Keblinger

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Mecha de cabelo

| quarta-feira, 12 de maio de 2010
Desde muito pequeno meu mundo se resumia àquele hospital, àquelas paredes brancas e sem vida. Eu olhava pela janela e avistava os pássaros em seu vôo livre, os galhos das árvores balançando no ritmo do vento, eu via o mundo através de um vidro. Ser uma criança com câncer não me tirou a vontade de viver, pelo contrário, me deu algo pelo qual lutar, me ensinou que a vida não tem preço.
Meu mundo solitário ganhou cor quando a avistei chegando, usando um vestidinho colorido e simples, os cabelos claros cacheados sacudindo de um lado para o outro. Era mais uma paciente, mais uma guerreira nesse mundo injusto. Mais uma que se preparava para as batalhas que se seguiriam.
Eu com meus nove anos de idade não sabia muita coisa, não conhecia sentimentos nem sensações, mas ao vê-la senti meu coração bater mais forte, um pulsar vivo e contraditório à minha condição, senti-me saudável. Mais tarde pude conhecê-la e conversar com ela, com seus sete anos ela era muito esperta e parecia entender o que estava prestes a acontecer. Todos nós vivemos ali na incerteza do amanhã, sem saber se perderemos a luta para a doença, sem saber até onde sobreviveremos.
Poucas semanas depois tentei vê-la, mas ela fugiu de mim, percebi então que ela não queria que eu a visse sem seus lindos cabelos. O tratamento a ela estava sendo agressivo demais. A alcancei antes que ela pudesse se esconder e disse a ela que a amava daquele jeito, disse que a amava espiritualmente, afinal, não acredito que amamos um corpo, mas sim uma alma. Ela me sorriu e depositou uma mecha de seus cabelos dourados em minha mão.
Passo a passo, dia após dia fomos lutando juntos, sofrendo em união, chorando sobre o ombro um do outro. Eu sentia a dor dela e ela sentia a minha. Tínhamos o mesmo medo, não de morrer, mas de perder um ao outro. Nossas batalhas se tornaram mais difíceis e nosso corpo fraquejava, mas resistíamos. Sabíamos que o outro estava ali, sempre.
Sempre? Sempre é tempo demais, sempre foi tempo demais para nós, principalmente para nós.
Foi em um dia nublado que tentei chegar ao quarto dela, mas fui impedido pelas enfermeiras. Meu coração saltou, bateu mais forte e desesperado. Aquele corredor escuro que nos separava não tinha fim. Senti as lágrimas queimarem e mancharem meu rosto enquanto eu lutava contra os pares de braços que me forçavam a recuar, mas eu não queria. Eu tinha que vê-la mais uma vez. Eu tinha que dizer adeus. De longe pude ver seus pais desconsolados e ouvia os soluços de sua mãe.
Por que a vida dá para depois tirar? Meu grito de "não" ecoou por todo o hospital. O grito sufocante do meu coração me machucou de um jeito que a doença jamais fez. Eu havia perdido aquela luta, meu mundo voltou a ser preto e branco.
No dia seguinte me permitiram ir ao funeral dela. Aquele foi o dia mais triste da minha vida. O caixão pequeno denunciava a injustiça desse mundo cruel. Antes de as pás de terra começarem a ser atiradas sobre ele, apanhei uma mecha escura de cabelo que há muito deixara de nascer em minha cabeça e atirei sobre ele e disse o último adeus.
Voltei para meus dias frios e solitários, enxergando um mundo mais vazio pela ausência dela, tentando achar algum sentido nessa vida sofrida.
Não desisti de lutar, agora eu lutava por nós dois, para conseguir aquilo que ela não pôde ter. Para mantê-la viva através de mim.
Até quando isso vai durar eu não sei. Até onde me permitirei resistir só o tempo pode dizer. Mas eu nunca esqueci dela. A mechinha de seu cabelo está sempre comigo, uma prova de que minha vida teve um valor. Uma prova de que mesmo sem conhecer sentimentos, eu conheci o puro amor e com ele conheci a dor.
Meus dias foram mais felizes quando estive com ela. Agora carrego ela no peito, no bater triste de meu cansado coração e nas lembranças doces que nenhum tratamento pode tirar.
Ela vive em mim. Ela vive de alguma maneira e eu nunca vou abandoná-la.

Pauta para Bloínquês - Tema: "Foi quando ela se escondeu, porque estava sem cabelo, e eu disse que não a amo somente fisicamente e sim espiritualmente, pois não amamos um corpo e sim uma alma."
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Dia 02 - Sua última canção favorita
Evergreen - Westlife

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21 sorrisos compartilhados:

{ Stella Rodrigues } at: 12 de maio de 2010 09:21 disse...

Esse texto foi um pedacinho daqueles livros que conta toda uma historia bonita pra nos fazer chorar no final, que a gente quer reescrever o livro só pra poder dar um final feliz aqueles personagens que a gente acha que merece, e dar um fim naqueles que não. Esse texto é marcante por que nos faz refletir que mesmo quando não se tem problema nenhum a gente acha que nossa vida é uma desgraça. E como eu disse eu me identifico com esses textos tristes.

;*

{ Stella Rodrigues } at: 12 de maio de 2010 09:24 disse...

Te linkei ;*

{ Jaqueline Jesus } at: 12 de maio de 2010 11:35 disse...

Nossa! seu texto ficou incrível *-*
Também estou participando dessa edição do bloínques, mas sinceramente espero que o seu texto ganhe, sem dúvidas você merece.
Você soube transmitir toda a intensidade dos sentimentos, pude imaginar todas as cenas perfeitamente na minha cabeça.
Um texto muito bem escrito e emocionante :D
Parabéns!
Vou te seguir, com certeza, rs.
beijoos;*

{ Ellen Azevedo } at: 12 de maio de 2010 12:19 disse...

Adorei o texto, parabéns!
E muito obrigada pelo carinho.
Estarei sempre por aqui.

Beijos coloridos ;)

{ Mycнelle } at: 12 de maio de 2010 13:54 disse...

Texto lindo, emocionante. Me pegou se surpresa. Adorei, de verdade!

{ Flávia } at: 12 de maio de 2010 13:59 disse...

Nossa, ficou liindo o seu post!
Quanta sensibilidade, quanta emoção pra expressar cada detalhe do sentimentos vividos na história.
Fiquei surpresa com o tema desse seu texto!
Ficou mto bom!
E lá vaai vc ganhar outra vez! haha!
Beeeijoos! ♥

{ Juliane Policarpo } at: 12 de maio de 2010 14:43 disse...

amei..
me deu um friozinho e lágrimas os olhos.
certamente tocou cada pessoa que leu.

Beijo querido.

{ Gabriela F. } at: 12 de maio de 2010 19:20 disse...

Meus olhos se enxeram de lágrimas e elas caíram mesmo! Muito lindo o que tu escreveu, rapaz! Esse teu texto me fez pensar em como os relacionamentos são estranhos e até sem sentidos, por que a única certeza, é de que seja por que for, vão acabar! Mas também me fez pensar, que certos 'amores' não se acabam
lindo, lindo, lindo!
beijos

{ Ana Agarriberri } at: 12 de maio de 2010 19:33 disse...

Own, que lindo. Extremamente tocante
e emocionante. De verdade.

Beeejo.:)

{ Milla } at: 12 de maio de 2010 21:18 disse...

Ual! Muuito bom o seu texto! Achei que você descreveu as coisas tão bem e os sentimentos foram tão fortes e sinceros..Boa sorte com o projeto :)

beijos

{ Thiara Ribeiro } at: 12 de maio de 2010 23:40 disse...

Sem palavras!

{ Amanda Lisbôa } at: 12 de maio de 2010 23:58 disse...

chorei horrores!

Simplesmente inigualável!

apesar de triste... perfeito!

{ Lôoh Toledo } at: 13 de maio de 2010 07:25 disse...

esse texto está perfeito!
confesso que esse tema que eu dei meche muito comigo!
e todos os textos que recebo esao ótimos!
Olha saiba que seu texto está ótimo, sou ateé suspeita a falar ja que irei avalia-lo mas muito bom :D

{ Michele } at: 13 de maio de 2010 10:26 disse...

Oi, Rodolpho!

Bom dia! :)

Vim retribuir sua visita e fiquei emcionada com seu texto! Lindo, puro, cheio de força e garra e com uma baita lição de vida!

Não consigo imaginar a dor dos pais que acompanham seus filhos com câncer. Nem a dor dessas crianças que trocam os parques de diversões e escolas pelos quartos e corredores frios de um hospital. Deve ser o tipo de dor que dilacera a alma. Mas dessa história toda, pode-se tirar uma grande lição - como podemos fazer em todas as nossas quedas, afinal! O valor que a vida passa a ter depois de uma luta como essa, é inestimável. Acredito que todas as coisas, mesmo as mais pequenas, passam a ter um outro significado! :)


Um beijo pra você!

{ Lury Sampaio } at: 13 de maio de 2010 13:10 disse...

Texto de uma pureza tão bela.
muito bom seu blog :*

{ Camila Ingrid /Cerejinha } at: 13 de maio de 2010 14:49 disse...

lindo nossa! estou emocionada
seguindo vc
mil beijos

{ Angélica :) } at: 13 de maio de 2010 16:43 disse...

Quase chorei com o texto... Forte mesmo..
Mas Rodolpho, eu vim aqui para avisar que tem um selinho à sua espera no meu blog.. Aperte o Piii..
Um selinho de admiração pra voce!
Bjos!

{ Mali Melo } at: 13 de maio de 2010 17:41 disse...

incrível! nossa, emocionante... Palavras medidas e muito sensível. São exatamente textos assim que me fazem sorrir, emocionada.
Beijos :*

{ ⋆ Mαthєus } at: 13 de maio de 2010 17:48 disse...

Passando aki pra falar q deixei um selo pra vc no meu blog ;)

{ Jaci Macedo } at: 13 de maio de 2010 21:03 disse...

Lindo texto. Gostei bastante.

{ Jéssica F. } at: 19 de maio de 2010 13:14 disse...

texto MARAVILHOSO, história LINDA, e você escreve mto bem *-* . gostei mto dessa parte "O grito sufocante do meu coração me machucou de um jeito que a doença jamais fez. " enfim, estou te seguindo e adorei seu blog, bjs ;*

 

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