Keblinger

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Estações da vida

| segunda-feira, 28 de junho de 2010
Amanhã começa a última semana do outono, lembro quando eu disse isso na semana passada. E eu estava agitado e ansioso por essa semana. O vislumbre das últimas folhas se desprendendo dos galhos, os pássaros cantando melodias de adeus ao bom outono e o frio se espreguiçando e alongando seus braços pelo ambiente.
Eu gosto do outono, mas eu havia depositado tanta esperança nessa semana que qualquer exceção me deixaria extremamente irritado.
A última semana de outono para mim, se resume a última semana na casa de minha mãe. Minha família problemática é assim, como os cacos de vidro que se espalharam pelo chão, cada um em um canto. Mudo de casa seguindo as estações. E o inverno estava chegando, hora de voltar para a casa de meu pai.
Os "outonos maternos", como costumo chamar, são sempre aquecidos de um sentimento acolhedor, mas dessa vez tudo havia mudado, motivo disso tudo: um novo personagem entrara em cena. Um padrasto. Odeio o som dessa palavra. É, eu havia ganhado, indesejavelmente, um padrasto. Não sei qual o problema dos caras que saem com a mãe de rapazes, ele achava que deveria ser meu amigo mais velho e além disso queria ter o direito de ser meu "segundo pai". Isso não vai acontecer.
E com a última semana do outono se aproximando, eu me veria livre dele e de suas piadas horríveis no café da manhã. Odeio gente que tenta chamar a atenção. Minha mãe ficava toda derretida com os mimos e carinhos distribuidos por ele, dá náusea só de ver.
No meu último dia lá, ele se portou de uma forma totalmente atípica, como se tivesse vestido a personalidade de outra pessoa, alguém mais maduro e centrado. Me deu um abraço estranho depois de minha mãe e desejou um boa viagem de volta. Ele não estava agindo com um amigo mais velho. Não sei porque, mas isso me pegou de surpresa.
Enfim, havia começado o "inverno paterno", na primeira semana, por sinal angustiante, meu pai estava totalmente distraído e inquieto.
Sabe quando as pessoas têm algo para dizer, mas não sabem como? Numa noite fria, envolto nas cobertas e saboreando um chocolate quente, meu pai entra em meu quarto meio escuro e se senta ao meu lado na cama, me olha de um jeito diferente e diz:
- Preciso te contar uma coisa - ele exibia um olhar triste - Eu não sou seu pai.
Aquilo que me atingiu como um soco no estômago, perdi o ar e a ação.
- Eu casei com sua mãe quando ela já estava grávida de você, seu verdadeiro pai está com ela agora... - eu não conseguia acreditar naquilo.
- Onde ele esteve todo esse tempo? Por que esperou 17 anos para me contar isso?
- Eles eram jovens na época e a família dele o levou para longe, perderam contato durante todos esse anos e só nos últimos meses sua mãe e ele se encontraram.
- E por que é você quem está me dizendo isso e não eles? - perguntei irritado e ainda chocado.
- Porque eu estou indo embora e você vai voltar para lá...
- Não, você é meu pai, você sempre foi - senti as lágrimas queimarem meus olhos.
- E eu sempre serei, meu filho, mas agora você precisa voltar e ter uma família de verdade - ele disse e passou a mão em meus cabelos.

Nossa despedida foi triste e eu senti que talvez não fosse voltar a vê-lo, mas ele estava feliz por mim.
Retornei a casa de minha mãe e meu... pai. Ainda é difícil dizer essa palavra a um rosto novo, mas agora entendo o esforço dele para me cativar durante o tempo que passei lá, ele queria compensar o tempo perdido. Agora vivo no inverno familiar, não mais apenas paterno e estou aprendendo a viver em uma família, mas acredito que vai dar tudo certo.
Meu "outro" pai me mandou notícias na época de um "verão paterno", ele se casou de novo e em breve terá seu próprio filho para todas as estações.
O tempo uniu as peças do quebra-cabeça da vida e essas peças jamais ficarão soltas outra vez.

Pauta para a 50ª Edição do OUAT

19 sorrisos compartilhados:

{ - maria elis } at: 28 de junho de 2010 10:23 disse...

ouvi dizer que pai é quem cria, então ... '-'

o importante é ter e viver com a família (:

beijas :*

{ Brunno Lopez } at: 28 de junho de 2010 12:34 disse...

Que texto impactante.
O inverno de todos nós, na verdade, nunca termina.

Obrigado pela visita e pelo selo.
Prometo que logo menos o coloco no blog.

Abraços.

{ Lury Sampaio } at: 28 de junho de 2010 13:15 disse...

Eras impresionante a reviravolta na história revelando a verdadeira identidade daquele padrasto chato!
A vida tem dessas coisas né... como dissem Deus escreve certo por linhas tortas, até tudo chegar a um final feliz.
Lindo conto :)

{ Flávia } at: 28 de junho de 2010 14:13 disse...

Olhaa...
Mais um de seus contos interessantes.
Eu continuo admirando sua criatividade q não tem fiim. Huhauaha... Ainda bem né. Não quero q tenha fim! =)

Ficou mto boa a história... Adoro textos que me prendem a atenção até o final, q me fazem refletir sobre mtas coisas e aqui, a importância de uma família, sempre.

Beijos xuxuu =P haha

{ Bruna } at: 28 de junho de 2010 14:13 disse...

acho maravilhoso o outono *-*
Bela semana
beeijo

{ Metamorfoses } at: 28 de junho de 2010 15:03 disse...

Moço dos belos posts!!rs
Parabéns!!!

{ Grafite } at: 28 de junho de 2010 15:18 disse...

Muito lindo e sentimental...
adorei!

beiijo,
*.*

{ Tati } at: 28 de junho de 2010 17:46 disse...

Muito bem escrito Moço. Gostei muito de tudo.

Beijos e até mais...

{ Rebeca Rocha } at: 28 de junho de 2010 18:06 disse...

Awesome!

{ Jaci Macedo } at: 28 de junho de 2010 19:57 disse...

Adorei.
Bastante bonito e profundo... diria até que melancólico, um pouco.

beijos (:

{ Deise Lima } at: 28 de junho de 2010 21:57 disse...

AHHhhhh! mais uma vez saí do meu mundo e entrei na história do seu post, coloquei até o "som do momento para acompanhar" foi muito contagiante o desenrolar da história e no fim um suave sorriso invadiu no rosto! adoro vir aki e conseguir isso
=*

{ Milla } at: 28 de junho de 2010 22:43 disse...

Adorei! Consegui ver toda a cena como se estivesse lá o tempo todo, e adorei a reviravolta final do texto :)

beijos

{ Thiara Ribeiro } at: 28 de junho de 2010 23:25 disse...

Comovente e lindo, como tudo que vc escreve!

;**

{ Cris Souza } at: 29 de junho de 2010 00:41 disse...

Eu não engulo essa do padrasto, mas que bom que ele era o pai do garoto. mesmo assim eu não acredito que teria sido tão maleável se fosse comigo.

{ Amanda Lisbôa } at: 29 de junho de 2010 00:57 disse...

"O tempo uniu as peças do quebra-cabeça da vida e essas peças jamais ficarão soltas outra vez."

Só pra não mudar o comentário... "eu choro até em filme de comédia" rsrsrsrsrs....

mto lindo!

{ Rebeca Amaral } at: 29 de junho de 2010 10:51 disse...

UAU! Muita bom essa relação com as estações do ano. Revelações surpreendentes...

Enfim, mas eu prefiro acreditar que somos a estação que quisermos ser.

Eu, pelo menos, sempre tento viver em constante primavera, ou até mesmo outono. Inverno e verão, sendo extremos, não me atraem.

Ótimo conto!

Beijo grande.

{ Felipe } at: 29 de junho de 2010 17:48 disse...

Realmente legal esse conto. Tem um pouco da minha vida nele.
Comovente e especial. Quem dera se todas as pessoas tivessem uma família ou até mesmo pais postiços para os amarem.

Abs.

{ Gabriela Furtado } at: 29 de junho de 2010 19:15 disse...

Desculpe pela demora em responder os comentários, mas só agora tive tempo!
Ah, bem sei como é essa coisa de padrasto!
Adorei o conto, final supreendete é sempre bom :))
Beeijo:*

{ Estefani } at: 30 de junho de 2010 16:06 disse...

Hummm!!! Gostei muito.

O bom é saber que o outono sempre voltará.

Beijocas lindinho! ^^

 

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