Keblinger

Keblinger

A menina dos olhos de mel

| segunda-feira, 30 de agosto de 2010
Enquanto ela olha para o céu de um azul suave, o sol se reflete em sua íris e o castanho claro de seus olhos se torna dourado e brilhante. Ela é uma garota só, que observa o céu e os desenhos das nuvens. Que enquanto faz isso, deseja estar com alguém, pede ao vento que te traga um amor, pede ao silêncio que cante uma canção.
Ela quer um amor sereno e puro como o céu da primavera. Quer um par de olhos azuis para casar com seus olhos de mel, doces e carentes. Ela é uma garota calada, fala com os sentimentos. É poetisa, compositora e narradora de sua própria existência.
Toda tarde ela sobe ao morro perto de sua casa, onde assiste o sol se deitar e procura as cores do vento. Ela sopra canções e respira saudade. Mas é aquela saudade de um tempo que não existiu, uma nostalgia do que nunca foi vivido. Uma vontade de se atirar do precipício e descobrir que tem asas.
E a cada noite, quando o manto azul-marinho salpicado de estrelas cobre o céu, ela retorna triste para casa. Sozinha. Sem o par de olhos azuis que tanto pediu. A canção do vento não possui melodia, os versos de sua poesia se desencontraram da rima.
Ela já ouvira dizer que as coisas na vida da gente acontece quando menos esperamos, pois bem, ela constatou isso em outra tarde no morro. Assim que chegou para ver o espetáculo do sol, se deparou com mais alguém na platéia. Ali, no seu morro, havia um garoto, os cabelos bagunçados pela mão do vento, os olhos encarando o céu. Os olhos, a primeira coisa que ela reparou.
Ele sorriu timidamente e balbuciou um "oi". Ela se aproximou e então conversaram. O sol se pôs e na distração do assunto, perderam a chance de desejá-lo boa noite, logo o véu noturno tomou conta e o ar gélido os abraçou. Hora de partir, mas estava tudo tão bom ali. Ela não queria voltar a ser a garota sozinha no morro. Ele disse adeus e analisou o olhar suplicante dela e prometeu que voltaria no dia seguinte.
Seu peito se encheu de uma emoção que jamais havia experimentado antes. Voltou para casa, tentou dormir, mas alguma coisa fazia cócegas em seu estômago e cada vez que fechava os olhos, lá estava ele, o menino do seu morro.
Na tarde seguinte, ela se arrumou com seu melhor vestido e foi ao seu lugar de sempre. Subiu o morro com tamanha ansiedade que o ar lhe foi tirado. Chegando lá, o avistou de costas. Sorrindo para o horizonte e assoviando uma melodia suave. Assim que se posicionou ao seu lado, ele a presenteou com uma flor amarela, que combinou perfeitamente com seu vestido florido.
E foi ali naquele morro, onde pareciam poder tocar o céu, onde o sol acenava adeus e a noite escorregava, que a história dos dois começou.
Os olhos do garoto, cor de amêndoa, encontraram os dela e no silêncio do momento, uma canção foi ouvida.
Ela não encontrou o que pediu, mas o que conseguiu foi muito melhor do que esperava. Foi então que ela soube que os melhores presentes que a vida nos dá, vêm nos embrulhos mais inesperados.

Pessoal, nos últimos dias não tenho tido muito tempo para visitar todos que eu costumava, mas sempre que arranjo um tempo passo pelos blogs de vocês. Para suprir essa minha ausência nos comentários, tive a ideia de homenagear e indicar alguns blogueiros, criando textos com os nomes de seus blogs. Esse é o primeiro texto com esse intuito. Espero que gostem.
A menina dos olhos de mel é o blog da Amanda Menezes. Se, por acaso, você tenha achado uma ousadia da minha parte usar o nome do seu blog sem perguntar, me avise que troco o nome da postagem.

Entre o céu e o mar

| domingo, 29 de agosto de 2010
♫ Sailboats wish that they were stars,
Floating softly in the sky,
Among our dreams that bid goodbye... ♪
Sailboats - Sky Sailing

A noite me sugou em sua imensa escuridão. De repente vi as estrelas ao meu lado dançando feito bailarinas em caixinhas de música, me senti um astronauta em miniatura viajando na calda de cometas e desviando de asteróides e meteoros. Fui saltando de planeta em planeta no universo silencioso, passando pelo calor de Mercúrio, rodopiando nos anéis de Saturno e tremendo na fria solidão de Plutão, o renegado.
Num instante despenquei, como se puxado por uma corda e caí a bordo de um barco de papel que navegava em águas tranquilas. A correnteza levemente conduzia o barquinho na direção de uma fenda obscura e mais uma vez a escuridão me engoliu.
Aqui e ali, aos poucos, pequenos pontos de luz começaram a brilhar. Do barco eu vi várias lágrimas de diamante cintilando na parede rochosa da fenda. Não me arrisquei a pegá-los, pois poderia rasgar a borda do barco e cair no mar gelado.
O fim da fenda, do outro lado, me atingiu com uma luz radiante que quase me cegou. Um sol gigantesco puxava o barco para o horizonte no ponto em que se unia com a água. Senti os pés molhados e percebi que o barco estava se desfazendo, tentei gritar mas o ar roubou minha voz, tentei fugir, mas não havia para onde ir. Fechei os olhos com força.
O vento estapeando meu rosto me mostrou que eu estava em terra firme. A areia da praia brilhava à luz do sol e da lua, que dividiam o mesmo céu, como almas gêmeas que enfim se encontraram. Eu não sabia se era a aurora ou o crepúsculo que anunciou o frescor da brisa mansa que borrifava sereno no mundo.
A névoa densa ao redor cobriu minha visão, meu corpo deu um solavanco e ouvi vozes ecoando meu nome.
Abri os olhos de uma vez.
E fugi do sonho que tentava me roubar da realidade.

O homem que não sabia dormir

| sexta-feira, 27 de agosto de 2010
A insônia se acomoda do meu lado enquanto as horas se arrastam noite adentro. Viro e remexo na cama, fecho os olhos para enxergar o sono, mas é em vão. Pensamentos aleatórios giram em minha cabeça, desvio de alguns, adio outros e apenas penso nos mais irrelevantes e menos problemáticos. Por que é assim? Por que, às vezes, a gente tende a deixar as coisas mais importantes para depois? A verdade é que a responsabilidade e eu não damos muito bem, eu sei como tratá-la, sei de sua presença, mas nem sempre estou disposto a encará-la.
Eu só queria que as palavras trancadas dentro de mim pudessem jorrar para fora e encontrar os ouvidos certos, aliás, eu queria realmente encontrar as palavras que se escondem de mim. Me olho no espelho e já não sei mais quem eu vejo. Vejo o reflexo de alguém que aparenta apenas ter defeitos demais, apago a luz e tudo fica bem, o reflexo escuro é melhor do que minha imagem me encarando e perguntando coisas das quais não sei as respostas.
Por um lado eu penso que se eu não lutar do meu lado, defendendo meu eu errante, ninguém vai. Por outro lado eu analiso esse ser que muitas vezes é egocêntrico, egoísta e distraído demais para ver o que acontece ao redor com as pessoas ao redor. Às vezes eu só desejo que alguém me compreenda ou pelo menos finja que eu não sou tão ruim assim. Sei que nem eu me entendo, que cometo o erro de mentir para mim mesmo dizendo que tudo está bem quando não está e o pior é que acredito. Acredito e me iludo nessa mentira, bloqueando minha visão para o que realmente é verdadeiro.
Estou cansado da mesmice, estou cansado de ficar repetindo "eu não sei o que fazer", estou cansado de esperar respostas, de ser mal interpretado e julgado por ser apenas eu mesmo. Já perdi as contas de quantas vezes desejei mudar e ser alguém completamente diferente, de tentar aprender algo que ninguém pode me ensinar, mas tantas outras vezes eu voltei atrás e continuei sendo desse jeito, danificado, diferente... imperfeito. Já assumi culpas demais por ser assim e viver me desculpando por isso é negar quem eu sou, não posso pedir que me entendam, não posso pedir que me aturem nem que me aceitem, mas posso e mereço pedir que me respeitem.
Confesso que muitas vezes não sei como agir e o que falar e que o silêncio toma conta e deixa o ar tenso, confesso que nem sempre vejo um problema de cara e nem sempre noto o que está errado de imediato, eu preciso de tempo e, mais ainda, de compreensão. Outras coisas que me faltam são a paciência e a tolerância, que seguram sorrisos e libertam estresse e palavras ásperas que não precisavam ser ditas.
A verdade é que eu não sou o mesmo todos os dias, não reajo da mesma maneira, mesmo que as situações sejam iguais. Não gosto de repetições, pois elas soam como anulações do que foi dito antes e isso faz com que eu entenda que o que eu disse foi em vão. Não sou adepto a enrolações, vou direto ao assunto.
Cansei de encenar o papel do bonzinho e do vilão, cansei de querer ser quem eu não sou, cansei de tentar me explicar e nem mesmo sei se eu deveria fazer isso.
Quero poder errar sem medo, quero poder ser quem eu sou sem ter que lidar com julgamentos e rejeições. Quero que o mundo dê uma reviravolta quando eu estiver caindo, então farei de minha queda um vôo livre.
Tudo isso é pedir demais? Tudo isso é egoísta demais ou devo ser hipócrita ao ponto de pensar que todo mundo sempre prefere o caminho mais difícil?
Hoje eu só quero fugir.
Quero fugir para um lugar onde somente tudo aquilo que me importa possa me encontrar!
Escrevi esse texto quando as palavras presas dentro de mim tiveram a necessidade de escorrer para fora e com isso me senti aliviado.

Vale a pena um pouco de mágica

|


Ganhei esse selo da Amanda Menezes do A menina dos olhos de mel, selo feito por ela mesma e eu fiquei muito feliz por ser um dos primeiros a receber (só peço desculpa pela demora de postá-lo aqui). O intuito do selo é indicar os blogs que têm ótimas postagens, assim como ela mesma disse que ao ficar ausente dos blogs que costuma ir, quando visita lê todos os textos que ficaram para trás, eu também faço isso.


Esse outro selinho foi presente da Danny do O caminho das Palavras, agradeço muito por ter me indicado e mesmo ela dizendo que eu não precisava repassar o selo, aqui estou eu (eu sempre repasso, exceto quando é repetido, hehe). Esse selo tem duas regras:

1 - Dizer o que é mágico para mim.
Mágico é tudo aquilo que nos faz bem. Uma pessoa, um livro, um hobby, um animal, etc... tudo isso pode ser mágico, na verdade, eu acredito que a magia não está nas coisas em si, mas em nós mesmos que a depositamos naquilo que gostamos.

2 - Mostrar uma imagem que eu acho mágica.

Sorrisos são mágicos =)

E aqui estão os indicados para os dois selos:

As cartas do monge sem nome - Parte 7

| terça-feira, 24 de agosto de 2010
No mosteiro

Assim que terminei de ler a carta de meu filho, retornei à meditação, mas antes que pudesse fazer minhas orações, fui requisitado no aposento do Abade. Entrei em silêncio e encarei os olhos de meu superior, que fez um gesto para que eu me sentasse. Eu já esperava por aquele momento.
- Me sinto desconfortável com toda essa encenação minha e de vocês - ele me disse, sendo direto como sempre - Preciso saber se valeu a pena?
Meus lábios se curvaram em um sorriso incontido.
- Sim, meu senhor, ter meu filho por perto foi o maior presente que eu poderia receber. Ele me trouxe luz e mais vontade de viver e servir a nosso Senhor. - respondi.
- Fico satisfeito com sua alegria. Depois de todos esses anos e de tantos segredos e mentiras, eu entendo como você se sente e sentiu ao fazer sua escolha. Eu o perdôo.
Levantei os olhos, emocionado.
- Isso era tudo o que eu precisava ouvir agora. Obrigado - meus olhos se encheram de lágrimas.
- Eu desejo apenas que ele possa saber um dia, de fato, quem eu sou. - disse o Abade, com um olhar pesaroso.
- Ele vai saber, pai - eu respondi - Um dia ele vai saber.

No vilarejo

Sentei-me ao lado de minha mãe e escutei sua história:
- O amor de seu pai e eu começou quando ainda éramos jovens, mas ía contra a tradição de nossa família, na qual todo filho primogênito era destinado a servir ao Senhor, todos deveriam aderir a vida monástica, mas essa não era a única barreira para que não ficássemos juntos. Meu pai não teve filho homem e foi o segundo filho de sua casa, portanto não ingressou na vida no mosteiro, mas o irmão mais velho de meu pai, se tornou um monge devotado e subiu de posto até atingir o grau máximo que qualquer um de nossa família. Filho, o Abade do mosteiro onde esteve é seu avô e seu pai é meu primo.
A revelação de minha mãe me atingiu bruscamente, senti a cabeça rodar enquanto engolia toda aquela informação.
- Essa é a razão pela qual não ficamos juntos, além de seu pai ser o primogênito. Nosso amor era proibido e se fôssemos descobertos, Deus sabe o que aconteceria, por isso ele partiu e fez os votos...
- Eu devo fazer os votos também? - perguntei.
- A tradição e honra de nossa família ficou manchada por causa do que eu e seu pai fizemos. Você é livre para decidir o que você quer.
Eu refleti por um tempo e respondi:
- Aqui é onde eu quero estar, mãe. Não vou a lugar algum.

Meu pai e avô permaneceram no mosteiro até o fim de suas vidas e eu nunca mais os vi.
Eu e minha mãe tivemos boas colheitas e fartura nos anos que se seguiram.
Minha amada mulher espera nosso primeiro filho, que também será livre para escolher qual caminho seguir. E assim começamos uma nova tradição, a do livre-arbítrio.

FIM

É isso pessoal, o conto finalmente acabou, depois de quase um mês de espera.
Espero que tenha valido a pena e que tenham gostado, apesar de terem me xingado por tanto suspense, haha.
Grande abraço a todos que acompanharam desde o começo, o apoio de todos vocês é muito bom, muito obrigado.

Dono da minha liberdade

| domingo, 22 de agosto de 2010
Nasci livre, sem rédeas para me controlar ou correntes para me prender no mesmo lugar. Vim ao mundo para tê-lo e não para pertencer a ele. Quero ganhar cada pedacinho de chão com meus passos curtos e ágeis. Quero saltar sem medo da queda, quero escalar sem olhar para baixo, quero sentir a adrenalina tomando conta de mim.
Não tenho pressa, não tenho plano, não tenho dono. A pressa só atrapalha a calma e o prazer de aproveitar o momento, planos não realizados me frustram, por isso deixo as coisas acontecerem naturalmente, não sigo a vida, ela que me segue e não sou de ninguém. Sigo minhas próprias regras, raramente sei onde meus passos me levarão, mas confio no meu instinto. Meu destino eu mesmo faço, vou seguindo a cada passo... se tem pedras no caminho eu aprendo a contornar.
A noite é minha amiga, mergulhado em sua escuridão eu ouso ir além dos meus limites.
Sou caçador da minha sorte e presa do meu destino. Não me prendo a afeições, nunca aprendi a lidar com isso. Nunca vi mãos altruístas se voltarem em minha direção, nunca ouvi palavras doces direcionadas a mim, talvez tenha sido isso que congelou meu sentimento e endureceu meu coração.
Eu vivo sozinho e admito que sou a minha melhor companhia. Não gosto de atrasos, embora eu não tenha nenhuma agenda ou compromisso.
Busco apenas passar pelo dia e alcançar o amanhã. Quem leva uma vida como a minha não pode esperar muita coisa do futuro. Minha má fama me precede, minha má sorte é minha maldição.
Meu nome? Eu não possuo um, sou livre até nisso, me chame como quiser, me apelide do que lhe convir, mas não me chame de seu, pois nunca serei cativo de ninguém.
Caminho por vielas escuras e por becos hostis. Vivo em cima do muro e corro por telhados à sombra da lua.
Meus olhos brilham como duas esferas de luz no breu noturno.
Não é mau agouro cruzar meu caminho, mas seja livre para acreditar no que quiser.
Nasci assim, um gato escuro como a meia-noite, vagando pelo mundo das sombras e fugindo das pessoas. Aprendi a temer o homem, pois ele acredita ser dono de tudo.
Se tenho sete vidas? Talvez nunca saberei, pois se perdi uma delas, a outra começou no mesmo segundo.
Sou tão mortal quanto você, só não me peça para abrir mão de minha liberdade, pois isso seria o mesmo que tirar a minha vida ou todas elas.

Pauta para OUAT - 58ª Edição - Música
Galera que gosta daqui e acha que o que escrevo pode virar um livro, votem no blog (quantas vezes quiserem) clicando na imagem do Blog Books. Obrigado.

A porta secreta

| sexta-feira, 20 de agosto de 2010
Atravessei o corredor, a porta do quarto estava fechada, fui torcendo a maçaneta sem fazer ruído e cruzei o portal. Do outro lado da porta me deparei com uma floresta densa e silenciosa, o capacho verde feito grama dizia "aventure-se" e eu dei o primeiro passo naquele mundo.
A porta atrás de mim se fechou silenciosamente, a dúvida ainda pairava sobre mim, como uma nuvem cinzenta atrapalhando o caminho do sol. Decidi seguir pela trilha de pedras que se estendia à minha frente e dei passos firmes rumo ao desconhecido.
Aqui e ali alguns pássaros coloridos surgiam do meio das árvores altas e de troncos grossos, cobertos por musgo. A umidade deixava o local frio e o silêncio era perturbador. Meus passos ecoavam e minhas pegadas desapareciam ao ficar para trás. Uma agitação na mata ao redor chamou minha atenção e as batidas de meu coração soavam como os tambores ao longe que passei a escutar, ritmados e incessantes. Alguma coisa se aproximava.
Deixei meu instinto me guiar e minhas pernas dispararam, corri cortando o vento e tudo se transformou em um borrão verde intenso. Assovios e pios ecoavam das copas das árvores e o céu de repente escureceu. A trilha à minha frente se apagou. Os tambores cessaram.
No terror daquele momento derradeiro eu só ouvia o som da minha respiração e do latejar de meu coração que parecia bater dentro do meu ouvido. Eu estava sem fôlego, afoito e desesperado por uma resposta ou qualquer coisa que me tirasse dali.
Lá na frente um brilho opaco dançava no ar e sem pensar duas vezes corri até ele, mas parei no meio do caminho ponderando se eu devia continuar naquela trilha desconhecida ou retornar àquela porta. Vozes espalhadas pelo ar, frias como o inverno sibilavam "venha", mas eu não arrisquei, não dessa vez. Fiz meu caminho oposto, atravessei o véu da noite e encontrei a porta. Apenas uma porta no meio de uma selva estranha. Nada antes e nada depois dela.
Girei a maçaneta com cuidado e atravessei.
Voltei para meu quarto silencioso. Eu estava deitado em minha cama, a chuva caía lá fora numa tarde fresca de primavera e um livro se encontrava em minha mãos.
Aos olhos de uma pessoa qualquer, era apenas um livro, mas para mim, não. Ele era muito mais do que isso, era uma porta secreta que me levava para diversos lugares, que me fazia viajar sem sair do lugar e viver experiências sem mover um músculo. Cada página é um passo rumo ao segredo que ele esconde.
Logo mais retorno ao próximo capítulo e abro aquela porta outra vez.


Pauta para Bloínquês

As cartas do monge sem nome - Parte 6

| quarta-feira, 18 de agosto de 2010
Hora do conto - Para entender, leia a Parte 1, Parte 2, Parte 3, Parte 4 e Parte 5

Me vi sozinho, expulso, vagando de volta pelo caminho que há cinco anos me levara até ele. Apanhei uma de suas cartas que eu levava escondida sobre o hábito.

Suzannah

Não me recordo da primeira vez que pensei em ti desde que vim para cá, nem me recordo de quantas outras vezes eu pensei, depois daquela, talvez seja porque, na verdade, você jamais saiu do meu pensamento. Finalmente tomei coragem para deixar as palavras escorrerem para o papel e um pouco do peso da minha culpa ser depositado nessa folha. Talvez você não entenda porque eu parti, mas nossa vida juntos não era para acontecer, quebramos regras ao ficarmos juntos e nosso pecado trará ao mundo essa criança que você carrega e que talvez eu nunca venha a conhecer.
Não vou negar que te amei, pois cada momento em que estive em seus braços me senti preenchido pelo calor do amor que queimava dentro do meu peito. Eu te amei, eu ainda amo e é por isso que eu fui embora. Eu parti para proteger você e nosso filho, pois certamente se nosso romance fosse descoberto seria o fim para nós...

Desdobrei outra carta, a última que meu pai escreveu:

Suzannah

Meus dias se encheram de alegria quando naquele inverno recebi nosso filho aqui, quando pude finalmente ver seu rosto depois de tanto tempo e dar-lhe o abraço que nunca dei. Ele se parece muito contigo, tem seus olhos e você o deu meu nome. Agradeço imensamente por ter me proporcionado essa paz, tirado de mim o peso da dúvida do que poderia ter acontecido a vocês. Ele me contou que vivem bem, que a colheita está cada vez mais próspera. Há algumas coisas que ainda não revelei a ele e fica a critério seu contar ou não. Meu filho se tornou um homem bom, aprendeu um pouco sobre os votos do monastério, mas talvez não entenda o verdadeiro motivo de minha vida aqui, espero que possa dá-lo algumas respostas.
Ele leva consigo várias cartas que por todos esses anos eu lhe escrevi, leva através delas meu amor e saudade, minha dor e desejo, leva meu perdão. Você é o amor da minha vida e mesmo longe eu nunca vou te esquecer.

Nathaniel

Depois de alguns dias de caminhada, cheguei ao vilarejo e encontrei minha mãe na colheita. Ela correu ao meu encontro, me abraçou, sorrindo entre lágrimas e eu a contei de todos os anos que passei no mosteiro ao lado de meu pai e a entreguei as cartas.
Ela se trancou em seu leito pelo resto do dia e leu todas as palavras que meu pai a ofereceu.
- Venha aqui, Nathaniel - ela me chamou. Caminhei até ela lentamente - Há algumas coisas que você precisa saber.

EM BREVE - PARTE 7 (FINAL)

Amor em cores

| segunda-feira, 16 de agosto de 2010
Antes dela meus quadros estavam destinados a se tornarem assento de poeira, mas ela acreditou em mim, confiou no meu trabalho e me cedeu sua galeria para que eu fizesse exposições. Assim fui me tornando conhecido e as minhas obras começaram a ganhar admiradores.
Minha inspiração geralmente aparecia junto com a noite que começava, o lusco-fusco borrado no horizonte me dava tom enquanto o pincel em meus dedos deslizava pela tela em busca de formas e cores. Naquela noite deixei meus dedos mergulharem na aquarela e pus-me a conceber a minha obra-prima.
A obra-prima de um artista é aquela que a alma cospe e o coração desenha. Comecei com simples contornos, quase um esboço do que aquilo que se tornaria, fui buscando mais cores, tons e sombras. Fui buscando a obra perfeita.
As cores sussurravam técnicas, o pincel inventava estilos, a tela sorvia a tênue névoa de inspiração e paixão que emanavam de mim, camada após camada.
Diante dos meus olhos, transmiti ao espaço em branco o que meu ser pedia, pincelei nas tonalidades exatas da batida de meu coração, colori a tela, preenchi o vazio e dei forma ao pensamento. Senti que as horas não passaram naquele meu momento de projeção, depois dos retoques e do acabamento, já de madrugada, ela me olhava, a obra me encarava como se sorrisse para seu criador.

Um dia antes da exposição, chamei a dona da galeria e a guiei a um quadro coberto por um tecido branco.
- Eu nunca fiz nada disso! - avisei ela de antemão - Mas o que estou prestes a te mostrar vai ser o destaque.
Ela olhava ansiosa para o quadro e eu o revelei. Revelei minha obra-prima.
Os olhos dela brilharam ao ver o quadro e sua boca se abriu sem palavras.
- Um compositor te escreveria a canção mais bonita, um poeta te faria versos doces, um cantor te cantaria a mais linda serenata, como eu não sou nada disso, eu apenas te pintei na minha mais bela obra.
Ela se aproximou da tela, o sorriso incontido desenhado no rosto, aquele sorriso que ninguém seria capaz de capturar em quadro nenhum e passou a mão pelos contornos suaves da pintura, vendo seu próprio retrato estampado. O contraste do real divino com a mera obra da mão de um homem.
- Está linda, eu nem sei o que dizer.
- Só diga que aceita sair comigo qualquer dia desses - respondi sorrindo e ela abaixou a cabeça corada.
- Esse foi o convite mais irrecusável que eu já recebi, não tem como dizer não.

E foi assim que tudo começou, um amor pintado na história de nossa vida, coloriu nossos dias futuros com a tinta da paixão e me trouxe inspiração para as manhãs borradas de sol.
Eu e ela, a simetria perfeita tingida em cada matiz de cor, a minha verdadeira obra de arte.
Pauta para OUAT - 57ª Edição - Livro e Música

(In)descrições

| sábado, 14 de agosto de 2010
Se eu fosse descrever o homem
descreveria como intrigante.

Se eu fosse descrever a vida
descreveria como incomparável.

Se eu fosse descrever a família
descreveria como insubstituível.

Se eu fosse descrever a amizade
descreveria como indispensável.

Se eu fosse descrever o amor
descreveria como indescritível.

Se eu fosse descrever a saudade
descreveria como intolerável.

Se eu fosse descrever a fé
descreveria como inabalável

Se eu fosse descrever o ontem
descreveria como inalterável

Se eu fosse descrever o hoje
descreveria como intransferível

Se eu fosse descrever o destino
descreveria como incerto.

Se eu fosse descrever o tempo
descreveria como incontrolável.

Se eu fosse descrever a felicidade
descreveria como intrínseca.

Se eu fosse descrever a paz
descreveria como imprescindível.

Se eu fosse descrever o fim
descreveria como imprevisível.

Galera, agradeço muito a colaboração de todos que votaram no meu texto do Concurso Cultural do Blog Livros e com muita felicidade anuncio que conquistei o 1º lugar.

As cartas do monge sem nome - Parte 5

| quinta-feira, 12 de agosto de 2010
Hora do conto - Para entender, leia a Parte 1, Parte 2, Parte 3 e Parte 4

Assim que os portões se fecharam e eu soube que jamais o veria, me esgueirei até o aposento vazio do monge expulso e procurei pela carta que ele me deixara. A encontrei dobrada debaixo do assoalho solto.

N.

Eu soube que o reconheceria facilmente quando chegasse até você e naquele inverno há cinco anos quando fui recolhido no mosteiro eu senti no mesmo instante a nossa ligação. Seus olhos te revelaram, seu semblante acalmou a minha busca. Eu entendia o risco que estava correndo ao vir até ti, mas eu precisava te conhecer, eu precisava saber quem você era. Todo o tempo que estive aqui me passando por um monge, ocultando meu verdadeiro eu e o laço que temos, nos aproximamos cada vez mais. Em cada noite que passamos juntos conversando e compartilhando histórias eu me sentia mais parte de você. Somente você conheceu meu segredo que além de tudo era seu segredo. No começo eu não compreendi seus motivos para ter partido, não entendi as leis e votos que o prendiam aqui, mas com o passar do tempo meu disfarce se transformou em uma nova vida, eu realmente passei a ser um monge feito você. Ter te encontrado somente agora, depois de tantos anos foi receoso, ponderei por um tempo a hipótese de ser rejeitado ou mal recebido por ti e me deparei com seus braços abertos para me receber calorosamente. Eu queria passar mais tempo com você, te conhecer melhor, aprender mais, mas sei que toda essa mentira deve acabar, sei que não nos veremos outra vez. Levo algumas de suas cartas escondidas comigo para entregá-la, vou fazê-la entender seu lado e suas escolhas.
Saiba que esses anos ao seu lado, foram os melhores da minha vida, pai.

N.

EM BREVE - PARTE 6

As cartas do monge sem nome - Parte 4

| terça-feira, 10 de agosto de 2010
Hora do conto - Para entender, leia a Parte 1, Parte 2 e Parte 3

S.

Tenho a sensação de ser um vazio, sem teu amor que me preenche. Sinto que nada faz sentindo, que os dias apenas escorrem por entre meus dedos como água e por mais que eu tente segurar não consigo e esses dias ocos apertam meu peito, como se algo pesado estivesse sobre mim, me sufocando em meu próprio ser incompleto. As noites frias e estreladas me remetem àquele tempo em que éramos um do outro, onde eu cabia em seu abraço e você se encaixava no meu beijo e nossos corpos se entrelaçavam feito tranças. Aquele tempo me deixou marcas por debaixo da pele, me deixou cicatrizes invisíveis e ânsia de rasgar minhas barreiras e te encontrar de novo. Essa saudade me ensandece, me corrói por dentro, carcomendo cada párticula do meu corpo, se espalhando por cada músculo e atingindo meu coração doído. Meu corpo sozinho não é nada sem o seu, minha vontade não se sacia somente com recordações, meus desejos impuros me queimam a alma.
Minha alma está corrompida pela lascívia, a cada segundo a vejo arder nas brasas da perdição. Você é meu pecado mais mortal, mas é um pecado que eu não consigo me abster. E essa abstinência perturbadora é o pior sacrifício que já me foi imposto.

N.

O monge ouviu as palavras do Abade e as absorvia. Ele dissera:
- Não há mais espaço para sua presença nesse monastério, você manchou a essência de nosso templo e esse mal deve ser expurgado - e sem dizer mais palavra, ele se levantou e ordenou que retirassem o monge dali.

Eu vi quando ele foi carregado para fora, levando nada além do hábito surrado que vestia. Acompanhei até o deixarem nos portões de entrada, ele me lançou um olhar que só eu pude entender naquele momento, seu lábio franziu em um leve sorriso.
Os portões se fecharam e eu vi aquele monge sendo expulso por causa das cartas que eu escrevi.

EM BREVE - PARTE 5

À moda antiga

| domingo, 8 de agosto de 2010
♫ (...) Everything you are is everything to me
These are the moments, I know heaven must exist
These are the moments, I know all I need is this
I have all I've waited for
And I could not ask for more... ♪
I could not ask for more - Edwin McCain

Meu amor é daqueles à moda antiga, eu me declaro, faço serenatas, roubo flores nos jardins por onde passo, crio versos, rabisco o nome dela junto ao meu e um coração nas folhas do caderno, olho para as estrelas pensando nela, suspiro ao ouvir sua voz, meus olhos brilham ao vê-la chegar, meu corpo treme com sua aproximação. Podem me chamar de antiquado, mas eu gosto desse jeito, gosto de pintar um sorriso no rosto dela quando faço poemas com seu nome, o riso dela faz cócegas na minha alma.
A cada dia que passa eu sinto como se me perdesse de mim para me encontrar nela. Numa noite de brisa leve, cheirando a paixão e colorida de beijos eu a disse:
- Te dou o meu coração... queria dar o mundo. Queria dar a lua, os planetas, o sol... queria roubar a galáxia, embrulhar para presente e te entregar.
- Se eu tenho seu coração, eu não preciso de nada além disso - ela me respondeu.
- Você vai cuidar bem dele?
- Até mesmo quando você arranhar o meu que está nas suas mãos.
Ela sempre soube responder às minhas declarações com essas frases que me tiram o ar e me fazem flutuar. Enquanto meu coração está seguro nas mãos dela, o dela pulsa aqui comigo e a cada segundo bombeio mais amor para ele.
Me mantenho sempre a meu modo de agir, sentir e demonstrar.
Assim que completamos três anos juntos, eu percebi que o passado que existiu antes dela se tornou desconhecido e sem valor e quando olho para frente, ela está comigo.
Foi em uma viagem de trem que fizemos, enquanto o sol de fim de tarde tentava atravessar o vidro e aquecer cada passageiro antes de dizer adeus, que eu me ajoelhei ao lado dela, abri a caixinha com o anel e perguntei:
- Você aceita ser oficialmente a Sra. Dona do meu coração?
Ela sorriu a medida que seus olhos marejaram e respondeu:
- Se existe outra resposta além de "sim" eu não conheço.
Garanto que se ela não tivesse cuidando muito bem do meu coração, ele, literalmente, explodiria de felicidade e jorraria pingos de emoção no momento que coloquei o anel em seu dedo.
O que mais eu posso querer? Eu tenho mais do que pedi, mais do que esperei a vida toda.
Agora as estrelas sorriem no céu, irradiando seu brilho sobre nós.
Meu amor é daqueles à moda antiga, sabe? Se é piegas, bom, nada poderia ser melhor que isso.

Pauta para OUAT - 56ª Edição - Música
Um feliz dia dos Pais para todos os pais.
Pessoal, prometo que o próximo texto será a Parte 4 do conto.

E a tempestade levou

| sexta-feira, 6 de agosto de 2010
Enquanto eu cortava os pingos da chuva gelada que caía, eu corria contra o tempo seguindo na direção oposta da multidão que bloqueava a passagem. Entre cotoveladas e empurrões abri caminho, observando as nuvens cinzentas no horizonte se contraindo furiosas e despejando mais água.
- Estou quase lá - eu repetia para mim mesma, cuspindo as palavras entre minha respiração ofegante.
Assim que cheguei no porto, o imenso navio soltava baforadas de fumaça negra pelas chaminés enormes. A fila de embarque se estendia além do alcance dos olhos, todos tentando embarcar o mais rápido para se abrigarem da tempestade que se aproximava iminente.
Os relâmpagos ribombavam como tambores dos deuses, cortando o dia escuro com um clarão repentino e veloz.
Parei ao lado do navio, encarei cada rosto indiferente, procurando por ele.

ANTES

- Minha família é contra nosso amor, meus pais não vão permitir que fiquemos juntos - ele me disse certa vez.
- Nós podemos fugir, você não precisa deles - eu respondi aflita, sentindo cada pulsar do meu peito aumentar de velocidade só de pensar em perdê-lo.
- Fugir para onde?
Fizemos um plano de fuga, quão típico é isso? O garoto rico fugindo com a garota pobre. A família dele, banhada em ostentação certamente escolhera uma moça de origem influente para casá-lo, mas seu coração bateu mais forte pela plebéia que servia na festa de luxo.
Nosso plano consistia em embarcarmos em um navio, irmos para o outro continente e começar uma vida nova. Ele não levaria nada, nos tornaríamos novas pessoas.
Compramos os bilhetes de embarque, mas um dia antes de nossa fuga, os pais dele o levaram. O mandaram para um colégio interno.
Recebi seu recado através da cozinheira da casa:
"O navio está me levando para longe"

AGORA

Não entendi o bilhete naquele momento, mas depois percebi que era uma esperança a qual eu podia me agarrar, ele daria um jeito de me encontrar ali, mas o tempo passava, a chuva aumentava e a fila diminuia.
Enfim todos os passageiros subiram a bordo, a rampa de acesso foi içada e o navio partiu rumo a escuridão da tempestade.
Minhas lágrimas se misturaram aos pingos que caíam, despenquei no chão com o peso da derrota sobre mim, vi o bilhete dele sendo levado pela água suja que escorria.
Deixei o porto e lá ficou meu coração despedaçado.
Dois dias depois eu recebo um convite para ir até a casa dele, me senti animada, mas receosa, afinal os pais dele não me aceitavam.
Cheguei lá e a notícia que recebi me golpeou de uma forma inesperada que senti meu corpo se partindo em dois.
Meu amado havia sucumbido a uma doença e falecera na noite anterior. O bilhete não era de esperança, ele estava me avisando que partiria em uma viagem egoísta e não me levaria junto. As lágrimas queimaram meus olhos, mas eu já não tinha coração, aquele que ficou no porto na noite da tempestade, nesse momento havia parado de bater, pois perdera sua razão de viver.

Pauta para Bloínquês

(Re)escrevendo-me

| quinta-feira, 5 de agosto de 2010
A vida da gente é feito um livro, cada dia é uma página, cada acontecimento é um capítulo, cada pessoa é um personagem. Não começamos a escrever esse livro, nos pegamos no meio dele e quando menos percebemos é nossa letra que está no papel, são nossas decisões que contam, mas se eu pudesse voltar lá na primeira página, checar o índice e recomeçar a escrever? Como seria?
Eu olharia os capítulos que mais precisam de uma mudança e começaria por eles, apagaria os erros mais estúpidos, recolocaria algumas sentenças de outras formas, editaria algumas respostas e escolhas. Eu mudaria alguns detalhes, acrescentaria um pouco mais de sabedoria e experiência às primeiras páginas. Depois eu trabalharia nos capítulos inacabados, é, naqueles que por algum descuido ou negligência ficaram sem um final, então eu estudaria todo ele e colocaria os devidos pontos finais. Em alguns capítulos eu somente alteraria algumas vírgulas, para dar um novo sentido às coisas, retiraria umas interrogações aqui, colocaria outras ali, exclamaria menos, talvez uns travessões a mais não seriam tão mal, pois às vezes a gente olha para o que passou e pensa "eu deveria ter dito isso e não disse" e muitas vezes a gente perde as coisas por falar de menos e omitir demais, aí está outra coisa que eu mudaria, deletaria algumas omissões, não que meu livro precise ser escancarado para todo mundo, mas tem gente que precisa ler.
Algumas mudanças seriam cruciais, eu posso até alterar o curso de algumas coisas, escolher a direita ao invés da esquerda, dizer sim ao invés de não, mas sempre tomando cuidado para não excluir nenhum personagem, sempre atento ao caminho que me levou a cada um em primeiro lugar.
Sabe aquelas mentirinhas inúteis? Eu apagaria algumas delas também. Eu acrescentaria uma boa dose de ânimo e força de vontade em cada página e também muito risos. Ah, eu reverteria algumas más escolhas, arrependimentos e tiraria todas as dúvidas e incertezas. Arriscaria mais também.
Em alguns capítulos eu apenas daria uma boa revisada, só para ver se deixei algo para trás.
É isso, pronto. Mas, espera aí? De quem é essa vida que eu reescrevi? De quem é esse livro que aparentemente não mudou muito, mas é um livro novo? Não é isso que eu quero.
Esquece todas essas alterações. Quer saber, se eu tivesse o poder de reescrever minha história, eu não faria, pois cada detalhe, cada página virada, cada experiência boa ou ruim, me trouxeram até aqui e me transformaram em quem eu sou. Pode ser que eu tenha perdido muita coisa e se perdi é porque não é para ser minha mesmo. Pode ser que eu tenha cometido muitos erros e deslizes, mas aprendi com eles. Pode ser que duvidei demais, falei de menos, esperei as coisas acontecerem ao invés de tomar atitude, mas eu vivi. E a vida que levei foi boa, apesar de tudo.
Esse livro é meu, decido não reescrever nada.
Vou me empenhar para que as páginas e capítulos seguintes sejam cada vez melhores para que eu possa chegar no final e realmente dizer "era esse o livro que eu sempre quis escrever".

Pauta para Sílaba Tônica

Pessoal que tem acompanhado o conto do monge, não me xinguem, mas essa semana eu estou participando de alguns projetos e a Parte 4 fica para o começo da semana que vem, espero que gostem dos dois próximos textos. Grande abraço.

Selo e mais selo

|

Ganhei esse selo da Letícia do Algodão Doce, agradeço muito pelo carinho de sempre.
Regra:
Falar 10 coisas sobre mim:

1 - Sou viciado em Coca-Cola
2 - Gosto de Doritos com sorvete de morango (experimentem, é bom, haha)
3 - Já tive crises de riso dentro da sala de aula
4 - Sagitariano
5 - Tenho 5 cachorros
6 - Às vezes, prefiro ficar em casa ao invés de sair
7 - Sedentário, haha
8 - Sincero
9 - Divertido
10 - Adoro deixar os outros com curiosidade, mas disso vocês já sabem, hehe

Indico para:

Selo AADUS


Esse é meu selo oficial, vou indicar alguns blogs que talvez não o tenham recebido:
Regrinhas:
- Postar o selo no seu blog;
- Dizer 2 coisas que fazem você sorrir;
- Dizer 1 coisa que faz você sorrir sobre o blog do qual recebeu o selo;
- Indicar o selo para 5 a 20 blogs e avisá-los.

Indico:
Para ver todos os selos clique aqui.

As cartas do monge sem nome - Parte 3

| terça-feira, 3 de agosto de 2010
Hora do conto - Para entender, leia a Parte 1 e Parte 2

S.

A cada dia minha vontade de te possuir aumenta mais, a medida que meu lado são enlouquece aos poucos. Nunca pensei que querer não te querer me doesse tanto, nunca imaginei que o desejo carnal poderia ser insaciável. Eu anseio o não te amar, anseio pelo dia em que meu coração vai bater aliviado e mais leve por não te carregar mais, anseio pela calma em meu desejo avassalador de te ter, tocar e sentir. Meus pensamentos me encolhem diante de minha escolha, me conto mentiras mal elaborados e finjo acreditar nelas. Me corrompo em devaneios sóbrios de você.
Eu fiz os votos. Os fiz por escolha e o arrependimento me fere como adagas em brasa. Eu dei as costas a quem eu era para tornar quem eu sou, eu decidi recomeçar e afundar o passado no poço mais profundo que existia, mas a escuridão me enganou e esse poço se mostrou ser raso e rapidamente o passado transbordou.
Não quero seu perdão, não peço compreensão e nem aceitação. Eu quero apenas seguir adiante e apagar tudo o que construímos, mas o que fizemos não pode ser desfeito. Plantamos a semente de um fruto que agora vive entre nós.
Entenda que meu mundo só é completo com você, mas você é minha ruína.

N.

O Abade esperou pacientemente pela resposta do monge à sua frente.
- Meu nome não é João - ele finalmente disse e pela primeira vez em todos aqueles anos sua voz foi ouvida. O superior sacudiu a cabeça lentamente e fez um gesto para que ele continuasse, mas o irmão se calou.
- Você entende que deve dizer a verdade? Preciso ouvir tudo o que você guarda - disse o Abade.
- A verdade é um hábito sujo, senhor, que somente aquele que o vestiu deve lavar - o monge falou depois de algum tempo - O que o vai acontecer comigo?
O prelado do mosteiro analisou a resposta e ponderou por um minuto, pronunciando em seguida o que deveria acontecer com o monge.

EM BREVE - PARTE 4

Velhas lembranças

| segunda-feira, 2 de agosto de 2010
Aqui na casa de campo, as horas passam de uma maneira peculiar, nem rápidas, nem lentas. Assisto ao desenrolar da vida selvagem pela janela, vejo os pingos da chuva limparem o vidro, vejo o vento sacudir os galhos revoltos das árvores em dias calmos. Eu apenas vejo, sou um observador. E com isso vejo os dias sendo tirados de mim, um a um, a cada anoitecer. Às vezes me sento na cadeira de balanço na varanda da frente, só para sentir a natureza mais perto de mim, sinto o ar fresco noturno, digo "olá" para as estrelas que me visitam e aceno timidamente para a lua. Nas manhãs me encanto com os pássaros que fazem morada por perto, ouço a melodia suave que eles oferecem e respiro a brisa leve, enquanto vejo o sol espalhar sua luz cálida pelo mundo, secando as gotas de orvalho do verde ao redor.
Tem dias que eu começo a me lembrar da vida, dos anos que se passaram, daquilo tudo que ficou para trás e não volta mais. Lembro da minha infância onde eu colecionava de tudo, colecionei livros, músicas, objetos, mas nunca colecionei amores. Eu tive um grande amor. Acredito que na vida da gente, temos apenas um grande amor e um é o bastante para não passar por essa vida sem ter um sentido.
Eu me lembro dela, lembro do seu jeito de sorrir e me olhar, lembro das expressões e caras que fazia quando eu dizia algo engraçado, lembro de seu rosto corado quando eu lhe dizia que meu coração batia por ela. Ah, eu lembro do nosso primeiro beijo, do primeiro toque de sua mão suave... me lembro de esperar por ela no altar e vê-la caminhando de branco até mim, com aquele sorriso que iluminava minha vida. Lembro de quando dissemos "sim". Lembro dos votos que escrevi:

A partir de hoje, não sou apenas um, minha alma se une a sua sob a benção do Criador.
A partir de hoje minha vida começa de verdade, meu sonho desperta para o mundo e eu declaro ser só seu. Declaro que minha vida está em suas mãos, que meu amor está em seu poder, que você é meu mundo.
A partir de hoje, meu amor, até o fim dos tempos, eu prometo te amar.

A vida da gente é cheia de histórias, uma costurada a outra, algumas cheias de risos e outras preenchida por lágrimas. Chega um momento em que olhar para trás é tudo o que resta, sentir o sabor doce e nostálgico das lembranças e o gosto amargo da saudade.
Esqueci de muita coisa que vivi, memórias apagadas pelo tempo incontrolável, mas as dores da vida deixaram cicatrizes que nem o tempo apaga. Eu tive um grande amor, mas a perdi. A vida me presenteou com sua presença por vários anos, para depois roubá-la de mim. Naquele adeus meu coração foi enterrado junto com ela e nunca mais senti meu peito vibrar. Mas eu sei que ela me espera, onde quer que esteja e sei que um dia nos reencontraremos, sabe por quê? Porque um grande amor não é para a vida toda, é para toda a eternidade.
Eu estou sempre rodeado de pessoas nessa casa, cada um vivendo sua vida particular, longe dos assuntos alheios. Sou bem cuidado, acho que era isso que eles queriam, ver seu velho pai sendo bem tratado. O asilo não é tão horrível quanto me disseram, apesar de eu sentir muita falta dos meus filhos e netos que me visitam com pouca frequência, eu tenho dias lindos, mesmo quietinhos. Mas eu queria ter minha família por perto, pelo menos nos últimos anos de minha vida.
Sei que tenho meus defeitos, que cometi meus erros, mas quem não é assim? A família perdeu seu valor com o passar dos anos. Na minha época de juventude, almoçávamos e jantávamos à mesa todos os dias, compartilhávamos nossas histórias e nos importávamos mais. Mas o que um velho como eu pode saber, não é? Fui colocado nesse asilo com um carimbo de "inútil" na testa, já não me resta muita coisa além de olhar para trás tendo a certeza de que eu fiz minha parte.
Não vivo uma vida solitária, sei que é isso que sussurram pelos cantos, mas eu tenho meu amor comigo, onde quer que eu vá.
Um dia não vou acordar mais nesse mundo, um dia me colocarão debaixo de sete palmos e me levarão flores que nunca verei, mas nesse dia eu hei de encontrá-la e nesse dia eu finalmente vou saber o que é viver de novo.

Pauta para a Final da Gincana do Dia do Escritor do OUAT - Tema: Livre / Frase: "Tenho dias lindos, mesmo quietinhos"
 

Copyright © 2010 A arte de um sorriso