Keblinger

Keblinger

Trocando o calendário

| sexta-feira, 31 de dezembro de 2010
O velho levantou-se da cadeira assim que viu o jovem se aproximando. O velho estava fraco. Cabelo e barba grisalhos. Recurvado sobre uma bengala. O moço que chegava esbanjava vigor e parecia emanar felicidade.
- Como foi tudo? – ele perguntou ao chegar perto do velho e apertar-lhe a mão.
- Não há como agradar a todos, muita coisa aconteceu. Houve tragédias, catástrofes horrendas e calamidades de todos os tipos, as pessoas ficaram horrorizadas com muita coisa que viram, mas também houve muito amor e serenidade. Muitas pessoas descobriram sua verdadeira essência, outras aprenderam o valor das coisas, tiveram aquelas que erraram durante quase todo o percurso e só no final perceberam que não valia mais a pena insistir no erro. Houve encontros e desencontros, amores e desamores. Muita gente se viu apanhada no meio de um sentimento confuso dentro do peito e se renderam a ele, outras resistiram e o perderam e houve ainda aquelas que sempre o trouxeram consigo.
- Parece uma grande responsabilidade – o jovem observou.
- Sem dúvida alguma, é muita responsabilidade. Hoje muitos me amam, dizem que eu fiz maravilhas em suas vidas enquanto outros me detestam e querem me ver pelas costas. Mas sabe, nenhum dia é igual para todo mundo, cada um vive uma coisa diferente e experimenta coisas novas. Não existe um manual de como devemos agir, a vida vai ensinando conforme você a vive.
- O que mais você pode me dizer?
O velho pensou por um momento e respondeu:
- Você deve ter muita calma e paciência com todos eles, principalmente no começo, você é jovem e vai acabar cometendo erros, mas isso é normal. Não se culpe por aqueles que interromperem o percurso sob seu “reinado”, há muitos que ficaram para trás e nunca poderão te conhecer e, além disso, há aqueles que abrirão os olhos para a vida enquanto você estiver por perto.
- Pelo jeito eles esperam muita coisa de mim.
- Com certeza, eles sempre se enchem de esperança nessa época. Vão lhe pedir amor, paz, dinheiro, sucesso, felicidade e muito mais. Farão promessas para uma vida nova que nem sempre irão cumprir, mas não se frustre por isso, sua missão é apenas acompanhá-los. Alguns se prendem a simpatias estranhas e você pode até dar risada das coisas que eles são capazes de fazer quando te virem chegar.
- E se eu não for bom para eles? Não quero ser odiado.
- Eu já lhe disse, nunca seremos capazes de agradar a todos e você não deve se preocupar com isso, pois você só saberá se foi bom ou não, quando estiver velho como eu e então isso nem importará mais. O que vai fazer de você bom ou não, serão eles. Eles têm o controle de tudo, de criar e cessar guerras, de assassinar e promover a paz. Fique ciente de que tudo pode acontecer. Tempos mistérios estão pela frente, não se prenda ao passado, pois o futuro está em constante mudança. Acredito que não há mais nada que eu possa lhe dizer, você tem que ver com seus próprios olhos.
O jovem consentiu e entendeu o que estava em suas mãos.
- Sente-se – disse o velho apontando para a cadeira – Ela é sua agora – e então ele saiu arrastando os passos pelo caminho contrário ao que o jovem viera.
- Espere – o moço gritou, lá da frente o velho olhou para trás – Adeus, Ano Velho.
Ele sorriu serenamente e respondeu:
- Bem vindo Ano Novo, que você possa ser melhor do que eu.

É isso gente, agora eu só apareço aqui de novo no ano que vem, haha.
Espero que tenham gostado do último conto do ano e não deixem de ler (logo abaixo) meus votos de um feliz ano novo para todos e também ouçam a playlist de ano novo.
Abração e que venha 2011.

Último presente do ano

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Ganhei esse selo super especial da Manie do PE-DRI-NHA, selo feito por ela. Fiquei muito feliz por estar entre os blogs "fofis" da lista dela, haha. E por isso eu vou sorrir mais, pular mais, sonhar mais, abraçar mais, dançar mais e escrever mais.
O selo tem a regra de listar cinco objetivos para 2011, vamos lá então:
1 - Quero continuar mantendo o blog.
2 - Quero deixar de ser procrastinador, hehe.
3 - Espero conhecer mais gente bacana por aqui.
4 - Preciso de um emprego urgente.
5 - E quem sabe eu não publique um livro no próximo ano.

E o selo vai para todos aqueles que passam por aqui e que gostam de verdade desse espaço, vai para aqueles que me encantam com palavras lindas, vai para você que está lendo isso.

Galera, esse ano que já vai se preparando para ficar para trás, abatido e velho, me trouxe muitas coisas especiais, me trouxe a esse mundo onde eu posso escrever livremente, me trouxe vocês, me trouxe alegrias sem tamanho, crises de risos de escorrer lágrimas dos olhos, me trouxe amor, amizade, carinho, cumplicidade e também me trouxe despedidas, lágrimas de dor e saudade. Talvez por tudo isso e mais um pouco, esse ano vai ser inesquecível e ficará para sempre guardado na memória e no meu coração.
Eu desejo a todos um feliz ano novo repleto de sorrisos, de felicidade, paz, amor, saúde, união e que a esperança seja sempre renovada. Espero ter vocês aqui comigo nos próximos dias e meses que virão e espero poder acompanhá-los, na medida do possível.
Que a gente possa fazer do mundo um lugar melhor, aos poucos, através das palavras.
Um grande abraço e obrigado por terem me ajudado a fazer daqui um lugar cada vez mais aconchegante nesses 365 dias.

Que venha o amor

| quarta-feira, 29 de dezembro de 2010
♪ (...) Eu vou esperar você amor
Pode ser o tempo que for
Eu tenho a eternidade aqui comigo... ♫

De todos os desejos que temos na virada de ano, o amor está sempre presente, colorindo nossos pensamentos e dando voz a todas as promessas feitas. Eu já passei por vários "trinta e um de dezembro" com a expectativa de que no próximo ano eu pudesse me tornar alguém melhor e que pudesse realizar, pelo menos, um pouco dos meus sonhos, mas apesar dessa esperança cega eu possuía a convicção realista de que eu me frustraria e que nem metade do que eu esperei aconteceria.
É claro que todos esses sentimentos positivos se renovam a cada final de ano e acho que estamos certos em sonhar e esperar pelo melhor, sempre. Não acredito que a cor da minha roupa definirá como vai ser o meu ano, isso é apenas uma superstição que favorece o mundo capitalista.
Veja só você, eu estou aqui no meio da rua, faltam apenas dez minutos para a meia-noite e para a tradicional contagem regressiva comunitária e eu fico divagando sobre roupas, desejos e promessas. Eu realmente preciso organizar minhas prioridades.
Mas se isso é importante para você, eu acabei optando pelo branco de sempre e usando uma fitinha rosa no pulso, pois me disseram que essa cor atrai emoções. As bolhas do champanhe na minha taça sobem alegres e estouram ao tocar a superfície, como se gritassem boas-vindas para o primeiro de janeiro que vem chegando ali na esquina da frente.
Nesses últimos minutos derradeiros da despedida de um ano que me fez tão bem me deixa na esperança de que o próximo ano será melhor ainda e eu paro para analisar as coisas que eu fiz, as que eu não fiz e as que eu deveria ter feito, vou me arrepender apenas por aquelas oportunidades que eu deixei passar e que talvez tivessem dado um sentido novo para minha vida, pelo menos, na época.
Vou me agarrar ao trivial e não fazer grandes planos e metas para esse ano que vai começar e, definitivamente, vou manter meu coração aberto. Quero encontrar um amor e quero que ele me encontre, quero ter a certeza de que eu sou capaz de sentir um bater diferente dentro do peito e que esse bater possa ser compartilhado.
O amor sempre me escapou por entre os dedos e talvez eu não o tenha agarrado por medo do que pudesse acontecer, eu o deixei fugir, eu permiti que ele me encontrasse, me escolhesse e quando ele jogou todo seu poder e devoção sobre mim eu me senti sufocado e preferi voltar a ser aquele homem em busca do sentimento perdido.
É bem verdade que aprendemos a dar valor quando perdemos as coisas, eu aprendi isso na experiência e isso me fez entender ainda mais as pessoas e a mim mesmo, embora eu ainda ache que levará algum tempo até que eu mude meu jeito de agir e pensar e até que meu coração esteja preparado para ser completamente dado a alguém.
10, 9, 8... Eu me despeço desse ano feliz por ter vivido cada momento.
7, 6, 5... Eu não nego meus erros, pois eles me ensinaram muito e valorizo meus acertos, pois eles me deram a razão quando eu mais precisei dela.
4, 3, 2... Esse ano me deu e meu tirou muita coisa, talvez seja isso que o tornará ainda mais inesquecível.
1... E então, os fogos de artifício anunciam que o ano novo está presente.
As taças se erguem, os braços se abrem em abraços calorosos, as vozes desejam tudo do bom e do melhor aos ouvidos atentos e sorrisos são trocados.
Os pedidos mais profundos estão depositados dentro de mim, ainda não encontrei uma maneira de fazê-los sair, mas eu desejo mais discernimento e perspicácia. Desejo mais altruísmo e atenção aos verdadeiros valores. Espero conseguir aproveitar mais as oportunidades oferecidas e, acima de tudo, eu almejo o amor. O amor para mim, para acalentar meu pobre coração cansado, um amor desconhecido, ainda sem rosto e sem voz. Eu vou esperar esse amor chegar sem contar o tempo, vou usá-lo como aliado para que quando esse dia despontar no horizonte eu possa dizer que valeu a pena ter esperado.
Quero o amor para você, que assim como eu não o conhece ou também o deixou partir, colhendo apenas lembranças do que restou de sua passagem.
Quero amor para o mundo, que necessita desse sentimento desde quando eu passei a entendê-lo.
Então, um brinde ao amor e a tudo aquilo de bom que ele trouxer consigo.

Pauta para o Bloínquês

Ao final do inverno

| segunda-feira, 27 de dezembro de 2010
Com seus olhos de botão, pregados na gélida neve, que fora moldada como uma bola, ele via o mundo ao redor. Árvores desfolhadas e com gotas de água congelada agarradas nos galhos tentavam acenar de longe, mas o frio rigoroso não as permitia qualquer forma de contato com o simpático boneco de neve do parque.
A vida lhe fora dada há poucas semanas, quando o inverno começava a perder sua majestade e se preparava para um passeio longo. Como todo boneco de neve, ele era composto de um corpo rechonchudo e uma cabeça redonda. Um cachecol vermelho lhe dava charme, olhos de botões, nariz de cenoura e um sorriso de pedrinhas lhe davam um rosto feliz. Galhos secos lhe davam braços e um chapéu preto lhe dava um ar respeitoso.
O boneco fora muito bem feito e rapidamente se tornou a atração do parque da cidade, que ficara abandonado devido ao frio. Nenhuma criança usava os balanços ou o escorrega com um tempo nada agradável daqueles, isso deixava o boneco triste, pois ele apenas vivia sob aquelas condições climáticas, no entanto, pessoas apareciam de vez em quando para serem fotografadas ao seu lado.
A cada flash de uma câmera nova, ele exibia seu melhor e único sorriso e encantava a todos. “Se tudo fosse quente como o inverno o mundo seria melhor” Ele pensou.
Não, ele não estava errado e nem soava contraditório. O inverno traz calor ao coração e, de alguma forma especial, aproxima as pessoas. Nota-se então, que, além de tudo, o simpático boneco sorridente era um sábio. É uma pena que tantas pessoas hoje em dia não possuem essa perspicácia de um boneco tão novo.
A cada dia que passava o pobre boneco via o seu fim se aproximando, enquanto o sol despertava mais caloroso nas manhãs e o vento soprava o frio para longe da estação.
Seus olhos de botão olhavam apreensivos para os lados à procura da neve que se tornava rara e seus bracinhos magricelos tentavam agarrar qualquer floco perdido na esperança de permanecer ali por mais algum tempo. Como um boneco tão esperto não sabia que a vida do inverno termina com o equinócio da primavera? Bem, nenhum boneco viveu muito mais do que isso para saber.
As pessoas pararam de procurá-lo para fotografias familiares, as gotas começaram a se desprender das árvores e a se jogarem ao chão escorregadio e úmido. Então ele soube que o fim iminente estava mais próximo do que ele esperava. Seu sorriso derreteu-se em um semblante de tristeza e os olhinhos de botão perderam o brilho do calor que o inverno lhe dera.
A primavera é a estação do despertar. Animais dorminhocos abrem os olhos para um céu de puro azul, folhas brotam nos galhos secos e botões de flores desabrocham para uma vida nova, porém a primavera também é uma estação de despedidas. A neve derrete, o frio coloca um casaco grosso e se aquece e o boneco dá adeus ao parque que tanto lhe fez companhia naqueles dias quentes de frio.
Um garotinho que ali passava, rigidamente agasalhado, se deparou com o sorriso contrário daquele boneco que estava congelado para sempre em uma fotografia sob a lareira da sala e pensou que aquilo não poderia ficar assim. Rapidamente ele correu até o companheiro de neve e converteu seu rosto triste em um sorriso amigável, do que jeito que tinha que ser.
E o boneco permaneceu sorrindo enquanto seu corpo se desfazia em lágrimas de água gelada que a terra absorvia. Assim que as pedrinhas de sua boca tocaram o chão e formaram um círculo no solo, havia um broto encolhido em seu centro. Uma vida que fora mantida no interior do boneco.
A primeira manhã de primavera trouxe o sol em seu total esplendor. O parque voltou a ser visitado por crianças, adultos e idosos.
O boneco não existia mais, mas dentro de seu sorriso um broto havia surgido e crescia orgulhosamente sob o olhar da estação das flores e esse broto estaria forte e grande quando o inverno voltasse a reinar na cidade e faria companhia ao boneco que seria feito por ali.

Nono texto em homenagem aos blogs, o Ao final do inverno é o blog do Fernando. Espero que todos tenham gostado do último conto de homenagem de 2010.

Crise natalina - Parte 4 (Final)

| sábado, 25 de dezembro de 2010
Hora do conto - Para entender, leia a Parte 1, Parte 2 e Parte 3

Noel se sobressaltou ao ver um enorme urso polar correndo em sua direção. O animal se aproximou e encarou o bom velhinho, intrigado com seu aparecimento no meio do nada. Ele passou a mão enluvada no pêlo no urso e o montou cautelosamente.
O vento forte permanecia e depois de algum tempo de caminhada, outro pontinho se destacou na imensidão branca. Noel sorriu ao ver que era Dasher e que ela estava perfeitamente bem. Ele deu uma bronca na rena pelo seu desaparecimento e os três seguiram em frente.
- Vou precisar de sua ajuda, minha amiga – ele falou à rena assim que chegaram à beira mar gelado.
Ela entendeu o recado e deixou que ele a montasse. Dasher era a mais rápida de todas, Noel estava um pouco acima do peso, mas mesmo assim ela foi capaz de voar carregando-o.

Ao chegarem à cidade do menino Nicolas, passaram em um supermercado antes, onde Noel comprou um panetone e então seguiram para o hospital.
Seu iPhone vibrou com uma mensagem dizendo que os computadores haviam sido consertados e o banco de dados recuperado. Com uma mensagem aos PDAs dos duendes ele cancelou a fiscalização.
De alguma forma a informação da visita de Papai Noel a Nicolas se espalhara pelo mundo todo e havia várias pessoas no hospital aguardando sua chegada.

Nicolas, um menino franzino, veio ao seu encontro e lhe deu um abraço, sorrindo com olhos molhados e agradeceu.
- Eu trouxe isso para você – Noel entregou-lhe o panetone.
- Venha, quero que você conheça minha mãe – o menino pegou na mão de Noel e o guiou pelos corredores.
A mãe do menino estava presa a sondas e ligada a aparelhos que monitoravam sua respiração e batimentos cardíacos.
- Ele veio mamãe, eu não disse que ele viria?
Ela sorriu para Noel e ele entendeu que acreditar é o primeiro passo para qualquer realização e que se ele existia de fato era por causa de todos aqueles que acreditavam.

A mãe de Nicolas teve o melhor Natal que ela poderia ter e seu filho se sentia orgulhoso por causa disso. A notícia da carta do garoto se espalhou para todo canto, mobilizou pessoas e entidades que se propuseram a ajudá-los como pudessem. As cartas que Noel passou a receber eram de crianças que cediam seus presentes para o menino do hospital.
Esse, como havia sido dito antes, foi um Natal sem presentes, mas no sentido material, pois todas as crianças, até mesmo aquelas mais egoístas, aprenderam o que é solidariedade e entenderam o verdadeiro sentido da época, que não é receber, e sim doar.

O aquecedor de cascos de renas foi construído e foi um sucesso. Dasher voltou ao lar. As preparações dos presentes para o próximo ano começaram. Um antivírus e firewall poderosos foram instalados nos computadores do escritório em Rovaniemi e os duendes passariam por um treinamento de boas maneiras.

“Um Feliz Natal a todos #HOHOHO.” Foi o que Noel escreveu em seu twitter à meia-noite de 25 de dezembro.

É isso, espero que tenham gostado de mais esse conto e um Feliz Natal meu para todos vocês. Abraços e curtam a Playlist de Natal.

O pedido de Gisele

| sexta-feira, 24 de dezembro de 2010



Quer saber o que ela pediu?
Não





Clique em sim para ver meu 13º texto no Contos Franqueados.

Presentes de Natal

| quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Ganhei este super selo oficial do Writeland da Fernanda Pessanha e fiquei muito feliz com a indicação e por considerar meu blog complexo, haha. Isso é bom, né?
Mas enfim, como todo selinho, esse tem algumas regrinhas simples a serem seguidas:

1º Qual a coisa (pessoa, objeto, lugar, o que você quiser) mais complexa que você já admirou?

Pessoa? Eu diria as mulheres no geral, me desculpem, mas nunca serei capaz de entender as mulheres. Isso não é uma coisa negativa, pois o que eu não entendo é misterioso e eu adoro mistérios.
Objeto? Não é bem um objeto, mas eu acho bem complexas as pirâmides do Egito e o Stonehenge, aquele lance do mistério de novo, sabe?
Lugar? O universo é um grande lugar bastante complexo, isso me intriga.

2º Indique no mínimo um blog e no máximo quantos você quiser que te faz pensar quando lê os textos.

Ok, vamos para a indicação dos complexos:

3º Diga-os para postar o selinho e seguir as instruções.
Pode deixar.



E esse outro selinho da época, eu ganhei do Fernando do Ao final do inverno, agradeço muito também pelo carinho e reconhecimento. E não sei se ele tem regras, mas indico a todos que passam por aqui, de verdade, sintam-se à vontade para pegá-lo. Aproveita porque é de graça, haha.

Galera, eu estive pensando esses dias (eu sempre penso no final do ano) no quanto este espaço me fez bem durante esse ano. Aqui eu pude me mostrar sem medo de rejeições ou julgamentos, pude expôr meus pensamentos, ideias e sentimentos e mais, pude compartilhar tudo isso com vocês, pois acredito que o verdadeiro sentido disso tudo é compartilhar. É doar-se, de alguma forma, e receber algo em troca.
Por meio do blog eu conheci diversas pessoas inteligentes, simpáticas e fiz amizades (ainda que virtuais) e fico muito feliz por saber que ao chegar 2011 eu terei muito mais coisas para contar sobre esse ano que termina, sobre as pessoas que conheci aqui e sobre meu auto-conhecimento.
Muito obrigado a todos vocês que me ajudam fazer isso aqui e sei que ainda é um pouco cedo para dizer isso, mas espero continuar na companhia de vocês no ano que vem.
Grande abraço desse cara complexo (?) que tenta fazer do sorriso uma arte.

E para quem não viu, a playlist está atualizada.

Louco amor

| terça-feira, 21 de dezembro de 2010
Repousei o corpo vazio dela na grama do jardim. Seu semblante sereno e sem vida grudou-se em minha retina e mesmo de olhos fechados eu ainda podia vê-la.

Naquele momento eu só conseguia pensar no passado e nas circunstâncias que levaram aquilo a acontecer. Meu sangue era atirado de um lado para o outro em meu corpo, por meu coração despedaçado que gritava de culpa.
Eu nunca desejei que isso tivesse acontecido, tentei me controlar ao máximo para manter a situação no controle, mas não pude.
O líquido rubro que deslizava para fora do corpo dela manchava minha camisa branca e corrompia a inocência do tecido, a vida fluindo de seu corpo e a morte se apoderando aos poucos.
A faca que arrancara sua vida jazia no canto da sala, ao lado da poça de sangue que se formou gradualmente. A faca fria e silenciosa.
Nada disso era para ser assim. Por que ela teve que despertar o monstro nefasto que se escondia dentro de mim?
A grama começava a pinicar as minhas pernas, enquanto meus olhos não se desgrudavam daquele corpo pálido no jardim. O sol começava a recolher seus raios, calmamente. Em breve o caos começará, uma multidão se formará ao meu redor, dedos serão apontados e vozes rotularão um culpado. Luzes e sirenes protagonizarão a cena crucial daquela cena do crime.

1 hora antes

O telefone toca, do outro lado da linha há um silêncio perturbador antes de uma voz insana começar a falar:
- Eu preciso de uma resposta – ela disse e o choro engasgado saltou de sua boca e pontilhou cada palavra.
- Eu já te disse o que vai acontecer – respondi brandamente.
- Não. Eu quero você, só você. Vamos ficar juntos...
- Já disse que não, droga – o monstro começava dar sinais de despertar.
- Você não pode fazer isso comigo. Você me prometeu que ficaríamos juntos, você jurou que me amava...
- Você enlouqueceu? – minha voz subiu dois tons – Eu nunca falei nada disso, eu...
- Cala a boca, eu não quero ouvir mais nada. – o grito dela socou meus ouvidos e isso acordou a fera.
- Agora você vai me ouvir. Eu nunca te amei, nunca dei motivos para você acreditar que existisse algum sentimento meu por você. Você é uma mulher perturbada e obsessiva, eu quero você fora da minha vida, entendeu? FORA.
O silêncio voltou por um momento.
- É isso mesmo que você quer? Então você terá – e a ligação foi encerrada.

Agora

Eu cheguei aqui o mais rápido que pude, mas quando entrei na casa ela já havia cortado os pulsos e sangrado até a morte. O sangue dela refletiu a expressão de horror no meu rosto.
Eu estava noivo de outra mulher e ela jamais aceitou isso, ela possuía esse amor doentio dentro dela que eu nunca soube direito como lidar.
Eu fiz isso. A culpa pairava sobre mim e sibilava “você nunca mudará o que aconteceu” e ela estava certa, eu nunca poderia reverter aquilo. Ela estava morta por causa do que eu disse.
Liguei para a emergência e para a polícia e eles estão perto agora.
A noite caiu. O tumulto começou. Primeiro uma vizinha saiu de casa e gritou assustada ao ver a cena no jardim da casa ao lado. Uma moça morta e um homem todo sujo de sangue.
Os policiais me arrastaram para longe e me algemaram, o corpo dela foi colocado em uma maca e levado para outra direção.
- Eu sou inocente – uma voz dizia em minha cabeça, mas eu não conseguia pronunciar estas palavras.

Depois do meu testemunho e de outras pessoas, foi comprovado que ela era mentalmente instável e que aquilo tudo realmente se tratava de um suicídio.
Eu fui liberado sem maiores complicações, mas será que algum dia eu vou me perdoar verdadeiramente pelo o que aconteceu?

Pauta para o Bloínquês - Edição Musical e Projeto Créativité - Edição C&F
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Playlist atualizada

O livro da capa vazia

| segunda-feira, 20 de dezembro de 2010
Como toda boa girafa que se preze, eu sempre estava por dentro de tudo o que acontecia no zoológico. Ter esse pescoço enorme tem suas vantagens. Tenho um armário cheio de histórias para contar, mas uma em especial merece destaque, se aproximem e ouçam com atenção.
Primeiramente, tenho que apresentar os personagens dessa minha narração:
O casal de catetos, o porco-do-mato e uma jabuti.

Tudo começou quando o cateto macho foi transferido de um zoológico do sul da Espanha para cá, ele era meio estranho, quase não conversava com ninguém e nunca se decidia por nada. Não arriscaram colocá-lo junto com a cateto fêmea, pois talvez os dois se estranhassem à primeira vista. Sendo assim, os dois catetos viviam em jaulas separadas.
A atração dos catetos demorou um tempo para acontecer, mas por estarem separados e pela indecisão da parte dele, nada nunca chegou a acontecer.
A jabuti, também recém-chegada, se tornou uma grande amiga da cateto e as duas davam boas risadas ao imaginar o cateto mergulhado na lama.
A cateto esperava uma atitude dele, uma resposta concreta, um sim ou um não, qualquer coisa seria melhor do que viver naquela dúvida terrível que abria portas para divagações e suposições sobre os verdadeiros interesses do cateto.
O porco-do-mato, que por infelicidade acabou dividindo a jaula com o estrangeiro, era amigo da cateto e tinha uma forte opinião a respeito de seu novo colega de jaula. Ele afirmava veementemente que aquele cateto espanhol era uma anta enrustida.
A pobre cateto, além de tudo isso, sonhava em encontrar um grande bisão para amar.
Nas vésperas de final de ano, com o orçamento apertado, o zoológico se viu forçado a devolver o cateto para suas origens espanholas e antes de partir ele disse que daria um presente para a cateto, assim, um dia antes de sua partida ele deixou um livro feito de folhas com o porco-do-mato para que ele entregasse para ela.
Quando o presente finalmente chegou até ela, a decepção veio junto. O livro não tinha nada demais, a capa era vazia, as páginas todas ocas e nenhuma palavra dele para ela.

A cateto entendeu que aquele livro em branco era destinado à criação de sua própria história, que ela escreveria lindamente. Talvez ela encontre o bi-são da sua vida um dia e enquanto isso não acontece, ela, a jabuti e eu, nos divertimos às custas de um cateto viajante que talvez nunca venha a descobrir qual o seu verdadeiro destino.

Para finalizar minha narrativa só tenho a dizer que qualquer semelhança é mera coincidência.

Pessoal, esse texto altamente biográfico foi escrito para uma amiga, ele pode parecer meio sem pé nem cabeça, mas tudo isso faz bastante sentido.
Ah, e eu não poderia deixar de agradecer por todos os comentários de feliz aniversário no post anterior. Fico muito feliz com o carinho de vocês. Um abração!

Dois patinhos na lagoa

| domingo, 19 de dezembro de 2010
É hoje (finalmente eu descubro o que tem dentro da caixinha).
Como eu me sinto? Do mesmo jeito, para falar a verdade.
Aniversários são datas importantes, não há como negar, têm seu lado positivo (você está vivo) e negativo (você está ficando velho).
Ainda não sei o que esse dia me reserva (porque estou dormindo e a postagem estava programada), não sei quantas pessoas me desejarão "feliz aniversário" com emoção nem quantas farão isso apenas por educação. Tá, eu confesso, é legal ser lembrado, eu valorizo todos aqueles que tiram pelo menos um segundo para vir até mim, de alguma forma, e dizer "Parabéns".
Enfim, ficar aqui desejando os parabéns para mim mesmo soa um tanto egocêntrico, por isso vou terminar esse post com os selos que ganhei do Helder, da Luana Santana e da Thammy (eles me presentearam sem saber do dia de hoje, que coincidência, haha)




E tem as seguintes regras (do primeiro e do terceiro selo):
1- Falar 10 coisas sobre mim.
2- Dedicar para outros 10 blogueiros. (Olha, eu faço aniversário e quem ganha o presente é vocês, parece propaganda de loja né? Tá, parei)
3- Avisá-los sobre a dedicação.

Já falei tanta coisa sobre mim por aqui, deixa eu escolher umas diferentes:
1 - Sou um tremendo procrastinador.
2 - Tenho uma imã que me coloca no meio de problemas alheios.
3 - Queria poder cantar bem.
4 - Detesto pessoas fúteis.
5 - Sou mais presente na minha vida online do que fora dela.
6 - Já ganhei no bingo (até que enfim posso dizer isso. Rumo ao: ganhei na megasena, haha)
7 - Quem não me conhece me acha chato (poxa, logo eu que sou tão legal. Ok, isso foi chato)
8 - Ainda não montei minha árvore de Natal.
9 - "Eu vejo gente morta" (tá, essa foi para descontrair mais um pouco).
10 - Eu já escrevi um livro. (ahaam, essa é novidade. Estou o editando aos poucos para então tentar publicá-lo)

E os selos vão para:

Espero que tenham gostado desse post inutilmente informativo, hehe.
Grande abraço!

Para ver todos os selos clique aqui.

Crise natalina - Parte 3

| sexta-feira, 17 de dezembro de 2010
Hora do conto - Para entender, leia a Parte 1 e Parte 2

Noel terminou de ler a carta e deu razão ao duende que a enviou, era realmente interessante e despertou nele uma curiosidade pelo garoto que a mandara. Enviou um e-mail para todos os funcionários com os PDA's que estavam na cidade onde o garoto residia e pediu que quem tivesse o nome dele na lista que entrasse em contato o quanto antes.
Mesmo com o casaco grosso, o frio lá fora era intenso e ele não podia se dar ao luxo de contrair um resfriado justo no período natalício. Saudou as renas no caminho da porta de entrada. Entrou na casa e acendeu a lareira e pôs a esperar pela resposta ao seu e-mail.

O duende leu duas vezes o nome do garoto na lista do seu PDA e releu a descrição que ele mesmo havia feito sobre o garoto e mesmo depois de ter avaliado centenas de outras crianças, se lembrava muito bem de quem era.
Nicolas - Exemplo de criança prestativa e atenciosa. Passou os últimos meses entre a escola e o hospital, onde a mãe se encontra internada devido a um câncer em estado terminal.
Classificação comportamental - 5 estrelas.
Ele copiou a informação e enviou a Noel.

Uma nevasca estava começando quando a mensagem chegou. O bom velhinho leu e entendeu o que o garoto queria. Rapidamente ele se ajeitou para sair e ao abrir a porta deu de cara com uma densa cortina de neve, foi até o trenó que estava grudado ao gelo do chão, bem com os cascos das renas. Os huskies que o haviam levado até lá havia desaparecido e ele percebeu que não teria como sair dali a não ser caminhando.
Voltou para a casa, calçou botas para andar na neve e óculos de proteção contra o vento frio e seguiu contra o vento. A caminhada era difícil, depois de algum tempo o iPhone ficou sem sinal e a nevasca parecia aumentar.
Logo a frente avistou um pontinho se mexendo e gritou por ajuda. O que quer que fosse aquilo que estava lá longe veio correndo em sua direção.

EM BREVE - PARTE 4 (FINAL)

E se...

| quarta-feira, 15 de dezembro de 2010


E se... o quê? Vamos descobrir?
Não



Clique em sim para ver meu 12º texto no Contos Franqueados.

O homem que se apaixonou pela lua

| domingo, 12 de dezembro de 2010
Ele era um homem solitário, de poucos amigos e poucas palavras. Ele guardava somente para si os sentimentos bons que sentia e com isso os afogava em seu próprio ser.
Ele tinha um segredo que poderia torná-lo insano à vista das outras pessoas. Esse homem toda noite vai para a sacada de sua casa e flerta com a lua. Ele era um homem apaixonado pelo corpo celeste brilhante e regente das marés.
O homem que foi seduzido pelo encantamento da rainha da noite, passava o dia todo a esperando surgir, para admirar a sua luz que banha o mundo sem fazer distinção.
A paixão completamente platônica dele surgiu em uma noite depressiva, em que ele estava deitado na cama, vasculhando memórias de dias felizes, suspirando por desejos não realizados... Uma luz tímida se esgueirou através da cortina fina que a brisa teimava em sacudir e quando ele finalmente a contemplou seu coração pareceu se encher com toda aquela luz e ele soube que havia encontrado seu grande amor.
Você pode até dizer que a solidão tirou sua sanidade, mas o que ele sentia desmentiria sua opinião, até porque a gente nunca sabe de quem vai gostar, ou nesse caso, do que vai gostar. Vou concordar que isso tudo soa absurdo demais, eu mesmo fiquei pasmo quando soube dessa história.
Ele não era um homem com desejo de ser astronauta para pisar na lua, ele queria o amor dela, queria que ela virasse o rosto para sua direção e atirasse beijos flutuantes de estrelas cadentes, mas é claro que isso nunca aconteceu.
Passei uma ou duas vezes pela sacada dele enquanto voltava de festas noturnas e ele estava lá, olhando para o alto, ora brigando com algumas nuvens traiçoeiras que encobriram sua amada, ora conversando com sua donzela de luz. Sabe que eu não o achei maluco nesses dias, eu simplesmente sorri, abaixei a cabeça para dar-lhes privacidade e continuei meu caminho.
Quem sou eu para julgar o sentimento de alguém? Quem sou eu para dizer que uma pessoa está louca por ter dentro de si um coração apaixonado?
Todo romance, por mais água-com-açúcar que seja, mostra que o amor pode nascer dentro de qualquer um e que coisas impossíveis podem acontecer se você acreditar com fervor e fizer tudo o que estiver ao seu alcance.
Não sei se você, assim como eu, acabou simpatizando-se com a história desse homem louco de amor, mas obviamente não houve um final feliz para o casal, sinto informar.
Mas eis aqui o que aconteceu:
- Esse prateado da lua aí, é só fachada – uma moça falou olhando para o homem na sacada.
- E o que você sabe sobre a lua? – perguntou ele irritado.
- Sei que ela nunca vai te amar de volta – rebateu ela.
As palavras dela lhe atingiram como um soco no estômago, tiraram-lhe o ar por um momento e o fizeram engolir o que quer que fosse que ele daria como resposta.
Ele olhou para sua musa inspiradora lá no alto, que nunca lhe sorriu nem retribuiu com um mero aceno e se perguntou se era verdade que tal sentimento bombeado pelo seu coração nunca poderia ser retribuído. A luz pálida e silenciosa friamente mostrava-lhe que sim, que a lua poderia irradiar o mundo com sua luz apaixonante, mas ela nunca seria capaz de amar alguém.
Ele suspirou cabisbaixo, derrotado pelo próprio sentimento irreal, como uma semente que ameaça brotar para depois morrer sufocada. Tudo aquilo era uma ilusão que ele criara para não viver sozinho, tudo estava em sua cabeça, contudo se seu coração era grande o bastante para acomodar um amor lunar, com certeza suportaria qualquer tipo de amor.
- Você tem razão, a lua nunca vai me amar, talvez você pudesse me mostrar alguém que possa – ele jogou as palavras para a moça lá embaixo.
Ela sorriu, surpresa com a resposta, acenou de leve com a cabeça e esperou o homem descer para se juntar a ela.
E assim, a moça da sacada da frente, que observava o apaixonado solitário toda noite, venceu o duelo contra a gigante do céu.

Passei na frente da casa dele a noite passada e presenciei um beijo cheio de amor sob a luz da lua e quando olhei para o alto, vi que ela sorria para o casal.

Pauta para o Bloínquês

Crise natalina - Parte 2

| sexta-feira, 10 de dezembro de 2010
Hora do conto - Para entender, leia a Parte 1

O tweet polêmico do Noel teve uma repercussão extraordinária, rapidamente atingiu milhares de RTs e respostas de todos os tipos, de pais de crianças que souberam do veredicto pela televisão e de crianças que criaram contas justamente para falar com ele.
Alguns o encorajavam a não desistir e continuar em frente apesar do que estava acontecendo, outros o repreendiam dizendo que aquela era uma brincadeira de muito mau gosto, muitos reclamaram e alguns ignoraram o conteúdo da mensagem e fizeram pedidos. Noel se surpreendeu com o que as pessoas conseguiam escrever em meros 140 caracteres.
O bom velhinho teve que se retirar de seu escritório e retornar ao Pólo Norte devido a crescente onda de repórteres ávidos que buscavam uma entrevista oficial. Ele deixou um time de duendes bem treinados para o serviço de manutenção e formatação dos computadores, assim como especialistas da área tentavam recuperar os dados perdidos.

O frio das geleiras o recepcionou com uma lufada de ar e neve. As renas ficaram eufóricas com a presença de seu dono e o desaparecimento de Dasher ainda o preocupava. Era possível que a rena tivesse andando sobre uma fina camada de gelo que se partira e... Ele nem gostava de pensar nisso.
Sua casa no deserto polar é simples e aconchegante, nada comparada o escritório na Finlândia que está sempre movimentado e barulhento por causa da confecção de alguns brinquedos.
Ultimamente as crianças têm pedido equipamentos eletrônicos que os duendes não estavam capacitados para montar, com isso Noel tinha que fazer cotações de preços e comprar direto dos fabricantes, sempre pedindo um desconto razoável.
O velho Noel sentiu uma vibração no bolso de seu casaco vermelho e percebeu que era seu iPhone. Um duende em seu escritório falou sobre uma carta interessante que ele deveria ler e disse que a encaminharia por e-mail. Assim que a carta chegou em anexo em sua caixa de entrada, ele começou a ler.

Papai Noel

Sei que fui uma criança boa, tirei boas notas e ajudei nos serviços de casa. Eu sei que muitas crianças que eu vejo têm tudo aquilo que pedem e talvez nem se lembrem do senhor nessa data. Mamãe diz que elas são ricas e não precisam do senhor, mas acho que não sou rico, porque eu não tenho brinquedos iguais os de algumas crianças que eu conheço.
O natal sempre foi uma época gostosa, adoro panetones e a ceia de Natal, mesmo que não seja igual as que eu vejo na televisão com aquele monte de gente e aquela mesa enorme cheia de comida.
Eu não quero pedir brinquedo nenhum. O que eu quero pedir nessa carta, Papai Noel, é que minha mãe possa ter um bom natal.

Nicolas.

EM BREVE - PARTE 3

Momentos

| quarta-feira, 8 de dezembro de 2010
Chega um momento em que a gente pára de questionar as coisas, momentos em que sabemos as respostas, mas temos medo de proferi-las em voz alta ou momentos em que elas simplesmente não existem. É nessa hora que a gente percebe que nem tudo é como foi, que por mais que tenha sido parecido, o ontem não é igual ao hoje. As coisas mudam aos poucos, tudo requer tempo, paciência e disciplina, mas nem sempre estamos dispostos a ceder nosso tempo, usar de nossa paciência e honrar com a disciplina.
Grande parte das coisas parecem fadadas a um fim com prazo de validade pré-estabelecido, ora por um ceticismo aterrador, ora por falta de coragem. Embora a vida seja feita de inícios e fins, idas e vindas e altos e baixos, ainda existem momentos bons aos quais devemos nos agarrar para percorrer a maratona de horas de dor. Tudo tem um preço e ele se chama sacrifício. A vida não é um mar de rosas e se fosse, imagine quantos espinhos existiriam.

Chega um momento em que nossos pés cansam de caminhar numa estrada que parece sem fim ou com um fim diferente daquele que esperamos e são nesses momentos que devemos decidir se recuamos e fazemos o caminho inverso ou se continuamos a caminhar apesar das pedras e obstáculos.
A gente faz de nossa vida um jogo de suposições e invenções. Supomos coisas, pessoas, atitudes, e sentimentos. Inventamos estereótipos, gestos, palavras e mentiras. Nem tudo é tão maravilhoso da maneira que imaginamos e nem tem tudo é tão desesperador quanto um grande pessimista suporia, apenas devemos ser, existir e viver como nós mesmos.
As piores decepções vêm daquelas malditas suposições e desejos que temos. Não podemos querer que alguém seja como gostaríamos, não podemos inventar uma pessoa ideal na nossa cabeça e depois se achar no direito de se frustrar por ela não corresponder às nossas expectativas fracassadas que estavam erradas desde o começo, justamente por terem sido criadas.

Chega um momento em que procuramos culpados, apontamos dedos e cuspimos "a culpa é sua". Chega um momento em que o próprio reflexo no espelho nos olha com desdém e vemos que quem errou está refletido ali. Chega um momento em que não existem culpados, afinal.
A culpa é uma coisa relativa, ambígua e inconstante e é por isso que a atiramos para os lados como se fosse uma coisa asquerosa que não nos pertencesse, mesmo quando ela é só nossa. Mas quando e como escolher culpados? Ser culpado é algo pessoal, não é algo que alguém tenha que lhe dizer, você, no seu âmago, sabe se é ou não.

Chega um momento em que divagar assuntos aleatórios aparenta levar a lugar nenhum. Chega um momento em que todas essas divagações se mostram frutíferas e colhemos bons resultados ou até mesmo aquelas respostas que estavam escondidas dentro da gente. Chega um momento crítico e impulsivo, o qual pode ou não gerar futuros arrependimentos. E é quando agimos de cabeça quente, deixamos apenas a emoção (ou será a razão?) tomar conta e somos, talvez, imprudentes. Chega um momento em que temos que dar um basta, em qualquer coisa que mereça tê-lo, muitas vezes, porém, não sabemos como fazê-lo.

Mas chega um momento que, apesar e além de todos os decorridos, é o ponto final. É o fim. O "the end" desprovido de créditos.
O momento de recomeçar e tentar outra vez.

Uma noite de azar

| segunda-feira, 6 de dezembro de 2010



Vem comigo desvendar o que aconteceu nessa noite?
Não




Clique em sim para ver meu 11º texto no Contos Franqueados.

A falta que o tempo trouxe

| domingo, 5 de dezembro de 2010

Tudo chega ao fim, é o que prega a melancolia e o tempo que se arrasta de forma imperceptível até o momento derradeiro que ele se projeta diante de nossos rostos e nos força a aceitar que ele tem o poder. O tempo tão mascarado por gargalhadas e sentimentos de união, no final se mostra imparcial e traz aquela indesejada despedida ao seu lado.
Somente a tristeza se desprende de meus dedos nesse momento, enquanto um filme mudo passa em minha cabeça, os olhos lavados em lágrimas é a prova de que tudo o que foi vivido valeu a pena. Houve altos e baixos, crises, tensão, mas o que prevalece na memória, pintado em forma de lembranças, são aquelas situações pitorescas e alegres.
A efemeridade do tempo não se resume a dias, meses ou anos, e sim em circunstâncias. E tudo passa mais rápido do que a gente queria.

Na verdade não sei como superarei essa falta que começa a tomar conta de dentro para fora, não consigo sanar essa sensação de vazio dentro de mim e pode ser que eu nunca consiga. Novos risos não apagam o som daqueles que já passaram. Novas pessoas não substituem as que o coração acolheu.
Parece exagero ter saudade de pessoas que não vejo há poucos dias, mas não é apenas saudade, é a perspectiva de que acabou, de que as noites de segunda a sexta serão meramente noites de segunda a sexta. É a sensação da certeza de que tudo isso é um tempo que não volta mais. Não há repetições.
As palavras me fogem nesse instante, como se soubessem que eu me embaralharia tentando escolher quais eu deveria usar.

Quero acreditar que o que chegou ao fim foi apenas uma fase, pois tenho certeza de que tudo o que é de verdade permanece. Pode ser que a distância e os dias tentem se fazerem grandes demais, mas o laço de companheirismo que se estende há de permanecer forte o bastante para agüentar os solavancos do tempo que corre apressado, em busca de algo que nem mesmo existe.
Depois do que passa começamos a reavaliar as coisas, houve tanta palavra não pronunciada, tanto abraço não dado, desculpas que não foram pedidas, agradecimentos que não foram feitos, tudo tragado pela pressa dos dias e pela distração.
Aprendi nesses últimos anos que existem milhares de tipos de pessoas, vi máscaras se formarem e caírem, ouvi palavras que não merecia e recebi conselhos daqueles que realmente se importavam comigo. Tive ainda mais certeza de que o que torna uma pessoa especial não é o tempo que ela está em sua vida.
Sorri os sorrisos mais sinceros, gritei quando tive vontade, cantei até mesmo quando não deveria, pulei, corri, cai. Cativei e fui cativado.
Quando olho para esse tempo, tão recente, que está ficando para trás, veja bem, o tempo fica, as pessoas vão comigo, eu não me arrependo do que fiz, se eu errei, foi tentando acertar e pude aprender com isso.
Que os dias possam fazer sentido novamente.

Enfim, aos amigos que fiz, às lembranças que plantei e aos momentos que ajudei a construir, esta é minha singela homenagem.
Vou sentir muita falta de vocês.

Crise natalina - Parte 1

| sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Esse não estava sendo um ano bom para Papai Noel.

O velho Noel possui um quadro de funcionários composto por duendes, esses que estão espalhados por todo o globo, fiscalizando o comportamento das crianças, o qual garantirá ou não seu presente no dia de Natal. Infelizmente os duendes têm um péssimo hábito de surrupiar coisas das casas das pessoas. Pode ter certeza de que se você perdeu algo e só encontrou algum tempo depois, foi coisa de algum duende que certamente teve de devolver o item confiscado depois de uma bronca do bom velhinho.
Além das atitudes impróprias de seus funcionários, Noel estava sofrendo com as despesas, que o levaram a reduzir o orçamento necessário à produção dos presentes. Sem mencionar o desaparecimento de Dasher, uma de suas renas e do congelamento dos cascos das outras (que vivem em sua casa no Pólo Norte), o que o levou a inventar o "aquecedor de cascos de renas", ideia a qual ainda necessita de patenteamento e a contratação de um engenheiro de máquinas para torná-la real (o quanto antes), o que lhe custará ainda mais gastos imprevistos.
Como se não bastasse a maré de azar, em seu escritório na cidade de Rovaniemi na Finlândia, todos os computadores conectados em rede, responsáveis pelo banco de dados sobre o comportamento das crianças, perderam todos os arquivos devido a um poderoso vírus, causando uma tremenda dor de cabeça para Noel que em alta temporada de fim de ano teve que contratar às pressas centenas de duendes e equipá-los com PDAs com a lista de nomes de cidades e crianças para serem fiscalizadas.
Diariamente ele recebia montanhas de cartas com os mais variados pedidos, todas elas eram devidamente analisadas por seus duendes que as dividiam em quatro categorias: "pedido dentro do orçamento (PDO)", "pedido em aprovação (PA)", "pedido utópico (PU)" e "reclamações (R)"
PDO - A criança (dependendo de seu comportamento no decorrer do ano) possivelmente receberá o que pediu.
PA - O pedido está entre as categorias PDO e PU, são itens de valores elevados que dependerão única e exclusivamente do comportamento nos últimos 3 meses.
PU - A criança (por mais bem comportada que seja) extrapolou no pedido, exigindo algo totalmente acima da renda.
R - Cartas de crianças que não receberam o que pediram no Natal passado, muito provável o pedido se enquadrava na categoria PU.

O bom velhinho é um senhor de fibra, todo mundo sabe, mas esse ano o estava consumindo de tal maneira que Noel tomou uma atitude drástica e escreveu em seu twitter (Verified Account):

"Peço desculpas a todos, mas este será um Natal sem presentes. #MerryChristmas"

EM BREVE - PARTE 2

Pessoal, este conto terá 4 partes e cada uma será postada nas sextas-feiras seguintes, sendo assim, a última parte fica para a véspera ou pode ficar para o dia do Natal. Eu sei que ficou meio viajado, mas a intenção é essa, rs. Espero que gostem.

Nº 200

| quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Eu sou meio obcecado por datas e “marcos especiais” fiz uma postagem quando atingi cem postagens, pois achei que seria bacana compartilhar com vocês essa realização. Alguns meses depois fiz a postagem de 1 ano de postagens, porque é claro que isso se deve em grande parte à motivação que todos me dão... Enfim, essa é a postagem de número 200, para abrir o mês do meu aniversário com boas vibrações.
Foram duzentos escritos em pouco mais de um ano, entre pensamentos, contos, convites, selos, postagens desse tipo, etc. Eu realmente tenho que admitir que jamais esperava que eu pudesse chegar até aqui e não digo isso por falta de fé em mim mesmo, digo porque quando comecei aqui na blogoesfera eu nem fazia ideia do que deveria escrever e como eu deveria manter um blog.
Comecei devagar, conquistando aos poucos um espaço que era estranho, principalmente para mim mesmo, mas com o tempo isso aqui foi crescendo e criou vida própria e, além disso, se tornou parte de quem eu sou. Esse blog é uma extensão da minha pessoa. Aqui eu divido emoções, imagino situações, busco respostas e em troca do que dou, eu recebo o carinho, atenção e o tempo de todos que se dispõem a passar por aqui e por isso nunca vou me cansar de agradecer a vocês por me ajudarem a construir esse espaço.
A arte de um sorriso foi ideia minha, mas vocês são verdadeiros artistas que me fazem sorrir.
Um grande abraço apertado a você que vem sempre aqui; um abraço mais ameno a você que passa apenas de vez em quando e um abraço caloroso de boas vindas a você que está por aqui há pouco tempo.
Que venham os próximos 200, rs.
E até a próxima postagem!

A história da menina comum

| segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Estávamos de mudança. Eu estava no quarto de mamãe colocando seus objetos pessoais em caixas quando encontrei um pedaço de papel dobrado no fundo da última gaveta do guarda-roupa.
“Por que você teve que partir? Eu te esperei, mas você nunca retornou.” Li sem entender do que se tratava e então fui até a varanda, onde ela terminava de colocar as caixas no porta-malas do carro e lhe entreguei o papel.
- Achei isso em suas coisas, quem escreveu? – perguntei. Ela me encarou com um olhar carregado de um sentimento que eu não fui capaz de reconhecer, era como se seus olhos enxergassem coisas que não estavam ali. E ela me contou tudo.

Toda garota na adolescência, involuntariamente, se apaixona perdidamente por aquele garoto que nunca sequer a notará e comigo não foi diferente. Ele era mais velho, do tipo popular, com o penteado meticuloso, olhos atenciosos e cheio de charme. Um diabo vestido de anjo, capaz de te nocautear somente com aquele sorriso brilhante que só ele tem.
Foi no último ano do colegial que eu o conheci, ele veio transferido de outra escola, era novo na cidade, ou seja, era a sensação do momento. Ninguém sabia nada sobre ele e esse ar de mistério é o que o deixava ainda mais atraente.
Eu sabia que não teria a mínima chance de ter alguma coisa com ele, pois todas as garotas mais lindas da escola estavam a seus pés, confesso que naquele momento eu daria qualquer coisa para ser uma delas, como eu poderia saber que eu me arrependeria tanto depois?
Os meses foram passando e minha atração pelo garoto novo na cidade só aumentava. Eu o observava por longos minutos, acariciando seus cabelos com o olhar, desenhando corações nas folhas do caderno e imaginando nossas iniciais dentro deles. Fico espantada com quanta tolice pode caber dentro de uma pessoa apaixonada.
No último mês de aula, estávamos nos preparando para o tão sonhado e temido baile de formatura e é claro que por ser uma garota que extrapolava por ser comum, eu não tinha um par, enquanto as queridinhas dos meninos duelavam como leoas enlouquecidas pela atenção do macho alfa, o eterno garoto novo na cidade.
Eu era a oradora da turma, havia preparado um discurso excelente e estava ensaiando no auditório do colégio, sem saber que uma pessoa estava sentada na platéia me assistindo. Fiquei tomada por uma raiva sem tamanho, aquele discurso não era para ser ouvido até o dia do baile, e fui expulsar o bisbilhoteiro. Era ele.
- Você sabe que não deveria estar aqui, quem deixou você entrar? – eu perguntei enquanto me aproximava de onde ele estava sentado, ainda não o reconhecendo na luz baixa.
- Eu tenho meus meios – ele disse presunçoso – E a propósito, essa coisa que você escreveu está muito boa.
- Essa coisa se chama discurso – eu retruquei e finalmente vi seu rosto, com um sorriso brincalhão desenhado.
- É, que seja, só entrei aqui, pois vi que você estava sozinha, não queria te convidar para o baile na frente de todas aquelas feras, se é que você me entende – ele falou.
Meu estômago afundou ao ouvir as palavras dele. Ele estava me convidando para o baile? Eu estava delirando, era a única resposta óbvia.
- Seu silêncio é um sim ou um não? – ele perguntou.
- É um “eu vou pensar” – na hora eu não acreditei que tinha dito aquilo. Uma voz em minha cabeça gritou: “Sua idiota, diga sim. SIM.”
- Assim que você tiver pensado, você sabe onde me encontrar – ele se levantou e saiu.
Dois dias depois eu disse a ele que aceitava o convite e ele me confessou que estava morrendo de medo que eu recusasse e que eu era a única garota pela qual ele havia se interessado desde o começo, justamente por eu não ser como as outras. Ainda bem que ele nunca soube que aquilo era o que eu mais queria.
A beleza do baile foi ofuscada pelo encanto de sua companhia. A valsa. Todos os pares de olhos fixos em nós dois... Mas nada daquilo se compararia com o momento mágico do fim da noite.
Foi dentro do carro dele que fizemos amor, foi lá a minha primeira vez, foi lá que você foi concebida.
Estávamos no campo à beira da cidade, dois meses depois, quando contei para ele sobre a gravidez.
- Vamos fugir – ele propôs.
Eu disse que não podia, dei-lhe um último beijo e parti. Do fim do campo olhei para trás e ele ainda estava lá, o sol se deitava, o vento manso soprava e eu apenas disse de longe: Eu sinto muito, não podemos ficar juntos.

- Por que você fez isso, mãe? Por que não ficou com ele?
- Eu era nova demais, eu não sabia ao certo o que fazer. Eu tinha uma vida toda pela frente e...
- Você não queria um bebê.
- Eu me arrependo de ter pensando nisso, eu te amo, você foi a melhor coisa que me aconteceu.
- Mas por que eu não tenho um pai?
- Porque ele foi embora. Ele me esperou no campo por dez dias seguidos, para que pudéssemos fugir e construir uma vida só nossa, mas eu nunca fui encontrá-lo.
- E agora?
- Agora o quê?
- Você quer encontrá-lo?
- Eu já encontrei – e foi então que ela me disse o verdadeiro motivo de nossa mudança. Nós iríamos morar com ele, há tempos ela vinha tentando rastreá-lo para corrigir o maior erro de sua vida, que foi deixá-lo partir.
E ele havia esperado. A esperança de que um dia nossa família seria completa fez com ele esperasse dezesseis anos pelo retorno de minha mãe.
No final, não estávamos de mudança, estávamos recomeçando.

Pauta para o Bloínquês

O homem de pedra

| sábado, 27 de novembro de 2010



Quer descobrir quem é esse homem misterioso?
Não




Clique em sim para ver meu décimo texto no Contos Franqueados.

O moço perfumado

| quarta-feira, 24 de novembro de 2010

O céu daquele dia estava desprovido de cor, como um enorme manto branco, no qual o sol resolvera se esconder atrás. O vento soprava levemente, apenas um suspiro curto que falhava em movimentar as folhas das árvores.
A moça caminhava lentamente em direção ao ponto de encontro, estabelecido anteriormente em uma ligação. Ela chegou ao local, sentou-se e checou o relógio. Aquele era um dia em que os ponteiros trabalhavam sem disposição e cada volta parecia durar o dobro do tempo que realmente levava.
Os pensamentos dela vagavam em lembranças boas e em problemas que requeriam sua intervenção, ela tinha algumas decisões a tomar, assim como todo mundo sempre tem, mas acaba deixando de lado só pelo prazer de saborear a nostalgia que flui na memória.
Apoiando a cabeça no braço, ela fechou os olhos e sentiu um torpor tomar conta de seu corpo, que cedia sem muita relutância. Foi nessa hora que ele passou.
Ela ouviu os passos abafados se aproximando, sentiu sua presença e, acima de tudo, sentiu seu cheiro. O cheiro almiscarado flutuava pelo ar parado, dançava em rodopios e ia em sua direção. Um cheiro suave e ao mesmo tempo envolvente.
O perfume que exalava em toda direção, dava voltas em sua cabeça, saltitava pelas imperceptíveis correntes de ar, subia ao céu pálido e retornava ao chão ainda quente e penetrante. Um cheiro capaz de acalmar e despertar, em uma mistura abrangente de sensações.
O rapaz passou indiferente à moça que estava sentada ali, em passos largos deixando seu cheiro para trás, ela ainda encarava as costas dele, lutando contra um desejo de correr atrás daquele estranho e juntar os fragmentos de odor que ficavam pelo caminho. Ela não vira seu rosto, nunca saberia seu nome, mas tinha certeza que reconheceria aquele cheiro em meio a centenas de outras fragrâncias. O aroma proveniente do homem sem rosto grudara em suas roupas e se fixara em cada mínimo grão de poeira que vagava pelo ar.
- Quem é ele? – uma voz perguntou, tirando-a de seu transe perfumado.
- Eu não sei, não conheço – ela respondeu, levantou-se e beijou seu namorado.
Ela voltou a olhar para o relógio e percebeu que não tinha esperado muito tempo.
- Vamos, então – ele disse, colocando um braço envolta dela.
Ela balançou a cabeça positivamente, deu uma última olhada para trás, mas o estranho já havia sumido de vista.
- Tem algum problema? – ele perguntou, olhando na mesma direção que ela e dando de cara com o nada.
- Não, está tudo certo – ela respondeu e o abraçou. Ela cabia perfeitamente em seu abraço e seu rosto se encaixou no pescoço dele, seu nariz roçou a pele lisa e cheirosa. Ela respirou profundamente e então percebeu que aquele cheiro, grudado em seu namorado era muito melhor do que um cheiro solto pelo ar, sem dono e sem direção. Um cheiro singular que ninguém mais possuía. Um aroma apaixonante que pertencia só aos dois.
- Eu gosto do seu cheiro – ela disse e absorveu mais um pouco daquele cheiro num rápido suspiro.
Ele apenas sorriu, deu-lhe um beijo no rosto e começou a contar como tinha sido seu dia, à medida que caminhavam para longe dali e para longe de um certo perfume que começava a se dissipar pelo ar.

Metamorfoses

| segunda-feira, 22 de novembro de 2010
Não sei se vocês conhecem, por isso vou contar a história da menina-borboleta.

Ela era assim, tímida, sempre na dela. Vivia isolada em seu mundinho interior, trancada em pensamentos e engolidora de palavras. Uma menina só, sem brilho nos olhos e com trancas na alma.
Uma vida desse jeito deve ser horrível, você pode estar se perguntando e eu concordo, mas para ela tudo era maravilhoso, principalmente porque essa menina não conhecia nada, além disso, o conformismo dela era exatamente moldado pelo mundo pequeno ao qual ela fazia parte.
Sim, ela era uma menina bonita, de feições bem definidas, cabelos vivos e dançantes ao vento, tinha as mãos lisas e os pés cansados de dar voltas e mais voltas dentro do círculo desenhado em sua vida.
Certa noite, na janela de seu quarto, ela observou o lento percurso de uma lagarta sobre o parapeito, que deslizava sem rumo, como se perdida na própria sorte. A menina se viu naquela lagarta, tão pequena, tão frágil e perdida. Desorientada e sem saber aonde ir e o que fazer.
A lagarta fez uma pausa para recuperar o fôlego e a menina jura que ela a encarou por um milésimo de segundo e esse olhar foi tão profundo que ela viu não só os olhos da ínfima criatura, mas viu o seu interior. Oco, frio e desolado.
A menina assustada correu até o espelho mais próximo e analisou seu reflexo, quase uma silhueta recortada à luz da lua, mas seus olhos grandes mostraram a ela seu próprio interior. Igual ao da lagarta.
Ela se moveu lentamente de volta à sua convidada inesperada e não a encontrou ali.
Dormiu apoiada na janela, com a brisa a lhe fazer carinho e as estrelas a velar seu sono.
O sol manso e morno da manhã, sorriu ao ver a menina por ali, debruçada na janela, certamente o esperando, ele pensou.
Assim que abriu os olhos, sua vista se ofuscou pelo dia claro e ela percebeu que diante de sua janela havia um jardim lindamente colorido, como as aqualeras dos pintores que ela ouviu falar certa vez. Ela ficou encantada com todas aquelas flores que se sacudiam ao sabor do vento e acenavam sorridentes para a estranha.
A menina passou uma boa parte do dia recostada na janela, conversando com as flores e as pequenas joaninhas que ela jurava que só existiam em filmes. As camélias e jasmins lhe contaram segredos, as tulipas brincaram com as abelhas, os brincos de princesa e os hibíscos foram beijados por beija-flores, enquanto lírios e margaridas chamavam borboletas. Mais ao fundo, girassóis se bronzeavam e copos de leite fofocavam com as rosas. O extenso tapete verde de grama formigou os pés da menina que decidiu se juntar as flores.
A menina-borboleta não era borboleta afinal, era uma menina-flor, que desabrochou para o mundo e nunca mais foi a mesma, pois ao ver aquele outro universo tão perto do seu, um desejo crescente por ver e conhecer mais nasceu em seu peito.
Seus olhos tinham brilho agora, um brilho de vida e esperança. Seus pés caminharam para fora daquele círculo e ela encontrou a chave para os seus pensamentos e vomitou as palavras que sempre manteve presas.

Algum tempo depois ela topou com o olhar de uma borboleta alegre e nesse mínimo segundo ela viu que naquele olhar havia calor, liberdade e vida.
A menina abriu suas asas, esticou suas pétalas e correu pelo jardim. Correu além da cerca que o envolvia, correu por estradas, correu pela vida e para a vida.
Se você um dia a encontrar por aí, diga a ela que as flores sentem saudade, mas não peça para que ela volte. Ela merece conhecer tudo o que a vida tem para mostrar antes que suas asas se cansem e suas pétalas murchem.

Oitavo texto em homenagem aos blogs, o Metamorfoses é o blog da Fabrízia Oliveira, que estava esperando por esse texto, rs. Espero que tenham gostado pessoal.

O eremita e o dragão - Epílogo

| sábado, 20 de novembro de 2010

Rufus e Furlan se tornaram grandes amigos e a cumplicidade entre os dois crescia conforme os dias se passavam. O dragão se afeiçoara ao rapaz que tocava flauta e o sentimento era recíproco.
O eremita ruivo, que acertara todos os enigmas do dragão, escolheu ficar com a criatura gigante ao invés de se tornar um homem rico.
Furlan saía da caverna em intervalos de tempo para buscar alimento enquanto Rufus buscava inspiração nas estrelas e a na lua para compor poemas e músicas.
Certa vez, o dragão levou o homem para um desfiladeiro, que sobrevoara pela manhã, onde a trupe maldosa que o mantivera preso, estava de passagem.
- Acredito que eles mereçam uma lição, cantor ruivo - declarou o dragão e lhe contou sobre o plano que havia formulado.

Rufus se deixou ser encontrado por dois dos palhaços mais malignos que ele conhecera, os dois correram alegremente e contaram ao líder da trupe que o flautista fujão estava ali. Rapidamente o homem barrigudo apanhou um chicote e foi de encontro ao rapaz. Rufus saltou de trás de uma pedra e os surpreendeu, tocando uma música doce.
- Seu ladrãozinho desgraçado, você vai ter o que merece - bufou o homem, estalando o chicote nas pedras.
Os palhaços e os outros que se aglomeraram, riram e estavam ansiosos pela surra que o flautista estava prestes a levar.
- Primeiro você vai ter que me pegar - provocou Rufus e correu pelo corredor rochoso com a trupe toda a seus calcanhares.
Assim que todos fizeram a curva entre as montanhas, Furlan majestosamente desceu sobre eles e pousou pesadamente no chão, lançando labaredas furiosas para o alto.
- Vocês me maltrataram por vários anos, me humilharam, cuspiram e me chutaram, agora vocês irão sentir o fogo da minha ira - rosnou o dragão. Todos ficaram de olhos arregalados, como se usassem uma máscara de medo.
- Rufus? Nós... eu, ah... me desculpe - gaguejou o líder que deixara o chicote cair das mãos trêmulas.
O dragão cuspiu fogo acima das cabeças e uma bola flamejante aterrissou em uma das carroças que rapidamente ardeu em chamas. Todos os cavalos fugiram pelo desfiladeiro abaixo.
- Desculpas? Você acha que depois de tudo o que eu passei, uma desculpa vai amenizar a minha raiva? Ora, ora, homenzinho estúpido, engula suas desculpas e vá embora daqui o mais rápido que puder e se cruzar meu caminho mais uma vez eu lhe garanto que não serei tão piedoso - disse o dragão e rosnou para ele e seu hálito quente se espalhou por todos.
A trupe toda correu apavorada, uns empurrando e pisoteando os outros, como se o fogo da besta vermelha estivesse correndo atrás deles.

Rufus, que estava assistindo a cena do alto de uma rocha, aproximou-se e falou entre risos:
- Essa foi uma ideia fantástica, Furlan, você viu a cara deles?
- Creio que eles nunca mais te perseguirão, caro amigo - disse o dragão, com um ar vitorioso.
- Eu tenho certeza que não. Obrigado por tudo.
O dragão apenas meneou a cabeça e pouco tempo depois voltaram para a caverna, onde uma fogueira foi acesa para o preparo da comida e o ar foi preenchido com a melodia e a voz suave do flautista.

Como eu já havia dito, esta parte não existia. Só a escrevi pois achei que estava faltando alguma coisa, espero que tenham aprovado e gostado de tudo. Abraços.

O guitarrista das 5 horas

| quinta-feira, 18 de novembro de 2010


Vamos lá conhecer esse guitarrista ao som de um rock?
Não



Clique em sim para ver meu nono texto no Contos Franqueados.

Elos no horizonte

| quarta-feira, 17 de novembro de 2010
A vida é uma viagem, pelo menos é o que dizem, pode ser de trem, avião, carro ou a pé, mas é uma viagem que a gente faz conforme vive, sem atalhos e roteiros definidos e com direito a retornos.
Por adorar viajar eu sempre quis fazer Turismo e esse sonho se torna realidade no final desse ano, quando concluo o curso.
Sei que essa minha viagem está apenas começando, mas eu busco sempre olhar para frente e querer enxergar o que o destino reserva para mim. Sei que lá na frente, onde o sol beija a terra e o mar e depois se esconde, há alguma coisa para mim...

É, até pouco tempo atrás eu achava isso. Eu tinha esse sonho que a vida tratou de afugentar.
Há dois meses eu sofri um acidente de carro e perdi o movimento das pernas, vi meu mundo desmoronar diante de mim sem que eu pudesse me mover para impedir. Vi todo o meu esforço explodir junto aos cacos de vidro.
Nestas horas paramos para questionar o porquê das coisas, principalmente o motivo de coisas ruins acontecerem com pessoas boas. A vida prega peças e faz muitas brincadeiras de mau gosto e a gente querendo ou não acaba sofrendo as consequências.
Eu, que sempre busquei encontrar o meu amanhã, esqueci de viver o hoje que agora foi roubado pelo tempo e repousa no passado. Sempre adiei o agora para viver em um futuro utópico que me parecia tão grandioso. Acho que acabei virando em uma curva errada, talvez a vida tenha feito isso para abrir meus olhos e me mostrar que o tempo não passa à nossa maneira e que não adianta apenas passar por essa viagem, é preciso vivê-la.

Há elos no horizonte que a gente não compreende por completo, há o encontro da terra e o céu, do arco-íris e o chão, do divino e o humano. Não que eu não devesse chegar até lá, eu só tentei apressar o que deveria seguir seu curso natural.
Aprendi que não importa quão alto eu sonhe, eu posso fazer esse sonho virar realidade, não através de pedidos a estrelas cadentes ou cílios soltos, não apenas por meio de preces e promessas, mas agindo. Tudo se torna concreto, a partir do momento que começamos a agir. O impossível é questão de opinião.
Eu não vou deixar esse sonho morrer devido à minha condição. Eu não posso andar, certo, mas eu falo, enxergo e ouço. Falo as palavras que me guiarão até o ponto que eu almejo atingir, enxergo muito mais o meu presente ainda que eu faça planos para o futuro e ouço a canção motivadora que a vida canta em meus ouvidos.
Agora eu entendo que a vida não desistiu de mim, então por que eu deveria desistir dela?
Toda estrada tem barreiras e obstáculos que parecem grandes demais à primeira vista, mas ao olhar para o horizonte é assim e quando percebemos nada é o que parece.

Essa viagem eu farei pelas rodas da minha cadeira. Não quero ser como um sapato de sola limpa, pois estes jamais conheceram a estrada, eu quero ser aquele bem gasto e até com um furo no meio e que o hoje seja o hoje e o amanhã mais um mistério a descobrir.

Sétimo texto fictício em homenagem aos blogs, o Elos no Horizonte é do Alexandre Lúcio. Espero que todos, assim como ele, tenham gostado do texto.

O eremita e o dragão - Parte 8

| segunda-feira, 15 de novembro de 2010

O dragão encarava Rufus com um olhar triste e o eremita podia jurar que ele não queria que o último enigma fosse descoberto. Ele caminhou por entre os inúmeros objetos dourados, procurando encontrar a resposta jogada ali no meio ou presa entre as rochas das paredes escuras.
- Todo esse tesouro não lhe serve de inspiração, cantor ruivo? - indagou o dragão assumindo novamente seu lado sarcástico.
- Assim que eu me apresentei, você me disse que tínhamos algo em comum - o eremita falou.
- Sim, eu me lembro - confirmou o dragão intrigado.
- Naquele momento eu pensei que você se referia à cor do meu cabelo com a sua cor, mas após formular sua última charada você me disse para estar atento aos detalhes, certo? - o dragão fez que sim com a cabeça e mexeu a pata para que o homem continuasse a sua conclusão - Eu fui batizado de Rufus exatamente por causa dos meus cabelos ruivos e você percebeu isso quando eu lhe disse meu nome, devido ao seu conhecimento em latim.
- Exato, mas ainda não vejo aonde você quer chegar com isso - disse o dragão tentando esconder um toque de temor na voz.
- Você sabe muito bem aonde eu quero chegar. Ligando todos os pontos eu só posso deduzir que seu nome também venha do latim - respondeu Rufus mantendo um pouco de suspense. - Furlan, do latim. Vermelho.
O dragão prendeu a respiração por um tempo e depois suspirou sentindo-se vencido.
- Sua perspicácia me fascina, rico eremita - declarou o gigante escamado - Furlan é o meu nome.
Rufus sorriu e deu um salto de vitória, enquanto o dragão se arrastava lentamente para um canto escuro dentro da montanha.
- Fique à vontade para levar tudo aquilo que conseguir, nada disso me tem serventia alguma - ele falou sem parar de caminhar.
- Espere - gritou Rufus.
Furlan parou bruscamente e permaneceu de costas. Rufus o contornou e se prostrou em sua frente.
- O que você ainda quer de mim, dono do tesouro?
- Eu vivo sozinho, misterioso Furlan, eu não quero voltar a minha vida solitária e eu vejo que também é um ser sem companhia...
- E...
- E eu não quero todo esse tesouro, eu só quero ter alguém para conversar e alguém que me ouça. Eu quero ficar aqui - disse Rufus.
O dragão arreganhou a boca num sorriso horrendo cheio de dentes e agarrou o eremita, abraçando-o com tanta força que quase lhe quebrou as costelas.
- Nada me deixaria mais feliz que isso - falou ele e cuspiu fogo para cima, clareando e aquecendo a caverna escura.
- Nós podemos caçar e...
- Deixe o alimento por minha conta - falou Furlan cheio de felicidade - Preocupe-se apenas com sua música, pois desejarei que toque a cada refeição.
- Considere seu desejo concedido - disse Rufus sorrindo.

E assim começou a lenda de Rufus e Furlan, o eremita e o dragão. Uma amizade entre dois seres de mundos diferentes, que foram unidos por um laço que o destino criou.

EM BREVE - EPÍLOGO

Esta parte era para ser o final (e tecnicamente foi), mas depois de ter escrito eu achava que alguma coisa estava faltando, acredito que vocês vão entender e concordar comigo quando lerem o epílogo.

O eremita e o dragão - Parte 7

| sábado, 13 de novembro de 2010

Rufus já tinha escutado diversas histórias sobre dragões, mas nenhuma contada por um deles.
- Todo dragão passa por três estágios na vida. O Batismo do Fogo é o primeiro, no qual inicia-se o aprendizado da arte de controlar e projetar o fogo, passamos por isso na nossa fase comparada à infância. O estágio seguinte é o Cata-vento, onde aprendemos a utilizar nossas asas, o voo é uma coisa bem difícil, por isso é ensinado somente aos dragões na fase jovem e o terceiro estágio é a Dança da Cópula... - ele deu uma pausa para verificar se o eremita havia entendido e sentiu um calor por dentro - no qual dois dragões... bem, você sabe. - ele ficou acanhado.
Rufus tentou manter a expressão apática e segurou o riso.
- Eu fui o terceiro filhote de uma ninhada de sete. Ficamos junto a nossos pais até o dia em que aprendemos a caçar, depois disso nos separamos e seguimos caminhos diferentes. Um dragão não ocupa o mesmo território que o outro a menos que sejam de sexo opostos. Eu fui embora logo após aprender a voar e foi nessa época que a guerra entre nossos mundos eclodiu. Nós, dragões, começamos a viajar em bandos por segurança e isso fez com que as mortes aumentassem, nunca fomos uma espécie populosa. Na sede de vingança comecei a saquear vilarejos e reinos, tomando toda sua renda e destruindo suas fontes de vida, eu me envergonho do que fiz, mas me orgulho de nunca ter ferido nenhum humano. Encontrei uma caverna onde eu passei a guardar tudo o que conseguia e depois de muitos anos perdi contato com outros dragões até que nunca mais ouvi nenhum boato sobre eles. Enclausurei-me em minha caverna e saía apenas quando precisava de alimento e tenho vivido assim por centenas de anos. E foi em uma de minhas buscas por comida que encontrei você.
- Eu sinto muito pelos outros e...
- Isso já faz tanto tempo, a solidão tem sido minha companheira desde então. - o dragão falou cabisbaixo.
- Sua caverna fica longe daqui? - perguntou Rufus.
- Você gostaria de ir até lá para ter uma ideia do que lhe aguarda se completar seu desafio? - indagou o dragão, levantando-se como se soubesse que a resposta seria positiva.
- Seria uma honr... - disse o eremita e antes que pudesse terminar de falar, o dragão o agarrou e o atirou em suas costas, gritou um "segure firme" e levantou voo.
Rufus agarrou-se firmemente às escamas grossas das costas do dragão e em pouco tempo acostumou-se com o barulho produzido por suas asas e com o vento forte soprando seu rosto. Viu a fogueira lá embaixo tornar-se um ponto minúsculo enquanto era levado em outra direção. Ele não teve medo nem sequer temia por sua vida, alguma coisa lhe dizia que o dragão não tinha intenção de lhe fazer mal.
Depois de sobrevoarem uma densa floresta, o dragão aproximou-se de uma montanha e pousou em uma cratera, a qual só podia ser atingida por cima. Uma enorme passagem dava acesso ao interior da montanha e os dois caminharam lado a lado, o dragão lançando baforadas quentes para iluminar o caminho.
Chegaram a um lugar amplo e assim que a luz do fogo tocou o ambiente Rufus pôde ver uma quantidade de ouro maior do que vira em toda a sua vida.
- Diga o meu nome e tudo o que conseguir levar é seu e está livre para ir - declarou o dragão pesaroso.

EM BREVE - PARTE 8

De intrínseca interpretação

| quinta-feira, 11 de novembro de 2010
A um fantasma do passado.

E quem é que pode entender as razões do coração?
Durante a noite calada e impassível, entreouço os murmúrios de meu peito abatido e tento entender as palavras que cada pulsar me diz, mas o silêncio é tamanho que sua voz muda cobre meus ouvidos e me impede de compreender os sinais que me são enviados.
Um vento frio percorre o ambiente e se dissipa antes de me atingir, como se minha presença o repelisse e acredito que seja isso mesmo, até mesmo aquilo sem vida e abstrato é afetado pela minha aura peculiar.
Já perdi as contas de quantas pessoas eu consegui afastar de mim, simplesmente por me isolar em meu mundo sem cor e som, criando muros gigantescos, não para me manter lá dentro, mas para manter a todos do lado de fora. Foi assim com meus colegas, amigos, familiares e você. Um a um, lenta e dolorosamente, foram recuando e desistindo de tentar atravessar as minhas barreiras.
Quem sabe eu não tenha feito tudo isso para te proteger? Talvez me odiar fosse o que te deixaria melhor para te fazer seguir frente. Ao deitar em minha cama à noite eu tento pensar nos erros que cometi, mas antes que eu chegue a alguma conclusão eu adormeço, não que eu não me importe ou ache que a razão seja meu animal de estimação que só serve a mim. Eu sou tão involuntariamente dependente daquilo que deixo de lado que quando decido me focar em um problema eu perco o rumo e fico sem saber aonde ir.

Acredito que eu não tenha feito sentido nessas linhas que escrevi, certamente ninguém será capaz de encontrar nexo em tudo que eu disse até agora, apesar de que talvez haja pessoas que se sintam assim, não é possível que nesse mundo enorme eu seja o único que não entende a si mesmo e se sinta frustrado por não ouvir o próprio coração, que até tenta se comunicar, mas ele eu falamos dialetos diferentes.

Essa carta é para você, que há um ano se absteve de minha companhia, que fugiu de mim sem olhar para trás, usando uma máscara de rancor e sufocada pelas palavras que não disse. Que simplesmente apagou tudo de bom que existiu e se agarrou apenas às piores lembranças que tivemos.
Não quero te dissuadir e muito menos dizer que sinto muito, você fez sua escolha, assim como bem antes eu havia feito a minha. Nossos caminhos se separaram e essas palavras confusas e cheias de segredos nas entrelinhas se direcionam a você somente porque me lembrei que hoje faz um ano que não te vejo. É claro que tenho notícias suas e sei como sua vida anda, as pessoas comentam, as informações viajam mais rápido do que supomos e com certeza você deve saber de mim também.
Já ouvi dizer que às vezes, não tocar no assunto é a melhor coisa a fazer, por isso paro por aqui, a beira de um abismo emocional, ainda indeciso se dou um passo atrás ou me atiro ao desconhecido. Preciso de um auxílio agora, será que você não gostaria de vir me empurrar?

De um errante inveterado.

Pauta para o Bloínquês
 

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