Keblinger

Keblinger

O homem que não sabia dormir

| sexta-feira, 27 de agosto de 2010
A insônia se acomoda do meu lado enquanto as horas se arrastam noite adentro. Viro e remexo na cama, fecho os olhos para enxergar o sono, mas é em vão. Pensamentos aleatórios giram em minha cabeça, desvio de alguns, adio outros e apenas penso nos mais irrelevantes e menos problemáticos. Por que é assim? Por que, às vezes, a gente tende a deixar as coisas mais importantes para depois? A verdade é que a responsabilidade e eu não damos muito bem, eu sei como tratá-la, sei de sua presença, mas nem sempre estou disposto a encará-la.
Eu só queria que as palavras trancadas dentro de mim pudessem jorrar para fora e encontrar os ouvidos certos, aliás, eu queria realmente encontrar as palavras que se escondem de mim. Me olho no espelho e já não sei mais quem eu vejo. Vejo o reflexo de alguém que aparenta apenas ter defeitos demais, apago a luz e tudo fica bem, o reflexo escuro é melhor do que minha imagem me encarando e perguntando coisas das quais não sei as respostas.
Por um lado eu penso que se eu não lutar do meu lado, defendendo meu eu errante, ninguém vai. Por outro lado eu analiso esse ser que muitas vezes é egocêntrico, egoísta e distraído demais para ver o que acontece ao redor com as pessoas ao redor. Às vezes eu só desejo que alguém me compreenda ou pelo menos finja que eu não sou tão ruim assim. Sei que nem eu me entendo, que cometo o erro de mentir para mim mesmo dizendo que tudo está bem quando não está e o pior é que acredito. Acredito e me iludo nessa mentira, bloqueando minha visão para o que realmente é verdadeiro.
Estou cansado da mesmice, estou cansado de ficar repetindo "eu não sei o que fazer", estou cansado de esperar respostas, de ser mal interpretado e julgado por ser apenas eu mesmo. Já perdi as contas de quantas vezes desejei mudar e ser alguém completamente diferente, de tentar aprender algo que ninguém pode me ensinar, mas tantas outras vezes eu voltei atrás e continuei sendo desse jeito, danificado, diferente... imperfeito. Já assumi culpas demais por ser assim e viver me desculpando por isso é negar quem eu sou, não posso pedir que me entendam, não posso pedir que me aturem nem que me aceitem, mas posso e mereço pedir que me respeitem.
Confesso que muitas vezes não sei como agir e o que falar e que o silêncio toma conta e deixa o ar tenso, confesso que nem sempre vejo um problema de cara e nem sempre noto o que está errado de imediato, eu preciso de tempo e, mais ainda, de compreensão. Outras coisas que me faltam são a paciência e a tolerância, que seguram sorrisos e libertam estresse e palavras ásperas que não precisavam ser ditas.
A verdade é que eu não sou o mesmo todos os dias, não reajo da mesma maneira, mesmo que as situações sejam iguais. Não gosto de repetições, pois elas soam como anulações do que foi dito antes e isso faz com que eu entenda que o que eu disse foi em vão. Não sou adepto a enrolações, vou direto ao assunto.
Cansei de encenar o papel do bonzinho e do vilão, cansei de querer ser quem eu não sou, cansei de tentar me explicar e nem mesmo sei se eu deveria fazer isso.
Quero poder errar sem medo, quero poder ser quem eu sou sem ter que lidar com julgamentos e rejeições. Quero que o mundo dê uma reviravolta quando eu estiver caindo, então farei de minha queda um vôo livre.
Tudo isso é pedir demais? Tudo isso é egoísta demais ou devo ser hipócrita ao ponto de pensar que todo mundo sempre prefere o caminho mais difícil?
Hoje eu só quero fugir.
Quero fugir para um lugar onde somente tudo aquilo que me importa possa me encontrar!
Escrevi esse texto quando as palavras presas dentro de mim tiveram a necessidade de escorrer para fora e com isso me senti aliviado.

19 sorrisos compartilhados:

{ Thammy } at: 27 de agosto de 2010 17:16 disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
{ Thammy } at: 27 de agosto de 2010 17:18 disse...

Eu sou apaixonada pelos seus textos, pela maneira como expõe sentimentos às vezes de forma tão simples, outras, tão contraditórios. Mas esse, realmente me tocou profundamente. Cada palavrinha que eu lia foi me domando o corpor. As suas palavras me tiraram o fôlego. Arrepiaram a alma, de tanta verdade e sensibilidade. Eu não sei nem o que dizer... Porque, parecia que falava de mim também.
Lindo, realmente gostei (muito mais que isso).!
Beijo.

{ Janetinha } at: 27 de agosto de 2010 17:33 disse...

Você expõe sentimentos e idéias com muita clareza. Precisa escrever um livro! Bjos.

{ Natália } at: 27 de agosto de 2010 17:53 disse...

Por quê deixamos tantas coisas pra depois? Hábito horrivel. beijo

{ Jaqueline Jesus } at: 27 de agosto de 2010 20:24 disse...

mas um belíssimo texto.
É um hábito muito ruin mesmo deixar as coisas pra depois, como se elas fossem se resolver sozinhas... Coloque sempre as palavras que estiverem engasgadas para fora, mesmo que se não for pela fala, que seja pela escrita.
Tava com saudades daqui *-*
beijos;*

{ @carolecarol } at: 27 de agosto de 2010 20:38 disse...

SElo para vc no meu blog =)

{ *Amanda* } at: 27 de agosto de 2010 23:36 disse...

*Quero fugir para um lugar onde somente tudo aquilo que me importa possa me encontrar*

As vezes acho que nada além disso importa.. e que por mais que se tente explicar esse sentimento aos outros.. ninguém entenderia... e talvez essa seja a melhor forma de passar por isso sem tanto stress...
Ou talvez seria melhor encarar tudo de uma vez.. esperar que as oportunidades apareçam nunca leva ninguem a lugar nenhum... pq o caminho mais difícil é, com certeza, aquele em que você quebra a cara milhões de vezes, aquele em que vc cai inúmeras delas, mas é o único que pode te levar à algum lugar.. vc depende dele...

pude ver vc através desse texto rodi... talvez esteja enganada.. mas me pareceu algo bem profundo.. gostei das palavras... mas elas me angustiaram... se eu pudesse dizer alguma coisa.. diria isso: 'Tentar não significa conseguir... mas todos que conseguiram.. um dia tentaram'... vc precisa encarar o caminho... não existe a opção 2!

Filosofei profundamente! rsrsrsrsrs

bjs*

{ Pegadas do Coração } at: 28 de agosto de 2010 10:37 disse...

Realmente você o "cara", pois se expressa tão bem!
Meus parabéns!!!
Abraço.

{ Ariana } at: 28 de agosto de 2010 11:17 disse...

"Estou cansado da mesmice, estou cansado de ficar repetindo "eu não sei o que fazer", estou cansado de esperar respostas, de ser mal interpretado e julgado por ser apenas eu mesmo. "

Texto perfeito! Muito bem escrito! Eu também estou cansada de tudo isso, é uma realidade não so sua, mais de varias pessoas!

Amei!


bjos

{ Grafite } at: 28 de agosto de 2010 11:53 disse...

gostei muito...sabes construir um texto como ninguém!

"Confesso que muitas vezes não sei como agir e o que falar e que o silêncio toma conta e deixa o ar tenso"

beiijo,
*.*

{ adolescent subjects' } at: 28 de agosto de 2010 13:10 disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
{ adolescent subjects' } at: 28 de agosto de 2010 13:12 disse...

*----*


http://planossoltos.blogspot.com

{ Cristiano Guerra } at: 28 de agosto de 2010 15:03 disse...

Isso foi fantástico. E você não precisa explicar nada. Nem entender nada, nem convencer sobre nada. Se quiser, também não precisa falar nada. Tô falando como se você não soubesse. Mas enfim, a gente se esquece disso. E sim, eu sei como alivia escrever assim.

Abraço

{ Rebeca Amaral } at: 28 de agosto de 2010 19:03 disse...

Ah, Rodolpho, sempre te digo a mesma coisa, mas cara, é impossível. Você se garante demais.
E nesse texto, bem... Eu senti muito de você, um subjetivismo maravilhoso de se ler. Arrasou, viu.

Ando em falta contigo, né. Desculpa.

Beijos!

{ Lury Sampaio } at: 28 de agosto de 2010 19:07 disse...

É preciso se livrar de tudo que nos rodeia e criar um mundo pra si, e viver pra sempre nele, sempre sendo você mesmo e se os outros não gostarem, eu pouco me importo. Aprendi a viver assim.
É muito bom soltar algo que está preso assim e ainda mais de uma forma tão expressiva e profunda. Amei esse trecho "Quero que o mundo dê uma reviravolta quando eu estiver caindo, então farei de minha queda um vôo livre. "
beijos.

{ Thiara Ribeiro } at: 29 de agosto de 2010 00:30 disse...

"Por que, às vezes, a gente tende a deixar as coisas mais importantes para depois?"

É exatamente assim...

Um desabafo comovente!

;** Rodolpho!

{ Alexandre Fernandes } at: 29 de agosto de 2010 12:23 disse...

Intenso como sempre meu amigo.
Eu li aqui atento nesse desabafo interno. E a as coisas mais reais saem dessas confissões, dessas nossas conversas onde expomos tudo o que de fato sentimos. E de um modo escancarado, deslizamos sobre as nossas piores dúvidas, cercadas pelas dificuldades que temos em poder entender melhor o objetivo de nossos esforços.

Isso sim é que demonstra o quanto podemos ser fracos, o quanto somos capazes de sentir o âmago gritando de dor, quando a dor já não cabe mais no peito, e a vida ao redor nos torna refém de nossas certezas e incertezas. Porque não adiante sermos algo que não somos ou insistir em caminhos que não continuam.

As coisas mais importantes partem da vontade do nosso coração. E a ele devemos sempre estar atento.É O tipo de coisa que alivia, porque a gente extrai uma dor que vai se alimentando lá dentro, engalfinhando a nossa principal força, a nossa intrínseca vontade.

Não sabemos como agir, não sabemos o que fazer de verdade. Mas não existem roteiros, muito menos manuais, aos quais podemos nos orientar. O que temos é o que os nosso olhos avistam e as nossas mãos tocam. E é nesse leve despertar, ao aprendermos a dar mais valor ao que nos cerca é que somos vamos ganhando instrução na arte de viver e, decentemente tomarmos decisões mais sábias.

Texto forte, verdadeiro e espontâneo.

Abraços.

{ Mandy } at: 29 de agosto de 2010 19:04 disse...

Nossa Rodi, eu sei como é isso. =/
"Às vezes eu só desejo que alguém me compreenda ou pelo menos finja que eu não sou tão ruim assim. Sei que nem eu me entendo, que cometo o erro de mentir para mim mesmo dizendo que tudo está bem quando não está e o pior é que acredito. Acredito e me iludo nessa mentira" Adorei esse trecho, e me encontrei muito nele.
Desabafar faz muito bem, parece que depois de uma simples conversa todo o peso que tem em cima da gente sai voando por ai. Espero mesmo que depois desse desabafo lindo, você fique bem. :)
E mais uma vez, desculpa a demora. Vou continuar lendo todos os outros textos que eu perdi, porque sei que vou me arrepender depois se não ler.
Beijão
Mandy

{ Tati } at: 4 de setembro de 2010 23:08 disse...

Confesso que esse foi o desabafo mais lindo e intenso que já li. Soou inteiramente verdadeiro e acabou por envolver.

E muitas dessas coisas são parte do que eu sinto às vezes também...


Beijos

 

Copyright © 2010 A arte de um sorriso