Keblinger

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Crime e castigo

| segunda-feira, 24 de maio de 2010
Trancafiado em minha cela especial eu me sentia um animal enjaulado, atrás das grades frias e impiedosas. Sentando em meu catre fétido com a caneta na mão eu colocava no papel tudo aquilo que não pude dizer. Assim que terminei, chamei o carcereiro e o entreguei o envelope.
- Para quem é a carta? - ele indagou.
- Você não sabe ler? O destinatário está escrito aí e minha letra é bem legível - eu disse com meu tom superior. É espantoso como o setor carcerário emprega pessoas tão incompetentes, pensei comigo.
- Você é mesmo abusado de escrever a ela? - ele disse ao ler para quem a carta se destinava e cuspiu no chão.
- Tenho que concordar com você nesse ponto - respondi e dei-lhe as costas. Senti seu olhar desprezível sobre mim antes que seus passos distantes denunciassem sua partida.
Sentei-me novamente, abracei os joelhos e pensei.

- Você não pode desistir. Ela tem razão, você precisa é de uma boa defesa. Pode nos chamar como testemunhas - meus pais me disseram na noite em que fui preso. Ela tem razão, essas palavras ecoavam em minha mente, me lembrando de vozes que eu talvez não voltaria a ouvir. O fato é que ela não tinha razão. Minha esposa não estava certa, eu não havia agido por impulso.
Enquanto eu senti o sangue quente daquele homem em minhas mãos, eu experimentei uma sensação que jamais tive, eu conheci um poder o qual eu não queria abandonar. Ele havia me agredido no bar e eu agi em auto-defesa, assim pensam todos que estavam lá, mas eu o havia coagido a me agredir, eu o havia pressionado a fazer aquilo, mas disso ninguém sabia. Minha defesa tirou a vida dele com uma faca enfiada na jugular.
Deus, como isso foi bom! Eu precisava sentir aquilo, no fundo de meu ser eu sempre contive esse meu lado negro que gritava por liberdade e deixá-lo solto me fez querer nunca mais aprisioná-lo.

Eu sabia que toda carta escrita era analisada antes de ser enviada. Isso é de praxe e até o presidiário mais tolo deveria saber disso.
E essa seria uma maneira rápida de terminar as coisas, não é ? Pois então decidi não adiar mais o inevitável.
"Eu o matei. Eu quis isso. Eu saboreei aquele momento." Essas foram as dez palavras que eu escrevi na carta. Uma confissão. Eu pagaria pelo meu crime, mas o que me consola é saber que isso não o trará de volta.

Soltei meus joelhos assim que ouvi o bando de passos ferozes que vinham em minha direção. Suponho que a carta já tenha sido examinada. Acredito que não vou precisar mais de testemunhas, meu lado negro havia sido libertado, mas meu lado são ainda permanecia. Confessei. Sufoquei esse lado sombrio que tanto desejava espaço. Sei que não sou inocente, apesar de outra parte de mim alegar isso. Nunca acreditei quando os psiquiatras afirmavam a teoria de dupla personalidade, eu não era duas pessoas dentro de uma, eu era uma pessoa querendo ser duas. Soltei a fera dentro de mim e tive um relance de quem seria a outra pessoa que eu me tornaria, isso me agradou e me assustou.
Como auto-defesa eu matei a fera e com isso matei quem eu sou.

"O prazer de um momento não vale o preço de uma vida", eles encontrarão isso em uma outra carta debaixo da cama, espero que alguém entenda.

Pauta para a 45ª Edição do OUAT

Obs: O nome do post é o nome de um livro de Dostoiévski, porém o texto não tem nada a ver com o livro.
Obs2: Foram dadas três frases para o tema dessa edição, eu poderia escolher uma, mas usei as 3 no texto: "Para quem é a carta?", "Você não pode desistir. Ela tem razão, você precisa é de uma boa defesa. Pode nos chamar como testemunhas" e "Seria uma maneira rápida de terminar as coisas, não é? "
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Dia 12 - Uma música que descreve você
(I Wish I Knew How It Would Feel To Be) Free/One - Lighthouse Family

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9 sorrisos compartilhados:

{ Renata } at: 24 de maio de 2010 10:33 disse...

Todo mundo tem o seu lado negro da força, só cabe a você decididr se vai ou se fica. Você escreve muito bem, parabés *-*

Estou louca para ler Crime e Castigo, parece loucura mas é.

{ Nini C . } at: 24 de maio de 2010 12:21 disse...

adorei o texto, agora quero ler crime e castigo, rs... Ah obrigada pelo selo e carinho pelo meu blog, fiquei muito feliz ;D
BEIJOS...

{ Tati } at: 24 de maio de 2010 18:01 disse...

Cada vez melhor. Gostei muito.
Envolvente, ritmo bom, palavras bem dispostas e escolhidas. Gostei mesmo.

Incrível mesmo. Muito bem escrito.

Grande Beijo

{ C. } at: 24 de maio de 2010 19:08 disse...

Você sabe como escrever beem histórias engraçadas e ao mesmo tempo histórias sérias, hein?
Adorei essa. Realmente muito boa :)

{ Jaci Macedo } at: 24 de maio de 2010 20:34 disse...

Adorei. Prendeu-me do começo ao fim. Muito bom, como sempre. Beijos.

{ Milla } at: 24 de maio de 2010 21:39 disse...

Adorei o texto! E fiquei com a frase na cabeça agora: "O prazer de um momento não vale o preço de uma vida".

beijos

{ Carla Rosenvelt } at: 24 de maio de 2010 22:16 disse...

"O prazer de um momento não vale o preço de uma vida"

Acho que isso é bastante relativo. Depende do que o momento traz e depende do que a vida inteira representa.

Lindo texto. Beijos.

{ Jaqueline Jesus } at: 24 de maio de 2010 23:44 disse...

eeeeita mais um pra coleção de ótimos textos heiin *-*
eu amoo muuito a forma como vc escreve :)

{ Flávia } at: 25 de maio de 2010 01:50 disse...

Nossa, que profundidade!!!
Que texto 'criminoso' haha!
Adoreei...
Vc sabe quais palavras usar e em quais momentos deve usa-las... Isso que mais me admira!!!

Parabéns!
Ficou mto bom amor! =D
beijóks

 

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