Keblinger

Keblinger

Contagem regressiva - Mês 4

| terça-feira, 29 de junho de 2010
Hora do conto - Se você não leu, leia antes o Mês 1, Mês 2 e Mês 3

O que é isso que começa a me arranhar por dentro? Adivinhe só, mais um companheiro indesejado chegando para me fazer companhia. É o medo, mascarado de desespero. Por que tudo isso simplesmente não vai embora? Me deixem em paz. Me deixem viver.
Eu só queria mais tempo para ajeitar tudo, para terminar os planos inacabados, para sorrir os últimos sorrisos, para sentir mais verdadeiramente cada beijo e abraço, para entender que o que importa de verdade são as coisas mais simples. Eu não me atiraria em aventuras e nem começaria a fazer tudo o que eu sempre quis. Eu só queria estar perto de quem amo e de que me ama.
A adrenalina de um bungee-jumping que nunca experimentei seria trocada por tardes de sol no parque. A viagem à França, que nunca visitei, se tornaria passeios pelas ruas tranquilas da cidade. Os amigos que nunca fiz serão os velhos que estão sempre por perto.
Me deixe viver. A quem eu peço isso? A Deus? Será que ele vai me ouvir? Senhor, se estiver aí, em algum lugar, olhe por mim, não me leve agora. Eu só quero viver e só agora percebo isso, que o que mais quero nesse mundo é viver. E enquanto eu peço, oro, rogo, imploro, as lágrimas me vêm sem que eu as convide a sair.
Quando obterei resposta ao meu pedido? O amanhã para mim se tornou uma incógnita.
A cada dia que passa é como um passo da morte em minha direção, esticando seus dedos afiados para me alcançar, quase sinto seu hálito gelado em minha nuca. Eu tento desviar de seu olhar, tento me refugiar na luz que ela não vê.
Meu Deus, seria ironia fazer um último pedido e sei que já estou sendo repetitivo, mas, por favor, me deixe ficar. Me conceda mais algum tempo.
Tenho conversado muito com Deus ultimamente e isso me faz pensar que nunca fiz isso antes e me sinto culpado por procurá-lo apenas nesse momento de aflição, mas não há mais a quem recorrer. Peço perdão por ter sido assim, por ter conseguido enxergar sua luz somente quando essa escuridão total me envolveu e eu creio que Ele me compreende.
O amanhã a Ele pertence e passei a confiar n'Ele como nunca fiz.

EM BREVE - MÊS 5

_____________

Playlist atualizada

Vale a pena um selo novo

|

Eu acho que a Stella Rodrigues do Reflexo Exato tá querendo me mimar, haha... ganhei mais esse selinho dela, fiquei super honrado porque ela o dedicou só para mim (ah, eu tive que me achar por isso, rs), muito obrigado mais uma vez.

Regras:
Divulgar o site de origem do selinho: Resolvemos casar
Dizer quem te ofereceu o selinho: Já disse ali em cima ;P
Listar 5 coisas que valeram a pena na sua vida (fica difícil escolher só 5, mas aí vão elas):

1 - Ter me habituado a ler, porque sem a leitura eu não poderia ter me dedicado a escrever, o que nos leva ao número 2
2 - Ter criado o blog e participado do primeiro projeto, o qual me abriu portas para escrever contos e me levou a conhecer vários blogs ótimos e pessoas bacanas
3 - Ser uma pessoa sincera e divertida (e, às vezes, até meio bobo), pois assim atraí as melhores pessoas e amigos para a minha vida
4 - Ter entrado para o curso de Tradutor de Inglês, onde pude fazer amigos maravilhosos e viver momentos felizes, engraçados e até tensos, rs
5 - E valeu a pena ter chegado até aqui, apesar dos erros, tombos e afins, tudo me ajudou a ser quem sou hoje, alguém que não é a prova de falhas, mas que sempre tenta dar o melhor de si e fazer as pessoas que estão ao meu redor mais felizes.

Ofereço o selo aos seguintes blogs:


Sempre fico feliz com esses selinhos que me mostram que as pessoas gostam daqui, além dos comentários, é claro, por isso sempre indico outros blogs para demonstrar meu reconhecimento também. Espero que gostem, um muito obrigado a todos que estão por aqui, pois vocês fazem o "A arte de um sorriso" valer a pena.
Grande abraço.

Para ver todos os selos clique aqui.

Estações da vida

| segunda-feira, 28 de junho de 2010
Amanhã começa a última semana do outono, lembro quando eu disse isso na semana passada. E eu estava agitado e ansioso por essa semana. O vislumbre das últimas folhas se desprendendo dos galhos, os pássaros cantando melodias de adeus ao bom outono e o frio se espreguiçando e alongando seus braços pelo ambiente.
Eu gosto do outono, mas eu havia depositado tanta esperança nessa semana que qualquer exceção me deixaria extremamente irritado.
A última semana de outono para mim, se resume a última semana na casa de minha mãe. Minha família problemática é assim, como os cacos de vidro que se espalharam pelo chão, cada um em um canto. Mudo de casa seguindo as estações. E o inverno estava chegando, hora de voltar para a casa de meu pai.
Os "outonos maternos", como costumo chamar, são sempre aquecidos de um sentimento acolhedor, mas dessa vez tudo havia mudado, motivo disso tudo: um novo personagem entrara em cena. Um padrasto. Odeio o som dessa palavra. É, eu havia ganhado, indesejavelmente, um padrasto. Não sei qual o problema dos caras que saem com a mãe de rapazes, ele achava que deveria ser meu amigo mais velho e além disso queria ter o direito de ser meu "segundo pai". Isso não vai acontecer.
E com a última semana do outono se aproximando, eu me veria livre dele e de suas piadas horríveis no café da manhã. Odeio gente que tenta chamar a atenção. Minha mãe ficava toda derretida com os mimos e carinhos distribuidos por ele, dá náusea só de ver.
No meu último dia lá, ele se portou de uma forma totalmente atípica, como se tivesse vestido a personalidade de outra pessoa, alguém mais maduro e centrado. Me deu um abraço estranho depois de minha mãe e desejou um boa viagem de volta. Ele não estava agindo com um amigo mais velho. Não sei porque, mas isso me pegou de surpresa.
Enfim, havia começado o "inverno paterno", na primeira semana, por sinal angustiante, meu pai estava totalmente distraído e inquieto.
Sabe quando as pessoas têm algo para dizer, mas não sabem como? Numa noite fria, envolto nas cobertas e saboreando um chocolate quente, meu pai entra em meu quarto meio escuro e se senta ao meu lado na cama, me olha de um jeito diferente e diz:
- Preciso te contar uma coisa - ele exibia um olhar triste - Eu não sou seu pai.
Aquilo que me atingiu como um soco no estômago, perdi o ar e a ação.
- Eu casei com sua mãe quando ela já estava grávida de você, seu verdadeiro pai está com ela agora... - eu não conseguia acreditar naquilo.
- Onde ele esteve todo esse tempo? Por que esperou 17 anos para me contar isso?
- Eles eram jovens na época e a família dele o levou para longe, perderam contato durante todos esse anos e só nos últimos meses sua mãe e ele se encontraram.
- E por que é você quem está me dizendo isso e não eles? - perguntei irritado e ainda chocado.
- Porque eu estou indo embora e você vai voltar para lá...
- Não, você é meu pai, você sempre foi - senti as lágrimas queimarem meus olhos.
- E eu sempre serei, meu filho, mas agora você precisa voltar e ter uma família de verdade - ele disse e passou a mão em meus cabelos.

Nossa despedida foi triste e eu senti que talvez não fosse voltar a vê-lo, mas ele estava feliz por mim.
Retornei a casa de minha mãe e meu... pai. Ainda é difícil dizer essa palavra a um rosto novo, mas agora entendo o esforço dele para me cativar durante o tempo que passei lá, ele queria compensar o tempo perdido. Agora vivo no inverno familiar, não mais apenas paterno e estou aprendendo a viver em uma família, mas acredito que vai dar tudo certo.
Meu "outro" pai me mandou notícias na época de um "verão paterno", ele se casou de novo e em breve terá seu próprio filho para todas as estações.
O tempo uniu as peças do quebra-cabeça da vida e essas peças jamais ficarão soltas outra vez.

Pauta para a 50ª Edição do OUAT

Contagem regressiva - Mês 3

| domingo, 27 de junho de 2010
Hora do conto - Se você não leu, leia o Mês 1 e o Mês 2

É incrível como estar perto do fim nos remete de volta ao início. Tenho pensado muito sobre minha infância e adolescência, revendo meu passado através da névoa fina de pensamentos que passam como cenas de um filme antigo. Começo a repensar e reavaliar alguns "ses" e "porquês". Tento imaginar minha vida traçando caminhos diferentes do que eu tomei, arriscando mais do que fiz e errando menos. Os erros são os que mais que me deixam mal, pois sei que fracassei diversas vezes nessa minha vida e não terei tempo de reparar tudo de errado de fiz. Confesso que por muitas vezes eu fui egoísta, frio, egocêntrico e auto-suficiente e isso tudo foi melhorando com o passar do tempo. O tempo muda as pessoas, todos deveriam notar isso.
Pensar no passado me leva a pensar no futuro. Mas que futuro? Deixei de ter sonhos, de fazer planos e até de imaginar possíveis situações fantasiosas que nunca viverei. O futuro para mim se resume ao amanhã e o amanhã se torna um dia a menos, ao invés de um dia mais.
É nessas circunstâncias em que me encontro quando a revolta pelo sofrimento e pela dor que começam a me afligir que procuro a quem culpar, eu quero personificar a razão de eu estar assim, quero direcionar as minhas palavras ásperas a alguém em específico. A quem boto a culpa? Em Deus? Em mim? Em meus pais? Na vida? Em quem? Me diz... o nada nunca responde, o vento sussurra tão baixo que mal escuto. As vozes caladas me negam respostas.
Quanto tempo me resta? Quanta vida me falta? Deve haver algum motivo para essa provação, mas não vejo nenhum, pois isso não é uma provação, droga... isso é o fim. Acho que cheguei ao meu limite, na metade do caminho que me resta pela frente. Não ouse me dizer que estou errado em ter raiva. Estou frustrado, amargurado, decepcionado... machucado.
Essa minha agonia me acompanha dia após dia, se deitando ao meu lado enquanto tento dormir entre as dores físicas e atribulações psicológicas.
Não, não admito estar errado por querer respostas que nunca terei.
Há pouco tempo pela frente, queria esperar alguma coisa, mas já não espero nada. Cansei de esperar em vão.

EM BREVE - MÊS 4

Presente versátil

| sábado, 26 de junho de 2010

Ganhei esse selo da amiga de palavras Stella Rodrigues do Reflexo Exato.
Muito obrigado por se lembrar de mim.
O selo tem a seguinte regra "Dizer nove coisas sobre mim e mandar pra nove amigos"

Sobre mim:

1 - Eu tenho 1,95m
2 - Eu troco o dia pela noite
3 - Não gosto de futebol (incluindo a Copa)
4 - Sou viciado em seriados
5 - Adoro músicas que ninguém conhece
6 - Vivo tropeçando
7 - Gosto de dar nome para as coisas/animais que vejo
8 - Quase pus fogo na minha casa
9 - ... tem muito mais de 9 coisas para se saber sobre mim

Para os amigos:


É isso aí pessoal, espero que tenham gostado, tentem seguir pelo menos a regra das 9 coisas sobre vocês, é divertido =)
Grande abraço a todos que passam por aqui.

Para ver todos os selos clique aqui.

Longe de ti

| sexta-feira, 25 de junho de 2010
♫ (...) I'm here without you baby
But you're still with me in my dreams
And tonight, it's only you and me... ♪
Here without you - 3 Doors Down
ELE

Já não sei mais passar meus dias sem te ter por perto, te possuo em pensamento, te vejo de olhos fechados e sinto seu toque com o toque do vento. Meu eu não existe mais sem você. Já não sou mais singular, te quero. Quero viver no plural. Por mais que eu diga, por mais que eu tente, essa distância que nos separa parece crescer cada vez mais, a cada dia que passa sinto o peso da saudade me corroendo por dentro. Eu só quero te ter em meus braços outra vez, te sentir junto a mim e me perder nas horas ao seu lado. Me agarrar ao momento presente. A distância, nossa maior inimiga, parece rir de nossa dor e se estender a uma medida insuportável... mas insuportável mesmo é querer te abraçar e ver meus braços vazios, é querer te beijar e sentir o nada alisando meus lábios, é querer te tocar e fechar o ar em minhas mãos, é querer te ver e não poder. A única esperança para a noite solitária que chega, é de mergulhar em sonhos recheados de você e contar mais uma dia que passou e menos um que me afasta da sua presença. Preciso te ter aqui, meu riso perde a graça sem você por perto.

♪ (...) When I'm with you
I'll make every second count
'Cause I miss you, whenever you're not around... ♫
When I'm with you - Faber Drive

ELA

Vivo no pior castigo que poderia haver, que é viver longe de ti. Me sinto presa na prisão claustrofóbica da sua ausência. Meus pensamentos só buscam você, minha boca chama seu nome, meu coração bate em ritmos que te acalentam de longe. Meu olhar se perde no vazio de não te ter por perto. Minha vida não é mais a mesma sem você, pois me ensinaste a te querer mais e mais e não te ter fere meus sentidos. Me sinto fria sem seu abraço, oca sem seu beijo e cheiro que me preenchem. Quando estamos juntos, cada segundo é mágico, flutuo nos minutos e danço sobre as horas em tua presença, mas despenco quando não estás comigo. Perco o chão e a razão ao te ter distante, onde meus braços não podem te alcançar e nem minha voz pode se fazer ouvir. E essa distância que nos separa me consome e me desespera. Aqui onde nada mais tem sentido sem você, minha solidão me arrasta para o limbo de medos e inseguranças. Quero ter você aqui.
Toda vez que encaro meu reflexo, uma parte de mim não está lá e só essa parte é o que me importa nesse momento. Você.

Pauta para Bloínquês

And the Award goes to...

|

Ganhei esse selo do Jorge Lima do Sweet Lovers.
Muito obrigado pelo selo, acho que não tem regras, sendo assim indico para os seguintes blogs:


Espero que gostem.
Abraços a todos!

Para ver todos os selos clique aqui.

Doses de vida

| quinta-feira, 24 de junho de 2010
Existem certos momentos em que palavras são meras representantes para se dizer o que foi vivido. São momentos que poderiam ser descritos de diversas maneiras, mas que se resumem a algo indescrítivel. Por mais caracteres que sejam usados, nunca serão o suficiente para transmitir a verdadeira emoção. São momentos em que o coração parece parar de bater e ao mesmo tempo disparar, momentos de perda da fala e respiração, onde tudo se é dito no reflexo de um olhar ou na suavidade de um toque. Momentos especiais de tal maneira que o tempo deveria ter a decência de parar e assistir de camarote. São minutos preciosos, horas incomparáveis e dias mágicos que se prendem ao fio da lembrança, nítidos como o agora que virou passado... onde ao se fechar os olhos tudo volta a existir, os cheiros exalam, as carícias são sentidas, os risos e sussurros atirados ao ar nos retornam aos ouvidos e nesse pensamento real e imaginário a hora não passa, o tempo se tranca em si mesmo deixando fluir o prazer do momento.
Existem pessoas que são incomparavelmente especiais. Existe aquela pessoa pela qual você respira vida. Aquela pessoa que habita seu inconsciente, que passeia pelo jardim de sua memória e colhe flores de lembranças. Aquela pessoa que só por existir tornou seu mundo mais vivo e cheio de cor. Aquela pessoa que sempre sabe o que falar e quando falar para lhe arrancar os sorrisos mais singelos e sutis que possam existir. Aquela pessoa que te move adiante e que te alimenta com sua presença. Aquela pessoa cuja ausência nutre uma abstinência aterradora que serve de solo fértil para a saudade nascer e envolver suas raízes sufocantes em nosso peito. Existe aquela pessoa que é única e simplesmente aquilo que você precisa. Na medida ideial, sem meios termos.
Existem coisas que o tempo não apaga, que nem o mais forte dos ventos leva embora. São coisas do coração, que são cultivadas ali e sem elas o mundo e os dias se tornam mais vazios. A felicidade reside naqueles que sabem enxergar esses momentos, que sabem reconhecer essa pessoa singular e que sabe valorizar as coisas mais simples que brotam no peito.
Para cada um isso pode ter um nome, chame de amor se o simples relance de uma pessoa lhe dá frio na barriga. Chame de paixão se você sente aquele desejo intenso e ardente. Chame de alegria se cada riso e momento são inesquecíveis. Chame de prazer se cada toque desperta sensações desconhecidas. Chame de felicidade se sente o brilho no olhar. Chame de meu e acrescente uma dose de cada item que julgar importante e a esse mistura, chame de vida. As doses são à gosto, algumas se misturam com facilidade, outras não. Mas cada novo elemento adicionado cria uma nova receita que deve ser vivida.

_______________________________

30days completo - clique aqui para conferir

Contagem regressiva - Mês 2

| quarta-feira, 23 de junho de 2010
Hora do conto - Se você não leu, leia o Mês 1

Me deixem só. Essa era a minha frase do momento. Eu só queria permanecer sozinho, isolado.
A ficha ainda não havia caído, era como se eu assistisse aquilo através de um vidro. Não, não era eu que morreria. Não quero aceitar isso. "Você tem seis meses de vida. Sinto muito." Era como a fala de um personagem de um filme muito sem graça. Isso não é real, é uma pegadinha, eu não tenho nada. Eu não quero ter nada, mas eu tinha. E me restavam cinco meses.
Apesar de eu querer ficar sozinho, todos os dias minha amiga me visitava, ficávamos horas conversando e rindo, vivendo uma vida à parte de toda essa dor e lamentação, tentando aproveitar ao máximo o tempo restante. Não era minha intenção fazê-la sofrer, mas era inevitável e ela não conseguia imaginar um mundo e uma vida aos quais eu não fizesse parte, mas o tempo estava contra nós. Ver a tristeza e o peso da dor em cada lágrima dela me causaram um aperto no coração.
Conforme os dias passavam eu vinha tentando entender, me conformar, mas naquele momento, perdi meu controle e desabei diante dela. Meu mundo estava despedaçando e eu não tinha forças para juntar os pedaços.
Meu futuro havia se transformado numa ampulheta, cada grão me aproximava lentamente do fim. Cada dia riscado do calendário estampava o tempo que jamais pára, apenas segue irredutível.
Meu cabelo começou a cair, por isso decidi cortá-lo por completo. Parei de me olhar no espelho, não quero observar meu declinio irreversível. Eu sei que estou definhando, mas ainda me recuso a assistir.
Não me perguntem se a vida é justa, pois estou muito aborrecido com ela.

EM BREVE - MÊS 3

No aeroporto

| terça-feira, 22 de junho de 2010
Por ser piloto de avião, eu vivia mais nas nuvens, literalmente, do que com os pés no chão. Eu passava muito tempo longe de casa e levava a saudade sempre como co-piloto. Eu ía de um país ao outro, ficava dias por lá até retornar e esse é o preço que se paga por um sonho. Sempre quis ser piloto, sempre quis ter a sensação de que o céu era o limite, mas isso foi antes de eu me apaixonar. O amor, às vezes, chega em horas inconvenientes, devo confessar.
Eu estava no aeroporto, comendo um croissant intragável e tomando um café amargo quando ela passou por mim, lutando com a bagagem de mão. Me ofereci para ajudá-la e assim que nossos olhos se encontraram foi... normal. É, não acredito nisso de amor à primeira vista. Mas eis que outro dia, no meu horário de descanso eu topo com ela de novo, mesmo problema, a bagagem. A ajudei novamente e dessa vez nossa olhar cruzado, meio de esguelha, teve um brilho diferente. E na terceira vez (sim houve uma terceira vez, e por incrível que pareça eu desejei que essa vez chegasse, pois ela sempre estava nas alturas em meu pensamento), eu a convidei para um café. Ela aceitou e começamos a falar da vida.
Ela era professora e uma daquelas mulheres desastradas capazes de quebrar alguma coisa só de tocar. E ela estava me falando sobre isso.
- Eu costumava ser muito mais desastrada, sabe? Mas mudei muito, por exemplo, já consigo colocar os ovos na geladeira sem quebrá-los. - ela contou rindo e prosseguiu - Uma vez fui ao dentista e enquanto ele estava fora, esbarrei em um aparelho que se ligou e fez um estrago enorme no estofamento da cadeira odontológica, tive que arcar com a despesa, é claro - ela riu e derrubou a xícara de café. E nós rimos. Fazia muito tempo que eu não ria daquela maneira e depois desse dia marcamos de sair mais vezes.
Toda vez que nos encontrávamos, eu falava sobre minhas viagens e ela contava suas trapalhadas.
- ... e os pacotes de gelatina caíram da prateleira enquanto eu tentava apanhar a garrafa de refrigerante que eu atirei para cima, sem querer. Queria que você estivesse lá, sinto muito a sua falta e nosso tempo juntos não é o suficiente - ela relatava sorrindo um desastre no supermercado e emendou outra sentença que mal percebi. Ela falava rápido e juntava um assunto ao outro.
- Sinto a sua falta também e o tempo que temos, se estamos atentos, será sempre exato - eu disse e ela sorriu concordando com a cabeça.

Eu ainda continuo viajando, ela continua com suas aventuras cômicas, mas uma aliança em nosso dedo nos une, não importa onde estamos. Adoro voltar para casa e ter que arrumar alguma cadeira quebrada e comer bife queimado enquanto ouço as histórias de minha mulher. Estamos felizes juntos. A gente meio que se completa, sabe? Ela quebra e eu conserto, coisas assim.
E nosso amor é o que importa, pois esse é inquebrável.

Pauta para a 49ª Edição do OUAT
_____________

Playlist atualizada

Contagem regressiva - Mês 1

| domingo, 20 de junho de 2010
Hora do conto

Eu precisava contar aquilo para alguém, precisava dividir o peso daquele fardo. Todos os meus dias, minhas ações, minha vida, me trouxeram até esse ponto derradeiro. E não tinha mais volta.
Quando o médico deu sua sentença, meu coração parou de bater por um segundo, minha respiração me sufocou, mas eu contive as lágrimas e tentei ser forte. Esbocei um falso sorriso e sai depressa do consultório.
Em casa, no meu refúgio, abraçado ao meu cachorro, deixei todas as lágrimas rolarem, até não sobrar mais nada, mas sempre havia mais, elas não paravam de vir.
O pensamento que me ocorreu era de tudo havia sido em vão, todos os esforços, gestos, todo tempo perdido. Para quê? Para nada. Mas outro pensamento pairava no ar, tenho que contar para alguém. E tem que ser ela, a minha melhor amiga.
Ela veio em uma de suas visitas de rotina no meio da semana, para falarmos da vida, dos planos e jogar conversa fora. Ela sabe me ler e interpretar meus olhares e sabe quando tenho algo para dizer, mas não consigo. Só bastou que perguntasse se tudo estava bem para que eu revelasse o que o médico dissera.
Revivi aquele momento angustiante, quando ele baixou os olhos para seus prontuários e disse metodicamente:
- Você tem seis meses de vida. Sinto muito.
E hoje faz um mês que essa frase me assombra.

EM BREVE - MÊS 2

Apenas embarque

| sexta-feira, 18 de junho de 2010
"A vida é uma grande viagem com um destino incerto."
(Rodolpho Padovani)

A professora pediu para fazer uma redação sobre a vida. Não sou bom para essas coisas, mas tentei. Acabei e entreguei para ela, que gostou tanto que resolveu ler em voz alta para a sala:

Acho que a vida da gente é como uma viagem de trem, mas não uma viagem que a gente escolhe ir, nós somos colocados nela e sem opção tomamos nosso melhor assento e começamos a curtir a paisagem. Nesse trem nós vemos muitas pessoas entrarem e saírem, descendo em estações antecipadas ou saltando na estação certa com um monte de gente esperando por elas.
Nessa viagem, a gente não conhece destino e nem sabemos em qual estação vamos ficar e enquanto isso conhecemos muitos passageiros, alguns que apenas passam por nosso vagão e por descuido ou distração deixam cair algo e não retornam para buscar, alguns passageiros sentam ao nosso lado e prometem nos acompanhar até o final, mas acabam quebrando essa promessa, outros chegam em silêncio e aos poucos sua presença ganha tal importância que não sabemos como prosseguir sem eles e outros chegam e ficam até o fim, entre essas idas e vindas de passageiros, trocamos experiências, contamos sobre a nossa viagem e ouvimos sobre a deles. Dividimos bagagens pesadas e saboreamos bons momentos.
Essa viagem é cheia de trilhos sinuosos que não nos deixam ver além da curva seguinte, o que torna a viagem surpreendente. É triste quando algum passageiro de nosso vagão, com quem temos muita afinidade e carinho tem que deixar o trem e pegar um outro que leva para um caminho ainda mais desconhecido. Esse trem é cheio de mistério também e ao olharmos pela janela nos deparamos com diversos cenários, alguns encantadores e outros são um desolação que parece não terminar nunca, mas sempre acaba e uma bela paisagem aparece. O trem muitas vezes passa por túneis escuros tão longos que quase esquecemos como é a luz, mas quando estamos prestes a fazer isso, o sol brilha outra vez.
Às vezes temos a impressão que o trem está parado e outras vezes temos a impressão de que ele está voando por sobre os trilhos. Podemos encontrar amores, sabores, cores, cheiros, saudade, solidão, tristeza, alegria, paixão, diversão, sorrisos e muitas outras coisas que se escondem em lugares diferentes dentro do trem, se não achamos determinada coisa em um vagão ela pode estar em outro ou até mesmo naquele que deixamos e não encontramos porque não soubemos procurar direito. Nós é quem decidimos fazer essa viagem prazerosa, nós é quem decidimos em qual vagão ficar ou deixar. Nós temos o controle de nossa passagem, temos o tíquete furado guardado no bolso "passagem só de ida", esse trem não faz retornos, por isso devemos aproveitar o máximo a viagem, os passageiros, as sensações, antes que a viagem termine.
A vida é um trem. Suba a bordo e aproveite a viagem.


Pauta para Sílaba Tônica

A dor que fica

| quarta-feira, 16 de junho de 2010
♫ When you're gone
The pieces of my heart are missing you... ♪
When you're gone - Avril Lavigne


Eu sei que você vai sofrer com a despedida, sei o quanto vai doer e sei do enorme buraco que se abrirá em seu coração quando você se der conta de que eu fui embora. Eu queria estar lá por você, dizer que tudo vai ficar bem, que isso não é um adeus e sim um até logo, eu queria ficar e não machucar seu coração, mas eu fui embora.
Agora vejo suas lágrimas de longe, sem poder secá-las. Vejo como a dor te consome e como esse sofrer parece aumentar ao invés de diminuir.
Eu queria poder te dizer que eu sinto sua falta, queria poder dizer que essa distância invisível que nos separa será derrotada pelo tempo, mais cedo ou mais tarde. Eu queria poder sussurrar em seu ouvido para dizer que não te esqueci. Eu queria que você me olhasse e seu olhar não me atravessasse. Eu queria te tocar, te sentir mais uma vez. Eu queria te segurar em meus braços e compartilhar do que meu calor. Eu queria ficar.
Você não imagina como é triste e doloroso para mim te ver ajoelhada em meu túmulo, me levando flores a cada semana. Você não sabe como me dói ver cada lágrima quente caindo no chão frio e indiferente. Você não sabe como a saudade me atormenta.
Eu não sei por quanto tempo me será permitido te olhar de perto. Não sei se conseguirei fazê-la notar minha presença. Não sei se ouves meus suspiros. Não sei se sentes o meu toque. Mas eu sei que por onde quer que eu vá vou te levar para sempre e que ainda nos veremos outra vez.
Sei que meu amor ainda vive em ti e cresce a cada batida de seu coração.
Eu queria ficar, meu amor, mas a vida me tirou de ti.
Pode demorar o tempo que for, eu vou te esperar e quando você chegar te abraçarei com força e então realizaremos todos nossos planos inacabados.
A morte pode ter me tirado de um corpo, mas o meu amor por você vive em minha alma.

Pauta para Bloínquês

Chuva de amor

| terça-feira, 15 de junho de 2010
♪ (...) Let the rain fall I don't care
I'm yours and suddenly you're mine
Suddenly you're mine
And it's brighter than sunshine... ♫
Brighter Than Sunshine - Aqualung

Eu corria pela rua molhada, cortando os pingos leves da chuva de verão que caía, o sol brilhava e observava as gotas caindo, refletindo sua luz, como gotas de cristal se espalhando pelo chão. O céu crepuscular anunciava uma noite de clima ameno e arejado. E eu apenas corria, segurando em uma mão aquela única flor, a preferida dela e na outra eu tentava, inutilmente, manter o cartão longe dos pingos. Cheguei ao meu destino, ensopado e ofegante, toquei a campainha e a porta se abriu. Era ela.
Estava linda como sempre, vestindo no rosto aquele sorriso contagiante que eu tanto amo e meu sorriso foi apenas um reflexo opaco do dela, uma mera projeção da perfeição que eu contemplava. Ela havia me ligado antes e dito que se estava tudo bem se não nos víssemos hoje, mas eu queria vê-la, queria beijá-la e abraçá-la como se fosse a primeira e a última vez. Eu queria sentir o calor da pele dela e a maciez de seu cabelo. Eu queria mergulhar naquele sorriso. Entreguei-lhe a rosa vermelha, lavada pela chuva, com algumas gotas presas nas pétalas aveludadas. Ela sorriu pelo presente e me deu um beijo. Entreguei o cartão molhado para ela, as letras escorriam e tentavam fugir do papel, mas ainda estavam legíveis.

"O nosso amor é como o vento, não posso ver, mas posso sentir,

é como o sol, intocável, mas emanando calor,
é claro como o alvorecer de um novo dia
e puro como flores na primavera."

Seu sorriso se abriu ainda mais ao ler o cartão, ela agarrou a minha mão e ao contrário do que pensei, me puxou para a chuva.
- Dança comigo - ela pediu.
E nós dois nos entregamos às gotas transparentes, rodopiando pelo vento, aquecidos pelos resquícios de raios de sol. E a chuva fina e morna nos lavou. Nos abraçamos molhados e nos beijamos como nunca. Me encontrei e me perdi dentro de seu olhar. Me alimentei de suas carícias e saciei minha sede com seu amor. Perdi os medos, as inseguranças e as incertezas.
Eu sou dela e de repente, ela é minha.
Um arco-íris colore o céu ao longe, o contemplamos enquanto a cortina de chuva se desfaz.
Um "eu te amo" seria pouco para dizer o que eu sinto, talvez ainda não inventaram palavras para tal sentimento. Ela me olha nos olhos, como se quisesse me dizer algo.
- Se cada grão de areia fosse fragmentos do que sinto por você, nem a praia toda teria grãos o suficiente para totalizar esse sentimento. - era isso, ela colocou em palavras aquilo que parecia impossível e eu me agasalhei em seu abraço mais uma vez e me aqueci em seus lábios.
Nosso amor é assim: simples, puro e eterno e não há mais o que dizer.

Pauta para Bloínquês


Obs: Quem quiser conferir a música do início do conto, é a que está na caixinha do "som do momento"

__________________________________________________

Playlist atualizada ~> fiz duas pois esqueci de atualizar semana passada

Nº 100

|

Esse é o 100º post. Achei que merecia uma comemoração por ser um "marco", desde que criei o blog nunca imaginei que chegaria aqui, nem que tivesse tantos seguidores e consequentemente amigos que fiz por aqui.
O que posso dizer sobre esse número? Que eu senti minha evolução em cada texto, senti que posso tocar quem me lê de diversas maneiras e não falo isso com pretensão.
Enfim, eu só tenho agradecer a todos que me acompanham por aqui desde o começo, àqueles que são novos, àqueles que se tornaram leitores fiéis e amigos além dessas páginas.
Ah, agradeço ao pessoal que alimenta as carpas também, rsrs.
Grande abraço galera.

Tique-taque

| segunda-feira, 14 de junho de 2010
Os ponteiros do relógio trabalham incansavelmente, subindo e descendo, voltas e mais voltas naquele tique-taque contínuo. O vento lá fora sopra devagar, quase um suspiro que arrepia os galhos das árvores e derruba algumas folhas ao chão. Os raios do sol do fim de tarde lutam para atravessar o tecido da cortina e banhar o cômodo de luz. O som do silêncio apetece meus ouvidos cansados da balbúrdia diária. O ar cheira a nada e isso me faz bem.
Tique-taque.
Borboletas voam em busca de flores no jardim. Formigas carregam alimentos para o estoque de inverno. Joaninhas passeiam pelo verde da grama. Toda uma variedade de vida minúscula bem diante de mim. Pássaros retornam aos ninhos, alimentam os filhotes e se preparam para ver a lua se erguer no céu.
A luz da lua saúda o sol do outro lado do horizonte, que parte entre as nuvens alaranjadas. Algumas estrelas começam a salpicar o manto azul-marinho do céu. A noite chega. O vento manso ainda percorre o ambiente, tornando-se mais gélido. Vagalumes brincam de piscar.
Tique-taque.
O relógio da parede continua seu trabalho, indiferente a qualquer mudança.
Um latido na noite atrai outro latido e isso gera uma cadeia de eventos. Latidos e uivos. O bater de asas de morcegos e o pio das corujas. Aquele silêncio se desfaz. Sons de pneus irrompem no ar. Risadas e palavras indistintas pairam ao longe. Um horizonte de mistérios e acontecimentos.
Tique-ta.
Não é sempre que me vem o hábito de observar as coisas ao redor, mas isso é relaxante. Ver o dia virar noite. Ouvir os sons noturnos. Analisar a fragilidade de uma micro fauna. O tempo é curto demais para notarmos isso. A correria nos afasta dessa calmaria. O mundo quer falar. O vento quer nos acariciar. O sol quer nos aquecer e as estrelas nos acalentar. Basta pararmos de vez em quando e permitir esse contato.
Tique.
O relógio parou. Preciso trocar as pilhas.
E assim tudo volta ao seu ritmo normal.

Femme Fatale

| quinta-feira, 10 de junho de 2010
A mulher será sempre o perigo de todos os paraísos.
(Paul Claudel)


- Sabe, parece coisa de cinema, mas vou te contar minha história - eu disse ao garçom, que revirou os olhos impacientes, certamente acreditando que se tratava de mais uma história de um bêbado abandonado e ele pode estar certo.
Eu precisava desabafar e aquele bar era o que eu costumava frequentar antes de ela surgir na minha vida. Todo aquele ambiente decorado em madeira, cheio de pessoas solitárias inertes em seus pensamentos, escondidas por trás da fumaça dos cigarros que deixava o local enevoado e sufocante. Mulheres elegantes com seus vestidos provocantes e sua maneira lasciva de fazer os pedidos. Homens sofisticados com seus charutos caros, ternos de grife e sapatos muito bem lustrados. Esse era o tipo de pessoa que frequentava o lugar. Entrei pela porta, com minha jaqueta surrada, cabelos despenteados e pedi uma dose de uísque.
Tudo tinha começado há dois anos, naquele mesmo bar, na mesa do canto. Numa noite de sexta, embrigado em minha solidão e sufocado na fumaça de meus devaneios sombrios, veio em minha direção uma daquelas mulheres que não tem como não olhar. Ela usava um vestido vermelho decotado, com um corte na perna que subia até quase atingir o quadril, os cabelos balançavam conforme o caminhar lento e seguro.
- Tem fogo? - ela perguntou e naquele momento eu me xinguei por não ser um fumante. Neguei com a cabeça - Posso me sentar? - ela indagou já puxando a cadeira ao lado da minha.
Não acreditei na minha sorte. Como uma deusa daquelas havia ido até mim? Entre conversas descontraídas, uísque e cigarros, terminamos nossa noite juntos e passamos a frequentar outros bares de classe mais elevada e nos juntamos. Eu me apaixonei em questão de dias e vivemos uma história emocionante. Trocávamos juras de amor. "Minha vida se resume no que eu passei com você!", ela me disse certa vez e eu me senti vivo, como nunca tinha me sentido. Ela era uma mulher poderosa e eu me sentia um homem poderoso por estar ao lado dela. Mas dizem que tudo o que é bom dura pouco, não é? Pois essa mulher fatal se mostrou uma ladra de altíssimo grau. Roubou todo o meu dinheiro, herança de meu pai que era dono de dois bancos e desapareceu. Venho tentando rastreá-la para jogá-la atrás da grades, mas sua lábia imbátivel com certeza está fazendo mais vítimas por aí.
O garçom me ouvia desinteressado.
- Ouça bem isso, não importa o quanto tente ser bom não dá pra segurar uma garota má - eu o aconselhei sabiamente.
- Claro, claro, o senhor tem toda a razão - ele disse com sarcasmo - Mas é hora de dizer adeus, então tome suas últimas doses e dê sua última gorjeta.
Pedi um Martini duplo, o bebi em um gole só, paguei a conta e sai.

O garçom deixou o balcão e foi atender uma mesa mais afastada, antes de chegar ao cliente, observou enquanto uma linda mulher em um vestido preto surgiu por detrás da fumaça de seu cigarro e se dirigiu à mesa de um cavalheiro desacompanhado.
- Tem fogo? - ele a ouviu perguntar.

Pauta para Bloínquês, Letra e Música e OUAT

Bom dia Sol

| quarta-feira, 9 de junho de 2010
Em todas as férias de verão minha família e eu viajávamos até a praia. Temos uma casa por lá e eu simplesmente adoro esses momentos. Nos sentimos mais juntos, mais família mesmo. Adoro a maresia, o cheiro de mar, a areia, o sol, tudo. Esse era mais um de nossos verões litorâneos.
Toda manhã, meu pai e eu íamos ao píer e nos sentávamos para assistir ao nascer do sol, dois espectadores de um dos maiores números da natureza. Ali no nosso assento principal, víamos o enorme globo de fogo se içar ao céu, como se emergisse do oceano lá no fim do horizonte. Enquanto o astro rei se erguia no azul claro da manhã, eu e meu pai, sentados conversando na beira do mar, planejávamos nossa rotina diária. E foi assim pelo resto das férias, pelos anos seguintes e por um bom tempo.
Hoje me sento sozinho diante do imenso mar, meu pai já se foi, assim como muitos de minha família, uns para não voltar mais, outros foram para cantos escondidos, a vida acabou nos separando. E eu aqui sentado, esperando meu ídolo, me ponho a pensar nas coisas que aconteceram, em tudo o que passei e vivi ao lado de todos eles. Sinto o vento gelado bater em meu rosto, vejo as ondas se quebrando na encosta lá longe, escuto o canto dos pássaros que despertam para um novo dia e espero por ele.
Papai sempre me dizia que os grandes homens são aqueles capazes de ver a beleza nas pequenas e mais simples coisas da vida. Talvez eu deva me considerar um grande homem, pois nunca abandonei esse momento que era meu e dele.
E a espera termina, lá vem meu majestoso amigo subindo ao céu, todo sorridente e caloroso. O nascer do sol é um espetáculo grandioso que a maioria das pessoas perde, mas nem por isso ele desiste de irradiar sua luz para o mundo.
Agora eu entendo, papai. Entendo que não importa se ninguém ver meu esforço, o que importa é que eu fiz.
Me banho na luz morna da manhã, respiro o ar salgado e saúdo as gaivotas que pairam no ar.
Conservei isso comigo, o hábito de estar ali todas as manhãs. Esse é um jeito de me sentir mais perto da família e da natureza.
Mais um dia começou, hora de planejar a rotina diária, assim como papai eu fazíamos. Sei que em algum lugar ele sorri para mim todas as manhãs.
Agora você me pergunta: "E quando não tem sol?"
E eu respondo: "Não é porque o sol não nasceu que ele deixou de existir."
A gente não acredita só naquilo que os olhos podem ver, eu nunca vi o vento, mas eu posso sentí-lo, quando o sol não vem mesmo assim eu sinto seu calor.
Aprendi muito com meu pai, lições sobre a vida, o mundo... o sol. E se eu puder passar metade disso adiante, já me sinto feliz.

Pauta para Bloínquês - Tema: "Sentados conversando na beira do mar"

A caçada

| segunda-feira, 7 de junho de 2010
Século XV

A peste se propagava em nosso vilarejo com uma rapidez assustadora. Homens, mulheres e crianças sucumbiam cada vez mais. A resposta a isso estava clara, o que nos deixava ainda mais assombrados, isso era bruxaria. Com o início da caça às bruxas declarado, muitas dessas mulheres demoníacas buscavam refúgio em pequenas vilas onde pudessem passar despercebidas, mas não para mim. Eu possuia o Malleus Maleficarum, que ensinava como reconhecer uma aberração dessas. Eu venho observando as mulheres de comportamentos estranhos, saio a noite a procura de belas jovens suspeitas. Jovens, sim, essas filhas do diabo se escondem atrás de belos rostos para enganar a população.
Enquanto caminho sob a luz intensa da lua cheia, procuro por indícios e rastros. Um gato preto cruza meu caminho, sinal que estou na trilha certa. Um vulto encapuzado se embrenha na floresta escura. Era ela. A bruxa da nossa vila. Eu a sigo com cautela, atento onde eu piso para não denunciar minha presença. Um uivo corta a noite como uma faca afiada. A floresta se torna densa e uma névoa começa a se formar. O vulto está perto, eu posso sentir. Num movimento rápido eu a alcanço atrás de uma árvore e arranco seu capuz.
- Papai - ela disse com aquela voz que tanto conheço, ofegante pelo susto.
- Não, você não... - me esgasguei nas próprias palavras.
- Eu posso explicar - ela disse.
- Calada, sua amante do mal - eu lhe dei uma bofetada. Elas possuem o poder de persuasão que levaria homens despreparados a se matarem - Não acredito que acolhi uma serva das trevas por todo esse tempo... - ela fez menção de falar, mas a fiz parar com outro tapa.
O que eu sentia era ódio e repulsa. Pensar que o eu poderia ter dado o fim a todo o pânico que o vilarejo sofria, me dava vontade de matá-la com minhas próprias mãos. Aquela a quem chamei de filha, era uma pecadora.
A deixei amarrada junto aos cães durante a noite e logo pela manhã a levei à Corte e aos Inquisidores. A sentença como o esperado, era a queima na fogueira.
A prenderam em um calabouço naquele dia, com uma mordaça que a empedia de destilar suas mentiras e blasfêmias. No dia seguinte uma multidão se reuniu em praça pública para assistir a morte da bruxa. Da minha filha. Minha esposa, que descance em paz, foi poupada de ver a única filha se transformar em um monstro.
- Essa criatura maligna foi encontrada entre as árvores e é acusada de heresia, feitiçaria e propagação da peste - disse um dos Inquisidores - Que Deus tenha piedade da sua alma - e assim que disse isso acenderam a fogueira na qual ela estava presa. Seus gritos foram abafados pela mordaça. Ela chorava lágrimas de veneno.
Um rapaz veio correndo desesperadamente, passando pelo meio do povo e gritou:
- Havia uma garota na floresta, ela foi vítima da bruxa, mas está viva. Ela estava amarrada em uma árvore. Ela disse que a bruxa era uma velha cega que era guiada por um corvo - a multidão se calou e só o crepitar do fogo podia ser ouvido.
No silêncio mortal, todos os detalhes de repente se encaixaram, numa explosão de intuição.
Minha filha era inocente. Ela estava tentando salvar a garota.
Corri na direção da fogueira, mas já era tarde demais. A minha filhinha já se fora. Meus olhos ardentes derramaram lágrimas de remorso, dor e frustração. Naquele momento, diante do corpo da minha menina, jurei encontrar a velha feiticeira e dar um fim a ela.

Pauta para a 47ª Edição do OUAT

Obs: O Malleus Maleficarum (Martelo das Bruxas) é um manual de diagnóstico para bruxas, escrito por dois inquisidores dominicanos em 1487, divido em 3 partes. A primeira parte ajuda os juízes a reconhecer as bruxas e seus artificíos, a segunda expõe os malefícios detalhadamente e a terceira dita as formalidades na condenação das bruxas. (é, eu pesquisei isso para escrever o conto)
Obs²: Muito provavelmente esse é o meu conto mais "diferente" e sombrio, mas espero que tenham gostado.

Lição de vida

| sábado, 5 de junho de 2010
Minha vida sempre havia sido um caos, abandonei a escola, decidi andar com más companhias, me viciei em drogas... fugi de casa assim que acabaram-se as coisas que podiam ser vendidas para alimentar meu vício e desde então tenho vivido nas ruas, em becos e vielas. Sabe aquele cara sujo que pedia dinheiro alegando passar fome? Era eu, recorrendo avidamente a qualquer meio que me levasse a obter meu consumo diário.
Mas a vida da gente é cheia de reviravolta e em uma dessas minhas buscas rotineiras por uma alma caridosa que alimentasse meu vício doentio, me deparei com uma moça recatada, que assustou-se com minha abordagem e foi logo abrindo a bolsa assim que eu pedi uns trocados.
- Aqui, isso vai ajudar - ele abriu a minha mão e me entregou um objeto. Era um terço. Eu a olhei com surpresa e admiração, ela havia me dado mais que qualquer pessoa, ela havia me dado atenção. Guardei o terço no bolso e me afastei sem agradecer ou dizer uma só palavras. Não consumi aquele dia.
E assim, dia após dia ela passava por aquele rua escura, sempre me cumprimentando e trocando poucas palavras, até o dia em que resolvi perguntar qual o motivo pelo qual ela sempre passava ali e tinha interesse em mim.
- Talvez eu tenha uma fraqueza por causas realmente perdidas - ela respondeu e sua resposta foi a luz que me tirou da escuridão. Passei a acompanhá-la por alguns quarteirões, ouvindo suas doces palavras de amor e esperança. Sempre me dizendo que Deus tinha preparado algo belo para mim. Eu não via beleza na vida que eu tinha, tampouco eu via esse Deus.
Tempos depois eu já havia voltado para casa, abandonado meu vício e retornado aos estudos. Hoje sou um médico cirurgião, tenho um emprego em um conceituado hospital e me dedico a salvar vidas.
Naquela manhã o hospital estava muito agitado devido ao um acidente numa das principais avenidas da cidade, fui chamado às pressas para ver uma paciente. Ela havia sido atropelada e estava gravemente ferida. Ela havia sido levada para a sala de cirurgia, entrei na sala após os procedimentos de higienização e encontrei uma senhora ensanguentada na maca... um terço pendia de sua mão esquerda. Era ela, a minha salvadora. Ela estava consciente e ao ver meu rosto tentou dizer algo, mas não foi capaz.
Uma enfermeira sussurrou ao meu ouvido que não havia mais nada que pudesse ser feito. Ela certamente morreria.
- Talvez eu também tenha uma fraqueza por causas realmente perdidas - eu disse, mais para mim do que para as pessoas ao redor e me preparei para a cirurgia.
Dois dias depois minha paciente acordou e pediu para me ver. Entrei no quarto e ela me saudou com um sorriso acolhedor.
- Sabe - ela começou - Não acho que existam causas perdidas. Toda causa vale a pena, basta você enxergar o próximo e estender a mão e assim podemos melhorar o mundo. Tome - ela estendeu o terço para mim.
- Eu tenho o meu próprio, obrigado - retirei o velho terço do bolso do jaleco e ela sorriu ao reconhecê-lo.
Aquele poderia ter sido mais um caso rotineiro e casual, mas eu havia tido a chance de retribuir um favor. Eu salvei a vida daquela que me salvou no que eu considero uma vida passada.
Não há causas perdidas, apenas causas que não foram lutadas.

Pauta para Letra e Música - 1ª Edição Letras - Tema: "Talvez eu tenha uma fraqueza por causas realmente perdidas"
________________________________________________________

Tô concorrendo pra Blog destaque de Maio do Bloínquês, para votar clique aqui

Coração ferido

| sexta-feira, 4 de junho de 2010
♫ (...)I tell myself that I'll be fine
Just give it time... ♪
A little time - Jonathan Clay

Abri os olhos e encarei o teto pálido que me encarava de volta, fiz mentalmente as minhas perguntas, passei a mão no rosto e me levantei. E aquela seria minha rotina diária a partir de agora, não... desde aquele dia minha rotina tinha sido essa. Há quanto tempo foi isso mesmo? Perco a contagem dos dias sem ela por perto, minha cabeça parece parar de funcionar corretamente quando ela não está aqui, mas eu tenho que fazê-la funcionar. Ela fez as malas aquele dia, foi-se para não mais voltar. O seu lado do guarda-roupa exibe um espaço enorme que tão logo não será preenchido. E eu ainda a vejo, parada, segurando a maçaneta da porta, me olhando friamente, sem um pingo de remorso ou uma lágrima nos olhos.
- Você foi um passatempo bom, mas acabou - ela me disse secamente e fechou a porta. Um passatempo bom? Então era isso que os últimos três meses havia significado para ela? Apenas um passatempo. Enquanto eu me entreguei por completo, cedi aos encantos dela, dei a ela meu coração, para que ela o esmagasse sem piedade e o atirasse ao chão sujo.
O apanhei assim que ela partiu. Ferido, sangrando, mas ainda pulsando fracamente. O tomei de volta para mim e prometi curá-lo e nunca mais deixar que alguém o ferisse daquela maneira. Assim como ela fechou a porta e não voltou, fechei a porta para o sentimento, tranquei por dentro e joguei a chave fora. Ninguém mais vai te machucar, prometi ao meu frágil coração.
E foi desde esse dia que minha rotina se resumiu a perguntas sem respostas, eu tentava encontrar um motivo para aquilo. Onde eu havia errado? O que eu deveria ter feito? Mas então, num belo dia, me olho no espelho e ele me questiona: "Você acha mesmo que o problema está em você?" Aquela indagação me resgatou do abismo que eu me atirara, me agarrou pela gola da camisa e me trouxe ao chão firme outra vez. Claro que não, eu não fiz nada de errado, respondi ao meu reflexo. E ao ouvir minha própria voz, senti um pulsar dentro do peito. Ah, ele estava de volta, ele havia se curado.
É difícil de aceitar, recomeçar do zero, isso leva tempo. Aprendi da pior maneira possível, mas percebi que o erro não estava em mim. Eu não havia perdido, afinal. Ela sim, ela havia perdido a chance de ter uma história, algo muito além de um "simples passatempo."
Não olho mais para aquela porta esperando que ela se abra e ela volte. O teto agora me encara com um sorriso de bom dia a cada manhã e minha cabeça funciona como nunca funcionou.
Estou indo comprar roupas novas, preciso preencher um lado do meu guarda-roupa.

Pauta para Bloínquês - Tema: "é difícil de aceitar, recomeçar do zero"

___________________________________________________

Dia 20 - A sua música favorita neste momento no ano passado
(Último dia do desafio)
5:19 - Matt Wertz

Clique na música para ver o vídeo

________________________________________________________
Tô concorrendo pra Blog destaque de Maio do Bloínquês, para votar clique aqui

Que charme!

| quinta-feira, 3 de junho de 2010

Ganhei mais esse presente especial da Stella Rodrigues do Reflexo Exato e da Sophia'Slu do Segredosadocicados! As duas escrevem ótimos textos, sempre que posso passo por lá. Muito obrigado pelo carinho e reconhecimento.

Indico o selo aos seguintes blogs:
About my Truth.
Little Dangerous
Quando eu me chamar saudade
Que seja doce
Writeland

Abraços a todos que passam por aqui, que lêem, comentam (ou não), hehe... O blog está de páginas abertas para todos =)

Para ver todos os selos clique aqui.

Decidida

| quarta-feira, 2 de junho de 2010
Eu estava completamente apavorada, apesar de todas as advertências eu fui imprudente e agora teria que arcar com as consequências. Assim que soube, corri até ele para obter algum auxílio. Dei a notícia com a cabeça baixa e os olhos pregados no chão, eu não era forte o suficiente para encarar a reação dele. Assim que ele ouviu o que eu tinha a dizer, ficou estático, desejando ver um traço de mentira em meu rosto. Eu já estava em prantos enquanto ele não sabia o que fazer.
- Não. - ele disse - Eu não quero. Eu não vou aceitar.
Levantei a cabeça e o encarei com meu rosto molhado por lágrimas. Eu não estava dando opções a ele. Não era algo a se debater. Como eu havia sido idiota por achar que ele ficaria ao meu lado. Típico.
- Não podemos fazer nada agora - eu argumentei.
- Podemos sim, você sabe muito bem disso. Eu conheço alguém que...
- Não - eu quase gritei - Você deveria ter vergonha em propor isso - me desvencilhei de seus braços e corri pela rua. O ouvi gritando por meu nome, mas ele não foi atrás de mim. Ele não queria se envolver.
Voltei para casa e me tranquei em meu quarto. Observei as paredes cor-de-rosa, as bonecas no guarda-roupa, meus ursinhos de pelúcia espalhados por todo o cômodo. Aquilo pertencia a uma menina, uma menininha que fora sentenciada a crescer.
Já tomei minha decisão e não a mudarei, eu disse enxugando as lágrimas que ainda insistiam em cair. Limpei o rosto e sai decidida de casa. Ele precisava ouvir aquilo.
Ainda o encontrei na praça, sentado com os olhos no horizonte, atordoado com o que eu havia dito e antes mesmo que ele pudesse tentar me ludibriar com falsas promessas eu atirei:
- Eu não preciso de você. Se você não quer fazer parte disso, ótimo. Eu vou seguir sozinha. Eu vou manter esse bebê.
- Me desculpe - ele disse - Eu perdi a cabeça, falei coisa que não devia. Eu quero fazer parte disso. Eu não vou te abandonar.
Agora as lágrimas que surgiam eram de felicidade. Tudo seria mais fácil com ele ao meu lado. Sentei-me junto a ele no banco e me deixei envolver em seu abraço.

Pauta para Bloínquês - Tema: "já tomei minha decisão e não a mudarei."
______________________________

Dia 19 - Uma música que faz você rir
The bird and the worm - Owl City

Clique na música para ver o vídeo

The couple - Por ambos

| terça-feira, 1 de junho de 2010
Hora do conto - Leia: The couple - Por ele e Por ela

♫ (...)E quem vai me levar
Entre as estrelas, quem vai fazer
Toda manhã me cobrir de luz?
Quem, além de você?
Quem além de você? - Leoni

"Era uma vez" nós dois. Nos encontramos e nos unimos. Não somos a metade um do outro, somos indíviduos inteiros que se complementam. Somos duas pessoas que se perdem no tempo na presença uma da outra, somos a luz pro mundinho particular do outro. Quase não deu certo, o "nós dois" quase não existiu, mas de que vale lembrar disso? Só para saber que esse "quase" nos trouxe até onde estamos.
Nós dois somos almas perdidas que se encontraram, não existe clichê nenhum ao dizer que "fomos feitos um para o outro" e sem o outro uma parte faltaria, seria uma vida pela metade.

Somos a união,
o encontro do sol e o mar no horizonte,
o espelho e o reflexo...
Somos primavera e verão,
outono e inverno,
sol e chuva...
Somos pólos opostos,
dia e noite,
água e fogo.
Somos a chama do amor,
o desejo da paixão,
a essência do viver.
E assim não existe um sem o outro, como não há sol sem luz.

Não somos personagens de contos de fadas, não houve cavalos brancos nem fadas madrinhas, mas cada beijo é encantado, cada momento é mágico e cada passo nos leva mais perto do "felizes para sempre", o qual já vivenciamos desde já.
Juntos estamos. Ontem, hoje, amanhã... e se existir a eternidade depois disso, lá estaremos juntos, mãos dadas, lábios colados e dois corações batendo como um só.
Amamos um ao outro e assim será até depois do último suspiro.

_____________________________________________

Dia 18 - Uma música que você quer jogar no seu funeral
This boy - James Morrison

Clique na música para ver o vídeo

______________
Playlist atualizada
 

Copyright © 2010 A arte de um sorriso