Keblinger

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A caçada

| segunda-feira, 7 de junho de 2010
Século XV

A peste se propagava em nosso vilarejo com uma rapidez assustadora. Homens, mulheres e crianças sucumbiam cada vez mais. A resposta a isso estava clara, o que nos deixava ainda mais assombrados, isso era bruxaria. Com o início da caça às bruxas declarado, muitas dessas mulheres demoníacas buscavam refúgio em pequenas vilas onde pudessem passar despercebidas, mas não para mim. Eu possuia o Malleus Maleficarum, que ensinava como reconhecer uma aberração dessas. Eu venho observando as mulheres de comportamentos estranhos, saio a noite a procura de belas jovens suspeitas. Jovens, sim, essas filhas do diabo se escondem atrás de belos rostos para enganar a população.
Enquanto caminho sob a luz intensa da lua cheia, procuro por indícios e rastros. Um gato preto cruza meu caminho, sinal que estou na trilha certa. Um vulto encapuzado se embrenha na floresta escura. Era ela. A bruxa da nossa vila. Eu a sigo com cautela, atento onde eu piso para não denunciar minha presença. Um uivo corta a noite como uma faca afiada. A floresta se torna densa e uma névoa começa a se formar. O vulto está perto, eu posso sentir. Num movimento rápido eu a alcanço atrás de uma árvore e arranco seu capuz.
- Papai - ela disse com aquela voz que tanto conheço, ofegante pelo susto.
- Não, você não... - me esgasguei nas próprias palavras.
- Eu posso explicar - ela disse.
- Calada, sua amante do mal - eu lhe dei uma bofetada. Elas possuem o poder de persuasão que levaria homens despreparados a se matarem - Não acredito que acolhi uma serva das trevas por todo esse tempo... - ela fez menção de falar, mas a fiz parar com outro tapa.
O que eu sentia era ódio e repulsa. Pensar que o eu poderia ter dado o fim a todo o pânico que o vilarejo sofria, me dava vontade de matá-la com minhas próprias mãos. Aquela a quem chamei de filha, era uma pecadora.
A deixei amarrada junto aos cães durante a noite e logo pela manhã a levei à Corte e aos Inquisidores. A sentença como o esperado, era a queima na fogueira.
A prenderam em um calabouço naquele dia, com uma mordaça que a empedia de destilar suas mentiras e blasfêmias. No dia seguinte uma multidão se reuniu em praça pública para assistir a morte da bruxa. Da minha filha. Minha esposa, que descance em paz, foi poupada de ver a única filha se transformar em um monstro.
- Essa criatura maligna foi encontrada entre as árvores e é acusada de heresia, feitiçaria e propagação da peste - disse um dos Inquisidores - Que Deus tenha piedade da sua alma - e assim que disse isso acenderam a fogueira na qual ela estava presa. Seus gritos foram abafados pela mordaça. Ela chorava lágrimas de veneno.
Um rapaz veio correndo desesperadamente, passando pelo meio do povo e gritou:
- Havia uma garota na floresta, ela foi vítima da bruxa, mas está viva. Ela estava amarrada em uma árvore. Ela disse que a bruxa era uma velha cega que era guiada por um corvo - a multidão se calou e só o crepitar do fogo podia ser ouvido.
No silêncio mortal, todos os detalhes de repente se encaixaram, numa explosão de intuição.
Minha filha era inocente. Ela estava tentando salvar a garota.
Corri na direção da fogueira, mas já era tarde demais. A minha filhinha já se fora. Meus olhos ardentes derramaram lágrimas de remorso, dor e frustração. Naquele momento, diante do corpo da minha menina, jurei encontrar a velha feiticeira e dar um fim a ela.

Pauta para a 47ª Edição do OUAT

Obs: O Malleus Maleficarum (Martelo das Bruxas) é um manual de diagnóstico para bruxas, escrito por dois inquisidores dominicanos em 1487, divido em 3 partes. A primeira parte ajuda os juízes a reconhecer as bruxas e seus artificíos, a segunda expõe os malefícios detalhadamente e a terceira dita as formalidades na condenação das bruxas. (é, eu pesquisei isso para escrever o conto)
Obs²: Muito provavelmente esse é o meu conto mais "diferente" e sombrio, mas espero que tenham gostado.

14 sorrisos compartilhados:

{ Letícia ♥' } at: 7 de junho de 2010 01:21 disse...

Um tanto sombrio msmo..
mas bem legal..

beeijO pra vc
:D

{ Flávia } at: 7 de junho de 2010 02:46 disse...

Bem diferente esse seu texto mesmo hein?
Como sempre vc causou surpresa e admiração... Vc fugiu de tudo que já escreveeu!
Gostei de história, mesmo sendo um tanto sombria! haha!

Beeijos S2!

{ Grafite } at: 7 de junho de 2010 08:06 disse...

Palavras diferentes mas muito interessante. Me prendeu do início ao fim...
adorei!

beiijo

{ NayaraCabral } at: 7 de junho de 2010 11:09 disse...

Adorei seu Blog!
muito lindo! adorei seu fundo também. como fez?
estou te seguindo.. visita o meu também
;*

{ Gabriela F. } at: 7 de junho de 2010 15:14 disse...

Ah, eu gostei! Gosto de palavras que me fazem imaginar toda a situação.
Beijos

{ Milla } at: 7 de junho de 2010 15:27 disse...

Adorei! Sempre gosto desses contos mais sombrios. Tão bom como os demais que você escreveu :)

beijos

{ Ariane s.s } at: 7 de junho de 2010 15:46 disse...

Amei , perfeito , estarei aqui para ler mais posts.
Fiquei com dó da menina agora !
Você tinha que mat-lá , brincadeira.
Beijos ;*

{ Vanessa Monique } at: 7 de junho de 2010 17:02 disse...

Acredite! I lovely!
Sou fascinada por contos sombrios.Me senti no século XV.

Essa semana é a Semana do Meio Ambiente no meu blog.Venha dar uma lida na Programação Verde.
Te espero lá!
www.fluem.blogspot.com

:*

{ Jaci Macedo } at: 7 de junho de 2010 19:23 disse...

Gostei (: uma coisa diferente da que você costuma escrever, mas eu gostei bastante. Me prendeu durante a história toda. Beijos.

{ Gessy } at: 7 de junho de 2010 22:48 disse...

É bem sombrio mesmo. Mas é bom.
Prende a atenção do leitor...

Beijos.

{ Tati } at: 7 de junho de 2010 22:50 disse...

'como vc cosegue ser tão bom?'

Amei.

Grande Beijo

{ Mandy } at: 7 de junho de 2010 23:22 disse...

Como não iria gostar, né?! Ta muito legal. E confesso que terminei de ler com a boca aberta. Não imaginava que a menina era inocente. =/
Enfim, ficou muito bom mesmo. Parabéns e espero que você ganhe. ;)
Beijoos
Mandy

{ Stella Rodrigues } at: 8 de junho de 2010 12:51 disse...

EI, não to tendo muito tempo pra ler os posts, mas lerei amanha, e comentarei como se deve gosto de ler com calma bjs

{ Amanda Lisbôa } at: 8 de junho de 2010 23:29 disse...

eh rodii... vc me surpreende!!!
^^
ainda bem que eu naum dessas que chora até em filme de comédiaa... rsrsrsrsrsrsrsrsrsrs

 

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