Keblinger

Keblinger

O colecionador de almas

| domingo, 11 de julho de 2010
Eu passava poucas vezes por aquela rodovia, mas todas as vezes que passei por ali, perto de um casebre abandonado no meio da estrada eu sentia um calafrio e um tremor pelo corpo. Havia a lenda de que o casebre era mal assombrado, essas casas velhas despertam a imaginação das pessoas, mas aquela tinha algo mais. Dois amigos meus insistiram para que eu os acompanhasse até lá uma noite, muito relutante, eu concordei. Menti para meus pais dizendo que dormiria na casa de uma amiga. E então fomos até a casa, uma menina e dois meninos despreparados para o que encontrariam.
Chegamos perto da casa, a lanterna que um de nós carregava parecia um vagalume franzino na imensidão total. A lua crescente brilhava sinistramente no céu, como um sorriso macabro de boas vindas. A casa de madeira parecia respirar e sussurrar. O piso rangia. A porta da entrada estava aberta, achamos estranho, pois poderia haver algum mendigo morando ali. O tremor se espalhou pelo meu corpo ao dar o primeiro passo para dentro da casa escura. Meus amigos riam de ansiedade.
A casa estava deserta, os cômodos vazios e cobertos de pó. Um cheiro forte nocauteava nosso olfato, cheiro de podridão... cheiro de morte.
O vento entrava pelo vidro quebrado da janela e os sussurros aumentavam.
Senti uma movimentação, vi um vulto cruzar meu olhar e sumir de repente.
- É melhor irmos embora - sugeri e os dois caçoaram de mim com piadas machistas.
Um grito de pavor cortou a noite e a lanterna despencou no chão.
- O quê foi isso? Onde ele foi? - perguntou um deles se aproximando de mim.
Meu coração disparou em alta velocidade e a porta da frente se fechou violentamente, com um baque surdo.
- Não tem graça - gritei para o nada, meu amigo certamente estava nos pregando uma peça.
O silêncio respondeu. E aos poucos um barulho contínuo foi surgindo, eram gotas caindo... o som de gotas abafadas pela poeira do assoalho. Peguei a lanterna e a fiz iluminar o ambiente e dessa vez meu grito ecoou pela casa.
Meu amigo que tinha desaparecido estava pendurado no lustre por um arame envolta do pescoço e o sangue pingava... escorria... a poça negra crescendo debaixo de seus pés.
- Quem fez isso? O que está acontecendo? - meu outro amigo perguntou apavorado, com lágrimas nos olhos - Temos que sair daqui, vamos. - ele agarrou meu braço.
"Ninguém vai deixar essa casa", uma voz rasgou o ar, tão fria e sibilante que parecia arranhar nossos ossos.
- Que... que... quem está aí? - meu amigo gaguejou.
- Nos deixe em paz - eu pedi entre soluços.
Outra movimentação e senti meu braço sendo puxado enquanto meu amigo gritava de desespero...
- Não me solte, não me solte, não... - sua voz foi sufocada, seu aperto se tornou mais fraco. Tive medo de apontar a lanterna até onde ele estava, mas o fiz.
Sua cabeça estava completamente virada para trás e o sangue escorria por sua boca, manchando o chão.
- Me deixe ir embora, me deixe ir - gritei assustada e me encolhi num canto do cômodo, me agachei, a visão embaçada pelas lágrimas e meu coração pulsando como nunca.
"Você vai ficar aqui para sempre", a voz afiada falou outra vez, a senti perto de meu ouvido.
Levantei apavorada e corri até a porta. Tentei a maçaneta, nada. Chutei com toda força, mas ela não cedeu.
Senti um suspiro gelado no meu pescoço e o calafrio me dominou, junto com a dor dilacerante da lâmina que penetrava minha barriga e me cortava sem piedade. Cai ajoelhada, me engasguei com o gosto de sangue e uma escuridão completa me abocanhou.

1 ano depois

- É aqui aquela casa que dizem que é assombrada, onde foram encontrados os corpos de três jovens. Nunca descobriram quem matou quem - disse um dos cinco rapazes que se aproximavam da porta.
Minha alma presa lá dentro os alertava para voltarem, mas não me viam... Quebrei um pedaço de vidro que ainda restava da janela e eles se entreolharam intrigados.
- Parece que é assombrada mesmo, vamos - disse outro abrindo a porta.
Acenei agitada, tentei tocá-los, gritei... mas meu sinal sumiu no ar, andou para longe e jamais encontrou ouvidos.
Os cinco entraram.
E a casa e seu proprietário fantasma acabavam de ganhar novos moradores... para toda a eternidade.

Lá fora, a lua crescente pintada de vermelho exibia o mesmo sorriso diabólico da noite da minha morte.

Pauta para a Gincana do Dia do Escritor do OUAT - Tema: Terror / Frase: "Meu sinal sumiu no ar, andou para longe e jamais encontrou ouvidos."

18 sorrisos compartilhados:

{ @barbarakang } at: 11 de julho de 2010 20:39 disse...

AAAAAAAAAAAAAAAH! Eu ADORO contos de terrorrrrrrrrrrrrrrrr! *----------------* Adorei adorei adorei! Senti saudades do teu blog! OIUSAHOSIUEHIUESH, voltei a postar, e vou comentar aqui com mais frequencia! Adoro muito teus posts!

Beijões! x

Anônimo at: 11 de julho de 2010 21:09 disse...

MEDO ;/

{ Janetinha } at: 11 de julho de 2010 21:38 disse...

Você escreve muito bem mesmo! Bjos.

{ Marcia Fabiana } at: 11 de julho de 2010 21:45 disse...

Adorei o conto, alias amo conto de terror
rs

Me prendeu do inicio ao fim

beijo

{ Thiara Ribeiro } at: 11 de julho de 2010 23:18 disse...

Meu medo foi aumentando na medida que eu lia o texto!
Eu qria fechar a página...mas n conseguia...adoro histórias que prendem!
Criatividade sem tamanho!
Gostei!

;*

{ Tassyane } at: 12 de julho de 2010 00:57 disse...

O conto ficou de fato muito bem escrito, tanto que chegou a ser assustador. Medo! Hehehe... Muito bom! É sempre uma novidade vir até aqui.

Beijos!

{ Flávia } at: 12 de julho de 2010 01:47 disse...

Eu morro de medo! Sou mto medrosa, senti cada sensação de pânico! kkkk!
Mas, eu adoreeeii o conto! =)

A maneira que VC conta é a maaais!!
parabéns!
beeeijos! =*

{ Naia Mello } at: 12 de julho de 2010 08:05 disse...

Gostei do conto. Me prendeu do inicio ao fim.

{ Lu.S } at: 12 de julho de 2010 10:59 disse...

Oii Noossa ficou muito bom mesmo.
Espero que ganhe. Beijos.

{ Rebeca Amaral } at: 12 de julho de 2010 14:44 disse...

MUAAAAAAAH! que tenso, Rodolpho!
cara, cê arrasou nesse texto!
NOSSA! tô arrepiada, acredita?
Parabéns, mesmo! Bato palmas de pé!
Beijo!

{ Bruna } at: 12 de julho de 2010 14:57 disse...

adorei
muito criativo :D
beijo :D

{ Henrique ANTUNES FERREIRA } at: 13 de julho de 2010 08:45 disse...

Rodolphamigo

Daqui, de Portugal, um abração e os parabéns pelo teu blogue e pelos teus textos. Escreves bué da fixe, como dizem os meus netos. Bué da = muito...

Contos de terror não são fáceis, há sempre a tentação de se cair no exagero. Tu consegues fazer este «Coleccionador de Almas» com qualidade - e está tudo dito.

Espero que gostes da Minha Travessa, onde te aguardo e onde saberás um pouco mais de mim.

Posta cumentários, com o e inscreve-te como meu (per)seguidor. É uma ORDEMMMMMMMMMMM!!!!!!!!!!!!!!! hahahaha

Abs

{ Tati } at: 13 de julho de 2010 11:47 disse...

Oi

Bom consegui finalmente ler...

.

Gostei muito.
Envolvente, cenas bastante boas e incrívelmente bem escrito.
Minha respiração oscilou...
haha

Amei...

Ei Moço, faz mais desses...
rs

Beijos

{ * Luria Corrêa , } at: 13 de julho de 2010 12:04 disse...

conseguiu me prender nas cenas em minha mente, a cada palavra a mais que eu lia. O filme passou na minha cabeça, adorei Rodolpho.

bejs :)

{ Vanessa Monique } at: 13 de julho de 2010 15:42 disse...

Tem desafio e selinhos p vc no meu blog.
Espero q goste.
:*

{ Doce Nostalgia } at: 15 de julho de 2010 01:26 disse...

RARARRARARARA!
MEDA!!!!!

{ daniella } at: 15 de julho de 2010 16:35 disse...

credo D:

{ Mandy } at: 15 de julho de 2010 21:54 disse...

Rodolpho Padovani, eu adooorei. Sério, e olha que eu não gosto muito de contor de terror.
Beijoos
Mandy

 

Copyright © 2010 A arte de um sorriso