosto de 2010 22:20 disse...

qdo vc tiver sem inspiração... me avisa tá! rsrsrsrsrsrsrsrs...

e eu choro... até em filme de comédia!!!! ^^

ameiiiiiiiiiiiiii rodiiiiiiiii*****

{ Natália } at: 2 de agosto de 2010 22:36 disse...

Relembrar é viver :D bj

{ Tati } at: 2 de agosto de 2010 22:49 disse...

Estou aqui, profundamente tocada com isso tudo que você desenhou moço.
Gosto desse seu jeito sutil de escrever e da sua facilidade de desenhar as cenas.

Ficou intenso e muito belo. Me emocionei.


Um Beijo

{ Alexandre Fernandes } at: 2 de agosto de 2010 23:01 disse...

Que texto encantador. É devers emocionante. Tem um ar tão singelo que trespassa doçura na forma tão bonita desse depoimento sutil sobre amor, lembranças e vida.

Fantástico o modo como você ordenou os sentimentos. As palavras vão soando como que sonetos de um luau, cantadas ao ritmo de um vento noturno. Brisa leve que aquisce a alma.

Que texto magnífico. Tão doce falar do grande amor. E concordo, grande amor, só tem um mesmo. Daqueles que nos faz ter sentido. E isso nos orienta um pouco, como que vai construindo o caminho para seguirmos. A família está desvaolorizada, mas depende muito de nós mesmos para mudar esse panorama e começarmos a edificar uma nova forma de se dar valor ao que é de tão essencial para o nosso crescimento como ser humano.

Lindo mesmo. Comovente. Emocionante.

Abraços.

{ daniella } at: 3 de agosto de 2010 16:37 disse...

emocionante demais :/ consegui sentir como é triste passar os dias sem quem você ama, desejar ver a família com mais frenquência e nao ter mais quem sempre te completou.

{ Rute Vieira } at: 3 de agosto de 2010 17:13 disse...

fiquei toda arrepiada com o final.
"um grande amor não é para a vida toda, é para toda a eternidade."
ama-se além, apesar, da vida.
ai, o amor.

muito bom, Rodolpho, muito bom meeesmo!
Parabéns!
beijo no ombro

{ Vanessa Monique } at: 3 de agosto de 2010 21:01 disse...

Homii,não acredito perdi o cap,2. Só vou ler esse qnd ler o 2, vou lá.
Desculpa a demora,mas é a correria.
Estudar,postar e o tempo qnd vê já era.
Mas não eskeço daki não.
:*

 

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